Os deuses e mitos da Antiguidade podem, à primeira vista, parecer um assunto simplório e ingênuo para muitos. Esses, ao se depararem com a temática, poderiam pensar: “ah, sim, os tais mitos, que, em toda a sua ingenuidade, os povos antigos usavam para explicar as coisas que não entendiam” Tal era a concepção geral que os seguidores de Augusto Comte, o fundador do movimento positivista, imprimiam ao passado humano, tomando como critério para a evolução do pensamento humano um suposto espectro de aproximação à ideias materialistas, e decretando (o que era uma mera hipótese) a contradição entre religião e ciência, entre fé e conhecimento.

Um dos seguidores de Comte, James Frazer, um dos primeiros antropólogos nos estágios iniciais dos estudos modernos de mitologia e religião comparada, dividiu esse tal “progresso” em quatro etapas:

– Um período mágico, com totens e tabus;

– Um período religioso;

– Um período filosófico ou subjetivo;

– Um período científico ou positivista.

Não haveria nenhuma possibilidade de convivência entre tais etapas, ou seja, uma cultura na etapa mágica careceria de ciência elaborada, e assim é válido também o inverso.

Eis que com o avanço da arqueologia, objetos e ciências que para a concepção positivista não poderiam estar presentes nas antigas civilizações da “Era Pré-Lógica” eram cada vez mais evidenciados nas escavações. A medicina no antigo Egito, a astronomia dos maias, os conhecimentos navais dos fenícios são todos exemplos de que, em civilizações supostamente marcadas por superstições e crenças irracionais, haviam conhecimentos científicos existindo em concomitância com a religião, inclusive sem haver rixa ou sequer separação entre o científico e o místico. Jorge Livraga, fundador da Organização Internacional Nova Acrópole, nos fala de pilhas elétricas de 3000 anos, pedaços de lupas do terceiro milênio a.C. e bússolas usadas por Chineses por volta de 1500 A.C.

Para aplacar estas ameaças ao materialismo dialético e às teorias positivistas e materialistas, deduz-se facilmente que as mentes impregnadas e propagandistas destas ideias recorreram ao fenômeno dos ÓVNIS como tentativa de não suspeitar nas massas o fracasso que tais teorias sucumbiam. Assim, os progressos técnicos das antigas civilizações, imbuídas de religiosidade e magia, foram presumidos transmitidos por seres de outros planetas ou dimensões que já se encontravam no período científico. Ou seja, há um espírito de dogmatismo tão grande, que é mais cômodo e interessante pensar em tal hipótese do que admitir que talvez o místico, o religioso e o mágico não sejam assim tão anti-científicos, como de fato eram na Idade Média e suas trevas supersticiosas.

Mas quem garante que formas religiosas arcaicas têm as mesmas características das que submergiram a Europa no caos medieval? Terá a religião um teor absoluto que será sempre associado à irracionalidade e superstição, ou será relativa como a ciência, que cura doenças e produz bombas atômicas? É bem possível que a tentativa moderna de reduzir o Universo à fenômenos mecânicos e materiais que surgiram ao acaso não passe de uma resposta a um grande trauma coletivo referente à Idade Média e suas barbáries. Logo, é fácil presumir que aqueles que a isto militam se encontram cheios de afetos e mágoas que os impedem de exercer uma mais livre investigação da verdade, a exemplo da apropriação do fenômeno dos ÓVNIS descrito anteriormente.

As Pirâmides de Gizé: feitas por alienígenas ou “superticiosos” com alguma tecnologia?
As Pirâmides de Gizé: feitas por alienígenas ou “superticiosos” com alguma tecnologia?

Na Antiguidade arcaica, os seres humanos eram vistos como mais uma parte do universo, não maior nem pior do que as outras, mas fundamentalmente influenciados e influenciadores pelo/do Todo; ao contrário da concepção moderna de nos vermos isolados no meio do caos e da falta de sentido do resto do universo, que funciona por leis mecânicas sem nada que as guie.

Com essa circunstância em mente, que se observa, na verdade, é que quanto mais se estuda a simbologia teológica e os mitos dos povos antigos, mais se reconhece a maravilhosa beleza de seus símbolos carregados de sabedoria, despertando naquele que os investiga séria e profundamente um entendimento do âmago do Homem e também do Cosmos. De fato, esta ideia de que há uma correspondência entre o homem e a natureza, ou o homem e o Cosmos, é fundamental para a compreensão do simbolismo nos mitos de todas as civilizações e como eles encaravam o mundo.

Uma das imagens mais claras sobre esse pressuposto encontra-se no famoso livro O Caibalion, da tradição hermética que vem do Antigo Egito. Um dos sete princípios herméticos descritos no livro é geralmente reduzido a esta frase: “o que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima”. O que está no macrocosmo é um reflexo do que está no microcosmo e vice-versa, ou seja, é como se cada ser (microcosmo) fosse um pequeno universo (macrocosmo), e o universo fosse um grande Ser. É por isso que disciplinas que dizem respeito a esta relação, como a Astrologia, por exemplo, eram tão respeitadas e estimadas na Antiguidade; e eis que os mitos e deuses têm tudo a ver com esta ideia.

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Hermes Trismegistus, sábio egípcio que inspirou o hermetismo. Atribuído a Stefano di Giovanni, 1488.

 

Os mitos como linguagem simbólica para o inefável

Algo que se deve ficar muito claro é que um mito não é uma criação popular. Eles estão intimamente relacionados às chamadas Escolas de Mistérios, que eram na Antiguidade espécies de instituições que existiram em praticamente todas as antigas grandes civilizações que hoje conhecemos. Segundo o renomado psicólogo Viktor D. Salis, grego naturalizado brasileiro, ex-psicanalista e especialista no pensamento das civilizações arcaicas, o sentido da palavra “mistério” nada tem a ver com o significado atual da palavra. Ele diz, em seu audiolivro As Escolas dos Mistérios, que a etimologia da palavra vem de mýstes, que significa algo como “aquele que entra em contato com os mitos”. Logo, presume-se que de fato há alguma coisa séria nessa tal de mitologia. Estas “instituições” chamadas Escolas de Mistérios se desenvolveram em épocas e locais que atingiram um grau civilizatório altíssimo, e influenciaram fortemente alguns nomes que ainda hoje permanecem dignos de admiração e que fazem parte de nossa cultura, como os filósofos Platão e Pitágoras.

Levando em conta essa ideia de correspondência entre o micro e o macrocosmo no pensamento arcaico, os mitos surgem como padrões de funcionamento que se aplicam à ambos os pólos. Carl Gustav Jung, o famoso psiquiatra suíço, em sua psicologia analítica, tratou de recuperar o sentido psicológico embutido nos mitos, ou seja, microcósmico, chamando tais padrões de funcionamento de Arquétipos. Outros, como Joseph Campbell, também contribuíram para a recuperação do tesouro simbólico da mitologia ao mundo atual. O sentido macrocósmico é ainda pouco investigado ou talvez pouco difundido em termos ocidentais modernos.

Um outro jeito de entender o que seriam esses tais padrões de funcionamento é da maneira como resumiu muito bem o escritor italiano Roberto Calasso, no início de sua obra As Núpcias de Cadmo e Harmonia. Ele coloca que “eles (os mitos) nunca aconteceram, mas sempre existiram.” Esta é uma questão essencial. Os mitos tratam de algo que, pelo menos para a percepção humana, sempre existiu e sempre existirá. Na linguagem junguiana, diz-se que são “padrões arquetípicos”, como se fossem instintos que somente o ser humano possui. São como as ideias primordiais de Platão, este que, ao contrário de Jung, já toma o assunto num panorama cósmico. Na perspectiva deste filósofo, estas ideias são objeto de contemplação e finalidade de todas coisas manifestadas, sendo portanto o seu ideal primordial e final, ou seja, como tudo deve ser em sua perfeição. Ao homem cabe a liberdade de seguir correta ou incorretamente estas tendências e sugestões, e, caso as negue, acaba sofrendo as más conseqüências. Não por uma punição divina, mas sim pelo simples afastamento de sua essência. É como se um cisne tentasse ser um cachorro, o que provavelmente não daria tão certo como se ele tentasse ser o que realmente é: um cisne. Felizmente, ou infelizmente, o cisne não tem tal escolha. O ser humano tem. Daí vem a famosa frase de Jung que delibera que, no mundo moderno, “os deuses viraram doenças”.

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Cópia em mármore do busto do filósofo grego Platão feito por Silanião, 370 a.C.

 

As civilizações míticas

Nunca houve nem haverá civilização onde possa haver gente que goste de ser desprezada, que goste de ser maltratada ou viver com medo e sem dignidade. Isso nunca mudará. As necessidades humanas mais essenciais sempre foram e sempre serão as mesmas.  Já um notebook ou as últimas tendências da moda nem sempre foram alvo de tantas “necessidades”. Assim, fica muito claro que não se pode medir o grau civilizatório de uma sociedade pelo critério destes últimos, e sim pelo seu grau de proximidade com realização do ideal no concreto, aquele simbolizado pelos mitos. Não importa tanto se há foguetes ou carroças. Se os ideais que norteiam um povo estão próximos às essências que representam os mitos, haverá mais felicidade e justiça, mesmo que seus indivíduos não conheçam a roda ou o fogo.

De todos os povos antigos que a esse quadro podemos associar, o Egito antigo e a Grécia arcaica são os exímios exemplos que Viktor D. Salis discorre muito bem. A ideia de conhecimento para o pensamento arcaico não se configura como o simples acúmulo de saberes intelectuais e técnicos. Aliás, alfabetização e contas matemáticas eram consideradas aprendizagens secundárias para os jovens, que só ocorriam por volta dos 15 anos na Grécia. Sócrates diz que o conhecimento pode ser investigado durante toda a vida, mas o que ele chama de “virtude” deve ser desenvolvido e aprimorado nos primeiros anos da vida, pois depois não haverá mais tempo para isso. A educação, portanto, consistia na arte de dominar os vícios e principalmente do descobrimento e conhecimento de si mesmo e do sentido de sua existência. Este processo não era algo como um preenchimento de uma tabula rasa, mas sim conduzido por um mestre com a intenção de fazer o próprio jovem eduzir sua verdade a partir de dentro si mesmo (qualquer semelhança com a palavra educação não é mera coincidência), e depois utilizar os talentos que encontrar em sua essência para servir aos demais naquilo que ele melhor desempenha. O foco principal, portanto, era ensinar o jovem a viver e morrer com dignidade e honra, fazendo-o des-cobrir o seu potencial (que estava “coberto” por seus vícios), e ensiná-lo a respeitar as leis que estavam ali antes de qualquer coisa; e aí voltamos aos mitos e aos Arquétipos.

O mito do herói, que pode ser encontrado em todas as mitologias, constitui-se neste caminho que todo ser humano deve percorrer para superar o seu estado de selvageria animalesca e mortalidade, aproximando-se dos deuses; portanto, descobrindo a sua verdade e agindo com concomitância, unindo a essência e a aparência. É um destino profundamente enraizado na psique humana, diria Jung. Isso é que é uma verdadeira formação educativa no pensamento arcaico, um grande contraste com a avalanche de informações que são arremessadas às crianças nas escolas da era moderna (perceba o in na frente de informação; dá até a ideia de que se trata do contrário de formação). Assim, no caso da Grécia, quando o jovem sentia-se pronto, deveria discursar na Ágora para os outros cidadãos, explicando-lhes a sua verdade e vocação e como a partir disto servirá ao coletivo.

Mito do herói na mitologia hindu: Arjuna (à esquerda), o “Aquiles oriental”, ao lado de seu mestre Krishna.
Mito do herói na mitologia hindu: Arjuna (à esquerda), o “Aquiles oriental”, ao lado de seu mestre Krishna.

Estas são, portanto, as diretrizes de uma sociedade que baseia seus preceitos e finalidades nos mitos e na sabedoria. A maior importância dada não é à economia ou à política ou à qualquer uma das múltiplas e numerosas facetas da existência, mas se vai direto às essências, aos porquês e às finalidades últimas.  Não importa muito o como viver, mas sim o porquê e o pelo que viver. Mas, para alcançar tais alturas, necessita-se da simbologia dos mitos, que para o pensamento arcaico é uma linguagem superior à racional. É a linguagem dos deuses.

Por que as interpretações modernas sobre isso prevalecem?

É muito comum a justificação de nossos males atuais em nosso passado e até mesmo em suposta essência má do ser humano. Pode-se argumentar, por exemplo, que que no Coliseu (que surgiu no final do Império Romano, quando este já se encontrava em decadência de valores morais) já havia muita violência ou que havia regime de escravidão (incomparável com a recente escravidão dos negros africanos) nessas civilizações antigas. Ou também procuramos por aspectos que atualmente são levados muito em conta, como a economia ou a luta de classes por exemplo, mas que aos antigos não era uma faceta tão estimada e importante. Não precisa nem ir muito longe: não é verdade que algumas ideias e hábitos de nossos avós nos parecem estranhas e não-elementares? Imagina, então, as ideias e hábitos de milhares e milhares de gerações antes deles! É muito provável que teriam uma visão de mundo totalmente diferenciada.

A falibilidade da interpretação da História é muito grande, visto que frequentemente serve como um depósito muito chamativo de nossa subjetividade, mais do que as outras ciências. Tomando o exemplo da mitologia: se hoje os cultos religiosos existentes são extremamente superficiais e sustentados apenas por dogmas aparentemente sem sentido (por sua vez ancorados em interpretações literais de livros como a Bíblia e o Alcorão, ignorando seus elementos simbólicos), presumimos que o mesmo acontecia no passado. Então concluímos que os gregos realmente acreditavam que Zeus literalmente fazia amor com mortais e que os hindus acreditavam que Ganesha era literalmente um deus que vivia no céu com uma cabeça de elefante.

Zeus lançando raio. Pintura da Grécia antiga de mais ou menos 480 a.C, na transição do período Arcaico para o Clássico.
Zeus lançando raio. Pintura da Grécia antiga de mais ou menos 480 a.C, na transição do período Arcaico para o Clássico.

Assim, salvo a história recente, que tem mais a ver com nossa mentalidade, é muito difícil compreender de maneira justa e concisa a nossa história arcaica sem ser pego pelas armadilhas do Véu de Ísis. Uma boa dica para discernir esta questão é suspeitar quando for uma característica “ocidental-moderna” demais para estar atrelada à alguma civilização tão remota. Já dizia William Sheakspeare: “existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.”

É evidente que, em muitas questões, somos limitados por nós mesmos. Assim como, por exemplo, um cachorro não entende matemática, também o ser humano não tem recursos para acessar alguns mistérios da natureza – e, se os acessa, o faz de forma distorcida ou imprecisa (e é aí que está o perigo). É como se tentássemos rodar um DVD em uma calculadora. Mas, assim como um cachorro pode aprender alguns truques de dar a pata ou se fingir de morto, também o ser humano pode ter um vislumbre daquilo que está além de sua compreensão. Basta querer “ser adestrado” pelos deuses.

(Inclusive aquele que está dentro de ti)

 

escrito por:

Rodolfo Dall'Agno

Músico, mas graduando para ser psicólogo nas horas vagas. Tenta ao máximo ser escravo dos deuses, ou seja, livre.


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