Um outro sentido para a mitologia

Em Consciência, Sociedade por Rodolfo Dall'AgnoComentário

Os deu­ses e mitos da Anti­gui­dade podem, à pri­meira vista, pare­cer um assunto sim­pló­rio e ingê­nuo para mui­tos. Esses, ao se depa­ra­rem com a temá­tica, pode­riam pen­sar: “ah, sim, os tais mitos, que, em toda a sua inge­nui­dade, os povos anti­gos usa­vam para expli­car as coi­sas que não enten­diam” Tal era a con­cep­ção geral que os segui­do­res de Augusto Comte, o fun­da­dor do movi­mento posi­ti­vista, impri­miam ao pas­sado humano, tomando como cri­té­rio para a evo­lu­ção do pen­sa­mento humano um suposto espec­tro de apro­xi­ma­ção à ideias mate­ri­a­lis­tas, e decre­tando (o que era uma mera hipó­tese) a con­tra­di­ção entre reli­gião e ciên­cia, entre fé e conhe­ci­mento.

Um dos segui­do­res de Comte, James Fra­zer, um dos pri­mei­ros antro­pó­lo­gos nos está­gios ini­ci­ais dos estu­dos moder­nos de mito­lo­gia e reli­gião com­pa­rada, divi­diu esse tal “pro­gresso” em qua­tro eta­pas:

- Um período mágico, com totens e tabus;

- Um período reli­gi­oso;

- Um período filo­só­fico ou sub­je­tivo;

- Um período cien­tí­fico ou posi­ti­vista.

Não have­ria nenhuma pos­si­bi­li­dade de con­vi­vên­cia entre tais eta­pas, ou seja, uma cul­tura na etapa mágica care­ce­ria de ciên­cia ela­bo­rada, e assim é válido tam­bém o inverso.

Eis que com o avanço da arque­o­lo­gia, obje­tos e ciên­cias que para a con­cep­ção posi­ti­vista não pode­riam estar pre­sen­tes nas anti­gas civi­li­za­ções da “Era Pré-Lógica” eram cada vez mais evi­den­ci­a­dos nas esca­va­ções. A medi­cina no antigo Egito, a astro­no­mia dos maias, os conhe­ci­men­tos navais dos fení­cios são todos exem­plos de que, em civi­li­za­ções supos­ta­mente mar­ca­das por supers­ti­ções e cren­ças irra­ci­o­nais, haviam conhe­ci­men­tos cien­tí­fi­cos exis­tindo em con­co­mi­tân­cia com a reli­gião, inclu­sive sem haver rixa ou sequer sepa­ra­ção entre o cien­tí­fico e o mís­tico. Jorge Livraga, fun­da­dor da Orga­ni­za­ção Inter­na­ci­o­nal Nova Acró­pole, nos fala de pilhas elé­tri­cas de 3000 anos, peda­ços de lupas do ter­ceiro milê­nio a.C. e bús­so­las usa­das por Chi­ne­ses por volta de 1500 A.C.

Para apla­car estas ame­a­ças ao mate­ri­a­lismo dia­lé­tico e às teo­rias posi­ti­vis­tas e mate­ri­a­lis­tas, deduz-se facil­mente que as men­tes impreg­na­das e pro­pa­gan­dis­tas des­tas ideias recor­re­ram ao fenô­meno dos ÓVNIS como ten­ta­tiva de não sus­pei­tar nas mas­sas o fra­casso que tais teo­rias sucum­biam. Assim, os pro­gres­sos téc­ni­cos das anti­gas civi­li­za­ções, imbuí­das de reli­gi­o­si­dade e magia, foram pre­su­mi­dos trans­mi­ti­dos por seres de outros pla­ne­tas ou dimen­sões que já se encon­tra­vam no período cien­tí­fico. Ou seja, há um espí­rito de dog­ma­tismo tão grande, que é mais cômodo e inte­res­sante pen­sar em tal hipó­tese do que admi­tir que tal­vez o mís­tico, o reli­gi­oso e o mágico não sejam assim tão anti-cien­tí­fi­cos, como de fato eram na Idade Média e suas tre­vas supers­ti­ci­o­sas.

Mas quem garante que for­mas reli­gi­o­sas arcai­cas têm as mes­mas carac­te­rís­ti­cas das que sub­mer­gi­ram a Europa no caos medi­e­val? Terá a reli­gião um teor abso­luto que será sem­pre asso­ci­ado à irra­ci­o­na­li­dade e supers­ti­ção, ou será rela­tiva como a ciên­cia, que cura doen­ças e pro­duz bom­bas atô­mi­cas? É bem pos­sí­vel que a ten­ta­tiva moderna de redu­zir o Uni­verso à fenô­me­nos mecâ­ni­cos e mate­ri­ais que sur­gi­ram ao acaso não passe de uma res­posta a um grande trauma cole­tivo refe­rente à Idade Média e suas bar­bá­ries. Logo, é fácil pre­su­mir que aque­les que a isto mili­tam se encon­tram cheios de afe­tos e mágoas que os impe­dem de exer­cer uma mais livre inves­ti­ga­ção da ver­dade, a exem­plo da apro­pri­a­ção do fenô­meno dos ÓVNIS des­crito ante­ri­or­mente.

As Pirâmides de Gizé: feitas por alienígenas ou “superticiosos” com alguma tecnologia?

As Pirâ­mi­des de Gizé: fei­tas por ali­e­ní­ge­nas ou “super­ti­ci­o­sos” com alguma tec­no­lo­gia?

Na Anti­gui­dade arcaica, os seres huma­nos eram vis­tos como mais uma parte do uni­verso, não maior nem pior do que as outras, mas fun­da­men­tal­mente influ­en­ci­a­dos e influ­en­ci­a­do­res pelo/do Todo; ao con­trá­rio da con­cep­ção moderna de nos ver­mos iso­la­dos no meio do caos e da falta de sen­tido do resto do uni­verso, que fun­ci­ona por leis mecâ­ni­cas sem nada que as guie.

Com essa cir­cuns­tân­cia em mente, que se observa, na ver­dade, é que quanto mais se estuda a sim­bo­lo­gia teo­ló­gica e os mitos dos povos anti­gos, mais se reco­nhece a mara­vi­lhosa beleza de seus sím­bo­los car­re­ga­dos de sabe­do­ria, des­per­tando naquele que os inves­tiga séria e pro­fun­da­mente um enten­di­mento do âmago do Homem e tam­bém do Cos­mos. De fato, esta ideia de que há uma cor­res­pon­dên­cia entre o homem e a natu­reza, ou o homem e o Cos­mos, é fun­da­men­tal para a com­pre­en­são do sim­bo­lismo nos mitos de todas as civi­li­za­ções e como eles enca­ra­vam o mundo.

Uma das ima­gens mais cla­ras sobre esse pres­su­posto encon­tra-se no famoso livro O Cai­ba­lion, da tra­di­ção her­mé­tica que vem do Antigo Egito. Um dos sete prin­cí­pios her­mé­ti­cos des­cri­tos no livro é geral­mente redu­zido a esta frase: “o que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima”. O que está no macro­cosmo é um reflexo do que está no micro­cosmo e vice-versa, ou seja, é como se cada ser (micro­cosmo) fosse um pequeno uni­verso (macro­cosmo), e o uni­verso fosse um grande Ser. É por isso que dis­ci­pli­nas que dizem res­peito a esta rela­ção, como a Astro­lo­gia, por exem­plo, eram tão res­pei­ta­das e esti­ma­das na Anti­gui­dade; e eis que os mitos e deu­ses têm tudo a ver com esta ideia.

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Her­mes Tris­me­gis­tus, sábio egíp­cio que ins­pi­rou o her­me­tismo. Atri­buído a Ste­fano di Gio­vanni, 1488.

 

Os mitos como linguagem simbólica para o inefável

Algo que se deve ficar muito claro é que um mito não é uma cri­a­ção popu­lar. Eles estão inti­ma­mente rela­ci­o­na­dos às cha­ma­das Esco­las de Mis­té­rios, que eram na Anti­gui­dade espé­cies de ins­ti­tui­ções que exis­ti­ram em pra­ti­ca­mente todas as anti­gas gran­des civi­li­za­ções que hoje conhe­ce­mos. Segundo o reno­mado psi­có­logo Vik­tor D. Salis, grego natu­ra­li­zado bra­si­leiro, ex-psi­ca­na­lista e espe­ci­a­lista no pen­sa­mento das civi­li­za­ções arcai­cas, o sen­tido da pala­vra “mis­té­rio” nada tem a ver com o sig­ni­fi­cado atual da pala­vra. Ele diz, em seu audi­o­li­vro As Esco­las dos Mis­té­rios, que a eti­mo­lo­gia da pala­vra vem de mýs­tes, que sig­ni­fica algo como “aquele que entra em con­tato com os mitos”. Logo, pre­sume-se que de fato há alguma coisa séria nessa tal de mito­lo­gia. Estas “ins­ti­tui­ções” cha­ma­das Esco­las de Mis­té­rios se desen­vol­ve­ram em épo­cas e locais que atin­gi­ram um grau civi­li­za­tó­rio altís­simo, e influ­en­ci­a­ram for­te­mente alguns nomes que ainda hoje per­ma­ne­cem dig­nos de admi­ra­ção e que fazem parte de nossa cul­tura, como os filó­so­fos Pla­tão e Pitá­go­ras.

Levando em conta essa ideia de cor­res­pon­dên­cia entre o micro e o macro­cosmo no pen­sa­mento arcaico, os mitos sur­gem como padrões de fun­ci­o­na­mento que se apli­cam à ambos os pólos. Carl Gus­tav Jung, o famoso psi­qui­a­tra suíço, em sua psi­co­lo­gia ana­lí­tica, tra­tou de recu­pe­rar o sen­tido psi­co­ló­gico embu­tido nos mitos, ou seja, micro­cós­mico, cha­mando tais padrões de fun­ci­o­na­mento de Arqué­ti­pos. Outros, como Joseph Camp­bell, tam­bém con­tri­buí­ram para a recu­pe­ra­ção do tesouro sim­bó­lico da mito­lo­gia ao mundo atual. O sen­tido macro­cós­mico é ainda pouco inves­ti­gado ou tal­vez pouco difun­dido em ter­mos oci­den­tais moder­nos.

Um outro jeito de enten­der o que seriam esses tais padrões de fun­ci­o­na­mento é da maneira como resu­miu muito bem o escri­tor ita­li­ano Roberto Calasso, no iní­cio de sua obra As Núp­cias de Cadmo e Har­mo­nia. Ele coloca que “eles (os mitos) nunca acon­te­ce­ram, mas sem­pre exis­ti­ram.” Esta é uma ques­tão essen­cial. Os mitos tra­tam de algo que, pelo menos para a per­cep­ção humana, sem­pre exis­tiu e sem­pre exis­tirá. Na lin­gua­gem jun­gui­ana, diz-se que são “padrões arque­tí­pi­cos”, como se fos­sem ins­tin­tos que somente o ser humano pos­sui. São como as ideias pri­mor­di­ais de Pla­tão, este que, ao con­trá­rio de Jung, já toma o assunto num pano­rama cós­mico. Na pers­pec­tiva deste filó­sofo, estas ideias são objeto de con­tem­pla­ção e fina­li­dade de todas coi­sas mani­fes­ta­das, sendo por­tanto o seu ideal pri­mor­dial e final, ou seja, como tudo deve ser em sua per­fei­ção. Ao homem cabe a liber­dade de seguir cor­reta ou incor­re­ta­mente estas ten­dên­cias e suges­tões, e, caso as negue, acaba sofrendo as más con­seqüên­cias. Não por uma puni­ção divina, mas sim pelo sim­ples afas­ta­mento de sua essên­cia. É como se um cisne ten­tasse ser um cachorro, o que pro­va­vel­mente não daria tão certo como se ele ten­tasse ser o que real­mente é: um cisne. Feliz­mente, ou infe­liz­mente, o cisne não tem tal esco­lha. O ser humano tem. Daí vem a famosa frase de Jung que deli­bera que, no mundo moderno, “os deu­ses vira­ram doen­ças”.

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Cópia em már­more do busto do filó­sofo grego Pla­tão feito por Sila­nião, 370 a.C.

 

As civilizações míticas

Nunca houve nem haverá civi­li­za­ção onde possa haver gente que goste de ser des­pre­zada, que goste de ser mal­tra­tada ou viver com medo e sem dig­ni­dade. Isso nunca mudará. As neces­si­da­des huma­nas mais essen­ci­ais sem­pre foram e sem­pre serão as mes­mas.  Já um note­book ou as últi­mas ten­dên­cias da moda nem sem­pre foram alvo de tan­tas “neces­si­da­des”. Assim, fica muito claro que não se pode medir o grau civi­li­za­tó­rio de uma soci­e­dade pelo cri­té­rio des­tes últi­mos, e sim pelo seu grau de pro­xi­mi­dade com rea­li­za­ção do ideal no con­creto, aquele sim­bo­li­zado pelos mitos. Não importa tanto se há fogue­tes ou car­ro­ças. Se os ide­ais que nor­teiam um povo estão pró­xi­mos às essên­cias que repre­sen­tam os mitos, haverá mais feli­ci­dade e jus­tiça, mesmo que seus indi­ví­duos não conhe­çam a roda ou o fogo.

De todos os povos anti­gos que a esse qua­dro pode­mos asso­ciar, o Egito antigo e a Gré­cia arcaica são os exí­mios exem­plos que Vik­tor D. Salis dis­corre muito bem. A ideia de conhe­ci­mento para o pen­sa­mento arcaico não se con­fi­gura como o sim­ples acú­mulo de sabe­res inte­lec­tu­ais e téc­ni­cos. Aliás, alfa­be­ti­za­ção e con­tas mate­má­ti­cas eram con­si­de­ra­das apren­di­za­gens secun­dá­rias para os jovens, que só ocor­riam por volta dos 15 anos na Gré­cia. Sócra­tes diz que o conhe­ci­mento pode ser inves­ti­gado durante toda a vida, mas o que ele chama de “vir­tude” deve ser desen­vol­vido e apri­mo­rado nos pri­mei­ros anos da vida, pois depois não haverá mais tempo para isso. A edu­ca­ção, por­tanto, con­sis­tia na arte de domi­nar os vícios e prin­ci­pal­mente do des­co­bri­mento e conhe­ci­mento de si mesmo e do sen­tido de sua exis­tên­cia. Este pro­cesso não era algo como um pre­en­chi­mento de uma tabula rasa, mas sim con­du­zido por um mes­tre com a inten­ção de fazer o pró­prio jovem edu­zir sua ver­dade a par­tir de den­tro si mesmo (qual­quer seme­lhança com a pala­vra edu­ca­ção não é mera coin­ci­dên­cia), e depois uti­li­zar os talen­tos que encon­trar em sua essên­cia para ser­vir aos demais naquilo que ele melhor desem­pe­nha. O foco prin­ci­pal, por­tanto, era ensi­nar o jovem a viver e mor­rer com dig­ni­dade e honra, fazendo-o des-cobrir o seu poten­cial (que estava “coberto” por seus vícios), e ensiná-lo a res­pei­tar as leis que esta­vam ali antes de qual­quer coisa; e aí vol­ta­mos aos mitos e aos Arqué­ti­pos.

O mito do herói, que pode ser encon­trado em todas as mito­lo­gias, cons­ti­tui-se neste cami­nho que todo ser humano deve per­cor­rer para supe­rar o seu estado de sel­va­ge­ria ani­ma­lesca e mor­ta­li­dade, apro­xi­mando-se dos deu­ses; por­tanto, des­co­brindo a sua ver­dade e agindo com con­co­mi­tân­cia, unindo a essên­cia e a apa­rên­cia. É um des­tino pro­fun­da­mente enrai­zado na psi­que humana, diria Jung. Isso é que é uma ver­da­deira for­ma­ção edu­ca­tiva no pen­sa­mento arcaico, um grande con­traste com a ava­lan­che de infor­ma­ções que são arre­mes­sa­das às cri­an­ças nas esco­las da era moderna (per­ceba o in na frente de infor­ma­ção; dá até a ideia de que se trata do con­trá­rio de for­ma­ção). Assim, no caso da Gré­cia, quando o jovem sen­tia-se pronto, deve­ria dis­cur­sar na Ágora para os outros cida­dãos, expli­cando-lhes a sua ver­dade e voca­ção e como a par­tir disto ser­virá ao cole­tivo.

Mito do herói na mitologia hindu: Arjuna (à esquerda), o “Aquiles oriental”, ao lado de seu mestre Krishna.

Mito do herói na mito­lo­gia hindu: Arjuna (à esquerda), o “Aqui­les ori­en­tal”, ao lado de seu mes­tre Krishna.

Estas são, por­tanto, as dire­tri­zes de uma soci­e­dade que baseia seus pre­cei­tos e fina­li­da­des nos mitos e na sabe­do­ria. A maior impor­tân­cia dada não é à eco­no­mia ou à polí­tica ou à qual­quer uma das múl­ti­plas e nume­ro­sas face­tas da exis­tên­cia, mas se vai direto às essên­cias, aos porquês e às fina­li­da­des últi­mas.  Não importa muito o como viver, mas sim o porquê e o pelo que viver. Mas, para alcan­çar tais altu­ras, neces­sita-se da sim­bo­lo­gia dos mitos, que para o pen­sa­mento arcaico é uma lin­gua­gem supe­rior à raci­o­nal. É a lin­gua­gem dos deu­ses.

Por que as interpretações modernas sobre isso prevalecem?

É muito comum a jus­ti­fi­ca­ção de nos­sos males atu­ais em nosso pas­sado e até mesmo em suposta essên­cia má do ser humano. Pode-se argu­men­tar, por exem­plo, que que no Coli­seu (que sur­giu no final do Impé­rio Romano, quando este já se encon­trava em deca­dên­cia de valo­res morais) já havia muita vio­lên­cia ou que havia regime de escra­vi­dão (incom­pa­rá­vel com a recente escra­vi­dão dos negros afri­ca­nos) nes­sas civi­li­za­ções anti­gas. Ou tam­bém pro­cu­ra­mos por aspec­tos que atu­al­mente são leva­dos muito em conta, como a eco­no­mia ou a luta de clas­ses por exem­plo, mas que aos anti­gos não era uma faceta tão esti­mada e impor­tante. Não pre­cisa nem ir muito longe: não é ver­dade que algu­mas ideias e hábi­tos de nos­sos avós nos pare­cem estra­nhas e não-ele­men­ta­res? Ima­gina, então, as ideias e hábi­tos de milha­res e milha­res de gera­ções antes deles! É muito pro­vá­vel que teriam uma visão de mundo total­mente dife­ren­ci­ada.

A fali­bi­li­dade da inter­pre­ta­ção da His­tó­ria é muito grande, visto que fre­quen­te­mente serve como um depó­sito muito cha­ma­tivo de nossa sub­je­ti­vi­dade, mais do que as outras ciên­cias. Tomando o exem­plo da mito­lo­gia: se hoje os cul­tos reli­gi­o­sos exis­ten­tes são extre­ma­mente super­fi­ci­ais e sus­ten­ta­dos ape­nas por dog­mas apa­ren­te­mente sem sen­tido (por sua vez anco­ra­dos em inter­pre­ta­ções lite­rais de livros como a Bíblia e o Alco­rão, igno­rando seus ele­men­tos sim­bó­li­cos), pre­su­mi­mos que o mesmo acon­te­cia no pas­sado. Então con­cluí­mos que os gre­gos real­mente acre­di­ta­vam que Zeus lite­ral­mente fazia amor com mor­tais e que os hin­dus acre­di­ta­vam que Ganesha era lite­ral­mente um deus que vivia no céu com uma cabeça de ele­fante.

Zeus lançando raio. Pintura da Grécia antiga de mais ou menos 480 a.C, na transição do período Arcaico para o Clássico.

Zeus lan­çando raio. Pin­tura da Gré­cia antiga de mais ou menos 480 a.C, na tran­si­ção do período Arcaico para o Clás­sico.

Assim, salvo a his­tó­ria recente, que tem mais a ver com nossa men­ta­li­dade, é muito difí­cil com­pre­en­der de maneira justa e con­cisa a nossa his­tó­ria arcaica sem ser pego pelas arma­di­lhas do Véu de Ísis. Uma boa dica para dis­cer­nir esta ques­tão é sus­pei­tar quando for uma carac­te­rís­tica “oci­den­tal-moderna” demais para estar atre­lada à alguma civi­li­za­ção tão remota. Já dizia Wil­liam She­aks­pe­are: “exis­tem mais coi­sas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filo­so­fia.”

É evi­dente que, em mui­tas ques­tões, somos limi­ta­dos por nós mes­mos. Assim como, por exem­plo, um cachorro não entende mate­má­tica, tam­bém o ser humano não tem recur­sos para aces­sar alguns mis­té­rios da natu­reza — e, se os acessa, o faz de forma dis­tor­cida ou impre­cisa (e é aí que está o perigo). É como se ten­tás­se­mos rodar um DVD em uma cal­cu­la­dora. Mas, assim como um cachorro pode apren­der alguns tru­ques de dar a pata ou se fin­gir de morto, tam­bém o ser humano pode ter um vis­lum­bre daquilo que está além de sua com­pre­en­são. Basta que­rer “ser ades­trado” pelos deu­ses.

(Inclu­sive aquele que está den­tro de ti)

 

Rodolfo Dall'Agno
Psicologia de formação, mas música e filosofia de coração. Participante do programa Empresa Viva. Buscador de essências.

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