Papa Devido ao forte vento, manto cobre o rosto do Papa Francisco, durante audiência geral semanal, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Foto: Filippo Monteforte / AFP

A semana que passou, em imagens

Em Fotografia, Tempo de Curtir por Luíz HorácioComentário

Dia­lé­tica, este ele­mento ame­a­ça­dís­simo de extin­ção mundo afora, me faz pen­sar que Kant estava com a razão, ao dizer que se trata de uma grande ilu­são, visto que se baseia em pon­tos estri­ta­mente sub­je­ti­vos.

A foto­gra­fia nos obriga a ser­mos dia­lé­ti­cos, ao menos no pen­sa­mento, por alguns minu­tos. Mas não deve­mos ir além daquilo que se ofe­rece ao nosso olhar. Toda ima­gem, toda obra de arte per­mite um sem número de inter­pre­ta­ções, mas sugiro dei­xar­mos isso de lado e olhar­mos a foto­gra­fia ape­nas como um ins­tante per­pe­tu­ado.

E vol­tando à ques­tão dia­lé­tica, na foto de Clo­dagh Kil­coyne onde o homem car­rega uma raposa:

Patsy Gibbons takes his two rescue foxes, Grainne and Minnie (unseen), for a walk in Kilkenny, Ireland April 25, 2016. Gibbons nursed the foxes back to health after they were found abandoned as injured cubs, and they have stayed with him since. REUTERS/Clodagh Kilcoyne

Patsy Gib­bons leva suas duas rapo­sas res­ga­ta­das, Grainne e Min­nie (não está na foto), para um pas­seio em Kil­kenny, Irlanda, em 25 de abril. Gib­bons tra­tou das rapo­sas após serem encon­tra­das aban­do­na­das e feri­das, e desde então elas ficam com ele. REUTERS/Clodagh Kil­coyne

Apa­ren­te­mente com cari­nho de parte a parte, há uma con­vi­vên­cia dia­lé­tica, o homem um pouco fera, a fera um pouco homem. Mas por que não ape­nas a foto de um homem com uma raposa? O inu­si­tado sugere inter­pre­ta­ções: a raposa está presa, foi sub­ju­gada, não é mais uma raposa, o homem é per­verso. Pre­firo ape­nas um homem e uma raposa em con­vi­vên­cia har­mo­ni­osa.

A foto do ven­de­dor de milho de Asta Knoth é extre­ma­mente poé­tica, gra­ças ao fotó­grafo que soube equi­li­brar movi­mento e luz:

A Palestinian street vendor sells corn at the corniche in Gaza City as the sun sets on April 25, 2016. / AFP PHOTO / MOHAMMED ABED

Um ven­de­dor ambu­lante pales­tino vende milho na Cidade de Gaza no por do sol em 25 de abril. / AFP PHOTO / MOHAMMED ABED

Afora isso, várias inter­pre­ta­ções, que vão da luta pela sobre­vi­vên­cia, da infân­cia aban­do­nada, da ati­vi­dade de risco em zona con­fla­grada. Diante de tudo isso, sobres­sai o talento do fotó­grafo e a foto de um pro­saico ven­de­dor de milho. A foto­gra­fia aceita o real, e no entanto não se trata de um olhar neu­tro o do fotó­grafo.

E o que dizer acerca da panela sobre os tri­lhos. Uma pequena panela cum­prindo seu ofí­cio. Mas cum­prindo como, cozi­nhando o quê? Não importa. O fotó­grafo, Gre­gó­rio Bor­gia, diante da imensa gama de pos­si­bi­li­da­des que ofe­rece um campo de refu­gi­a­dos, optou por colo­car a panela em pri­meiro plano. O fotó­grafo esco­lheu o que ele quis, esque­ceu todo o resto. Pre­ci­sa­ria de algo mais? Não acre­dito.

A pot over a bonfire was placed on the tracks of a railway station turned into a makeshift camp, crowded by migrants and refugees at the northern Greek border point of Idomeni, Greece, Monday, April 25, 2016. Many thousands of migrants remain at the Greek border with Macedonia, hoping that the border crossing will reopen, allowing them to move north into central Europe. (AP Photo/Gregorio Borgia)

Gré­cia, 25 de abril. Milha­res de imi­gran­tes per­ma­ne­cem na fron­teira grega com a Macedô­nia, espe­rando que lhes seja auto­ri­zada a entrada na Europa. (AP Photo/Gregorio Bor­gia)

Issouf Sanogo, autor da foto das cri­an­ças numa escola da Costa do Mar­fim, apre­senta uma rea­li­dade, ape­nas isso. Não pre­tende expli­car nada, várias cri­an­ças mos­trando uma tabu­leta onde rea­li­zam um ope­ra­ção mate­má­tica. É isso, ape­nas isso, não pre­tende ir além, embora des­vista de qual­quer gla­mour aquela rea­li­dade.

Educação Alunos da primeira escola primária da aldeia de Geboue, na Costa do Marfim. Foto: Issouf Sanogo / AFP

Alu­nos da pri­meira escola pri­má­ria da aldeia de Geboue, na Costa do Mar­fim. Foto: Issouf Sanogo / AFP

Filippo Mon­te­forte foto­gra­fou o Papa, sua san­ti­dade e o vento cum­prindo seu papel, ou melhor, o vento per­tur­bando o papel. Bem, isso é uma inter­pre­ta­ção, mesmo assim é a foto. A arte capaz de tor­nar visí­vel o vento.

Papa Devido ao forte vento, manto cobre o rosto do Papa Francisco, durante audiência geral semanal, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Foto: Filippo Monteforte / AFP

Devido ao forte vento, manto cobre o rosto do Papa Fran­cisco, durante audi­ên­cia geral sema­nal, na Praça de São Pedro, no Vati­cano. Foto: Filippo Mon­te­forte / AFP

Foto­gra­fia é o diá­logo per­ma­nente entre arte e rea­li­dade, uma arte direta, por vezes agres­siva, incô­moda como toda expres­são artís­tica que se preze deve­ria ser.


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Luíz Horácio
Escritor e tradutor.

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