Dialética, este elemento ameaçadíssimo de extinção mundo afora, me faz pensar que Kant estava com a razão, ao dizer que se trata de uma grande ilusão, visto que se baseia em pontos estritamente subjetivos.

A fotografia nos obriga a sermos dialéticos, ao menos no pensamento, por alguns minutos. Mas não devemos ir além daquilo que se oferece ao nosso olhar. Toda imagem, toda obra de arte permite um sem número de interpretações, mas sugiro deixarmos isso de lado e olharmos a fotografia apenas como um instante perpetuado.

E voltando à questão dialética, na foto de Clodagh Kilcoyne onde o homem carrega uma raposa:

Patsy Gibbons takes his two rescue foxes, Grainne and Minnie (unseen), for a walk in Kilkenny, Ireland April 25, 2016. Gibbons nursed the foxes back to health after they were found abandoned as injured cubs, and they have stayed with him since. REUTERS/Clodagh Kilcoyne
Patsy Gibbons leva suas duas raposas resgatadas, Grainne e Minnie (não está na foto), para um passeio em Kilkenny, Irlanda, em 25 de abril. Gibbons tratou das raposas após serem encontradas abandonadas e feridas, e desde então elas ficam com ele. REUTERS/Clodagh Kilcoyne

Aparentemente com carinho de parte a parte, há uma convivência dialética, o homem um pouco fera, a fera um pouco homem. Mas por que não apenas a foto de um homem com uma raposa? O inusitado sugere interpretações: a raposa está presa, foi subjugada, não é mais uma raposa, o homem é perverso. Prefiro apenas um homem e uma raposa em convivência harmoniosa.

A foto do vendedor de milho de Asta Knoth é extremamente poética, graças ao fotógrafo que soube equilibrar movimento e luz:

A Palestinian street vendor sells corn at the corniche in Gaza City as the sun sets on April 25, 2016. / AFP PHOTO / MOHAMMED ABED
Um vendedor ambulante palestino vende milho na Cidade de Gaza no por do sol em 25 de abril. / AFP PHOTO / MOHAMMED ABED

Afora isso, várias interpretações, que vão da luta pela sobrevivência, da infância abandonada, da atividade de risco em zona conflagrada. Diante de tudo isso, sobressai o talento do fotógrafo e a foto de um prosaico vendedor de milho. A fotografia aceita o real, e no entanto não se trata de um olhar neutro o do fotógrafo.

E o que dizer acerca da panela sobre os trilhos. Uma pequena panela cumprindo seu ofício. Mas cumprindo como, cozinhando o quê? Não importa. O fotógrafo, Gregório Borgia, diante da imensa gama de possibilidades que oferece um campo de refugiados, optou por colocar a panela em primeiro plano. O fotógrafo escolheu o que ele quis, esqueceu todo o resto. Precisaria de algo mais? Não acredito.

A pot over a bonfire was placed on the tracks of a railway station turned into a makeshift camp, crowded by migrants and refugees at the northern Greek border point of Idomeni, Greece, Monday, April 25, 2016. Many thousands of migrants remain at the Greek border with Macedonia, hoping that the border crossing will reopen, allowing them to move north into central Europe. (AP Photo/Gregorio Borgia)
Grécia, 25 de abril. Milhares de imigrantes permanecem na fronteira grega com a Macedônia, esperando que lhes seja autorizada a entrada na Europa. (AP Photo/Gregorio Borgia)

Issouf Sanogo, autor da foto das crianças numa escola da Costa do Marfim, apresenta uma realidade, apenas isso. Não pretende explicar nada, várias crianças mostrando uma tabuleta onde realizam um operação matemática. É isso, apenas isso, não pretende ir além, embora desvista de qualquer glamour aquela realidade.

Educação Alunos da primeira escola primária da aldeia de Geboue, na Costa do Marfim. Foto: Issouf Sanogo / AFP
Alunos da primeira escola primária da aldeia de Geboue, na Costa do Marfim. Foto: Issouf Sanogo / AFP

Filippo Monteforte fotografou o Papa, sua santidade e o vento cumprindo seu papel, ou melhor, o vento perturbando o papel. Bem, isso é uma interpretação, mesmo assim é a foto. A arte capaz de tornar visível o vento.

Papa Devido ao forte vento, manto cobre o rosto do Papa Francisco, durante audiência geral semanal, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Foto: Filippo Monteforte / AFP
Devido ao forte vento, manto cobre o rosto do Papa Francisco, durante audiência geral semanal, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Foto: Filippo Monteforte / AFP

Fotografia é o diálogo permanente entre arte e realidade, uma arte direta, por vezes agressiva, incômoda como toda expressão artística que se preze deveria ser.


Seja patrono do AZ para mais artigos como este.
CLIQUE AQUI e escolha sua recompensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode querer ver também:

A arte de Gregory Crewdson
Fotografia: quando a realidade é uma invenção

escrito por:

Luíz Horácio

Escritor e tradutor.