Para mim, uma parte importante dos congressos são os encontros entre os professores, assim é possível rever antigos amigos, fazer novas amizades, ouvir ideias, conversar sobre coisas que não tem nada a ver com a área e, claro, conversar muito sobre a área que amamos.

E isso é especialmente enriquecedor quando envolvem áreas aparentemente diferentes, mas que, na verdade, estão passando por conflitos e dificuldades semelhantes. Por isso, posso afirmar que as conversas com os colegas da área da Educação são tão enriquecedoras quanto minhas pesquisas e artigos.

Pois bem, cheguei a Araguaína (TO) no mesmo voo que o Edinho Paraguassu, de São Paulo, e, enquanto íamos ao hotel, conduzidos pelo Márcio Gouveia, nós três tivemos conversas muito interessantes sobre a (suposta) dicotomia entre Educação e Ciência.

Depois, na véspera do dia do profissional de Educação Física, estava tomando café com a Mônica Tagliari, de Porto Alegre, e Francisco Chicon, de Vitória, e a conversa rumou para um apaixonante e enriquecedor debate sobre o papel do professor de Educação Física como educador.

Enfim, essas conversas durante um congresso nessa amável e calorosa (em todos os sentidos) cidade tocantinense me geraram profundas reflexões. E tais reflexões fervilharam ainda mais quando fui receber uma premiação/homenagem na Câmara Legislativa do Distrito Federal e ouvi o discurso de alguns pioneiros da Educação Física, falando de suas paixões e de suas preocupações… Enfim, foram muitas reflexões, as quais compartilho com vocês.

A maioria me conhece como um pesquisador ou mesmo um treinador que atua de maneira cientificamente embasada sobre aspectos fisiológicos, com o objetivo de otimizar o funcionamento de determinados sistemas do corpo humano.

Ou seja eu manipulo e controlo variáveis para potencializar os ganhos de força, de massa muscular, a perda de gordura, as melhoras na captação de glicose, densidade mineral óssea, funcionamento imune, etc.

Apesar de ser uma associação forte, se eu fosse resumir minha missão, seria: melhorar a vida das pessoas. E, para alcançar esse resultado, ter conhecimento técnico não é suficiente.

Para melhorar a vida de uma pessoa, eu preciso ensiná-la a fazer as atividades físicas de maneira adequada, mas para que isso ocorra, não basta que eu a ensine a fazer exercício, é preciso que eu conscientize essa pessoa sobre o exercício. Por isso, ensinar se torna essencial.

Assim, meus estudos e pesquisas são a forma que tenho de encontrar elementos para ensinar melhor.

Percebam a diferença, o foco da minha ação não é conhecimento como um produto final, o foco da minha ação é a mudança comportamental.

O conhecimento é um instrumento para que eu possa promover mudanças comportamentais que melhorem a vida das pessoas. De nada adiantaria eu ser um grande estudioso ou detentor de um grande conhecimento se isso não se refletir em melhoras reais na vida das pessoas.

E aí vem a discussão filosófica…

debate entre filósofos - sejamos professores

 

A importância da intervenção dos professores

Mas, antes dela, vamos aos fatos científicos.

Em 2010 eu e professor Martim Bottaro publicamos um artigo que mostrava os efeitos da supervisão nos ganhos de força de homens jovens (Gentil & Bottaro, 2010). Foi publicado em um dos principais periódicos do Mundo nessa área e teve uma excelente repercussão no meio acadêmico. Mas, sabem de uma coisa? Ele foi fruto de um acidente.

Durante o meu doutorado, eu ofereci turmas de prática desportiva na Universidade de Brasília nas quais acompanhávamos 25 alunos que realizam um treinamento padronizado, ou seja, todos eles realizaram exatamente o mesmo programa de treinamento durante o mesmo período de tempo, na mesma hora do dia.

A padronização era especialmente importante porque eu estava analisando a influência de variações genéticas nos ganhos de força e massa muscular, então eu colocaria todos para treinarem da mesma forma, analisaria seus DNAs e veria se determinada variação genética influencia nos resultados.

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Eu normalmente contava com cerca de 5 a 6 voluntários para acompanharem os treinos e isso me dava uma relação de um professor para cada 3-5 alunos. Nesse modelo de treino, os praticantes vinham ganhando cerca 12% de força nos extensores de joelho.

No entanto, houve um semestre em que não recrutamos voluntários e um professor teve que cuidar da turma inteira, ou seja, ser responsável pela parte administrativa (arrumar sala, controlar frequência, observar manutenção) e também pela parte técnica (execução dos exercícios, seleção da carga).

Quando analisamos os dados, observamos que os ganhos de força nos extensores de joelhos não foram significativos para o grupo que tinha apenas um professor em sala! Ou seja, o mesmo treino, realizado no mesmo local, com os mesmos equipamentos produziu resultados diferentes, simplesmente porque a supervisão foi diferente.

 

O meio como grande responsável pelas mudanças

Outro impacto importante para minha postura como professor veio das minhas pesquisas sobre genética.

Sabemos que, se eu empregar o mesmo protocolo de treino em várias pessoas, haverá os que terão ótimos resultados, os que terão resultados medianos e os que não terão resultado algum! Como explicar isso? Genética?!

Então fomos ao trabalho e publicamos alguns artigos sobre o tema. Eu até aparecei no “Mapa Genético Humano da Performance” (Bray et al., 2009) que era publicado anualmente por um grupo de renomados pesquisadores!

Mas depois de muito tempo, muito esforço e muito dinheiro empregado, descobrimos uma coisa: no final das contas, as variações genéticas explicam relativamente pouco das respostas ao treinamento, ou seja, a genética não é a grande responsável por explicar a variação dos resultados obtidos por uma pessoa.

Ou seja, o que você faz é que vai determinar a maior parte dos que você é! E, mais ainda, os seus hábitos influenciarão a expressão dos seus genes.

Por exemplo, você pode até ter uma variação genética que possa favorecer o ganho de gordura, mas se você tiver uma alimentação adequada e praticar exercícios de maneira correta, esse gene não se manifestará.

Mais ainda, você pode promover alterações que silenciam esse gene e que serão transmitidas para suas gerações futuras (Youngson & Morris, 2013; Martin et al., 2013)!

Isso mesmo, você pode mudar sua história e a das suas gerações seguintes! É o que se chama atualmente de “Epigenética“.

epigenética - sejamos professores

 

O que isso nos ensina sobre a nossa atuação?

Isso nos ensina que, de maneira geral, uma pessoa é responsável pelo seu destino e que o professor é responsável por ajudar a pessoa nesse processo!

O primeiro estudo que citei (Gentil & Bottaro, 2010) nos ensina que um treinamento não precisa ser apenas bem desenhado, ele precisa ser bem implementado. De nada adianta um treino ser bem feito no papel se, na prática, ele não é bem realizado.

E para isso acontecer, o praticante precisa ser ensinado, precisa entender o que fazer, por que fazer e como fazer. E, como ele é leigo na maioria dos casos, não se pode esperar que saiba como treinar e nem ao menos que valorize o papel da orientação.

Cabe ao professor exercer seu papel e ensinar tudo isso. E isso não envolve apenas “o que” ensinar. Isso envolve o “como ensinar”.

Tanto que ao falar nas minhas aulas sobre mudanças de paradigmas, a imensa maioria compreende as ideias, mas o desespero que vejo nos olhos das pessoas é “como eu vou passar isso para os alunos?”

Então, por medo do conflito, acabam permanecendo com práticas comprovadamente ineficientes ou mesmo abrem mão de exercer seu papel de educador.

Alguns dizem que é difícil fazer isso porque a sociedade não nos valoriza. Aqui há um paralelo interessante com o professor que trabalha com crianças.

Vamos pensar em uma criança que recebe um novo brinquedo, extremamente sofisticado. Se ela não for ensinada a usá-lo adequadamente, ela simplesmente pode usá-lo para golpear ou arremessá-lo contra seus colegas.

Ou seja, um objeto com amplas possibilidades foi usado de uma maneira limitada e por vezes destrutiva. De quem é a culpa? É da criança por não saber a complexidade do brinquedo e não saber usá-lo adequadamente? Não. A culpa é de quem entregou o objeto e não transmitiu as informações necessárias.

Afinal, quem tem a obrigação de transmitir o valor agregado é quem detém o conhecimento. Portanto, algo só será valorizado se houver as explicações necessárias o acompanhando.

E os estudos sobre genética?

Os estudos sobre genética mostram que as pessoas podem ser o que desejarem, ou seja, as suas atitudes são em grande parte responsáveis pelo que você é! Óbvio que existem casos raros de mutações genéticas determinantes, mas são casos raros.

Ao mesmo tempo que essas descobertas frustraram milhares de pesquisadores que passaram anos nas bancadas de biotecnologia (como eu), também trouxeram novo ânimo às pessoas que acreditam no poder de escrevermos nossa história (como eu)!

Mas aí voltamos ao que foi falado antes. Nem todas as pessoas possuem o conhecimento necessário para escrever sua história, portanto, elas precisam ser ensinadas e educadas.

E aqui está o nosso papel como professores de Educação Física: nós somos responsáveis por melhorar a vida delas, dando as condições e ferramentas necessárias para promoverem as mudanças.

Nossos alunos não devem receber treinos ou intervenções, eles devem receber ensinamentos para que consigam compreender e participar ativamente do processo!

Atitudes e mudanças de comportamento são as chaves de tudo!

As reações fisiológicas ou os modelos biomecânicos são essenciais para entendermos partes do processo, mas na prática, o simples conhecimento delas não determina os resultados, pois reações fisiológicas ou modelos biomecânicos não existem de maneira independente do ser humano onde ocorrem.

Teorias podem fazer muito sentido no papel, mas transformar o que está no papel em realidade é um ponto crucial, e a arte de fazer isso vem sendo pouco valorizada. Portanto, ESTUDEM MUITO, mas também ENSINEM MUITO!

Professores de Educação Física, vamos assumir o nosso papel na sociedade. A sociedade precisa de nós, mas não mudaremos a nossa situação e tampouco mudaremos o mundo se ficarmos de braços cruzados reclamando ou aceitando executar apenas uma parte ínfima do que deveria ser nosso papel.

Não sejamos educadores físicos, não sejamos instrutores, não sejamos vendedores, não sejamos apenas profissionais de Educação Física… Sejamos professores! E aí mudaremos o mundo.


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Referências
  1. Martin SL, Hardy TM, Tollefsbol TO. Medicinal Chemistry of the Epigenetic Diet and Caloric Restriction. Curr Med Chem. 2013 Jul 24. [Epub ahead of print]
  2. Youngson NA, Morris MJ. What obesity research tells us about epigenetic mechanisms. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 2013 Jan 5;368(1609):20110337. doi: 10.1098/rstb.2011.0337.
  3. Gentil P, Bottaro M. Influence of supervision ratio on muscle adaptations to resistance training in nontrained subjects. J Strength Cond Res. 2010 Mar;24(3):639-43.
  4. Bray MS, Hagberg JM, Pérusse L, Rankinen T, Roth SM, Wolfarth B, Bouchard C. The human gene map for performance and health-related fitness phenotypes: the 2006-2007 update. Med Sci Sports Exerc. 2009 Jan;41(1):35-73

escrito por:

Paulo Gentil

Doutor em Ciências da Saúde. Autor dos livros “Emagrecimento: Quebrando Mitos e Mudando Paradigmas” e “Bases Científicas do Treinamento de Hipertrofia”.