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Sejamos professores

Em Consciência, Série Educação por Paulo GentilComentário

Para mim, uma parte impor­tante dos con­gres­sos são os encon­tros entre os pro­fes­so­res, assim é pos­sí­vel rever anti­gos ami­gos, fazer novas ami­za­des, ouvir ideias, con­ver­sar sobre coi­sas que não tem nada a ver com a área e, claro, con­ver­sar muito sobre a área que ama­mos.

E isso é espe­ci­al­mente enri­que­ce­dor quando envol­vem áreas apa­ren­te­mente dife­ren­tes, mas que, na ver­dade, estão pas­sando por con­fli­tos e difi­cul­da­des seme­lhan­tes. Por isso, posso afir­mar que as con­ver­sas com os cole­gas da área da Edu­ca­ção são tão enri­que­ce­do­ras quanto minhas pes­qui­sas e arti­gos.

Pois bem, che­guei a Ara­guaína (TO) no mesmo voo que o Edi­nho Para­guassu, de São Paulo, e, enquanto íamos ao hotel, con­du­zi­dos pelo Már­cio Gou­veia, nós três tive­mos con­ver­sas muito inte­res­san­tes sobre a (suposta) dico­to­mia entre Edu­ca­ção e Ciên­cia.

Depois, na vés­pera do dia do pro­fis­si­o­nal de Edu­ca­ção Física, estava tomando café com a Mônica Tagli­ari, de Porto Ale­gre, e Fran­cisco Chi­con, de Vitó­ria, e a con­versa rumou para um apai­xo­nante e enri­que­ce­dor debate sobre o papel do pro­fes­sor de Edu­ca­ção Física como edu­ca­dor.

Enfim, essas con­ver­sas durante um con­gresso nessa amá­vel e calo­rosa (em todos os sen­ti­dos) cidade tocan­ti­nense me gera­ram pro­fun­das refle­xões. E tais refle­xões fer­vi­lha­ram ainda mais quando fui rece­ber uma premiação/homenagem na Câmara Legis­la­tiva do Dis­trito Fede­ral e ouvi o dis­curso de alguns pio­nei­ros da Edu­ca­ção Física, falando de suas pai­xões e de suas pre­o­cu­pa­ções… Enfim, foram mui­tas refle­xões, as quais com­par­ti­lho com vocês.

A mai­o­ria me conhece como um pes­qui­sa­dor ou mesmo um trei­na­dor que atua de maneira cien­ti­fi­ca­mente emba­sada sobre aspec­tos fisi­o­ló­gi­cos, com o obje­tivo de oti­mi­zar o fun­ci­o­na­mento de deter­mi­na­dos sis­te­mas do corpo humano.

Ou seja eu mani­pulo e con­trolo variá­veis para poten­ci­a­li­zar os ganhos de força, de massa mus­cu­lar, a perda de gor­dura, as melho­ras na cap­ta­ção de gli­cose, den­si­dade mine­ral óssea, fun­ci­o­na­mento imune, etc.

Ape­sar de ser uma asso­ci­a­ção forte, se eu fosse resu­mir minha mis­são, seria: melho­rar a vida das pes­soas. E, para alcan­çar esse resul­tado, ter conhe­ci­mento téc­nico não é sufi­ci­ente.

Para melho­rar a vida de uma pes­soa, eu pre­ciso ensiná-la a fazer as ati­vi­da­des físi­cas de maneira ade­quada, mas para que isso ocorra, não basta que eu a ensine a fazer exer­cí­cio, é pre­ciso que eu cons­ci­en­tize essa pes­soa sobre o exer­cí­cio. Por isso, ensi­nar se torna essen­cial.

Assim, meus estu­dos e pes­qui­sas são a forma que tenho de encon­trar ele­men­tos para ensi­nar melhor.

Per­ce­bam a dife­rença, o foco da minha ação não é conhe­ci­mento como um pro­duto final, o foco da minha ação é a mudança com­por­ta­men­tal.

O conhe­ci­mento é um ins­tru­mento para que eu possa pro­mo­ver mudan­ças com­por­ta­men­tais que melho­rem a vida das pes­soas. De nada adi­an­ta­ria eu ser um grande estu­di­oso ou deten­tor de um grande conhe­ci­mento se isso não se refle­tir em melho­ras reais na vida das pes­soas.

E aí vem a dis­cus­são filo­só­fica…

debate entre filósofos - sejamos professores

 

A importância da intervenção dos professores

Mas, antes dela, vamos aos fatos cien­tí­fi­cos.

Em 2010 eu e pro­fes­sor Mar­tim Bot­taro publi­ca­mos um artigo que mos­trava os efei­tos da super­vi­são nos ganhos de força de homens jovens (Gen­til & Bot­taro, 2010). Foi publi­cado em um dos prin­ci­pais perió­di­cos do Mundo nessa área e teve uma exce­lente reper­cus­são no meio aca­dê­mico. Mas, sabem de uma coisa? Ele foi fruto de um aci­dente.

Durante o meu dou­to­rado, eu ofe­reci tur­mas de prá­tica des­por­tiva na Uni­ver­si­dade de Bra­sí­lia nas quais acom­pa­nhá­va­mos 25 alu­nos que rea­li­zam um trei­na­mento padro­ni­zado, ou seja, todos eles rea­li­za­ram exa­ta­mente o mesmo pro­grama de trei­na­mento durante o mesmo período de tempo, na mesma hora do dia.

A padro­ni­za­ção era espe­ci­al­mente impor­tante por­que eu estava ana­li­sando a influên­cia de vari­a­ções gené­ti­cas nos ganhos de força e massa mus­cu­lar, então eu colo­ca­ria todos para trei­na­rem da mesma forma, ana­li­sa­ria seus DNAs e veria se deter­mi­nada vari­a­ção gené­tica influ­en­cia nos resul­ta­dos.

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Eu nor­mal­mente con­tava com cerca de 5 a 6 volun­tá­rios para acom­pa­nha­rem os trei­nos e isso me dava uma rela­ção de um pro­fes­sor para cada 3–5 alu­nos. Nesse modelo de treino, os pra­ti­can­tes vinham ganhando cerca 12% de força nos exten­so­res de joe­lho.

No entanto, houve um semes­tre em que não recru­ta­mos volun­tá­rios e um pro­fes­sor teve que cui­dar da turma inteira, ou seja, ser res­pon­sá­vel pela parte admi­nis­tra­tiva (arru­mar sala, con­tro­lar frequên­cia, obser­var manu­ten­ção) e tam­bém pela parte téc­nica (exe­cu­ção dos exer­cí­cios, sele­ção da carga).

Quando ana­li­sa­mos os dados, obser­va­mos que os ganhos de força nos exten­so­res de joe­lhos não foram sig­ni­fi­ca­ti­vos para o grupo que tinha ape­nas um pro­fes­sor em sala! Ou seja, o mesmo treino, rea­li­zado no mesmo local, com os mes­mos equi­pa­men­tos pro­du­ziu resul­ta­dos dife­ren­tes, sim­ples­mente por­que a super­vi­são foi dife­rente.

 

O meio como grande responsável pelas mudanças

Outro impacto impor­tante para minha pos­tura como pro­fes­sor veio das minhas pes­qui­sas sobre gené­tica.

Sabe­mos que, se eu empre­gar o mesmo pro­to­colo de treino em várias pes­soas, haverá os que terão óti­mos resul­ta­dos, os que terão resul­ta­dos medi­a­nos e os que não terão resul­tado algum! Como expli­car isso? Gené­tica?!

Então fomos ao tra­ba­lho e publi­ca­mos alguns arti­gos sobre o tema. Eu até apa­re­cei no “Mapa Gené­tico Humano da Per­for­mance” (Bray et al., 2009) que era publi­cado anu­al­mente por um grupo de reno­ma­dos pes­qui­sa­do­res!

Mas depois de muito tempo, muito esforço e muito dinheiro empre­gado, des­co­bri­mos uma coisa: no final das con­tas, as vari­a­ções gené­ti­cas expli­cam rela­ti­va­mente pouco das res­pos­tas ao trei­na­mento, ou seja, a gené­tica não é a grande res­pon­sá­vel por expli­car a vari­a­ção dos resul­ta­dos obti­dos por uma pes­soa.

Ou seja, o que você faz é que vai deter­mi­nar a maior parte dos que você é! E, mais ainda, os seus hábi­tos influ­en­ci­a­rão a expres­são dos seus genes.

Por exem­plo, você pode até ter uma vari­a­ção gené­tica que possa favo­re­cer o ganho de gor­dura, mas se você tiver uma ali­men­ta­ção ade­quada e pra­ti­car exer­cí­cios de maneira cor­reta, esse gene não se mani­fes­tará.

Mais ainda, você pode pro­mo­ver alte­ra­ções que silen­ciam esse gene e que serão trans­mi­ti­das para suas gera­ções futu­ras (Young­son & Mor­ris, 2013; Mar­tin et al., 2013)!

Isso mesmo, você pode mudar sua his­tó­ria e a das suas gera­ções seguin­tes! É o que se chama atu­al­mente de “Epi­ge­né­tica”.

epigenética - sejamos professores

 

O que isso nos ensina sobre a nossa atuação?

Isso nos ensina que, de maneira geral, uma pes­soa é res­pon­sá­vel pelo seu des­tino e que o pro­fes­sor é res­pon­sá­vel por aju­dar a pes­soa nesse pro­cesso!

O pri­meiro estudo que citei (Gen­til & Bot­taro, 2010) nos ensina que um trei­na­mento não pre­cisa ser ape­nas bem dese­nhado, ele pre­cisa ser bem imple­men­tado. De nada adi­anta um treino ser bem feito no papel se, na prá­tica, ele não é bem rea­li­zado.

E para isso acon­te­cer, o pra­ti­cante pre­cisa ser ensi­nado, pre­cisa enten­der o que fazer, por que fazer e como fazer. E, como ele é leigo na mai­o­ria dos casos, não se pode espe­rar que saiba como trei­nar e nem ao menos que valo­rize o papel da ori­en­ta­ção.

Cabe ao pro­fes­sor exer­cer seu papel e ensi­nar tudo isso. E isso não envolve ape­nas “o que” ensi­nar. Isso envolve o “como ensi­nar”.

Tanto que ao falar nas minhas aulas sobre mudan­ças de para­dig­mas, a imensa mai­o­ria com­pre­ende as ideias, mas o deses­pero que vejo nos olhos das pes­soas é “como eu vou pas­sar isso para os alu­nos?”

Então, por medo do con­flito, aca­bam per­ma­ne­cendo com prá­ti­cas com­pro­va­da­mente ine­fi­ci­en­tes ou mesmo abrem mão de exer­cer seu papel de edu­ca­dor.

Alguns dizem que é difí­cil fazer isso por­que a soci­e­dade não nos valo­riza. Aqui há um para­lelo inte­res­sante com o pro­fes­sor que tra­ba­lha com cri­an­ças.

Vamos pen­sar em uma cri­ança que recebe um novo brin­quedo, extre­ma­mente sofis­ti­cado. Se ela não for ensi­nada a usá-lo ade­qua­da­mente, ela sim­ples­mente pode usá-lo para gol­pear ou arre­messá-lo con­tra seus cole­gas.

Ou seja, um objeto com amplas pos­si­bi­li­da­des foi usado de uma maneira limi­tada e por vezes des­tru­tiva. De quem é a culpa? É da cri­ança por não saber a com­ple­xi­dade do brin­quedo e não saber usá-lo ade­qua­da­mente? Não. A culpa é de quem entre­gou o objeto e não trans­mi­tiu as infor­ma­ções neces­sá­rias.

Afi­nal, quem tem a obri­ga­ção de trans­mi­tir o valor agre­gado é quem detém o conhe­ci­mento. Por­tanto, algo só será valo­ri­zado se hou­ver as expli­ca­ções neces­sá­rias o acom­pa­nhando.

E os estu­dos sobre gené­tica?

Os estu­dos sobre gené­tica mos­tram que as pes­soas podem ser o que dese­ja­rem, ou seja, as suas ati­tu­des são em grande parte res­pon­sá­veis pelo que você é! Óbvio que exis­tem casos raros de muta­ções gené­ti­cas deter­mi­nan­tes, mas são casos raros.

Ao mesmo tempo que essas des­co­ber­tas frus­tra­ram milha­res de pes­qui­sa­do­res que pas­sa­ram anos nas ban­ca­das de bio­tec­no­lo­gia (como eu), tam­bém trou­xe­ram novo ânimo às pes­soas que acre­di­tam no poder de escre­ver­mos nossa his­tó­ria (como eu)!

Mas aí vol­ta­mos ao que foi falado antes. Nem todas as pes­soas pos­suem o conhe­ci­mento neces­sá­rio para escre­ver sua his­tó­ria, por­tanto, elas pre­ci­sam ser ensi­na­das e edu­ca­das.

E aqui está o nosso papel como pro­fes­so­res de Edu­ca­ção Física: nós somos res­pon­sá­veis por melho­rar a vida delas, dando as con­di­ções e fer­ra­men­tas neces­sá­rias para pro­mo­ve­rem as mudan­ças.

Nos­sos alu­nos não devem rece­ber trei­nos ou inter­ven­ções, eles devem rece­ber ensi­na­men­tos para que con­si­gam com­pre­en­der e par­ti­ci­par ati­va­mente do pro­cesso!

Ati­tu­des e mudan­ças de com­por­ta­mento são as cha­ves de tudo!

As rea­ções fisi­o­ló­gi­cas ou os mode­los bio­me­câ­ni­cos são essen­ci­ais para enten­der­mos par­tes do pro­cesso, mas na prá­tica, o sim­ples conhe­ci­mento delas não deter­mina os resul­ta­dos, pois rea­ções fisi­o­ló­gi­cas ou mode­los bio­me­câ­ni­cos não exis­tem de maneira inde­pen­dente do ser humano onde ocor­rem.

Teo­rias podem fazer muito sen­tido no papel, mas trans­for­mar o que está no papel em rea­li­dade é um ponto cru­cial, e a arte de fazer isso vem sendo pouco valo­ri­zada. Por­tanto, ESTUDEM MUITO, mas tam­bém ENSINEM MUITO!

Pro­fes­so­res de Edu­ca­ção Física, vamos assu­mir o nosso papel na soci­e­dade. A soci­e­dade pre­cisa de nós, mas não muda­re­mos a nossa situ­a­ção e tam­pouco muda­re­mos o mundo se ficar­mos de bra­ços cru­za­dos recla­mando ou acei­tando exe­cu­tar ape­nas uma parte ínfima do que deve­ria ser nosso papel.

Não seja­mos edu­ca­do­res físi­cos, não seja­mos ins­tru­to­res, não seja­mos ven­de­do­res, não seja­mos ape­nas pro­fis­si­o­nais de Edu­ca­ção Física… Seja­mos pro­fes­so­res! E aí muda­re­mos o mundo.


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Referências
  1. Mar­tin SL, Hardy TM, Tol­lefs­bol TO. Medi­ci­nal Che­mis­try of the Epi­ge­ne­tic Diet and Calo­ric Res­tric­tion. Curr Med Chem. 2013 Jul 24. [Epub ahead of print]
  2. Young­son NA, Mor­ris MJ. What obe­sity rese­arch tells us about epi­ge­ne­tic mecha­nisms. Phi­los Trans R Soc Lond B Biol Sci. 2013 Jan 5;368(1609):20110337. doi: 10.1098/rstb.2011.0337.
  3. Gen­til P, Bot­taro M. Influ­ence of super­vi­sion ratio on mus­cle adap­ta­ti­ons to resis­tance trai­ning in non­trai­ned sub­jects. J Strength Cond Res. 2010 Mar;24(3):639–43.
  4. Bray MS, Hag­berg JM, Pérusse L, Ran­ki­nen T, Roth SM, Wol­farth B, Bou­chard C. The human gene map for per­for­mance and health-rela­ted fit­ness phe­noty­pes: the 2006–2007 update. Med Sci Sports Exerc. 2009 Jan;41(1):35–73

Paulo Gentil
Doutor em Ciências da Saúde. Autor dos livros "Emagrecimento: Quebrando Mitos e Mudando Paradigmas" e "Bases Científicas do Treinamento de Hipertrofia".

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