Cena do filme "Titanic", de Steven Spielberg. O violino.

Cale a boca e seja paciente

Em Consciência por Mark MansonComentário

Lem­bra daquela parte do filme Tita­nic, onde aque­les dois caras estão tre­mendo no meio da noite e eles vêem o ice­berg e então come­çam a sur­tar e cha­mam o tenente, gri­tando: “OH MEU DEUS, UM ICEBERG VEM A MORTE!”, e o tenente enlou­quece e balança o volante para um lado e depois pega aquela coisa que parece um tele­fone e fala com a sala de máqui­nas para que aque­les des­gra­ça­dos pre­gui­ço­sos colo­quem todo o mal­dito navio no sen­tido con­trá­rio, como direito esta segunda, e depois há todos esses caras fedo­ren­tos irlan­de­ses gri­tando e suando e fechando as for­na­lhas, e esses pis­tões gigan­tes­cos do tama­nho da Está­tua da Liber­dade param de repente e a terra treme e, em seguida, eles come­çam a balan­çar no sen­tido con­trá­rio muito rapi­da­mente, bom­be­ando o que eu só posso ima­gi­nar que seja uma hélice de navio do tama­nho da Aus­trá­lia em sen­tido inverso para ten­tar parar esse mal­dito navio enorme e, entre­tanto, os dois caras estão pirando, dizendo “Por que não esta­mos vol­tando? Por que não esta­mos vol­tando, droga!???”, e então BRAAAAAHHHHHHH!!!, o ice­berg começa a rom­per o lado do gigan­tesco navio que está pres­tes a virar e há gelo pul­ve­ri­zando os pei­tos de Kate Wins­let como num pornô de 1912 que nunca foi pro­du­zido, e Leo­nardo DiCa­prio parece ter o que, uns 14 anos?

Lem­bra dessa parte do filme?

Então, sim, isso é basi­ca­mente como tudo na vida fun­ci­ona.

Não, é sério. Eu conheci um cara certa vez. Ele havia sido obeso toda a sua vida. Sem­pre o cara gordo. O Sr. Gor­di­nho. Mas em seguida, nos seus 30 anos, depois de um ano de exer­cí­cio obses­sivo, ele per­deu mais de 45 qui­los. E ele não ape­nas ficou magro, mas ficou um cara sexy. As mulhe­res esta­vam sem­pre per­gun­tando sobre ele.

Exceto que, e aqui está o lance, em sua cabeça ele ainda era o mesmo Sr. Gor­di­nho. Ele ainda tinha ver­go­nha de seu corpo e de sua apa­rên­cia, e cada vez que ele se olhava no espe­lho a luz se cur­vava de forma a sem­pre fazê-lo pare­cer flá­cido e insu­fi­ci­ente, e assim, ape­sar de seu bíceps ras­gado e seus bri­lhan­tes novos pei­to­rais, ele não pode­ria ima­gi­nar sequer daqui um milhão de anos que alguém tivesse qual­quer tipo de inte­resse sexual por ele.

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Bro, não há como, há muita gor­dura na parte infe­rior de meus bíceps, isso está me matando…

Sua per­cep­ção de si mesmo era como o Tita­nic: ele girou o volante todo para um lado e colo­cou os pis­tões em sen­tido inverso, mas a coisa foi quase virando. E, emo­ci­o­nal­mente, ele ainda aca­bou batendo no ice­berg.

Você vê isso o tempo todo. Pes­soas que cres­ce­ram pobres e tra­ba­lha­ram e se tor­na­ram um sucesso con­ti­nuam agindo como se não tives­sem dinheiro, por­que elas ainda acre­di­tam em alguma pro­funda parte escura de si mes­mas, em que o dinheiro não é real, em que elas são uma fraude, que é tudo falso e uma piada, e um dia tudo vai desa­pa­re­cer.

Pes­soas que cres­ce­ram sendo víti­mas de bullying e se tor­na­ram as mais inte­li­gen­tes, mais boni­tas e mais inte­res­san­tes na festa de Natal da empresa, ainda abri­gam essa enorme sen­sa­ção de que nin­guém real­mente gosta delas, que é tudo falso e irreal e não con­quis­tado e nem mesmo mere­cido, e que, no final, todo mundo vai aca­bar as machu­cando. Então elas não dei­xam nin­guém che­gar perto de si mes­mas. Não importa o quão ama­das são, elas não podem, nunca, dei­xar que alguém che­gue muito perto.

Pes­soas que cres­ce­ram pen­sando que eram estú­pi­das, mas de repente aca­ba­ram obtendo um PhD em astro­qui­mi­o­bi­o­fí­sica mole­cu­lar, ainda sen­tem que têm de pro­var a si e ao mundo, mais e mais, que não podem estar erra­das sobre qual­quer coisa, sem­pre, que qual­quer sinal de dúvida em outros é um sinal secreto de seu riso inte­rior, que o mais sim­ples dos erros ou uma má deci­são vai tra­zer para baixo toda a sua vida, como num House of Cards.

Isso é ser humano. Todos nós temos essa grande inér­cia psi­co­ló­gica interna em nós. Exter­na­mente, pode­mos ser esses ágeis e diver­ti­dos falan­tes. Mas inter­na­mente, psi­co­lo­gi­ca­mente, somos todos estes navios a vapor gigan­tes­cos que levam um tempo deses­pe­ra­dor ape­nas para virar o sufi­ci­ente, de modo que não bata­mos em um ice­berg.

Isto é por­que nos­sas men­tes são essen­ci­al­mente acu­mu­la­ções de hábi­tos. Todos nós temos hábi­tos físi­cos, como esco­var os den­tes todos os dias ou esco­var o pelo do gato. Mas tam­bém temos hábi­tos men­tais — pre­con­cei­tos e este­reó­ti­pos que regu­lar­mente caem sobre nós, ves­tindo e resis­tindo a expli­ca­ções para as difi­cul­da­des do mundo, pres­su­pos­tos que nos man­tém num con­ser­va­do­rismo psi­co­ló­gico.

Você enten­deu o ponto. Con­ta­mos com esses hábi­tos men­tais, assim como nós depen­de­mos de hábi­tos físi­cos — eles clas­si­fi­cam e reor­ga­ni­zam o mundo para nós sem ter­mos que gas­tar qual­quer esforço cons­ci­ente.

Exis­tem, natu­ral­mente, hábi­tos emo­ci­o­nais tam­bém. Sua rea­ção padrão aos pro­ble­mas podem ser raiva ou tris­teza ou resig­na­ção. Tal­vez sua mãe neu­ró­tica tenha con­di­ci­o­nado você a se sen­tir cul­pado por cada coisa que nunca dá errado na vida dela ou de alguém, de modo que você aprende, ao longo dos anos, a acre­di­tar sem­pre que você não é bom o sufi­ci­ente. Ou tal­vez, por outro lado, você ado­tou um senso de con­fi­ança e impulso com­pe­ti­tivo mas nunca o dei­xou, mesmo em situ­a­ções em que tal­vez deve­ria.

O ponto é: você é basi­ca­mente esta máquina de hábi­tos. E esses hábi­tos — tam­bém cha­ma­das de sua iden­ti­dade — foram cons­truí­das ao longo de déca­das de vida e de res­pi­ra­ção, risos e amo­res, suces­sos e falhas; e, ao longo dos anos, eles cons­truí­ram um cru­zeiro de velo­ci­dade de 40 nós ou menos, no con­ge­la­dor Atlân­tico. E se você qui­ser mudá-los — isto é, mudar a sua iden­ti­dade, como você per­cebe a si mesmo ou como você se adapta ao mundo -, bem, é melhor você levar com força esse volante para o lado e estar pronto para bater num par de ice­bergs, por­que os navios deste tama­nho não viram tão bem.

A vida não é como um Smart Car, com o qual você pode levá-lo em mar­cha à ré e virar sobre uma cal­çada coberta de pedes­tres quando qui­ser. Há milha­res de tone­la­das de carga emo­ci­o­nal e psi­co­ló­gica que estão sendo trans­por­ta­das atra­vés dos vas­tos oce­a­nos de seu incons­ci­ente. Tenha um pouco de paci­ên­cia, seu idi­ota.

Às vezes recebo e-mails de jovens de esco­las ou de facul­da­des, que que­rem recon­fi­gu­rar com­ple­ta­mente toda a sua per­so­na­li­dade e his­tó­ria de vida, como, agora, neste minuto, e eles me per­gun­tam o que fazer, como se livrar da timi­dez fosse uma receita de bolo. E leva toda a força de von­tade que eu possa reu­nir para não escre­ver “CALE A BOCA E SEJA PACIENTE!”, em caps­locks real­mente per­tur­ba­do­ras. Por­que essa é real­mente a única “coisa” que há — paci­ên­cia. A vida se move no ritmo que qui­ser, não ao ritmo que você dese­jar, meu amigo. Bar­rar algum evento extremo e cata­clís­mico da vida — por exem­plo, uma força avas­sa­la­dora que podia mover um navio-tan­que atra­vés do oce­ano — é uma mudança que vem len­ta­mente, mui­tas vezes tão len­ta­mente que nós sequer per­ce­be­mos que está ocor­rendo, da mesma forma que um navio dirige sem­pre tão fir­me­mente que você não tem ideia de que você está mudando de curso.

Às vezes recebo e-mails de mulhe­res recen­te­mente divor­ci­a­das que pas­sa­ram dez ou vinte anos com as mes­mas pes­soas, com­pra­ram sua pri­meira casa com elas, cri­a­ram cri­an­ças e com­par­ti­lha­ram metade de seus momen­tos mais impor­tan­tes na vida com elas, e depois de serem sol­tei­ras durante dois meses, que­rem saber como obter mais deles. Eu per­cebo que essas pes­soas estão pas­sando por muita dor, caso con­trá­rio per­ce­be­riam o quão abso­lu­ta­mente irra­ci­o­nais e irre­a­lis­tas estão sendo, mas o fato da ques­tão é que você estava nave­gando na mesma dire­ção com uma pes­soa por muito, muito tempo, e mui­tos de seus hábi­tos e, por­tanto, da sua iden­ti­dade, estão agora entre­la­ça­dos com essa pes­soa. É pre­ciso um longo tempo para virar-se e par­tir para novas águas.

Às vezes recebo e-mails de pes­soas que que­rem se tor­nar escri­to­res ou ini­ciar um negó­cio on-line e eles que­rem saber QUAL É AQUELA COISA que eu fiz que me aju­dou a me tor­nar bem-suce­dido ou con­se­guir x-y-z, e eles que­rem saber agora, para que eles pos­sam ape­nas copiar e dar um Ctrl+V defi­ni­tivo em um docu­mento do Word e boom — é a hora da mar­ga­rita na praia. Essas pes­soas, é claro, não está per­se­guindo o sucesso. Elas estão per­se­guindo uma fan­ta­sia. Elas estão per­se­guindo uma visão e um sonho que se des­ti­nam a garan­tir o seu futuro, mas a ajudá-las a esca­par do pre­sente, vivendo como se “ser bem suce­dido” fosse mais fácil ou mais livre de estresse do que ser fra­cas­sado. Alerta de spoi­ler: na mai­o­ria dos casos, não é.

Mas estes são ape­nas os e-mails fáceis. Por­que na ver­dade há ape­nas uma coisa que você tem que fazer para tor­nar-se “bem suce­dido” (seja lá o que dia­bos isso sig­ni­fica) — falhar milha­res de vezes. Che­gue com ideias hor­rí­veis e, em seguida, teste-as de qual­quer maneira. Faça isso por muito tempo e nos vere­mos na praia.

Pas­sei anos impul­si­o­nando minha sala de máqui­nas e enfren­tando meus pró­prios ice­bergs pes­so­ais sem afun­dar até apren­der a fazer isso do jeito certo. E esse é real­mente o único molho secreto se hou­ver algum — estar dis­posto a tra­çar o seu pró­prio cami­nho, inde­pen­den­te­mente do medo ine­vi­tá­vel.

E tal­vez seja por isso que esta­mos com tanto medo, por­que nós sabe­mos que, uma vez que tra­çar­mos esse curso e ate­ar­mos fogo nes­sas for­na­lhas, será muito difí­cil mudar as coi­sas, que é tão difí­cil de se mover e mudar e temos medo que pos­sa­mos aca­bar como a menina rica e mimada, enca­lha­dos no Atlân­tico gelado, gri­tando: “Jack! Jack!”, mesmo que hou­vesse espaço total para Jack naquele pedaço de com­pen­sado de madeira, o cara que tinha cla­ra­mente algum com­plexo de már­tir e que­ria sen­tir como se esti­vesse mor­rendo por ela, mor­rendo por algo além de seus pró­prios dese­jos egoís­tas, que, iro­ni­ca­mente, ainda é mor­rer por seus pró­prios dese­jos egoís­tas, imbe­cil.

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Enfim… onde eu estava?

Ah, sim, mudar o curso é difí­cil e isso nos assusta assim que nós olha­mos ao redor e ten­ta­mos copiar os cami­nhos que outras pes­soas toma­ram. Mas isso nunca fun­ci­ona bem por­que as con­di­ções do mar estão sem­pre mudando e as águas cal­mas de ontem são os ice­bergs de hoje e o céu de um homem é o inferno de outro homem e yada yada yada.

Eu estive pas­sando por algu­mas bas­tan­tes gran­des tran­si­ções da vida recen­te­mente. Nos últi­mos três anos, eu fui de sol­tei­rão, a quem a vida era um pro­cesso sem fim de encon­trar o pós-festa, a ter uma noiva e delí­rios de gran­deza de casas de três quar­tos e cri­an­ças.

Eu fui de pequeno e bem-suce­dido blo­gueiro arro­gante que ven­deu um monte de merda ale­a­tó­ria para sobre­vi­ver, e me tor­nei um escri­tor legí­timo que está sendo pago por agen­tes e edi­to­res e terá um livro de boa-fé nas pra­te­lei­ras das lojas no pró­ximo ano, e você pode acre­di­tar, talk shows vão ter que atu­rar essa merda em algum momento tam­bém.

Eu fui de via­jante pelo mundo nômade, vivendo aven­tu­ras em luga­res novos a cada pou­cos meses, a me esta­be­le­cer defi­nindo raí­zes para mim, esco­lhendo um país, uma cul­tura e uma comu­ni­dade.

Estas são todas gran­des tran­si­ções, boas mudan­ças que vêm para uma vida que está avan­çando len­ta­mente seu cami­nho à sua pró­xima fase.

Mas as tran­si­ções da vida, mesmo quando boas, são sem­pre difí­ceis, e elas estão sem­pre ocor­rendo lenta e gra­du­al­mente. Houve momen­tos em que me senti per­dido, como se já não fosse a mesma pes­soa, uma vez que eu era, mas tam­bém não tinha cer­teza da pes­soa que estava me tor­nando. Houve momen­tos em que me senti em con­flito e con­fuso, lutando por um pas­sado pró­prio que eu sabia que nunca iria ver nova­mente, enquanto aguar­dava ansi­o­sa­mente um futuro pró­prio que apa­ren­te­mente nunca che­ga­ria. Velhos hábi­tos, bons e maus, têm caído no esque­ci­mento, enquanto eu pegava bons e maus hábi­tos para pre­en­cher seu espaço.

Este é o meu navio a vapor, len­ta­mente, trans­for­mando-se meca­ni­ca­mente, virando para um novo hori­zonte, uma estra­nha tra­je­tó­ria ainda cal­mante.

E esta é a vida. Isto é parte do negó­cio. O uni­verso diz: “Ei, adi­vi­nhe? Você come­çou a exis­tir!” E nós dize­mos: “Puta merda! Isso é ótimo!” Não per­ce­bendo que a exis­tên­cia é, por defi­ni­ção, uma incur­são impi­e­dosa e sem fim para o des­co­nhe­cido.

Seria fácil para mim dizer: “Eu quero a res­posta AGORA! Eu quero saber como deve ser minha vida e como ela será! Eu quero saber o que devo fazer, como devo me sen­tir AGORA!” Mas eu tenho vivido tempo sufi­ci­ente e me danado o sufi­ci­ente para saber que isso não melhora as coi­sas. Na ver­dade, ape­nas piora.

Nesse meio tempo, eu con­ti­nuo ten­tando coi­sas novas e acei­tando o que for que eu sinta sobre elas, tanto sen­ti­men­tos bons ou ruins, tudo ao mesmo tempo, con­fi­ando que um dia che­ga­rei em novas águas enso­la­ra­das que eu ama­rei, assim como eu amava as de antes.

Uma boa vida não é uma vida sem pro­ble­mas. Uma boa vida é uma vida com bons pro­ble­mas. E assim, ape­sar da tur­bu­lên­cia das ondas rocho­sas e marés tor­cendo, eu às vezes posso olhar para o cora­ção da minha con­fu­são e as ten­sões cru­za­das de ale­gria e tris­teza, e sor­rir e ser grato por estar tudo lá.


Artigo tra­du­zido por Alys­son Augusto e ori­gi­nal­mente publi­cado no site do autor.


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