Artigo traduzido por Igo Araujo Santos para Ano Zero (texto original).


Esquisitice é legal. Nos destaca e nos permite ser muito diferentes do resto do mundo, ainda que inerentemente os mesmos. Humanos tendem a esquecer que o que nos faz estranhos são as coisas pelas quais somos apaixonados.

E esquecemos que essas paixões nos permitem sermos incríveis no que quer que façamos, seja a paixão por ler romances, jogar xadrez ou escrever rock operas.

Uma característica humana, herdada de nossos antepassados, é que aprendemos por meio da imitação. Nós somos assim e possivelmente sempre seremos. Afinal, é a maneira mais certa de aperfeiçoar uma técnica e aprender o básico de qualquer coisa.

Mas o problema com isso é que aprendemos quem “devemos ser” através da imitação também. E assim aprendemos a ser algo diferente de nós mesmos. Nós olhamos para pessoas bem-sucedidas, aquelas que jogam pelas regras da sociedade, e começamos a cortar partes de nossas vidas que não se correspondem às características delas.

E então nós pensamos que não podemos continuar ouvindo punk rock ou escrevendo softwares livres se quisermos nos tornar funcionários do mês ou enriquecer. Ou que se realmente quisermos seguir uma carreira criativa, temos que nos encaixar no que a indústria de entretenimento para as massas está fazendo de mais popular.

Seguindo essa estratégia da imitação, nós não podemos ser nada além da imagem de um empregado ou empresário ou artista com quem as outras pessoas querem trabalhar.

Nós repetimos isso para nós mesmos, consciente ou inconscientemente, e começamos a nos sentir envergonhados pelo que éramos antes. É assim que acabamos confinados em uma caixinha de merda.

Mas quando éramos crianças, não era assim. Quando você é criança, você deixa a maluquice correr solta. Você corre vestido numa armadura rosa de stormtrooper, aceitando tudo a seu respeito, completamente.

Porém, quando você cresce, você aprende a colocar a maluquice de lado, arranjar um lugar para trancá-la e assim esquecê-la.

Todos passamos por isso. Nossas paixões pararam de ser importantes para nós.

Nós aprendemos a não ser esquisitos. Uma coisa horrível de se fazer.

Criatividade sempre importará

Quando você tenta resolver um problema ou encara um desafio de seu próprio ponto de vista, usando sua esquisitice nata e sua personalidade que o distingue dos outros que não vivem na sua cabeça, você alcançará a criatividade.

Nenhuma ideia é absolutamente original, mas uma boa ideia é sempre uma combinação criativa de várias outras que foram misturadas juntas, reviradas do avesso e reinventadas.

Quando você tenta acompanhar o que acha ser o pensamento dominante, como o do colega de trabalho no cubículo ao lado que sempre diz e faz a coisa certa, você nunca será capaz de abraçar a genuína criatividade.

As melhores soluções, ideias e produtos não vêm do pensamento convencional. Vêm de um redemoinho criativo que apenas a absoluta empolgação do esquisito pode proporcionar. É isso que você tem que nutrir. Se você impedir isso, estará suprimindo qualquer chance de ser notável.

Esconder-se de si mesmo vai doer

Se você tentar e se transformar num estranho, alguém que você não reconhece quando se olha no espelho e enxerga cinza onde havia cores vibrantes, cedo ou tarde isso vai doer. Vai esmagá-lo.

Persistindo nesse caminho, você começará a perder a noção de todo o valor da sua vida e não se sentirá confortável na sua própria pele.

Isso não é jeito de viver. Não é jeito de existir. Quando você começa a perder partes de você que lhe dão vontade de viver, cedo ou tarde essa vontade some.

Eu não quero estar lá quando isso acontecer com você. É triste, é difícil e é doloroso. Esconder-se de si mesmo é o caminho mais rápido para aversão a si mesmo, para a auto-piedade. É muito potencial desperdiçado.

Não vale a pena se arrepender

Você quer olhar para trás daqui a 30 anos e apontar para todas as vezes em que você se misturou aos outros? Esses são os seus dias de glória, seus melhores momentos? Quando você gasta seu tempo soterrando sua própria personalidade, você encontrará uma vida de arrependimento. E arrependimento afasta as pessoas, dando à amargura o espaço que ela precisa para se mudar e se sentir em casa dentro de você.

O arrependimento que o impede de ter orgulho da vida e mancha suas lembranças faz dos momentos em que você deveria parar e descansar um verdadeiro pesadelo. Esse arrependimento é o que faz tudo o que você conquistou parecer vazio e sem importância, ainda mais se comparado à vida que você sabe que poderia ter vivido se ao menos tivesse relaxado e aproveitado.

Autenticidade conecta as pessoas

Quando você não está tentando se esconder da sua versão verdadeira, as pessoas percebem. Quando você demonstra autenticidade e não uma personalidade forçada, você encontra o caminho para se conectar com outros seres humanos.

Sou um grande fã de colocar todas as cartas na mesa, de permitir que o mundo veja a verdadeira pessoa que você é por dentro, ao invés de uma imagem que você quer projetar.

E não estou dizendo que não finjo um pouquinho também. Tudo que faço é interpretar uma parte da minha personalidade. Mas cada parte é sempre baseada em algo genuíno, algo que vem de mim. Meu pai costumava dizer que achava que eu não tinha uma personalidade.

A verdade é que eu tinha tantas personas diferentes que eu podia escolher entre elas para qualquer situação que enfrentasse. Mas em cada uma delas eu estava conectado com quem eu era de verdade. E isso é autenticidade.

Você precisa ser esquisito para contar uma história

A arte mais antiga que a humanidade criou é a narração de histórias. Nós fazemos isso desde que desenvolvemos a capacidade de falar uns com os outros.

Por que acha que tantos textos antigos ecoam temas familiares a nós? Eles são baseados em histórias virais que contávamos na aurora dos tempos. O fato é que todos nos comunicamos pela arte de compartilhar histórias.

O primeiro cumprimento no trabalho na segunda de manhã, “como foi seu dia?”, é a pergunta padrão porque convida o interlocutor a contar uma história e iniciar uma conversa entre iguais.

Quando você aceita sua esquisitice e sua empolgação, você está pronto para compartilhar histórias pessoais, aquelas que são íntimas para você, aquelas com as quais as pessoas realmente se importam e querem ouvir.

Os grandes criadores eram esquisitos

As pessoas que você admira estão completamente conscientes de suas paixões. Isso é um fato. Elas podem ser empresárias ou fundadoras, desenhistas de HQs ou músicos numa banda de speed rock, tanto faz: todo criador é um esquisito empolgado.

Henry Ford, Michael Bloomberg, Douglas Coupland, Salvador Dali, Gertrude Stein: todas essas pessoas são ou eram apaixonadas. Suas paixões os levaram a fazer coisas que afetaram a minha vida de muitas formas.

Claro, você não precisa ser como eles. Você não tem que ser o fundador de uma empresa ou um artista em tempo integral. Mas você tem que ser cego para ignorar o que eles conquistaram e o que eles puderam conquistar através de suas paixões. É um sinal de que seguir e manter as suas esquisitices é um bom investimento.

No fundo, ninguém se importa

Você ficaria surpreso com o quão receptivas as pessoas podem ser quando estão na presença de alguém um pouquinho diferente. Claro, sempre haverá alguns babacas, mas descobri que a maioria dos humanos são extraordinariamente capazes de demonstrar amor e de serem razoáveis uns com os outros.

Você pode pensar que suas paixões vão isolá-lo, por barreiras entre você e as outras pessoas. Geralmente, não é esse o caso. As pessoas provavelmente acharão as suas paixões interessantes e vão querer aprender mais sobre elas.

Ninguém se importa se você está nos 30 e ainda joga Pokémon. As pessoas podem não entender direito, mas isso não as impedirá de respeitá-lo profissionalmente ou de fazer amizade com você. Ninguém realmente se importa se você é um artista ao invés de um estudante de medicina.

Se ninguém se importa, por que você se importaria?

Quer o meu conselho? Eis o que acho que você deveria fazer.

Vá escrever uma incrível coleção de ficção científica cyberpunk sobre a consciência. Mude-se para a floresta e viva sem eletricidade.

Vá atrás do seu emprego dos sonhos numa firma de advocacia e ouça Misfits quando chegar em casa e tirar o terno.

Colecione bolsas de paetê ou videogames antigos ou canecas com a cara do Christopher Walken.

Arrisque-se. Aceite o que você ama. Desenhe. Escreva. Jogue.

Ou, quer saber?, não faça nada disso! Procure um emprego que você goste e faça você sentir-se bem. Leia cada livro no mundo, faça o que você ama! Agarre as suas paixões.

A vida é curta demais para desperdiçar trancando-se e fingindo que suas paixões não existem. Vá lá fora! Vá! Seja um maldito esquisito!


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escrito por:

Jon Westenberg

Apaixonado pela escrita, criatividade, negócios e tecnologia. É o fundador da Creatomic, uma agência de serviços criativos. Nela, trabalha com startups, empresas, publicações e criativos para atingir o público e se comunicar.