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Seja tão esquisito quanto você quer no fundo ser

Em Consciência por Jon WestenbergComentários

Artigo tra­du­zido por Igo Araujo San­tos para Ano Zero (texto ori­gi­nal).


Esqui­si­tice é legal. Nos des­taca e nos per­mite ser muito dife­ren­tes do resto do mundo, ainda que ine­ren­te­mente os mes­mos. Huma­nos ten­dem a esque­cer que o que nos faz estra­nhos são as coi­sas pelas quais somos apai­xo­na­dos.

E esque­ce­mos que essas pai­xões nos per­mi­tem ser­mos incrí­veis no que quer que faça­mos, seja a pai­xão por ler roman­ces, jogar xadrez ou escre­ver rock ope­ras.

Uma carac­te­rís­tica humana, her­dada de nos­sos ante­pas­sa­dos, é que apren­de­mos por meio da imi­ta­ção. Nós somos assim e pos­si­vel­mente sem­pre sere­mos. Afi­nal, é a maneira mais certa de aper­fei­çoar uma téc­nica e apren­der o básico de qual­quer coisa.

Mas o pro­blema com isso é que apren­de­mos quem “deve­mos ser” atra­vés da imi­ta­ção tam­bém. E assim apren­de­mos a ser algo dife­rente de nós mes­mos. Nós olha­mos para pes­soas bem-suce­di­das, aque­las que jogam pelas regras da soci­e­dade, e come­ça­mos a cor­tar par­tes de nos­sas vidas que não se cor­res­pon­dem às carac­te­rís­ti­cas delas.

E então nós pen­sa­mos que não pode­mos con­ti­nuar ouvindo punk rock ou escre­vendo softwa­res livres se qui­ser­mos nos tor­nar fun­ci­o­ná­rios do mês ou enri­que­cer. Ou que se real­mente qui­ser­mos seguir uma car­reira cri­a­tiva, temos que nos encai­xar no que a indús­tria de entre­te­ni­mento para as mas­sas está fazendo de mais popu­lar.

Seguindo essa estra­té­gia da imi­ta­ção, nós não pode­mos ser nada além da ima­gem de um empre­gado ou empre­sá­rio ou artista com quem as outras pes­soas que­rem tra­ba­lhar.

Nós repe­ti­mos isso para nós mes­mos, cons­ci­ente ou incons­ci­en­te­mente, e come­ça­mos a nos sen­tir enver­go­nha­dos pelo que éra­mos antes. É assim que aca­ba­mos con­fi­na­dos em uma cai­xi­nha de merda.

Mas quando éra­mos cri­an­ças, não era assim. Quando você é cri­ança, você deixa a malu­quice cor­rer solta. Você corre ves­tido numa arma­dura rosa de storm­tro­o­per, acei­tando tudo a seu res­peito, com­ple­ta­mente.

Porém, quando você cresce, você aprende a colo­car a malu­quice de lado, arran­jar um lugar para trancá-la e assim esquecê-la.

Todos pas­sa­mos por isso. Nos­sas pai­xões para­ram de ser impor­tan­tes para nós.

Nós apren­de­mos a não ser esqui­si­tos. Uma coisa hor­rí­vel de se fazer.

Criatividade sempre importará

Quando você tenta resol­ver um pro­blema ou encara um desa­fio de seu pró­prio ponto de vista, usando sua esqui­si­tice nata e sua per­so­na­li­dade que o dis­tin­gue dos outros que não vivem na sua cabeça, você alcan­çará a cri­a­ti­vi­dade.

Nenhuma ideia é abso­lu­ta­mente ori­gi­nal, mas uma boa ideia é sem­pre uma com­bi­na­ção cri­a­tiva de várias outras que foram mis­tu­ra­das jun­tas, revi­ra­das do avesso e rein­ven­ta­das.

Quando você tenta acom­pa­nhar o que acha ser o pen­sa­mento domi­nante, como o do colega de tra­ba­lho no cubí­culo ao lado que sem­pre diz e faz a coisa certa, você nunca será capaz de abra­çar a genuína cri­a­ti­vi­dade.

As melho­res solu­ções, ideias e pro­du­tos não vêm do pen­sa­mento con­ven­ci­o­nal. Vêm de um rede­moi­nho cri­a­tivo que ape­nas a abso­luta empol­ga­ção do esqui­sito pode pro­por­ci­o­nar. É isso que você tem que nutrir. Se você impe­dir isso, estará supri­mindo qual­quer chance de ser notá­vel.

Esconder-se de si mesmo vai doer

Se você ten­tar e se trans­for­mar num estra­nho, alguém que você não reco­nhece quando se olha no espe­lho e enxerga cinza onde havia cores vibran­tes, cedo ou tarde isso vai doer. Vai esmagá-lo.

Per­sis­tindo nesse cami­nho, você come­çará a per­der a noção de todo o valor da sua vida e não se sen­tirá con­for­tá­vel na sua pró­pria pele.

Isso não é jeito de viver. Não é jeito de exis­tir. Quando você começa a per­der par­tes de você que lhe dão von­tade de viver, cedo ou tarde essa von­tade some.

Eu não quero estar lá quando isso acon­te­cer com você. É triste, é difí­cil e é dolo­roso. Escon­der-se de si mesmo é o cami­nho mais rápido para aver­são a si mesmo, para a auto-pie­dade. É muito poten­cial des­per­di­çado.

Não vale a pena se arrepender

Você quer olhar para trás daqui a 30 anos e apon­tar para todas as vezes em que você se mis­tu­rou aos outros? Esses são os seus dias de gló­ria, seus melho­res momen­tos? Quando você gasta seu tempo soter­rando sua pró­pria per­so­na­li­dade, você encon­trará uma vida de arre­pen­di­mento. E arre­pen­di­mento afasta as pes­soas, dando à amar­gura o espaço que ela pre­cisa para se mudar e se sen­tir em casa den­tro de você.

O arre­pen­di­mento que o impede de ter orgu­lho da vida e man­cha suas lem­bran­ças faz dos momen­tos em que você deve­ria parar e des­can­sar um ver­da­deiro pesa­delo. Esse arre­pen­di­mento é o que faz tudo o que você con­quis­tou pare­cer vazio e sem impor­tân­cia, ainda mais se com­pa­rado à vida que você sabe que pode­ria ter vivido se ao menos tivesse rela­xado e apro­vei­tado.

Autenticidade conecta as pessoas

Quando você não está ten­tando se escon­der da sua ver­são ver­da­deira, as pes­soas per­ce­bem. Quando você demons­tra auten­ti­ci­dade e não uma per­so­na­li­dade for­çada, você encon­tra o cami­nho para se conec­tar com outros seres huma­nos.

Sou um grande fã de colo­car todas as car­tas na mesa, de per­mi­tir que o mundo veja a ver­da­deira pes­soa que você é por den­tro, ao invés de uma ima­gem que você quer pro­je­tar.

E não estou dizendo que não finjo um pou­qui­nho tam­bém. Tudo que faço é inter­pre­tar uma parte da minha per­so­na­li­dade. Mas cada parte é sem­pre base­ada em algo genuíno, algo que vem de mim. Meu pai cos­tu­mava dizer que achava que eu não tinha uma per­so­na­li­dade.

A ver­dade é que eu tinha tan­tas per­so­nas dife­ren­tes que eu podia esco­lher entre elas para qual­quer situ­a­ção que enfren­tasse. Mas em cada uma delas eu estava conec­tado com quem eu era de ver­dade. E isso é auten­ti­ci­dade.

Você precisa ser esquisito para contar uma história

A arte mais antiga que a huma­ni­dade criou é a nar­ra­ção de his­tó­rias. Nós faze­mos isso desde que desen­vol­ve­mos a capa­ci­dade de falar uns com os outros.

Por que acha que tan­tos tex­tos anti­gos ecoam temas fami­li­a­res a nós? Eles são base­a­dos em his­tó­rias virais que con­tá­va­mos na aurora dos tem­pos. O fato é que todos nos comu­ni­ca­mos pela arte de com­par­ti­lhar his­tó­rias.

O pri­meiro cum­pri­mento no tra­ba­lho na segunda de manhã, “como foi seu dia?”, é a per­gunta padrão por­que con­vida o inter­lo­cu­tor a con­tar uma his­tó­ria e ini­ciar uma con­versa entre iguais.

Quando você aceita sua esqui­si­tice e sua empol­ga­ção, você está pronto para com­par­ti­lhar his­tó­rias pes­so­ais, aque­las que são ínti­mas para você, aque­las com as quais as pes­soas real­mente se impor­tam e que­rem ouvir.

Os grandes criadores eram esquisitos

As pes­soas que você admira estão com­ple­ta­mente cons­ci­en­tes de suas pai­xões. Isso é um fato. Elas podem ser empre­sá­rias ou fun­da­do­ras, dese­nhis­tas de HQs ou músi­cos numa banda de speed rock, tanto faz: todo cri­a­dor é um esqui­sito empol­gado.

Henry Ford, Michael Blo­om­berg, Dou­glas Cou­pland, Sal­va­dor Dali, Ger­trude Stein: todas essas pes­soas são ou eram apai­xo­na­das. Suas pai­xões os leva­ram a fazer coi­sas que afe­ta­ram a minha vida de mui­tas for­mas.

Claro, você não pre­cisa ser como eles. Você não tem que ser o fun­da­dor de uma empresa ou um artista em tempo inte­gral. Mas você tem que ser cego para igno­rar o que eles con­quis­ta­ram e o que eles pude­ram con­quis­tar atra­vés de suas pai­xões. É um sinal de que seguir e man­ter as suas esqui­si­ti­ces é um bom inves­ti­mento.

No fundo, ninguém se importa

Você fica­ria sur­preso com o quão recep­ti­vas as pes­soas podem ser quando estão na pre­sença de alguém um pou­qui­nho dife­rente. Claro, sem­pre haverá alguns baba­cas, mas des­co­bri que a mai­o­ria dos huma­nos são extra­or­di­na­ri­a­mente capa­zes de demons­trar amor e de serem razoá­veis uns com os outros.

Você pode pen­sar que suas pai­xões vão isolá-lo, por bar­rei­ras entre você e as outras pes­soas. Geral­mente, não é esse o caso. As pes­soas pro­va­vel­mente acha­rão as suas pai­xões inte­res­san­tes e vão que­rer apren­der mais sobre elas.

Nin­guém se importa se você está nos 30 e ainda joga Poké­mon. As pes­soas podem não enten­der direito, mas isso não as impe­dirá de res­peitá-lo pro­fis­si­o­nal­mente ou de fazer ami­zade com você. Nin­guém real­mente se importa se você é um artista ao invés de um estu­dante de medi­cina.

Se nin­guém se importa, por que você se impor­ta­ria?

Quer o meu conselho? Eis o que acho que você deveria fazer.

Vá escre­ver uma incrí­vel cole­ção de fic­ção cien­tí­fica cyber­punk sobre a cons­ci­ên­cia. Mude-se para a flo­resta e viva sem ele­tri­ci­dade.

Vá atrás do seu emprego dos sonhos numa firma de advo­ca­cia e ouça Mis­fits quando che­gar em casa e tirar o terno.

Cole­ci­one bol­sas de paetê ou vide­o­ga­mes anti­gos ou cane­cas com a cara do Chris­topher Wal­ken.

Arris­que-se. Aceite o que você ama. Dese­nhe. Escreva. Jogue.

Ou, quer saber?, não faça nada disso! Pro­cure um emprego que você goste e faça você sen­tir-se bem. Leia cada livro no mundo, faça o que você ama! Agarre as suas pai­xões.

A vida é curta demais para des­per­di­çar tran­cando-se e fin­gindo que suas pai­xões não exis­tem. Vá lá fora! Vá! Seja um mal­dito esqui­sito!


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Jon Westenberg
Apaixonado pela escrita, criatividade, negócios e tecnologia. É o fundador da Creatomic, uma agência de serviços criativos. Nela, trabalha com startups, empresas, publicações e criativos para atingir o público e se comunicar.

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