[Nota do editor: esta é a tradução autorizada do texto original de Tim Urban, publicado no site Wait But Why.]

Qualquer um que tenha lido meus textos sobre Musk está ciente de que não apenas mergulhei nas coisas que ele tem feito: bebi uma grande taça da síntese de seu pensamento nesse processo. Estou realmente envolvido com essa história toda.

Acho que isso é legal, certo? O cara é um gigante industrial revolucionário nos EUA em uma época e que já não deveria haver gigantes industriais revolucionários, impulsionando profundas transformações em grandes e tradicionas indústrias que não deveriam mais ser objeto de qualquer transformação profunda.

Após emergir da grande festa das empresas pontocom da década de 1990 levando 180 milhões de dólares no bolso, ao invés de sentar em sua cadeira de grande investidor escutando propostas de jovens investidores, Musk decidiu começar uma briga com um grupo de lutadores de sumô de 200 quilos: a indústria automobilística, a indústria petrolífera, a indústria aeroespacial, o complexo industrial-militar e as empresa de energia elétrica – e ele pode realmente estar vencendo.

E tudo isso, pelo que parece, com o propósito de dar à nossa espécie um futuro melhor.

Durante o primeiro texto sobre Musk e seus projetos, estabeleci dois objetivos:

1) Entender porque Musk faz o que ele faz.

2) Entender porque Musk é capaz de fazer o que ele faz.

Até agora, gastei a maior parte do tempo no objetivo 1, mas o que realmente tem me intrigado à medida em que penso sobre isso é o objetivo 2. Sou fascinado por aquelas raras personalidades na história humana que conseguem mudar dramaticamente o mundo durante sua breve estadia aqui a Terra, e sempre gostei de estudá-las e ler suas biografias. Essas pessoas sabem algo que não sabemos, e podemos aprender coisas valiosas com elas. Ter acesso a Elon Musk deu-me uma chance única de colocar as mãos em uma dessas pessoas e examiná-la de perto.

Se fosse apenas a riqueza, a inteligência, a ambição ou as boas intenções de Musk que o fizessem alguém tão capaz, então haveria muitos mais Elon Musks por aí. Então há alguma coisa a mais. E, para mim, essa série de textos tornou-se uma missão para descobrir o que é essa coisa.

A boa notícia é que, após um bom tempo pensando e lendo a seu respeito, falando com ele e conversando com membros de sua equipe, eu descobri a resposta. O que por algum tempo era um conjunto desorganizado de fatos, observações e informações começou a tomar a forma de um tema: um tratado sobre aquilo que Musk compartilha com a maioria dos personagens mais dinâmicos da história humana, aquilo que distingue essas raras pessoas de quase todo o resto da humanidade.

À medida em que trabalhei nos textos sobre a Tesla, esse conceito emergiu, e tornou-se claro para mim que essa série precisava de uma pausa para mergulharmos profundamente naquilo que Musk e poucas outras pessoas têm e que as fazem tão excepcionais. O que me deixou empolgado é que se trata de uma coisa acessível a todos nós e que está bem diante de nossos olhos – nós só não conseguimos percebê-la e nos conscientizar dela. Escrever e pensar sobre isso durante todo esse tempo realmente afetou a forma como eu penso a respeito da minha vida, meu futuro e as escolhas que faço. E vou dar o meu melhor neste texto para explicar o que é.


DOIS TIPOS DE GEOLOGIA

Em 1681, o teólogo inglês Thomas Burnet publicou sua obra Sagrada Teoria da Terra, na qual explica como a geologia funcionava. O que aconteceu é que, há uns seis mil anos atrás, a Terra formou-se como uma esfera perfeita com uma superfície habitável e um interior cheio de água. Mas aí, quando a superfície da Terra começou a ficar mais seca, rachaduras foram se fomando, o que liberou a água subterrânea. O resultado foi o Dilúvio descrito na Bíblia, e Noé teve que lidar com um monte de problemas por causa disso. Quando as coisas se acalmaram, a Terra já não era uma esfera perfeita – o grande dilúvio havia distorcido sua superfície, criando montanhas, vales e cavernas, e o subterrâneo ficou cheio de fósseis das vítimas da inundação.

E bingo, Burnet havia matado a charada. O grande enigma da teologia fundamental havia sido, até então, reconciliar a grande quantidade de características da Terra que pareciam muito antigas com a pouca idade que o planeta tinha segundo o relato bíblico. Para teólogos da época, tratava-se do embate entre sua versão da teoria geral da relatividade versus a mecânica quântica, e Burnet surgiu com uma respeitosa teoria das cordas que unificava tudo sob um só teto.

E não foi apenas Burnet. Houve tantas teorias que tentavam reconciliar a geologia terrestre com os versículos da Bíblia que hoje elas tem direito a uma página da Wikipedia com mais de quinze mil palavras para tratar da “Geologia do Dilúvio”.

Mais ou menos na mesma época, outro grupo de pensadores começou a enfrentar seus próprios enigmas geológicos: os cientistas.

Para os teólogos, as regras do jogo eram limitadas a um só dogma: “a Terra começou há seis mil anos atrás e em algum momento houve um grande dilúvio”. Assim, a investigação de seu enigma ocorria dentro desse contexto limitado. Mas os cientistas começaram seu jogo sem nenhuma regra, o seu tabuleiro era um grande espaço em branco no qual qualquer observação ou medição que encontrassem seria bem-vinda.

Nos trezentos anos seguintes, os cientistas elaboraram várias teorias, e quando novas tecnologias permitiam novos tipos de medições, as teorias antigas eram descartadas e substituídas por versões atualizadas. A comunidade científica continuou a surpreender-se a medida em que a idade da Terra foi se revelando cada vez maior. Em 1907 houve um grande avanço quando o cientista norte-americano Bertram Boltwood apresentou a técnica pioneira de calcular a idade das rochas através da datação radiométrica, que localizava nas rochas elementos com um nível conhecido de decaimento radioativo.

A datação radiométrica situou a história da Terra em bilhões de anos atrás, o que possibilitou novos avanços na ciência com a teoria da Deriva Continental, a qual, por sua vez, conduziu à teoria das Placas Tectônicas. O cientistas estavam empolgados.

Enquanto isso, os geólogos do Grande Dilúvio jogavam a partida em condições nada semelhantes. Para eles, qualquer conclusão da comunidade científica era furada porque eles estavam desobedecendo as regras do jogo. A Terra oficialmente tinha menos de seis mil anos de idade. Portanto, se a medição radiométrica informava algo diferente, tratava-se de uma falha de medição e ponto final.

Mas a evidência científica tornou-se cada vez mais convincente, e à medida em que o tempo passava mais e mais geólogos do Grande Dilúvio jogavam a toalha e aceitavam o ponto de vista dos cientistas, admitindo ser possível que suas regras do jogo é que estivessem erradas.

Alguns, porém, continuaram firmes. Regras são regras, e não importa quantas pessoas concordam que a Terra tenha bilhões de anos, no fundo é só uma grande conspiração.

Ainda hoje há muitos geólogos da inundação defendendo sua posição. Recentemente, um autor chamado Tom Vail escreveu um livro chamado Grand Canyon: A Different View, na qual ele expõe que:

“Ao contrário daquilo que é amplamente considerado verdade, a datação radioativa não prova que as rochas do Grand Canyon têm milhões de anos. A grande maioria das camadas sedimentares do Grand Canyon foram depositadas como o resultado do dilúvio global que ocorreu como resultado do Pecado Original no Jardim do Éden.”


 

Se fizéssemos uma pesquisa entre meus leitores, acredito que a esmagadora maioria afirmaria que está do lado dos cientistas, e não dos geólogos do dilúvio. Isso faz sentido. Religiosas ou não, a maioria das pessoas que leem meus textos estão bem informadas e familiarizadas com evidências e a precisão científica. Afinal, sou lembrado disso sempre que cometo um erro em meus texto.

Seja qual for a importância da fé no reino espiritual, a maioria de nós concorda que quando se trata de procurar respostas sobre a idade da Terra, a história da nossa espécie, as causas de um relâmpago ou qualquer fenômeno físico do universo, lógica e informação são ferramentas mais eficientes do que fé e livros religiosos.

Mas, apesar disso, após pensar um bocado sobre isso, cheguei a uma conclusão desagradável:

Quando se trata da forma como pensamos, da forma como tomamos decisões e da forma como levamo nossas vidas, somos muito mais parecidos com os geólogos do dilúvio do que com cientistas.

E qual o segredo do Elon Musk? Ele pensa como um cientista em todas as situações.

HARDWARE E SOFTWARE

A primeira pista para o modo como Musk pensa é a forma super esquisita como ele fala. Por exemplo:

– Criança humana: “Tenho medo do escuro porque é quando todas as coisas que dão medo vem para me pegar e eu não vou ser capaz de perceber elas chegando.”

Criança Elon Musk: “Quando eu era criança, eu tinha muito medo do escuro. Mas então passei a entender que escuridão significa apenas a ausência de fótons com comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. E então pensei “bom, é realmente idiota ter medo da ausência de fótons”. E depois disso deixei de ter medo do escuro”.

Ou:

– Pai humano: “Eu gostaria de trabalhar menos porque meus filhos estão começando a crescer.”

– Pai Elon Musk: “Estou tentando diminuir o ritmo, principalmente porque os trigêmeos estão começando a ganhar consciência. Eles quase tem dois anos.”

Ou:

Humano solteiro: “Eu gostaria de ter uma namorada e não quero estar tão ocupado com meu trabalho que não tenha tempo para ter encontros.”

Elon Musk solteiro: “Eu gostaria de alocar mais tempo para encontros, porém. Eu preciso encontrar uma namorada. É por isso que preciso arranjar só um pouco mais de tempo. Eu acho que talvez trabalhando dez horas por cinco dias na semana. Quanto uma mulher precisa em uma semana? Talvez dez horas? Isso é o mínimo? Eu não sei.”

Chamo isso de PapoMusk. PapoMusk é uma linguagem que descreve os aspectos cotidianos da vida comum exatamente como eles realmente, literalmente, são.

Há muitas situações técnicas em que todos concordamos que o PapoMusk faz muito mais sentido do que nossa linguagem humana normal:

Mas o que faz Musk um sujeito esquisito é que ele pensa sobre a maioria das coisas usando PapoMusk, incluindo muitas áreas nas quais você usualmente não espera encontrar esse tipo de linguagem. Como quando eu lhe perguntei se tinha medo da morte, e ele respondeu que ter filhos o fazia sentir-se mais confortável diante da morte porque “crianças são meio que uma parte de você. Ao menos são metade de você. Eles são metade de você no nível do hardware, e dependendo de quanto tempo você passa com elas, elas são também metade de você no nível do software”.

Quando você olha para crianças, você vê pessoas pequenas, bobinhas e fofas. Quando Musk olha para seus cinco filhos, ele vê cinco de seus computadores favoritos. Quando ele olha para você, ele vê um computador. E quando ele olha no espelho, ele vê um computador: o computador dele. Não é que Musk afirme que seres humanos são apenas computadores – é que ele vê as pessoas como computadores acima de tudo mais que elas possam ser.

E no nível mais literal, Musk está certo sobre seres humanos serem computadores. Em sua definição mais simples, computador é um objeto que armazena e processa informação – algo que o cérebro com certeza faz.

E se por um lado isso não é a forma mais poética de pensar sobre nossas mentes, comecei a acreditar que essa é uma das áreas da vida em que o PapoMusk pode nos servir muito bem – pois pensar no cérebro como um computador força você a considerar a distinção entre nosso hardware e nosso software, uma distinção que frequentemente falhamos em reconhecer.

Para um computador, hardware é definido como “os mecanismos, circuitos e outros componentes físicos”. Então, para um ser humano, isso é o cérebro físico com que ele nasce e todas as suas habilidades que determinam sua inteligência, seus talentos inatos e outras qualidades e deficiências.

O software de um computador é definido como “os programas e outras informações operacionais usadas pelo computador”. Para um ser humano, é as coisas que ele sabe e a forma como pensa – seu sistema de crenças, seus padrões de pensamento e métodos de argumentação. A vida é um fluxo de entrada de informações de todo o tipo que entram no nosso cérebro através dos sentidos, e é o software que filtra, avalia, processa e organiza esse input, finalmente usando-o para gerar um output: a tomada de uma decisão.

O hardware é a bola de argila que nos é entregue quando nascemos. E, claro, nem toda argila é igual – cada cérebro começa como uma combinação única de forças e fraquezas em uma ampla gama de processos e capacidades.

Mas é o software que determina que tipo de ferramenta moldaremos a partir daquela bola de argila.

Quando as pessoas pensam no que faz alguém como Elon Musk tão eficiente no que se propõe a fazer, elas frequentemente se focam no hardware – e o hardware de Musk tem alguns aspectos impressionantes. Mas quanto mais eu aprendo sobre Musk e outras pessoas que parecem ter algum poder sobre-humano (seja Steve Jobs, Albert Einstein, Henry Ford, Genghis Khan, Marie Curie, John Lennon, Ayn Rand ou Louis C.K.) mais me convenço de que é seu software, e não sua inteligência ou talentos adquiridos de nascença, que os faz tão únicos e tão eficientes no que se propõe a fazer.

Então vamos falar sobre software, começando com o do Musk. A medida em que escrevi os outros textos sobre os projetos de Musk, eu analisava tudo o que aprendia sobre ele (as coisas que dizia, as decisões que tomava, as missões que ele assumia e como as enfrentava), pegando pistas de como seu software subjacente funciona.

Eventualmente, as pistas se acumularam e a forma do software começou a se revelar. E a seguir vou explicar como esse software é.

O SOFTWARE DE MUSK

A estrutura do software de Musk começa como o software da maioria de nós, com o que chamaremos a Caixa de Desejos:

Esta caixa contém qualquer coisa na vida quando você deseja, em que a Situação A dá lugar à Situação B.

Situação A é o que está acontecendo agora. E você quer que algo mude para que a Situação B passe a acontecer em seu lugar. Alguns exemplos:

A Caixa de Desejos tem uma parceira, que chamaremos de Caixa da Realidade. Ela contém todas as coisas que são possíveis no mundo real:
Simples assim.

A sobreposição das caixas Desejo e Realidade resulta na Piscina de Metas, onde ficam os seus objetivos:

Então você escolhe uma meta da Piscina de Metas, a coisa que você vai tentar mudar da Situação A para a Situação B.

E como você faz para que algo mude? Você direciona seu poder para esse fim. O poder de uma pessoa pode assumir várias formas: seu tempo, sua energia (mental e física), seus recursos, sua capacidade de persuasão, sua conexão com os outros, etc.

O conceito de “trabalho assalariado” é apenas a Pessoa A usando o poder de seus recursos (um salário) para direcionar o tempo e/ou a energia da Pessoa B para realizar o objetivo da Pessoa A. Já quando a uma celebridade respeitada recomenda publicamente um livro, ela está combinando seu poder de conexão (ela tem um enorme alcance) e seu poder de persuasão (as pessoas confiam nela) e direcionando-os para o objetivo de colocar o livro nas mãos de milhares de pessoas que, de outra forma, nunca teriam tomado conhecimento dele.

Uma vez que certa meta foi selecionada, você sabe para onde direcionar o seu poder. Agora é hora de descobrir a maneira mais eficaz de usar esse poder para gerar o resultado desejado – essa é a sua estratégia:

Simples, certo? E provavelmente não é tão diferente de como você pensa.

Mas o que torna o software de Musk tão eficaz não é a sua estrutura, e sim o fato de que ele o usa como um cientista. Carl Sagan disse: “A ciência é uma forma de pensar muito mais do que um sistema de conhecimento”, e você pode ver Musk aplicar essa maneira de pensar de duas formas principais:

1) Ele constrói cada componente do software, desde o início.

Musk chama isso de “raciocínio dos primeiros princípios”. Vou deixá-lo explicar:

“Eu acho que geralmente o processo de pensamento das pessoas é muito limitado por convenções ou analogias com experiências anteriores. É raro que as pessoas tentem pensar em algo partindo dos primeiros princípios. Elas dirão: “Nós faremos assim porque sempre foi feito assim.” Ou não farão algo porque “bem, ninguém nunca fez isso, então não deve ser bom.” Mas isso é uma maneira ridícula pensar. Você tem que construir o raciocínio desde o início – “dos primeiros princípios” é a frase que é usada na Física. Você olha os fundamentos e constrói o seu raciocínio a partir daí, e então você verá se você tem uma conclusão que funciona ou não funciona, e pode ou não ser diferente do que as pessoas fizeram no passado.”

Na ciência, isso significa começar com aquilo que as evidências nos mostram ser verdade. Um cientista não diz: “nós sabemos que a Terra é plana porque é assim que ela parece ser, o que é intuitivo, e é isso que todos concordam que é verdade”. Um cientista diz: “a parte da Terra que posso ver em qualquer determinado momento parece ser plana, o que ocorre quando se olha para uma pequena parte de muitos objetos de formas diferentes, então não tenho informações suficientes para saber qual é a forma da Terra. Uma hipótese razoável é que a Terra seja plana, mas até que tenhamos ferramentas e técnicas que possam ser usadas para provar ou refutar essa hipótese, essa é uma questão em aberto “.

Um cientista reúne apenas o que sabe ser verdadeiro (os primeiros princípios) e usa-os como as peças de um quebra-cabeça para construir sua conclusão.

Raciocínio dos primeiros princípios é uma coisa difícil de fazer na vida, e Musk é um mestre nisso. O software de nosso cérebro tem quatro grandes centros de tomada de decisão:

1) Preenchimento da Caixa de Desejos;

2) Preenchimento da Caixa da Realidade;

3) Seleção de metas na Piscina de Metas; e

4) Formação de estratégia.

Musk trabalha em cada uma dessas caixas usando o raciocínio de primeiros princípios. Preencher a Caixa de Desejos utilizando os primeiros princípios requer uma compreensão profunda, honesta e independente sobre si mesmo. Preencher a Caixa da Realidade exige a imagem mais desobstruída possível dos fatos reais do mundo e de suas próprias habilidades. A Piscina de Metas deve ser um Laboratório de Seleção de Metas que contém ferramentas para medir e pesar inteligentemente as opções disponíveis. E estratégias devem ser elaboradas com base no que você sabe, e não no que normalmente é feito.

2) Ele ajusta continuamente as conclusões de cada componente à medida que novas informações chegam.

Você deve se lembrar de fazer provas de matemática na escola, algo comum na infância de todos nós. Aprendíamos coisas como isso:

Se: A = B

E se: B = C + D

Então: A = C + D

Matemática é algo satisfatoriamente exato. Seus dados são exatos e suas conclusões são precisas.

Em matemática, chamamos os dados de axiomas, e axiomas são 100% verdadeiros. Então, quando construímos conclusões a partir de axiomas, chamamos essas conclusões de teoremas, que também são 100% verdadeiros.

A ciência não tem axiomas ou provas, por boas razões.

Poderíamos ter chamado a Lei da Gravitação Universal de Newton de teorema – e por um longo tempo, certamente ela parecia um. Mas Einstein apareceu e mostrou que Newton na verdade estava vendo uma imagem “de perto”, como alguém que vê a Terra de perto e a chama de plana. E Einstein demonstrou que quando você muda de perspectiva, descobre que a verdadeira lei é a da Relatividade Geral, pois a Lei da Gravitação Universal de Newton deixa de funcionar em condições extremas. E então você fica tentado a chamar a Lei da Relatividade Geral de teorema, mas surge a Mecânica Quântica e mostra que a Lei da Relatividade Geral falha quando é aplicada em escalas microscópicas, e que um novo conjunto de leis precisa ser aplicada para explicar nesses casos.

Não há axiomas ou teoremas na ciência porque nada é certo, e tudo aquilo de que temos certeza sobre pode ser refutado. Richard Feynman disse: “o conhecimento científico é um conjunto de declarações com diversos graus de certeza – algumas mais inseguras, algumas quase seguras, mas nenhuma absolutamente segura sobre sua certeza.” Em vez de teoremas, a ciência tem teorias. As teorias baseiam-se em provas concretas e tratadas como verdades, mas a qualquer momento elas são susceptíveis de serem ajustadas ou refutadas, à medida em que surgem novos dados.

Assim, na ciência, é mais como:

Se (por enquanto): A = B

E se (por enquanto): B = C + D

Então (por enquanto): A = C + D

Em nossas vidas, o único verdadeiro axioma é “eu existo”. Além disso, nada é certo. Para a maioria das coisas na vida, não podemos sequer construir uma verdadeira teoria científica, porque a vida não tende a ter medidas exatas.

Normalmente, o melhor que podemos fazer é ter um palpite forte com base nos dados que temos. E na ciência, um palpite é chamado de hipótese. O que funciona assim:

Se (com base no que eu sei): A = B

Se (com base no que eu sei): B = C + D

Então (com base no que eu sei): A = C + D

As hipóteses são construídas para serem testadas. Testar uma hipótese pode refutá-la ou fortalecê-la, e se ela passar em testes suficientes, pode ser atualizada para uma teoria.

Então, depois que Musk constrói suas conclusões a partir dos primeiros princípios, o que ele faz? Ele testa a ideia no mundo real continuamente, e a ajusta regularmente com base no que aprende. Vamos percorrer todo o processo para mostrar como:

Você começa como o raciocínio de primeiros princípios para (A) preencher a Caixa de Desejos, (B) preencher a Caixa de Realidade, (C) selecionar uma meta da Piscina de Metas, e (D) construir uma estratégia. Em seguida, você começa a trabalhar. Você usou os primeiros princípios para decidir para onde direcionar seu poder e a maneira mais eficaz de usá-lo.

Mas a estratégia de conquista de metas que você criou foi apenas o seu primeiro passo. Era uma hipótese, madura o suficiente para ser testada. E você testa uma hipótese de estratégia de uma só maneira: agindo. Você direciona seu poder para implementar a estratégia e vê o que acontece. Ao fazer isso, os dados começam a fluir em resultados, feedback e novas informações do mundo exterior. Certas partes de sua hipótese de estratégia podem ser fortalecidas por esses novos dados, outras podem ser enfraquecidas e novas idéias podem surgir na sua cabeça graças à experiência. De qualquer forma, algum ajuste é geralmente necessário:

À medida em que esse loop de estratégia vai ocorrendo e seu poder se torna mais e mais eficaz na realização de seu objetivo, outras coisas começam a acontecer.

Para alguém que usa o raciocínio de primeiros princípios, a Caixa de Desejos a qualquer momento é uma fotografia de seus desejos mais íntimos, tirada na última vez em que pensou muito sobre isso. Mas o conteúdo da Caixa de Desejos também é uma hipótese, e a experiência pode mostrar que você estava errado sobre algo que achou que queria ou que você quer uma coisa mas ainda não havia se dado conta desse desejo. Ao mesmo tempo, o seu eu interior não é uma estátua rígida, mas uma escultura cambiante e multiforme, cujos valores mais íntimos mudam com o passar do tempo. Portanto, mesmo se algo na Caixa de Desejos estivesse correto em determinado momento, esse desejo específico pode perder seu lugar na Caixa de Desejos conforme você se desenvolve. A Caixa de Desejos deve refletir da melhor forma possível o seu eu interior atual, o que exige que você a mantenha atualizada. E isso é uma coisa que você faz através da reflexão:

Um loop (uma volta no circuito) que atualiza a Caixa de Desejos é chamado de evolução.

Por sua vez, a Caixa de Realidade também estará passando por um processo contínuo de atualização. “Coisas que são possíveis” é uma hipótese, talvez mais do que qualquer outra coisa. Essa hipótese leva em conta tanto o estado do mundo como suas próprias habilidades. E à medida que suas próprias habilidades mudam e se desenvolvem, o mundo muda ainda mais rápido. O que era possível no mundo em 2005 é muito diferente do que é possível hoje, e é uma vantagem enorme trabalhar com uma Caixa de Realidade atualizada.

Preencher a sua Caixa de Realidade usando o raciocínio de primeiros princípios é um grande desafio, e mantê-la atualizada para que corresponda rigorosamente à realidade exige trabalho contínuo.

Para cada uma dessas áreas, a caixa representa a hipótese atual e o círculo representa a fonte de nova informação que pode ser usada para ajustar a hipótese. É nosso dever lembrar sempre que os círculos é que mandam, e não as caixas – as caixas estão apenas tentando fazer o seu melhor para deixar os círculos sentirem-se orgulhosos de seu trabalho. E se ficarmos desconectados daquilo que está acontecendo nos círculos, a informação nas caixas se tornará desatualizada e obsoleta.

Pensando no software como um todo, vamos dar um passo para trás. O que vimos é um mecanismo de elaboração de objetivos abaixo e um mecanismo de realização de metas acima. Uma coisa que a realização de metas muitas vezes requer é foco extremo. Para obter resultados, concentramos nossa atenção nos pequenos detalhes, investimos toda a nossa energia na busca de nossa meta e aprimoramos continuamente nossa estratégia com um loop.

Mas, com o passar do tempo, ajustamos o conteúdo e a forma da Caixa Desejos e da Caixa de Realidade. E, eventualmente, algo mais pode acontecer: a Piscina de Metas é alterada.

A Piscina de Metas é apenas a sobreposição da Caixa de Desejos e da Caixa de Realidade, então sua própria forma e conteúdo são totalmente dependentes da situação dessas caixas. E como você vive sua vida dentro do mecanismo de obtenção de metas acima descrito, é importante assegurar-se de que aquilo em que você está trabalhando tão duramente permaneça alinhado com a Piscina de Metas – então vamos adicionar duas grandes setas vermelhas para esse fim:

Manter-se atualizado com os dois círculos abaixo exige que às vezes levantemos nossas cabeças da missão micro para fazermos uma reflexão macro. E quando ocorrem mudanças suficientes nas caixas de Desejos e de Realidade, o objetivo que você persegue não estará mais na Piscina de Metas, o que exigirá uma grande mudança de vida – uma ruptura, um deslocamento, uma troca de prioridade, uma atitude que altera o jogo.

Juntando tudo isso, o software que descrevi é um sistema vivo e pulsante, construído em alicerces sólidos (os primeiros princípios) e feito para ser ágil, refletir a sua verdade e atualizar-se quando for necessário, a fim de melhor servir seu proprietário.

E se você ler sobre a vida de Elon Musk, pode acompanhar esse software em ação.

COMO O SOFTWARE DE MUSK DETERMINOU SUA HISTÓRIA

COMEÇANDO

O primeiro passo para Elon foi preencher o conteúdo de sua Caixa de Desejos. Fazer isso a partir dos primeiros princípios é um desafio enorme – você tem que aprofundar sua análise de conceitos como certo e errado, bem e mal, importante e trivial, valioso e dispensável. Você tem que descobrir o que você respeita, o que despreza, o que o fascina, o que o aborrece e o que empolga profundamente sua criança interior. Claro, não há nenhuma receita para qualquer pessoa de qualquer idade obter uma resposta clara para essas perguntas, mas Elon fez a melhor coisa que ele poderia ao ignorar os outros e pensar com autonomia.

Conversei com ele sobre o seu processo de pensamento inicial para descobrir o que faria em sua vida. Ele disse muitas vezes que se importava profundamente com o futuro bem-estar da espécie humana – algo que está claramente no centro de sua caixa de desejos. Eu perguntei como ele chegou a isso, e ele explicou:

A única coisa que me interessa é: quando olho para o futuro, vejo-o como uma série de fluxos de probabilidade de ramificação. Então, você precisa se perguntar sobre o que estamos fazendo para estimular o bom fluxo de probabilidades – o que é suscetível de concretizar um bom futuro? Porque, de outra forma, você olhará os futuros possíveis e dirá “a coisa vai ficar preta”. Se você está projetando o futuro e diz: “Uau, vamos acabar em alguma situação terrível”, isso é deprimente.

Justo. Aprofundando a análise de seu caminho em particular, mencionei para Musk os grandes físicos modernos como Einstein e Hawking e Feynman, e perguntei-lhe se havia considerado tornar-se um cientista em vez de um engenheiro. A resposta dele foi:

Eu certamente admiro as descobertas dos grandes cientistas. Eles estão descobrindo o que já existe – é uma compreensão mais profunda de como o universo já funciona. Isso é legal, mas o universo já sabe disso. O que importa é o conhecimento em um contexto humano. O que estou tentando garantir é que o conhecimento em um contexto humano ainda seja possível no futuro. Então é como se eu fosse mais como o jardineiro, e depois há as flores. Se não houver jardim, não há flores. Eu poderia tentar ser uma flor no jardim, ou eu poderia tentar certificar-me de que há um jardim. Então eu estou tentando ter certeza que haverá um jardim, de modo que no futuro muitos Feynmans possam florescer.

Em outras palavras: tanto A como B são bons, mas sem A não há B; então escolho A.

Ele prosseguiu:

Houve um momento em que pensei em seguir a carreira de Físico – eu me formei em Física. Mas, para realmente avançar na Física hoje em dia, você precisa de dados. A física é fundamentalmente governada pelo progresso da engenharia. Esse debate – “Qual é melhor, engenheiros ou cientistas? Os cientistas não são melhores? Einstein não era a pessoa mais inteligente? “- pessoalmente, eu acho que a engenharia é melhor porque na ausência da engenharia você não tem os dados. Você apenas atingiu um limite. E sim, você pode ser muito inteligente dentro do contexto do limite dos dados que você tem, mas a menos que você tenha uma maneira de obter mais dados, você não pode fazer progresso. Como olhar para Galileo. Ele projetou o telescópio – foi isso que lhe permitiu ver que Júpiter tinha luas. O fator limitante, se você quiser, é a engenharia. E se você quiser avançar a civilização, você deve abordar o fator limitante. Portanto, você deve abordar a engenharia.

A e B são ambos bons, mas B só pode avançar se A avançar. Então eu escolho A.

Ao pensar na faculdade sobre o melhor caminho para ajudar a humanidade, Musk analisou a questão raciocinando a partir dos primeiros princípios: “O que mais afetará o futuro da humanidade?” E então elaborou uma lista com cinco coisas, como explicou em uma entrevista: “a internet; a energia sustentável; a exploração espacial (em particular a extensão permanente da vida para além da Terra); a inteligência artificial; e reprogramar o código genético humano.”

Ao ouvi-lo falar sobre o que é importante para ele, você pode ver toda a sequência de raciocínios sobre a Caixa de Desejos que o levou à sua vida atual.

Mas ele também tem outras motivações. Ao lado de ajudar a humanidade, na sua Caixa de Desejos também está algo que ele explicou em uma entrevista:

Estou interessado em coisas que mudam o mundo ou afetam o futuro através de alguma tecnologia fantástica que faz você dizer “Como isso aconteceu? Como isso é possível?”

Isto se encaixa no cenário da paixão de Musk por tecnologia super-avançada e na empolgação que ele transmite a outras pessoas. Assim, tendo em conta tudo o que vimos acima, uma meta ideal para Musk seria algo envolvendo engenharia, algo em uma área que seria importante para o futuro, e algo relacionado com tecnologia de ponta. Esses itens básicos e genéricos permitiram que ele reduzisse consideravelmente os objetivos possíveis em sua Piscina de Metas.

Enquanto isso, ele era um adolescente sem dinheiro, reputação ou conexões, e com conhecimento e habilidades limitadas. Em outras palavras, sua caixa de realidade não era tão grande. Então ele fez o que muitos jovens fazem – ele focou seus objetivos iniciais não em torno de alcançar seus desejos, mas em ampliar sua Caixa de Realidade e sua lista de “coisas que são possíveis”. Ele queria poder ficar legalmente nos EUA depois da faculdade, e ele também queria ganhar mais conhecimento sobre engenharia. Então ele matou dois pássaros com uma só pedra inscrevendo-se num programa de doutorado em Stanford, para estudar os capacitores de alta densidade, uma tecnologia que busca oferecer uma maneira mais eficiente de armazenar energia, em relação às baterias tradicionais.

A GRANDE VIRADA COM A INTERNET

Musk foi para a Piscina de Metas e escolheu o doutorado em Stanford, e a seguir se mudou para a Califórnia. Mas era o ano de 1995. A internet estava nos estágios iniciais de decolagem e sua evolução era muito mais rápida do que as pessoas tinham antecipado. Era também um mundo em que Musk poderia mergulhar sem dinheiro e sem reputação. Então ele adicionou um monte de possibilidades relacionadas à Internet em sua Caixa de Realidade. Os estágios iniciais de desenvolvimento da internet eram também mais emocionantes do que ele tinha previsto, então envolver-se com internet rapidamente foi parar na sua Caixa de Sonhos.

Esses rápidos ajustes causaram grandes mudanças em sua Piscina de Metas, até o ponto em que o doutorado em Stanford não era mais o foco da formação de metas de seu software interno.

A maioria das pessoas teria ficado com o doutorado em Stanford – porque já havia dito a todos sobre isso e seria estranho parar, porque era Stanford, porque era um caminho mais normal, porque era mais seguro, porque a internet poderia ser um moda, porque podia acabar aos 35 anos fracassado e sem dinheiro por não conseguir emprego já que não tinha a qualificação adequada.

Musk desistiu do doutorado após dois dias de reflexão. Seu software constatou que o doutorado já não estava mais em sua Piscina de Metas, e ele confiava em seu software – então fez uma grande mudança.

Ele iniciou a Zip2 com seu irmão, um cruzamento precoce entre os conceitos de Páginas Amarelas e Google Maps. Quatro anos depois, eles venderam a empresa e Elon foi embora com US$ 22 milhões.

Peter Thiel e Elon Musk – como se pode observar, o software de Musk também cuidou de sua calvície iminente (nota do editor).

Como um milionário do mundo dotcom, a sabedoria convencional aconselhava que ele se acomodasse como um cara rico que investiria seu dinheiro em outras empresas ou começaria algo novo com o dinheiro de outras pessoas. Mas o centro de formação de metas de Musk tinha outras idéias. Sua Caixa de Desejos estava cheia de ambiciosas ideias de startups que ele imaginava que poderiam ter grande impacto no mundo, e sua Caixa de Realidade, que agora incluía US$ 22 milhões, informou-lhe que ele tinha uma alta chance de sucesso. Ficar acomodado não estava de modo algum em sua Caixa de Desejos e era algo totalmente desnecessário de acordo com sua Caixa de Realidade.

Assim, ele usou sua riqueza para iniciar a X.com em 1999, com o objetivo de construir uma instituição financeira on-line. A internet ainda era jovem e o conceito de armazenar seu dinheiro em um banco on-line era totalmente inconcebível para a maioria das pessoas, e Musk foi aconselhado por muitos a desistir, pois seu plano era maluco.

Mas, novamente, Musk confiou em seu software. O que ele sabia sobre a internet lhe disse que sua ideia estava dentro da Caixa da Realidade – porque seu raciocínio indicava que, quando se tratava da internet, a Caixa da Realidade crescia muito mais do que as pessoas previam – e isso era tudo o que ele precisava saber para prosseguir. Na parte superior de seu software, à medida em que realizava o loop de ajustes em sua estratégia conforme o resultado de suas ações, o serviço da X.com mudou, a equipe mudou, a missão mudou, até o nome mudou. No momento em que o eBay a comprou, em 2002, a empresa de Musk chamava-se PayPal e era um serviço de transferência de dinheiro. Musk conseguiu US$ 180 milhões por ela.

LEVANDO SEU SOFTWARE AO ESPAÇO

Agora com 31 anos de idade e fabulosamente rico, Musk teve que descobrir o que fazer com sua vida. Além da sabedoria convencional que lhe dizia “faça o que fizer, definitivamente não se arrisque a perder o dinheiro que tem”, também a lógica comum das pessoas lhe dizia “Você é incrível na construção de empresas de internet, mas isso é tudo que você sabe já que nunca fez mais nada. Você tem mais de trinta anos agora e é tarde demais para fazer algo grande em um campo totalmente diferente. Este é o caminho que você escolheu: você é um cara da internet.”

Mas Musk voltou aos primeiros princípios. Ele olhou para dentro de sua Caixa de Desejos, e depois de refletir, concluiu que fazer outra coisa na internet não estava mais dentro dela. O que estava ali era seu desejo ainda ardente de ajudar o futuro da humanidade. Em particular, ele sentiu que para ter um futuro longo, a espécie humana teria que se tornar muito melhor em viagens espaciais.

Então ele começou a explorar os limites da sua Caixa de Realidade quando passou a se envolver com a indústria aeroespacial.

A sabedoria convencional gritava com toda força de seus pulmões para que ele parasse. Disse que ele não tinha nenhuma instrução formal no campo e que não sabia nada sobre ser um cientista de foguetes. Mas seu software lhe disse que a educação formal era apenas outra maneira de fazer o download de informações em seu cérebro – e “um download dolorosamente lento”. Então ele começou a ler, conhecer pessoas e a fazer perguntas.

A sabedoria convencional dizia que nenhum empreendedor jamais tivera sucesso num empreendimento como esse, e que ele não deveria arriscar seu dinheiro em algo tão improvável. Mas a filosofia declarada de Musk é: “quando algo é importante o suficiente, você o faz mesmo se as probabilidades não estiverem a seu favor”.

A sabedoria convencional dizia que ele não podia se dar ao luxo de construir foguetes porque eles eram muito caros. A mesma sabedoria convencional apontou para o fato de que ninguém jamais havia feito um foguete barato antes – mas, assim como os cientistas que não escutaram quem afirmava que a Terra tinha só seis mil anos e era plana, Musk começou a esmiuçar os números para fazer as contas ele mesmo. Veja como ele relata seus pensamentos nesta entrevista:

Historicamente, todos os foguetes têm sido caros. Por isso, no futuro, todos os foguetes serão caros. Mas na verdade isso não é verdade. Se você pergunta, “de que é feito um foguete?” A resposta é que um foguete é feito de alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono. E você então pode perguntar: “qual é o custo de matéria-prima de todos estes componentes?” E se você os tiver empilhados no chão e pudesse acenar uma varinha mágica para que o custo de rearranjar os átomos da matéria-prima desses componentes para transformá-los em alumínio, titânio, cobre e fibra de carbono, para que o valor fosse zero, então qual seria o custo do foguete? E eu estava pensando, “ok, é realmente pouco, é só 2% do que um foguete custa”. Então claramente se trata de como os átomos da matéria prima são arranjados, de modo que você precisa descobrir como pode conseguir que os átomos fiquem com as formas corretas de forma mais eficiente. E assim tive uma série de reuniões aos sábados com pessoas, algumas das quais ainda estavam trabalhando nas grandes empresas aeroespaciais, apenas para tentar descobrir se havia algum problema nessa história que eu ainda não havia percebido. Mas não consegui encontrar nada que não tivesse percebido. Então comecei a SpaceX.

A história, a sabedoria convencional e seus amigos diziam uma coisa, mas seu próprio software, raciocinando com base nos primeiros princípios, dizia outra coisa – e ele confiava em seu software. Assim Musk começou SpaceX, novamente com seu próprio dinheiro, e mergulhou de cabeça no projeto. A missão: reduzir drasticamente o custo das viagens espaciais para tornar possível para a humanidade tornar-se multi-planetária.

TESLA E ALÉM

Dois anos mais tarde, enquanto administrava uma SpaceX em desenvolvimento, um amigo levou Elon a uma empresa chamada AC Propulsion, que criou um protótipo para um automóvel elétrico super-rápido e de longo alcance. Ele ficou impressionado. A Caixa de Realidade do software de Musk tinha lhe informado que tal coisa ainda não era possível, mas acontece que ele ainda não tinha conhecimento de como as baterias de lítio haviam avançado, e o que ele viu na AC Propulsion era nova informação sobre o mundo que colocou “começar uma empresa de carros elétricos” na sua Caixa de Realidade.

Ele novamente escutou a sabedoria convencional falar sobre os custos das baterias, da mesma forma que falou sobre os custos de foguetes. As baterias nunca tinham sido feitas de forma suficientemente barata para permitir um carro elétrico de grande porte e de longo alcance, porque o custo de fazer uma bateria era simplesmente muito alto. Ele usou a mesma lógica de primeiros princípios e uma calculadora para determinar que a maior parte do problema era o custo dos intermediários, não das matérias-primas, e decidiu que na verdade a sabedoria convencional estava errada e as baterias poderiam ser muito mais baratas no futuro. Então, ele co-fundou a TESLA com a missão de acelerar o advento de um veículo elétrico no mundo, primeiro investindo seus recursos para financiar a iniciativa, e mais tarde contribuindo com seu tempo e energia ao tornar-se CEO da empresa.

Dois anos depois, Musk co-fundou a SolarCity com seus primos, uma empresa cujo objetivo era revolucionar a produção de energia, permitindo a instalação de painéis solares em milhões de casas. Musk sabia que seu poder de tempo e energia (o único tipo de poder que tem limites rígidos, não importa quem você seja), estava quase todo esgotado, mas ele ainda tinha muitos outros recursos – então ele colocou-os para trabalhar em outro objetivo em sua Piscina de Metas.

Mais recentemente, Musk iniciou uma grande mudança em outra área que é importante para ele: a forma como as pessoas se transportam de cidade em cidade. Sua idéia é que deve haver um modo totalmente novo de transporte que conduziria pessoas por centenas de quilômetros transportando-as através de um tubo. Ele chama isso de Hyperloop. Para esse projeto, ele não está usando seu tempo, energia ou recursos. Em vez disso, apresentou seus pensamentos iniciais e criou uma competição para engenheiros apresentarem suas inovações, e assim Musk está utilizando seu poder de conexão e de persuasão para criar mudanças.

Há várias empresas de tecnologia que criam softwares. Elas analisam exaustivamente, por anos, qual a melhor e mais eficiente maneira de fazer o seu produto. Musk vê as pessoas como computadores, e vê o software em seu cérebro como o produto mais importante que possui – e uma vez que não há empresas lá fora projetando software de cérebro, ele projetou o seu próprio, faz testes com versões beta a cada dia e realiza atualizações constantemente. É por isso que ele é tão escandalosamente eficaz, pode incomodar várias grandes indústrias ao mesmo tempo e consegue aprender tão rapidamente, planejar tão bem suas estratégias e visualizar o futuro com tanta clareza.

Essa parte do que Musk faz não é um grande mistério – é bom senso. Sua vida inteira funciona no software em sua cabeça – então por que você não ficaria obsecado com sua otimização?

E, porém, não só a maioria de nós não está obcecada com o seu próprio software – a maioria de nós nem sequer compreende o seu próprio software, como funciona ou porque funciona assim. Vamos tentar descobrir por quê.

O SOFTWARE DA MAIORIA DAS PESSOAS

Nós sempre escutamos histórias sobre o desenvolvimento humano e como suas experiências durante os primeiros anos de vida determina quem você se torna. O cérebro de um recém-nascido é uma bola maleável de argila, e a principal missão de uma criança é aprender rapidamente sobre qualquer que seja o ambiente em que nasceu, passando a moldar-se na ferramenta ideal para a sobrevivência nessas circunstâncias. É por isso que é tão fácil para as crianças aprenderem novas habilidades.

À medida em que as pessoas crescem, a argila começa a endurecer e se torna mais difícil mudar a forma como o cérebro funciona. Minha avó vem usando um computador a tanto tempo quanto eu, mas uso o meu confortavelmente e facilmente porque meu cérebro de infância, maleável, desenvolveu facilmente habilidades básicas de informática, enquanto ela faz diante do computador a mesma cara que minha tartaruga faz quando a coloco em uma mesa de vidro e ela acha que está inexplicavelmente pairando no ar, um metro acima do chão. Minha avó usará um computador sempre que precisar, mas não jamais será uma relação amistosa.

Então, quando se trata de nosso software cerebral (nossos valores, percepções, sistemas de crença, técnicas de raciocínio) o que estamos aprendendo durante esses primeiros anos decisivos?

Todos cresceram de forma diferente. Mas, para a maioria das pessoas que conheço, foi algo assim:

Aprendemos todo o tipo de coisa com nossos pais e professores – o que é certo e o que é errado, o que é seguro e o que é perigoso, o tipo de pessoa que você deveria e não deveria ser. Mas a mensagem principal era: “eu sou um adulto, então sei muito mais sobre isso do que você próprio, isso está fora de discussão, então não discuta, apenas obedeça. É aí que aquele jogo clichê de ficar perguntando “Por quê?” começa (o que, na linguagem de Musk, é chamado de “o porquê acorrentado”).

O instinto da criança não é apenas saber o que fazer e o que não fazer – ela quer compreender como funcionam as regras do meio ambiente. E para entender algo, você precisa ter uma ideia de como a coisa toda foi construída. Quando pais e professores dizem a uma criança para fazer XYZ e simplesmente obedecer, é como instalar um software já projetado na cabeça da criança. Quando as crianças perguntam “por quê?”, estão tentando desmontar esse software para ver como ele foi construído – para chegar aos primeiros princípios que estão por trás de tudo e poder avaliar o quanto realmente deveriam se preocupar com as coisas sobre as quais os adultos tanto falam.

As primeiras vezes em que uma criança joga o jogo do “Porquê”, os pais acham fofo. Mas muitos pais e a maioria dos professores não demoram a arranjar um jeito de acabar como o jogo:

“Porque eu disse.”

“Porque eu disse” joga um bloco de concreto em cima do esforço de desconstrução da criança, debaixo do qual mais nenhum “Porquê” consegue passar. O adulto diz: “Você quer os primeiros princípios? Aqui está: esta é sua posição na hierarquia. Nenhum outro porquê é necessário. Agora coloque seus tênis e vamos indo porque eu disse para se apressar.”

Imagine como isso aconteceria no mundo das ciências.

Para sermos justos, a vida dos pais é difícil. Eles ainda precisam continuar a fazer todas as merdas que costumavam fazer, mas agora além disso têm em suas vidas essas pequenas criaturas egoístas e preguiçosas que devem sustentar e que acham que os pais existem para atendê-las. Em um dia agitado, de mau humor, com 80 coisas para fazer, o jogo do “Porquê” é um pesadelo.

Mas pode ser um pesadelo que vale a pena suportar. Dar um comando, lição ou palavra de sabedoria sem qualquer explicação sobre os passos lógicos que o embasam é como dar o peixe sem ensinar a pescar. E quando é dessa forma que crescemos, acabamos com um monte de peixes mas nenhum anzol ou rede – temos um software instalado que aprendemos a usar, mas não conseguimos programar coisa alguma sozinhos.

A escola torna as coisas mais difíceis. Um dos meus pensadores favoritos, o escritor Seth Godin (cujo blog está cheio de princípios fundamentais de sabedoria) explica em um TED Talk que o sistema educacional atual é um produto da Era Industrial, um tempo que catapultou a produtividade e o padrão de vida. Mas, juntamente com muitas outras fábricas, veio a necessidade de muitos mais trabalhadores nessas fábricas, então nosso sistema educacional foi redesenhado em torno desse objetivo. Ele explica:

O negócio era o seguinte: educação pública universal cuja única intenção não era treinar os estudiosos do amanhã – já tivemos muitos estudiosos. A intenção era treinar pessoas para estarem dispostas a trabalhar nas fábricas. Era para treinar as pessoas para se comportarem, cumprirem ordens e se adequarem. “Educamos você por um ano inteiro. Se você está com defeito, nós o reiniciamos e educamos você de novo. Nós sentamos você em classes em filas retas, assim como organizamos as coisas nas fábricas. Nós construímos um sistema composto de pessoas substituíveis porque fábricas são baseadas em partes substituíveis.”

Junte esse conceito ao que outro escritor favorito meu, James Clear, explicou recentemente em seu blog:

Na década de 1960, um investigador de performance criativa chamado George Land realizou um estudo com 1.600 crianças de cinco anos, e 98 % das crianças foram classificadas como “altamente criativas”. Dr. Land voltou a fazer testes com essas crianças a cada cinco anos. Quando as mesmas crianças tinham dez anos de idade, obtiveram apenas 30% puderam ser classificadas como “altamente criativas”. Este número caiu para 12% aos 15 anos e apenas 2% aos 25 anos. À medida em que as crianças cresciam e tornavam-se adultos, efetivamente foram treinadas a eliminar a criatividade. “O comportamento não criativo é aprendido”.

Faz sentido, certo? O pensamento criativo é um primo próximo do raciocínio dos primeiros princípios. Em ambos os casos, o pensador precisa inventar seus próprios caminhos de pensamento. As pessoas tratam a criatividade como se fosse um talento natural, mas na verdade a criatividade é muito mais uma maneira de pensar – é a versão mental da pintura de uma tela em branco. Mas, para isso ocorrer, é necessário um software no cérebro que seja habilidoso e eficiente em formular novas ideias, e a escola nos treina para fazer exatamente o oposto: para seguir o líder, decorar informações e ter bom desempenho em provas que testam essa memória. Em vez de uma tela em branco, a escola entrega às crianças um livro para colorir e ordena que mantenham as cores dentro das linhas.

(Musk recentemente criou uma nova escola que seus filhos frequentam, uma sem séries rígidas e onde os estudantes aprendem através da aplicação, e não da memorização.)

O que tudo isso significa é que, durante os anos mais maleáveis do nosso cérebro, pais, professores e sociedade acabam colocando nossa argila em um molde e apertando-a firmemente numa forma predefinida.

E quando crescemos, sem termos aprendido a construir nosso próprio estilo de raciocínio e já tendo superado a fase inicial de profunda investigação sobre si mesmo que o pensamento independente exige, acabamos por nos apoiar, para todas as coisas da vida, em qualquer que seja o software que tenham instalado em nossas cabeças, software esse que, sendo proveniente de pais e professores, provavelmente foi projetado há trinta anos atrás.

Trinta anos se tivermos sorte. Vamos pensar sobre isso por um minuto.

Digamos que você tem uma mãe dominadora, que insiste em que você cresça guiado pelos valores dela, por sua visão de mundo, seus medos e suas ambições – porque ela sabe o que é melhor, porque lá fora há um mundo assustador, porque XYZ é digno de respeito, porque ela disse que sim.

Sua cabeça pode acabar executando durante toda a vida o software “porque minha mãe diz isso”. Se você jogar o jogo do “Porquê” com algo como, por exemplo, a razão pela qual você está no seu trabalho atual, pode demorar alguns “Porquês” chegar lá, mas provavelmente acabará batendo em algum muro em que estará escrita alguma versão de “porque sua mãe disse isso”.

Mas porque sua mãe disse isso?

Ela disse isso porque a mãe dela disse isso para ela – depois de crescer na Polônia em 1932, numa casa em que o pai dela dizia isso porque o pai dele, um funcionário público secundário de uma pequena cidade da Cracóvia, disse a mesma coisa após seu pai, que viu umas merdas terríveis durante o Levante Siberiano de 1866, enfiar na cabeça de seus filhos uma lição fundamental da vida sobre jamais fazer negócios com a guilda dos ferreiros.

Através de um longo telefone sem fio, sua mãe hoje em dia aprendeu a aspirar por empregos em escritórios, e você se descobre com uma forte motivação de considerar que a única carreira verdadeiramente estável seria dentro de uma sólida empresa. E você pode até fazer uma lista das razões pelas quais se sente assim, mas se alguém insistir em investigar mesmo quais são as suas razões e qual o raciocínio por trás delas, você acabará sentindo-se muito confuso. E fica tudo confuso porque os primeiros princípios que sustentam todo o seu raciocínio são uma mistura de valores e crenças de um monte de gente de diferentes gerações e origens – um monte de gente que não é você, em resumo.

Um exemplo comum disso no mundo de hoje é que muitas pessoas que conheci foram criadas por pessoas que foram criadas por pessoas que passaram pela Grande Depressão norte-americana. Se você pedir conselhos de carreira de alguém nascido nos EUA lá pela década de 1920, há uma grande chance de que a seguinte resposta pule automaticamente de seu software:

A pessoa que dá essa resposta viveu uma vida longa e fez todo o caminho até 2017, mas seu software foi codificado durante uma grande crise econômica, e se ela não for do tipo acostumada com a autorreflexão e não evoluir regularmente, ela ainda desenvolverá seu pensamento segundo um software da década de 1930. E se ela instalou o mesmo software na cabeça de seus filhos e esses transmitiram-no para seus próprios filhos, um membro da Geração Y hoje pode se sentir assustado demais para tentar uma carreira artística ou empreendedora e continuará totalmente ignorante de que está sendo na verdade assombrado pelo fantasma de uma crise econômica do século passado.

Quando o software antigo é instalado em novos computadores, as pessoas acabam com um conjunto de valores que não necessariamente são baseados em seu próprio pensamento autêntico, e levam consigo um conjunto de crenças sobre o mundo que não necessariamente são baseadas na realidade do mundo em que vivem, e podem ter muita dificuldade de defender com o coração honesto um monte de opiniões que compartilham com outras pessoas.

Em outras palavras, muitas convicções não são realmente baseadas em dados reais. Temos uma palavra para isso.

DOGMA

“Eu não sei qual é o problema com as pessoas: elas não aprendem pela compreensão, eles aprendem de outra maneira – pela tradição ou algo assim. Seu conhecimento é tão frágil!” -Richard Feynman

O dogma está em toda parte e vem em mil variedades diferentes, mas o formato geralmente é o mesmo: X é verdade porque [autoridade] diz assim. A autoridade pode ser muitas coisas.

O dogma, ao contrário do raciocínio dos primeiros princípios, não é personalizado para o crente ou seu ambiente e não deve ser criticado e ajustado à medida em que as coisas mudam. Não é um software a ser codificado – é um livro de regras impresso. Suas regras podem ser originalmente baseadas no raciocínio de um certo tipo de pensador em um determinado conjunto de circunstâncias, em um momento no passado ou em um lugar distante, ou pode ser baseado em raciocínio algum. Mas isso não importa porque você não deveria cavar muito fundo abaixo da superfície de qualquer maneira – você simplesmente deve aceitá-lo, abraçá-lo e viver por ele. Não é necessária nenhuma evidência.

Você pode não gostar de viver pelo dogma de outra pessoa, mas fica sem muita escolha. Quando suas tentativas de compreensão na infância são confrontadas com um “Porque eu disse” e você absorve a mensagem implícita, que é “Sua capacidade de raciocínio é uma merda, nem tente, apenas siga estas regras para não ferrar com sua vida”, você cresce com pouca confiança em seu próprio processo de raciocínio. Quando você nunca foi forçado a desenvolver seu próprio raciocínio, você se torna hábil em ignorar o difícil processo de investigação profunda destinado a descobrir seus próprios valores, e consegue evitar a por vezes dolorosa experiência de testar esses valores no mundo real, aprendendo-o a ajustá-los – e então você cresce como um amador na capacidade de raciocinar por si próprio.

Somente uma forte habilidade de raciocínio constrói um caminho de vida único, e sem essa habilidade rapidamente algum dogma o fará viver a vida de outra pessoa. O dogma não conhece você ou se preocupa com você e muitas vezes é completamente errado para você – ele fará alguém que se sentiria feliz como artista passar a vida inteira como advogado.

Mas quando você não sabe raciocinar, você não sabe como evoluir e se adaptar. Se o dogma com que você cresceu não está trabalhando a seu favor, você pode rejeitá-lo, mas, como você tem um raciocínio amador, fazer isso sozinho geralmente acaba com você encontrando outro dogma para se agarrar como tábua de salvação – outro livro de regras e outra autoridade para obedecer. Você não sabe como codificar seu próprio software, então você instala o software feito por outra pessoa.

As pessoas não fazem isso intencionalmente – geralmente, se rejeitarmos um tipo de dogma, nossa intenção é libertar-se de uma vida de pensamento dogmático e assumir coragem para os ventos frios do raciocínio independente. Mas o pensamento dogmático é um hábito difícil de quebrar, especialmente quando é tudo o que você sabe.

Eu tenho uma amiga que acabou de ter um bebê e ela me disse que era muito mais aberta do que seus pais, porque eles queriam que ela tivesse uma carreira de prestígio, mas ela estaria aberta para que sua filha fizesse alguma coisa de que discordasse. Depois de um minuto, ela pensou nisso e disse: “Bem, na verdade, não, o que quero dizer com isso é se ela quisesse fazer algo como viver toda a sua vida no meio do mato em uma comunidade alternativa, eu não teria problemas com isso, embora meus pais certamente tivessem – mas se ela decidisse trabalhar como executiva, eu a mataria”. Ela percebeu a meio da frase que ela não estava livre do rígido pensamento dogmático de seus pais, ela tinha apenas mudado de um dogma para outro.

Esta é a armadilha dos dogmas, e é difícil escapar dela, e especialmente proque os dogmas têm um aliado poderoso – o grupo.

TRIBOS

“Algumas coisas que penso são muito conservadoras, ou muito liberais. Quando alguém cai em uma só categoria para todas as suas opiniões, fico muito desconfiado. Não faz sentido para mim que você tenha uma mesma solução para cada problema.” -Louis C.K.

A maioria dos pensamentos dogmáticos tende a se resumir em outra boa frase de Seth Godin:

“Pessoas como a gente fazem esse tipo de coisa. É o grito de manifestação do tribalismo.”

Há uma distinção importante a fazer aqui. O tribalismo tende a ter uma conotação negativa, mas o conceito de uma tribo em si não é ruim. Uma tribo é apenas um grupo de pessoas ligadas entre si por algo que têm em comum – uma religião, uma etnia, uma nacionalidade, uma família, uma filosofia, uma causa. O cristianismo é uma tribo. O Partido Democrata dos EUA é uma tribo. Os australianos são uma tribo. Os fãs de Radiohead são uma tribo. E dentro de tribos grandes e soltas, há menores, mais resistentes, sub-tribos. Os americanos são uma tribo, dos quais os texanos são uma sub-tribo, dos quais os cristãos evangélicos em Amarillo, Texas, são uma sub-sub-tribo.

O que torna o tribalismo bom ou ruim depende dos membros da tribo e do relacionamento deles com a tribo. Em particular, uma distinção simples:

O tribalismo é bom quando a tribo e o membro da tribo têm uma opinião independente que acontece de ser a mesma. O membro da tribo escolheu ser parte da tribo porque ela parece coincidir com quem ele realmente é. Se a identidade da tribo ou do membro evoluem até o ponto em que os dois já não concordam, a pessoa deixará a tribo. Vamos chamar isso de tribalismo consciente.

O tribalismo é ruim quando as identidades da tribo e do membro da tribo são iguais. A identidade do membro da tribo é determinada pelo que o dogma da tribo diz. Se a identidade da tribo muda, a identidade do membro da tribo muda com ela. A identidade do membro da tribo não pode mudar independentemente da identidade tribal porque o membro não possui uma identidade independente. Vamos chamar esse tribalismo cego.

No tribalismo consciente, o membro da tribo e sua identidade vem primeiro. A identidade do membro da tribo é o cão alfa, que determina de quais tribos ele participa. No tribalismo cego, a tribo vem primeiro. A tribo é o cão alfa e é a tribo que determina quem ele é.

Isso não é preto e branco (há tons de cinza), mas quando alguém é criado sem forte habilidade de raciocínio, essa pessoa também pode não ter uma forte identidade independente, e pode acabar vulnerável ao lado tribal cego das coisas – especialmente em relação às tribos em que nasceu. Isso é o que Einstein estava querendo transmitir quando disse: “Poucas pessoas são capazes de expressar com equanimidade opiniões que diferem dos preconceitos de seu ambiente social. A maioria das pessoas é mesmo incapaz de formar tais opiniões “.

Uma grande tribo como uma religião, nação ou partido político conterá membros que se enquadram em toda a gama de tons de cinza entre o tribalismo cego e o consciente. Mas algumas tribos em si serão do tipo que atraem um certo tipo de seguidor. Faz sentido lógico que, quanto mais rígida e dogmática for a tribo, mais provável será que atrairá membros do tipo tribalista cego. O ISIS terá uma porcentagem muito maior de membros do tipo tribalista cego do que um Clube de Filosofia de Londres.

O fascínio das tribos dogmáticas faz sentido – apelam para partes muito fundamentais da natureza humana.

Os seres humanos desejam conexão e camaradagem, e um dogma orientador é uma cola comum para unir um grupo de indivíduos como se fossem um só.

Os seres humanos querem segurança interna, e para alguém que cresce se sentindo instável em relação ao seu próprio caráter distintivo, uma tribo e seu dogma orientador é uma linha de orientação importante – um balcão único para um conjunto completo de opiniões e valores humanos.

Os seres humanos também desejam o conforto e a segurança da certeza, e em nenhum lugar a convicção está mais presente do que no pensamento coletivo do tribalismo cego.

Enquanto as opiniões de um cientista são tão fortes quanto as evidências que tem e são inerentemente sujeitas a mudanças, o dogmatismo tribal é um exercício de fé e, sem evidências a serem investigadas, os membros da tribo cega acreditam no que acreditam com convicção.

Nós discutimos porque a matemática tem provas, a ciência tem teorias e, na vida, provavelmente devemos nos limitar às hipóteses. Mas o tribalismo cego prossegue com a confiança do matemático:

Se (porque a tribo diz isso): A = B

E se (porque a tribo diz isso): B = C + D

Portanto, com certeza: A = C + D

E como tantos outros na tribo se sentem confiantes sobre as coisas, sua própria confiança nas certezas da tribo é tranquilizada e reforçada.

Mas há um custo pesado para esse conformismo. A insegurança pode ser obtida da maneira mais difícil ou mais fácil – e ao dar às pessoas a opção fácil, as tribos dogmáticas eliminam a pressão para que elas façam o trabalho árduo de evoluir para uma pessoa mais independente e com uma identidade mais internamente definida. Dessa forma, as tribos dogmáticas reforçam a cegueira de seus membros para as deficiências que possuem.

O qué insidioso sobre dogmas tribais rígidos e adesão cega é que eles gostam de se disfarçar de pensamento aberto e com a adesão consciente. Eu penso que muitos de nós talvez estejamos mais perto do lado da adesão cega das coisas com certas tribos do que gostamos de admitir – e as tribos de que somos parte podem não ser tão abertas quanto tendemos a pensar.

Um bom teste para isso é a intensidade do fator “Nós”. Essa palavra-chave na frase “Pessoas como nós fazem coisas assim” pode levá-lo a problemas muito rapidamente.

“Nós” parece ótimo. Uma grande parte do apelo de estar numa tribo é que você faz parte de um “Nós”, algo que os seres humanos estão programados a procurar. E um “Nós” receptivo é algo bom, como o “Nós” formados por membros esclarecidos e independentes de uma tribo consciente.

Mas o “Nós” do tribalismo cego é assustador. No tribalismo cego, o dogma orientador da tribo funciona como uma identidade para os membros da tribo, e o fator “Nós” fortalece essa condição. Os membros da tribo consciente chegam a conclusões – os membros da tribo cega são conclusões. Com um “Nós” cego, se a maneira como você é como um indivíduo é conter opiniões, traços ou princípios que se encontram fora das bordas externas das paredes do dogma, eles precisarão ser derramados – ou as coisas ficarão feias. Ao desafiar o dogma da sua tribo, você está desafiando o senso de certeza de que os membros da tribo ganham força e as linhas de identidade claras em que confiam.

Mas o “Nós” no tribalismo cego é assustador. No tribalismo cego, o dogma principal da tribo é fortalecido pela própria identidade de seus membros, e o fator “Nós” reforça esse vínculo. Enquanto os membros de uma tribo consciente possuem opiniões em comum, no caso de uma tribo cega o que seus membros têm em comum é sua própria identidade. Com um “Nós” cego, se você individualmente possui opiniões, práticas ou princípios que não se mantém dentro dos muros do dogma, você precisa se corrigir – ou as coisas vão ficar feitas para seu lado. Ao desafiar o dogma de sua tribo, você desafia tanto o sentimento de segurança do qual os membros retiram sua confiança quanto a identidade em que eles se apoiam. Qualquer elemento de rigidez e cegueira que se expresse na identidade dos membros da sua tribo irá se revelar quando você ousar validar qualquer aspecto do dogma de tribos rivais.

Faça uma tentativa. Na próxima vez que encontrar um membro de uma tribo a que você pertence, expresse uma mudança de opinião que se alinhe com algum tema que sua tribo associe à opinião das tribos rivais. Se você é um cristão religioso, diga a pessoas na igreja que você não está mais certo de que existe um Deus. Se você é de um grupo vegano, sugira que o aquecimento global talvez possa ser uma farsa da esquerda. Se você é iraquiano, diga a sua família que vê com simpatia as reinvidicações de Israel. Se você é conservador, diga aos seus amigos conservadores que é a favor da legalização da maconha.

Se você estiver numa tribo com mentalidade cega e dogmática, provavelmente você verá uma expressão de horror em seu interlocutor. Para ele, sua opinião não parecerá errada, ela será uma heresia. Ele pode ficar com raiva, ou pode apaixonadamente tenta convencê-lo do contrário, ou só querer cortar o papo, mas sob hipótese alguma haverá uma conversa aberta. E porque a identidade está muito entrelaçada com crenças no tribalismo cego, depois disso a pessoa pode até começar a se afastar de você. Porque, para as pessoas estritamente tribalitas, um dogma compartilhado desempenha um papel mais importante em seus relacionamentos íntimos do que eles seriam capazes de admitir.

A maioria das principais brigas em nosso mundo emergem do tribalismo cego, e no extremo mais radical do espectro (onde as pessoas formam uma manada) o tribalismo pode levar a coisas aterrorizantes. Como aqueles momentos da história em que líderes carismáticos conseguiram inspirar nos soldados de seus exércitos a exibições apaixonadas de força. Porque o tribalismo cego é o verdadeiro vilão por trás das maiores atrocidades da história humana.

A maioria de nós não teria se juntado ao partido nazista porque não estaríamos no extremo mais cego do espectro tribal de nossa sociedade. Mas não acho que a maioria de nós estaria no extremo mais consciente da sociedade também. Na verdade, de regra estaríamos num ponto intermediário, em que seria vantajoso aprimorar o software em nossa cabeça aprendendo como funciona o software de pessoas notáveis por sua habilidade de pensar corretamente.

O COZINHEIRO E O CHEF

A diferença entre a forma como Elon pensa e a forma como a maioria das pessoas pensa é parecida com a diferença entre um cozinheiro e um chef.

As palavras “cozinhar” e “chef” podem ser consideradas sinônimos. E, no mundo real, de regra são usadas indistintamente. Mas nesta publicação, quando digo chef, não me refiro um chef comum. Eu me refiro ao chef que é semelhante a um artista, o tipo de chef que inventa receitas. E para nossos propósitos, todos os outros que entram em uma cozinha – todos aqueles que seguem receitas criados por outros – são cozinheiros.

Tudo o que você come – cada parte de cada receita que conhecemos tão bem – foi em algum momento do passado criado pela primeira vez. Trigo, tomate, sal e leite são utilizados pelos seres humanos há muito tempo, mas em algum momento alguém disse “E se eu pegar esses ingredientes e fizer isso, e isso, e isso…”. E essa pessoa criou a primeira pizza do mundo. Esse é o trabalho de um chef.

Desde então, Deus sabe quantas pessoas fizeram uma pizza. Esse é o trabalho de um cozinheiro.

O chef pensa a partir dos primeiros princípios. E para o chef, os primeiros princípios são ingredientes comestíveis crus. Essas são suas peças de quebra-cabeça, seus blocos de construção, e ele cria seu caminho a partir daí, usando sua experiência, seus instintos e suas papilas gustativas.

O cozinheiro trabalha em cima de alguma versão do que já existe por aí: algum tipo de receita, uma refeição que experimentou e gostou, um prato que viu alguém fazer.

Há vários tipos de cozinheiros. Se todos os tipos fossem enfileirados, em uma extremidade teríamos cozinheiros que apenas cozinham seguindo uma receita com rigor, medindo cuidadosamente cada ingrediente exatamente como a receita dita. O resultado é uma refeição deliciosa, cujo sabor é exatamente aquele projetado para se obter com a receita. No meio da fila, teríamos um cozinheiro mais confiante – alguém com experiência, que obtém a essência geral da receita e, em seguida, usa suas habilidades e instintos para fazê-la de sua própria forma. O resultado é algo um pouco mais exclusivo, que tem o sabor do estilo da receita original, mas não exatamente. Mais próximo ao outro extremo dessa fileira, teríamos um cozinheiro que é inovador e faz suas próprias misturas.

E no ponto mais extremo dessa fila, está o chef. Um chef pode fazer comida boa ou terrível, mas seja o que for, é resultado de seu próprio processo de raciocínio, desde a seleção de ingredientes crus no início até o prato acabado no final.

No mundo culinário, não há nada de errado em ser um cozinheiro. A maioria das pessoas é cozinheira porque para a maioria das pessoas inventar receitas não é o seu objetivo.

Mas na vida, quando se trata de “receitas” de raciocínio, o resultado final é uma decisão, não um sabor. Portanto, quando se trata de tomar decisões em nossas vidas, talvez seja recomendável nos preocuparmos um pouco mais sobre qual posição ocupamos na fila que vai do cozinheiro casual até o chef.

Em um dia típico, um “cozinheiro de raciocínio” e um “chef de raciocínio” não operam de maneira diferente. Mesmo o chef se torna rapidamente exausto pela energia mental necessária para usar o raciocínio dos primeiros princípios, e geralmente, fazer isso diante de todas as situações não vale a pena seu tempo. Ambos os tipos de pessoas, portanto, passam um dia médio com o software do seu cérebro executando no piloto automático e seus centros de decisão conscientes inactivos.

Mas então vem um dia em que algo novo precisa ser descoberto. Talvez o cozinheiro e o chef recebam uma nova tarefa no trabalho, como criar uma estratégia de marketing melhor para a empresa. Ou talvez eles estejam infelizes com esse emprego e pensando em qual negócio poderia começar sozinho. Talvez eles tenham uma queda por alguém por quem jamais imaginaram que poderiam sentir algo, e agora precisam descobrir o que fazer com isso.

Seja qual for esta nova situação, o piloto automático não será suficiente – isso é algo novo e nem o software do cozinheiro nem o software do chef fizeram isso antes. O que deixa apenas duas opções:

Criar ou copiar.

O chef diz: “Uh, está bem, vamos lá”, levanta as mangas e faz o que sempre faz nessas situações – ele aciona a parte consciente de tomada de decisão do seu software e começa a trabalhar. Ele vê os dados que tem e procura saber o que ainda precisa saber. Ele pensa sobre o estado atual do mundo e reflete sobre onde estão seus valores e prioridades. Ele reúne esses princípios relevantes dos primeiros princípios e começa a intrigar um caminho de raciocínio.

É preciso um trabalho árduo, mas, eventualmente, o caminho leva o chef a uma hipótese. Ele sabe que provavelmente está errado, e à medida que novos dados emergem, o chef “testará” a hipótese e, a seguir, colherá novos dados. Ele mantém o centro de tomada de decisão em espera para as próximas semanas, pois o chef faz um monte de ajustes precoce para a hipótese que falhou – um pouco mais de sal, um pouco menos de açúcar, um ingrediente principal que precisa ser trocado por outro.

Eventualmente, o chef ficará satisfeito com a forma como as coisas se resolveram, e voltará ao modo de piloto automático. Esta nova decisão agora é parte da rotina automatizada – uma nova receita está no livro de receitas – e ele irá verificar isso para fazer ajustes de vez em quando, a medida em que novos dados pertinentes entrarem, como ele faz com todas as partes de seu software.

O cozinheiro não tem ideia do que está acontecendo na cabeça de um chef. O software de raciocínio do cozinheiro é chamado de “O que a receita diz para fazer”, e é mais um catálogo informatizado de receitas do que um programa de computador. Quando o cozinheiro precisa tomar uma decisão de vida, ele passa por sua coleção de receitas escritas por autoridades, encontra aquela com a qual se sente confiante naquela etapa particular de sua vida e lê os passos para ver o que fazer em seguida.

Para a maioria das pessoas, a última autoridade é a tribo, uma vez que o dogma tribal do cozinheiro cobre a maioria das decisões-padrão. Mas vamos supor que, nesse caso particular, o cozinheiro folheou o livro de receitas da tribo e não encontrou nenhuma seção sobre como cozinhar esse tipo de decisão. Então ele precisa pegar uma receita de outra autoridade em quem confia para esse tipo de coisa. E quando encontrar a receita certa, ele pode colocá-la em seu catálogo e usá-la para todas as decisões futuras sobre este assunto.

Primeiro, o cozinheiro tenta alguns amigos ou familiares. Seu catálogo não tem a receita necessária, mas talvez um deles a tenha. Ele pede conselho a eles – não para que possa usar o conselho como um elemento adicional para auxiliar o seu próprio raciocínio, mas sim como um candidato a se tornar seu próprio pensamento.

Se isso não produzir os resultados desejados, o cozinheiro acabará buscando auxílio na verdadeiro e eterno fim de linha dos cozinheiros: a sabedoria convencional.

A sociedade como um todo é ela própria uma tribo aberta, muitas vezes abrangendo toda uma nação ou mesmo toda uma região do mundo, e o que chamamos de “sabedoria convencional” é o livro de receitas segundo os dogmas dessa tribo – um livro sempre on-line e disponível ao público.

Normalmente, quanto maior a tribo, mais generalizado e mais desatualizado será o seu livro de receitas. E o banco de dados da sabedoria convencional nesses casos é como um site que foi atualizado pela última vez em 1992. Mas quando o cozinheiro não tem para onde ir, ele é como um velho amigo de confiança.

Vamos supor que o cozinheiro esteja pensando em começar um negócio e deseja saber quais são as possibilidades – a sabedoria convencional tem a resposta. Ele digita o que quer pesquisar, aguarda alguns minutos e, em seguida, o sistema bombeia sua resposta:

O cozinheiro, completamente desencorajado, agradece a máquina e atualiza sua Caixa de Realidade conforme essa resposta:

Com a decisão tomada (não iniciar uma empresa), ele coloca seu software de volta no modo de piloto automático. Missão cumprida.

Musk chama o jeito de pensar do cozinheiro de “raciocínio por analogia” (em oposição ao raciocínio dos primeiros princípios), o que é um bom eufemismo. Na próxima vez que uma criança for pega copiando as respostas do exame de outro aluno durante o teste, eae deve apenas explicar que estava raciocinando por analogia.

Se começar a procurar, você verá essa coisa de cozinheiro/chef acontecer em todos os lugares. Existem chefs e cozinheiros no mundo da música, da arte, da tecnologia, da arquitetura, da literatura, dos negócios, da comédia, do marketing, no desenvolvimento de aplicativos, no treinamento de futebol, na educação e na estratégia militar. E, em cada caso, embora tanto o cozinheiro como o chef geralmente estejam funcionando só no piloto automático, fazendo sem pensar as mesmas receitas repetidamente no cotidiano. Mas naqueles momentos decisivos, em que é preciso enfrentar algo novo, o chef cria e o cozinheiro, como sempre faz, copia.

E a diferença no resultado é enorme. Para os cozinheiros, mesmo o tipo mais inovador, quase sempre há um limite no tamanho do espetáculo que podem fazer no mundo, a menos que haja alguma sorte envolvida. Chefs não têm garantia de fazer nada de bom, mas quando há um pouco de talento e muita persistência, eles estão quase certos de fazer um espetáculo. Às vezes, o chef é voluntarioso o suficiente para fazer algo grande, mas outras vezes, o chef não deseja causar tanto alarde e com força de caráter abandona o desafio para manter uma vida mais tranquila. Ser um chef não é ser como Elon Musk: é ser você mesmo.

Todos falam sobre a “indústria da música”, mas ninguém fala sobre a “indústria de raciocínios”. Porém, todos somos parte dela, e quando se trata de cozinheiros e chefs, ou músicos amadores e artistas, não é diferente de qualquer outra indústria. Estamos trabalhando na indústria de raciocínio toda vez que tomamos uma decisão.

Sua vida atual, com todas as suas facetas e complexidade, é como uma música dessa indústria do raciocínio. As perguntas importantes são: Como essa música que você toda foi criada? Onde a melodia foi elaborada, e por quem? E no momento de criar sua própria música, como você faz? Você se aprofunda em si mesmo e cria algo novo? Ou você começa com o ritmo de uma música já existente e com os acordes de outra e constrói sua própria melodia em cima disso? Ou você apenas toca covers?

Eu sei o que você quer que as respostas a essas perguntas sejam. Isso é evidente: é claramente melhor ser um chef. Mas, ao contrário do caso com a maioria das distinções importantes na vida, como trabalhador versus preguiçoso, ético versus desonesto, quando a distinção chef entre cozinheiro pode passar bem na nossa frente, e muitas vezes nem percebemos que ela está lá .

Ignorando a diferença

Como a fila culinária que vai de cozinheiro amador a chef, a fila de tipos de tomadores de decisão não é binária, mas composta de um amplo espectro:

Mas tenho certeza de que quando a maioria de nós olha esse espectro, pensamos que estamos mais à direita do que realmente estamos. Geralmente, somos mais amadores do que percebemos – simplesmente não podemos ver nossa posição exata, da perspectiva de onde estamos.

Por exemplo, os cozinheiros são seguidores por definição. O que quer que estejam fazendo, estão fazendo conforme algum tipo de receita. Mas a maioria de nós não se considera seguidores.

Um seguidor, pensamos, é um fraco sem mente própria. Pensamos nos cargos de liderança que exercemos, nas iniciativas que tomamos no trabalho e na forma como nunca deixamos que os amigos nos guiem e tomamos isso como prova de que não somos seguidores. O que, por sua vez, significa que não somos apenas cozinheiros.

Mas o problema é que essas coisas apenas provam que que você não é um seguidor dentro da sua tribo. Como Einstein disse:

“Para ser um membro exemplar de um rebanho de ovelhas, é preciso ser, antes de tudo, uma ovelha.”

Em outras palavras, você pode ser uma celebridade e um líder perante os olhos da sociedade, mas se o principal motivo pelo qual você escolheu ser assim, em primeiro lugar, foi porque o livro de receitas da sua tribo diz que é uma coisa impressionante e que fará de você um membro vip, então você na verdade não está sendo um líder: você está sendo um seguidor bem-sucedido. E, como diz Einstein, não é menos cozinheiro do que todos aqueles cozinheiros que você impressionou.

Para ver a verdade, você precisa ampliar sua perspectiva até perceber o líder real dos cozinheiros – o livro de receitas.

Mas não tendemos a ampliar nossa perspectiva, e quando olhamos a nossa vida focados no que parece ser um eu altamente livre e independente, podemos estar apenas tendo uma ilusão de óptica.

O que muitas vezes parece um raciocínio independente, quando ampliado é realmente um jogo de juntar os pontos em um conjunto de etapas pré-impresso, estabelecido por outra pessoa. O que parece ser valores pessoais pode ser apenas os valores gerais da sua tribo. O que parece ser opiniões originais pode realmente ser algo elaborado pela mídia, nossos pais, amigos, religião ou por alguma celebridade. O que parece que nosso exclusivo caminho de vida pode ser só uma das várias estradas já pavimentadas, pré-estabelecidas e sancionadas pela tribo. O que parece ser criatividade pode ser apenas o ato de preencher um livro para colorir, certificando-se de permanecer dentro das linhas.

Por causa dessa ilusão de ótica, não podemos ver as falhas em nosso próprio pensamento ou reconhecer um pensador excepcionalmente ótimo quando vemos um. Em vez disso, quando um chef com pensamento independente altamente científico e desenvolvido como Elon Musk ou Steve Jobs ou Albert Einstein aparece, a que atribuímos seu sucesso?

Atribuímos ao incrível hardware que herdaram.

Quando olhamos para Musk, vemos alguém com gênio, visão e ousadia sobre-humanas. Todas essas coisas, nós presumimos, já nasceram com ele. Então, para nós, a fileira de cozinheiros do raciocínio se parece mais com isso:

Do jeito que o vemos, todos somos um grupo de chefs de pensamento independente – e é só que Musk é um chef realmente impressionante.

Isso significa que estamos (A) superestimando Musk e (B) superestimando a nós mesmos. E falta completamente a história real.

Musk é um chef impressionante com certeza, mas o que o torna posicionado tão ao extremo da fila não é o fato de que ele seja impressionante: é o fato de que a maioria de nós não somos chefs na verdade.

É como um monte de máquinas de escrever que olham para um computador e dizem: “cara, essa é uma talentosa máquina de escrever”.

A razão pela qual temos tanto dificuldade em ver o que realmente está acontecendo é que não vemos o software cerebral como algo real. Nós não pensamos em cérebros como computadores, então não pensamos na distinção entre hardware e software. Quando pensamos no cérebro, pensamos apenas no hardware – a coisa com a qual nascemos e somos impotentes para mudar ou melhorar. Muito menos tangível para nós é o conceito de como raciocinamos. Vemos o raciocínio como algo que apenas acontece, como o fluxo sanguíneo de nossos corpos – é um processo que acontece automaticamente, e não há muito mais a dizer ou a fazer sobre isso.

E se não podemos nem mesmo ver a distinção entre hardware e software, certamente não podemos ver a mais sutil diferença entre o software de um chef e de um cozinheiro amador.

Ao não vermos nosso software de nosso pensamento como ele é (uma habilidade de vida crítica, algo que pode ser aprendido, praticado e melhorado, e que é o principal fator que separa as pessoas que fazem grandes coisas daqueles que não fazem nada) não conseguimos perceber onde o jogo da vida realmente está sendo jogado. Nós não reconhecemos o raciocínio como algo que pode ser criado ou copiado. E da mesma forma como isso nos faz confundir nossa maneira de pensar com raciocínio independente, confundimos o verdadeiro raciocínio independente e excepcional com uma habilidade mágica.

Três exemplos são úteis:

1) Nós confundimos a visão clara do cozinheiro sobre o presente com uma visão sobre o futuro.

A irmã de Musk disse: “Elon já foi para o futuro e voltou para nos contar o que ele encontrou”. É assim que muitas pessoas se sentem sobre Musk – que é um visionário, que ele pode de alguma forma ver coisas que não podemos. Nós o vemos assim:

Mas, na verdade, é assim:

A sabedoria convencional é lenta para evoluir, e há atraso significativo entre o momento em que algo se torna realidade e o momento em que a sabedoria convencional é revisada para refletir essa realidade. E, quando o faz, a realidade passou a ser outra coisa. Mas os chefs não prestam atenção nisso, e raciocinam usando seus olhos e ouvidos e experimentando. Ao ignorar a sabedoria convencional em favor de simplesmente olhar o presente tal como ele realmente é, e ao ficarem atualizados sobre os fatos do mundo a medida em que eles se transformam (a despeito de tudo o que a sabedoria convencional diz), o chef pode jogar de uma forma que o nosso software ainda não nos deu permissão ainda para jogar.

2) Nós confundimos a compreensão precisa das coisas com coragem.

Lembre-se desta citação:

Quando eu era pequeno, eu tinha muito medo do escuro. Mas então entendi que a escuridão significa apenas a ausência de fótons no comprimento de onda visível – 400 a 700 nanômetros. Então pensei, ‘bem, é realmente bobo ter medo de uma falta de fótons’. Então, eu não tive mais medo do escuro depois disso.

Esse é apenas um chef enquanto criança, avaliando os fatos reais de uma situação de forma a decidir que seu medo era inadequado.

Musk está dizendo essencialmente: “As pessoas consideram X ser assustador, mas seu medo não é baseado na lógica, então não tenho medo de X“. Isso não é coragem – isso é lógica.

Coragem significa fazer algo arriscado. Risco significa se expor ao perigo. Nós intuitivamente entendemos isso – é por isso que a maioria de nós não chamaria a criança Elon de corajosa por dormir com as luzes apagadas.Coragem seria uma palavra estranha para usar, porque nenhum perigo real estava envolvido.

Então, quando Musk colocou toda a fortuna para baixo e em SpaceX e Tesla, ele estava sendo ousado, mas corajoso? Não é a palavra certa. Era um caso de um chef juntando um monte de informações que ele tinha e criando com elas um plano que parecia lógico. Não que ele tivesse certeza de que teria sucesso (de fato, a SpaceX, em particular, tinha uma probabilidade razoável de falha) é só que em nenhum lugar em suas avaliações ele previu perigo real.

3) Nós confundimos a originalidade do chef com engenhosidade brilhante.

As pessoas acreditam que pensar fora da caixa exige inteligência e criatividade, mas se trata principalmente de pensar com independência. Quando você simplesmente ignora a caixa e constrói seu raciocínio a partir do zero, seja você brilhante ou não, você acaba com uma conclusão única, que pode ou não se ajustar dentro da caixa.

Quando você está em um país estrangeiro e decide abandonar o guia e começar a vagar sem rumo e conversar com as pessoas, coisas únicas sempre acabam acontecendo. Quando as pessoas escutam sobre essas coisas, pensam em você como um viajante profissional e um aventureiro ousado – quando tudo o que você realmente fez foi abandonar o guia.

Da mesma forma, quando um artista, cientista ou empresário pensa a partir dos primeiros princípios ao invés de pensar por analogia, e a partir disso suas ideias (a) começam a dar certo e (b) não são convencionais, todos as chamam de inovações e ficam maravilhadas com a engenhosidade do chef. Quando essas ideias dão muito certo, todos os cozinheiros fazem o seu melhor: copiam. E a partir disso temos uma revolução.

Basta abster-se do raciocínio por analogia, e o chef abre a possibilidade de fazer um grande espetáculo em cada projeto. Quando Steve Jobs e a Apple voltaram sua atenção para os telefones, eles não começaram dizendo: “Ok, bem, as pessoas parecem gostar desse tipo de teclado mais do que desse tipo, e todos parecem infelizes com a dificuldade de bater nos números em seus teclados, então vamos nos tornar criativos e ainda fazer o melhor teclado para o telefone celular!” Eles simplesmente perguntaram: “O que deveria ser um dispositivo móvel?” E em seu raciocínio de primeiros princípios, um teclado físico não se tornou parte do projeto. Não foi preciso um gênio para inventar o design do iPhone. Na verdade, é bastante lógico: isso só exigiu a capacidade de não copiar.

Versão diferente da mesma história ocorreu com a criação dos Estados Unidos. Quando os antepassados americanos se encontraram com um novo país em suas mãos, eles não se perguntaram: “Quais devem ser as regras para escolhermos nosso rei e quais devem ser as limitações de seu poder?” Um rei, para eles, era o que o teclado físico era para a Apple. Em vez disso, eles perguntaram: “Como deve ser o país e qual a melhor maneira de governar um grupo de pessoas?”. E quando eles concluíram seu raciocínio de primeiros princípios, um rei não fazia parte do projeto – os primeiros princípios os levaram a acreditar que John Locke tinha um plano melhor e eles trabalharam a partir dele.

A história está cheia de chefs que criaram revoluções aparentemente geniais partindo de um simples raciocínio de primeiros princípios. Genghis Khan organizou uma série de tribos fragmentadas há séculos usando uma estrutura de poder a fim de formar uma grande tribo que poderia conquistar o mundo. Henry Ford criou carros com a técnica de fabricação em linha de montagem para levar carros às massas pela primeira vez. Marie Curie usou métodos não convencionais para promover a teoria da radioatividade e derrubar a suposição de que “átomos são indivisíveis” (ela ganhou um Prêmio Nobel em física e química – dois prêmios reservados exclusivamente para chefs). Martin Luther King utilizou a abordagem não-violenta de Thoreau para uma situação que normalmente era enfrentada com tumultos. Larry Page e Sergey Brin ignoraram os métodos comumente usados ​​de pesquisar na internet em favor do que eles viram como um sistema mais lógico, que se baseou na importância da página e na quantidade de sites importantes que se vinculam a essa página. Os Beatles de 1966 decidiram deixar de ser os melhores cozinheiros do mundo, abandonando o típico estilo de composição das bandas dos anos 60, incluindo seu próprio estilo, e se tornam chefs de música, criando do zero um monte de novos tipos de músicas, composições que ninguém já havia ouvido antes.

Seja qual for o tempo, o lugar ou a indústria, quando algo realmente grande acontece, quase sempre há um chef experiente no centro dos acontecimentos – alguém que não foi nada mágico, mas apenas confiou em seu cérebro e trabalhou a partir do zero. Nosso mundo foi criado por essas pessoas – o resto de nós está apenas seguindo o caminho.

Sim, Musk é inteligente e insanamente ambicioso – mas não é por isso que ele está superando a todos. O que faz Musk tão radical é que ele é um software atípico. Um chef notável em um mundo de cozinheiros. Um geólogo científico em um mundo de geólogos diluviano. Um software cerebral versão profissional em um mundo onde as pessoas não percebem que o software em seus cérebros é uma coisa a ser considerada.

Esse é segredo de Elon Musk.

É por isso que a verdadeira história aqui não é Musk. Somos nós.

O verdadeiro quebra-cabeça nesta série de textos não porque Elon Musk está tentando acabar com a era dos carros a gasolina ou porque está tentando colonizar Marte: é porque pessoas como ele são tão raras entre nós.

A coisa curiosa sobre a indústria automobilística não é a Tesla estar produzindo carros elétricos, e a coisa curiosa sobre a indústria aeroespacial não é a SpaceX tentar produzir os foguetes reutilizáveis ​​- a coisa curiosa sobre essas indústrias é porque a Tesla e a Space X são as únicas empresas a fazê-lo.

Passamos o tempo todo tentando descobrir o funcionamento misterioso da mente de um gênio apenas para perceber que o segredo de Musk é que ele é o único a ser normal. E sozinho, Musk seria um tema muito chato – é o pano de fundo formado por nós que o torna mais interessante. E é desse pano de fundo que esta série é realmente trata.

Então … qual é o problema com nós? Como foi que acabamos sendo cozinheiros tão amadores na habilidade de pensar? E como aprender um ser mais como os grandes chefs do mundo, que parecem abrir tão sem dificuldades o caminho da própria vida? Eu acho que se trata de três coisas.

[Na quinta e última parte dessa série, Tim Urban apresentará epifanias e dicas que permitirão a qualquer um desenvolver e aprimorar o seu próprio software de raciocínio].