Brincar com o paradoxo, com aquilo que é ambivalente, vida & morte; como num jogo de amarelinha, percorrer “céu & inferno”, pulando nas casas, mantendo-se no limite do equilíbrio, porque assumir o risco representa celebrar a vida, ao contrário da rotina & monotonia mortificantes.

Neste jogo, resolvi retornar a um momento remoto da minha vida. Existe algo de misterioso & mágico na infância. O olhar infantil sobre o escuro, sobre a morte, sobre o universo de coisas que dá formato à vida.

A tentativa de retornar à percepção da criança significa resgatar o sentido da existência como fábula: a criança como um sábio que permite acesso à zona de mistério, pois, como afirmou Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. A criança sabe – nem tudo, muitos julgam que pouco -, mas elas sabem algo muito importante.

Quando eu era criança, encarava o escuro como um mundo misterioso, habitado por figuras imaginárias que me despertavam medo a encanto. Não temia a morte, simplesmente a re-significava de tal maneira que a deixava inofensiva. A “idade da razão” substituiu meus “amigos imaginários” por outros fantasmas, a certeza sobre a finitude da vida.

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 1

Os retratos de minhas “meninas mortas” são uma paródia da morte. Porque a morte não pode vencer aquele que não acredita nela. Começamos a morrer de fato quando incorporamos racionalmente a morte.

A “menina morta” é a sabotagem do sentido de finitude, da ideia de vida ou morte como tragédia, pois a criança faz da morte um jogo inofensivo, uma brincadeira. Portanto, retorno à infância para restituir o sentido lúdico & misterioso; negação da morte como esgotamento & colapso, para pensar a morte como fábula, mistério, brincadeira infantil.

Tenho plena convicção de que o ponto de ruptura entre a infância e o momento em que nos assumimos definitivamente como adultos é quando a consciência acerca da finitude da vida se afirma de maneira plena & implacável.

Nesta re-interpretação sobre a morte, procuro conduzir minhas pequenas personagens ao dia dos mortos, celebrado no México, em que a morte também assume uma linguagem lúdica, colorida, festiva. Procuro promover a transfiguração de minhas crianças na imagem sábia & respeitosa da “SANTA MUERTE”: adorável Santa Criança Morte!

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 2

Alguns podem questionar acerca da relevância de um trabalho dessa natureza: “você ultrapassou o limite do bom-senso ao caracterizar crianças como Santa Muerte, com o rosto pintado de caveira mexicana, enfeitadas com flores fúnebres, enroladas em tecidos como se tivessem sido imoladas”.

Se a provocação e o desconforto ao olhar do espectador diante das pequeninas representações da Santa Morte fossem os únicos efeitos causados pela imagem, já teria isso justificado o esforço. No entanto, acredito com entusiasmo que a relevância desse trabalho consegue se estender para além do mal-estar imediato.

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 3

Esse processo de ritualização da morte, como no exemplo da cultura mexicana, pode representar uma certa maneira de afirmação da vida sobre o destino fúnebre que nos espreita. Creio ser essa uma hipótese interessante.

Os mexicanos tratam a Santa Morte com respeito. No seu altar, eles oferecem velas, flores, comida, tequila, maconha, o que pode ser interpretado como uma espécie de negociação, uma forma de manutenção cordial de espaços simbólicos: “eu te respeito, Santíssima, para que eu possa estender minha existência & gozar da vida, com sua graça & proteção”.

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Do ponto de vista da infância, esta série de fotografias pode contribuir no sentido de estimular a construção de novas representações acerca da infância, reconectando o imaginário infantil ao imaginário adulto acerca da realidade. O senso comum tende a calar o discurso da criança. Nos dias de hoje, talvez seja preciso reaprender com as crianças a repensar determinados aspectos da vida.

Então, me dou conta que neste processo de desafiar a morte, submeto minhas “meninas mortas” a um processo de “des-infantilização”. Elas não são representadas como crianças comuns, frágeis. O olhar delas causa fascínio, espanto, até mesmo desconforto. São crianças sábias. Elas também expõe outro paradoxo: minhas “meninas mortas” estão mais vivas do que você, porque venceram a morte no momento que a transformaram numa brincadeira.

Qual a lição? Acreditar no impossível é o caminho da rebelião. A chave da revolução pertence às crianças.


Obras selecionadas do projeto “SANTA CRIANÇA MORTE” estão em exposição em Porto Alegre/RS, na Usina do Gasômetro (Galeria Lunara, 5° andar) de 26 de março a 26 de abril deste ano.

escrito por:

Alexandre Medeiros

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