santa criança morte - alexandre medeiros

A Santa Criança Morte

Em Consciência, Tempo de Curtir por Alexandre MedeirosComentário

Brin­car com o para­doxo, com aquilo que é ambi­va­lente, vida & morte; como num jogo de ama­re­li­nha, per­cor­rer “céu & inferno”, pulando nas casas, man­tendo-se no limite do equi­lí­brio, por­que assu­mir o risco repre­senta cele­brar a vida, ao con­trá­rio da rotina & mono­to­nia mor­ti­fi­can­tes.

Neste jogo, resolvi retor­nar a um momento remoto da minha vida. Existe algo de mis­te­ri­oso & mágico na infân­cia. O olhar infan­til sobre o escuro, sobre a morte, sobre o uni­verso de coi­sas que dá for­mato à vida.

A ten­ta­tiva de retor­nar à per­cep­ção da cri­ança sig­ni­fica res­ga­tar o sen­tido da exis­tên­cia como fábula: a cri­ança como um sábio que per­mite acesso à zona de mis­té­rio, pois, como afir­mou Oscar Wilde, “não sou jovem o sufi­ci­ente para saber tudo”. A cri­ança sabe — nem tudo, mui­tos jul­gam que pouco -, mas elas sabem algo muito impor­tante.

Quando eu era cri­ança, enca­rava o escuro como um mundo mis­te­ri­oso, habi­tado por figu­ras ima­gi­ná­rias que me des­per­ta­vam medo a encanto. Não temia a morte, sim­ples­mente a re-sig­ni­fi­cava de tal maneira que a dei­xava ino­fen­siva. A “idade da razão” subs­ti­tuiu meus “ami­gos ima­gi­ná­rios” por outros fan­tas­mas, a cer­teza sobre a fini­tude da vida.

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 1

Os retra­tos de minhas “meni­nas mor­tas” são uma paró­dia da morte. Por­que a morte não pode ven­cer aquele que não acre­dita nela. Come­ça­mos a mor­rer de fato quando incor­po­ra­mos raci­o­nal­mente a morte.

A “menina morta” é a sabo­ta­gem do sen­tido de fini­tude, da ideia de vida ou morte como tra­gé­dia, pois a cri­ança faz da morte um jogo ino­fen­sivo, uma brin­ca­deira. Por­tanto, retorno à infân­cia para res­ti­tuir o sen­tido lúdico & mis­te­ri­oso; nega­ção da morte como esgo­ta­mento & colapso, para pen­sar a morte como fábula, mis­té­rio, brin­ca­deira infan­til.

Tenho plena con­vic­ção de que o ponto de rup­tura entre a infân­cia e o momento em que nos assu­mi­mos defi­ni­ti­va­mente como adul­tos é quando a cons­ci­ên­cia acerca da fini­tude da vida se afirma de maneira plena & impla­cá­vel.

Nesta re-inter­pre­ta­ção sobre a morte, pro­curo con­du­zir minhas peque­nas per­so­na­gens ao dia dos mor­tos, cele­brado no México, em que a morte tam­bém assume uma lin­gua­gem lúdica, colo­rida, fes­tiva. Pro­curo pro­mo­ver a trans­fi­gu­ra­ção de minhas cri­an­ças na ima­gem sábia & res­pei­tosa da “SANTA MUERTE”: ado­rá­vel Santa Cri­ança Morte!

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 2

Alguns podem ques­ti­o­nar acerca da rele­vân­cia de um tra­ba­lho dessa natu­reza: “você ultra­pas­sou o limite do bom-senso ao carac­te­ri­zar cri­an­ças como Santa Muerte, com o rosto pin­tado de caveira mexi­cana, enfei­ta­das com flo­res fúne­bres, enro­la­das em teci­dos como se tives­sem sido imo­la­das”.

Se a pro­vo­ca­ção e o des­con­forto ao olhar do espec­ta­dor diante das peque­ni­nas repre­sen­ta­ções da Santa Morte fos­sem os úni­cos efei­tos cau­sa­dos pela ima­gem, já teria isso jus­ti­fi­cado o esforço. No entanto, acre­dito com entu­si­asmo que a rele­vân­cia desse tra­ba­lho con­se­gue se esten­der para além do mal-estar ime­di­ato.

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 3

Esse pro­cesso de ritu­a­li­za­ção da morte, como no exem­plo da cul­tura mexi­cana, pode repre­sen­tar uma certa maneira de afir­ma­ção da vida sobre o des­tino fúne­bre que nos espreita. Creio ser essa uma hipó­tese inte­res­sante.

Os mexi­ca­nos tra­tam a Santa Morte com res­peito. No seu altar, eles ofe­re­cem velas, flo­res, comida, tequila, maco­nha, o que pode ser inter­pre­tado como uma espé­cie de nego­ci­a­ção, uma forma de manu­ten­ção cor­dial de espa­ços sim­bó­li­cos: “eu te res­peito, San­tís­sima, para que eu possa esten­der minha exis­tên­cia & gozar da vida, com sua graça & pro­te­ção”.

santa criança morte - alexandre medeiros - foto 4

Do ponto de vista da infân­cia, esta série de foto­gra­fias pode con­tri­buir no sen­tido de esti­mu­lar a cons­tru­ção de novas repre­sen­ta­ções acerca da infân­cia, reco­nec­tando o ima­gi­ná­rio infan­til ao ima­gi­ná­rio adulto acerca da rea­li­dade. O senso comum tende a calar o dis­curso da cri­ança. Nos dias de hoje, tal­vez seja pre­ciso rea­pren­der com as cri­an­ças a repen­sar deter­mi­na­dos aspec­tos da vida.

Então, me dou conta que neste pro­cesso de desa­fiar a morte, sub­meto minhas “meni­nas mor­tas” a um pro­cesso de “des-infan­ti­li­za­ção”. Elas não são repre­sen­ta­das como cri­an­ças comuns, frá­geis. O olhar delas causa fas­cí­nio, espanto, até mesmo des­con­forto. São cri­an­ças sábias. Elas tam­bém expõe outro para­doxo: minhas “meni­nas mor­tas” estão mais vivas do que você, por­que ven­ce­ram a morte no momento que a trans­for­ma­ram numa brin­ca­deira.

Qual a lição? Acre­di­tar no impos­sí­vel é o cami­nho da rebe­lião. A chave da revo­lu­ção per­tence às cri­an­ças.


Obras sele­ci­o­na­das do pro­jeto “SANTA CRIANÇA MORTE” estão em expo­si­ção em Porto Alegre/RS, na Usina do Gasô­me­tro (Gale­ria Lunara, 5° andar) de 26 de março a 26 de abril deste ano.

Compartilhe