sacrifice

Por que as sociedades praticavam sacrifício humano?

Em História, Tempo de Saber por Rodrigo ZottisComentário

O sacri­fí­cio humano foi pra­ti­cado em mui­tas soci­e­da­des ao longo da his­tó­ria, e no mundo inteiro. Na China e no Egito, os túmu­los dos gover­nan­tes eram acom­pa­nha­dos por valas que con­ti­nham cen­te­nas de cor­pos huma­nos. A crença base­ava-se na noção de que os ser­vos deve­riam pres­tar assis­tên­cia aos seus gover­nan­tes mesmo após a sua vida — nem mesmo a morte era garan­tia de apo­sen­ta­do­ria e fim da ser­vi­dão para esses pobres coi­ta­dos.

Por todo o con­ti­nente euro­peu e nas Ilhas Bri­tâ­ni­cas, cadá­ve­res foram encon­tra­dos enter­ra­dos ao lado de anéis, joias de bronze e esta­tu­e­tas de madeira. Na Amé­rica Cen­tral, os anti­gos maias e aste­cas extraíam no alto de alta­res os cora­ções de suas víti­mas ainda pal­pi­tan­tes.

Não é nenhuma sur­presa, então, que mui­tos livros reli­gi­o­sos, incluindo o Alco­rão, a Bíblia, o Torá e os Vedas, façam refe­rên­cia ao sacri­fí­cio humano.

Isto levanta algu­mas ques­tões fun­da­men­tais: como e por que algo tão hor­rí­vel como o sacri­fí­cio humano pode ter sido tão comum nas pri­mei­ras soci­e­da­des huma­nas? Será pos­sí­vel que o sacri­fí­cio humano possa ter ser­vido para alguma fun­ção social, e tra­zido bene­fí­cios ao menos a alguns mem­bros de uma soci­e­dade?

Tal­vez a aná­lise de uma região do mundo par­ti­cu­lar­mente afei­ço­ada ao ritual do sacri­fí­cio humano possa dar uma pista.

Hipótese do Controle Social

Quando os pri­mei­ros explo­ra­do­res e mis­si­o­ná­rios oci­den­tais visi­ta­ram as ilhas e arqui­pé­la­gos que com­põem a Aus­tro­né­sia, cons­ta­ta­ram a impor­tân­cia do sacri­fí­cio humano para as cul­tu­ras da região e fica­ram escan­da­li­za­dos com a popu­la­ri­dade dessa prá­tica.

Os ante­pas­sa­dos ​​dos aus­tro­né­sios foram exce­len­tes nave­ga­do­res, ori­gi­ná­rios da ilha chi­nesa de Taiwan, e migra­ram para o oeste, pas­sando de Mada­gas­car até a Ilha de Pás­coa e ao sul, che­gando à Nova Zelân­dia. Eles nave­ga­ram por mais da metade da lon­gi­tude do mundo. Essas cul­tu­ras vari­a­vam desde peque­nas comu­ni­da­des de base fami­liar, igua­li­tá­rias, como era o caso dos Isnag, até os havai­a­nos, que viviam em esta­dos com­ple­xos com famí­lias reais, escra­vos em cen­te­nas de milha­res de pes­soas.

sacrifício humano

Região que com­pre­ende a Aus­tro­né­sia.

A prá­tica do sacri­fí­cio pelos aus­tro­né­sios des­per­tou a curi­o­si­dade de uma equipe mul­ti­dis­ci­pli­nar coor­de­nada pelo pes­qui­sa­dor Joseph Watts. A pes­quisa reu­niu infor­ma­ções sobre 93 cul­tu­ras de aus­tro­né­sios tra­di­ci­o­nais, e uti­li­zou méto­dos de bio­lo­gia evo­lu­tiva para afe­rir como o sacri­fí­cio humano afe­tou a evo­lu­ção dos sis­te­mas de clas­ses soci­ais na pré-his­tó­ria humana.

Segundo seus estu­dos, o sacri­fí­cio humano foi rea­li­zado em 43% das cul­tu­ras estu­da­das na região. Os even­tos que exi­giam sacri­fí­cios huma­nos eram dos mais diver­sos tipos, como a morte de che­fes, cons­tru­ção de casas e canoas, pre­pa­ra­ção para guer­ras, sur­tos epi­dê­mi­cos e vio­la­ção dos prin­ci­pais tabus soci­ais. O ritual do sacri­fí­cio tam­bém vari­ava sig­ni­fi­ca­ti­va­mente, e podia desde estran­gu­lar a vítima, incen­diá-la, enterrá-la, afogá-la, esmagá-la sob uma canoa, lançá-la de grande altura ou deca­pitá-la.

A pes­quisa resul­tou em um artigo publi­cado na revista Nature, pro­pondo uma aná­lise glo­bal das moti­va­ções por trás desse tipo de prá­tica. Segundo con­cluiu a equipe de Watts, o sacri­fí­cio humano real­mente teve um sig­ni­fi­cado social e não ape­nas reli­gi­oso nas pri­mei­ras soci­e­da­des huma­nas. Essa teo­ria, chama da de Hipó­tese do Con­trole Social, sugere que o sacri­fí­cio humano foi usado por eli­tes para ater­ro­ri­zar as clas­ses infe­ri­o­res, punir a deso­be­di­ên­cia e demons­trar auto­ri­dade. Dessa forma, o ritual homi­cida fun­ci­o­nava para cons­truir e man­ter sis­te­mas de clas­ses.

sacrifício humano

O explo­ra­dor James Cook pre­sen­ciou um sacri­fí­cio humano, em Tahiti, na Poli­né­sia Fran­cesa, em 1773.

Na região da Aus­tro­né­sia, sacri­fí­cios huma­nos eram comum em cul­tu­ras com sis­te­mas de classe rigo­ro­sos, mas escasso em cul­tu­ras igua­li­tá­rias. Porém, isso não nos diz se o sacri­fí­cio humano fun­ci­o­nava para cons­truir sis­te­mas de classe social, ou se os sis­te­mas de classe social leva­ram ao sacri­fí­cio.

Bom para as elites

Usando o que se sabe sobre a árvore gene­a­ló­gica das lín­guas aus­tro­né­sias e dados cole­ta­dos em 93 cul­tu­ras aus­tro­né­sias, os pes­qui­sa­do­res foram capa­zes de recons­truir a his­tó­ria aus­tro­ne­si­ana e estu­dar como o sacri­fí­cio e as estru­tu­ras soci­ais huma­nas co-evo­luí­ram com o tempo.

Isto per­mi­tiu que se apu­rasse não ape­nas se o sacri­fí­cio humano está rela­ci­o­nado com sis­te­mas de clas­ses soci­ais, mas tam­bém se essa prá­tica tende a sur­gir antes ou depois da for­ma­ção desse sis­tema.

Os resul­ta­dos mos­tram que o sacri­fí­cio humano tende a sur­gir antes que os sis­te­mas de classe soci­ais apa­re­çam, aju­dando-os a cons­truí-las. Além do mais, ele difi­cul­tou que tais cul­tu­ras se tor­nas­sem igua­li­tá­rias nova­mente. Isso for­nece um forte apoio para a hipó­tese de Con­trole Social.

Na Aus­tro­né­sia, as víti­mas dos sacri­fí­cios huma­nos eram mui­tas vezes de sta­tus infe­rior, como os escra­vos. Os auto­res das exe­cu­ções, por outro lado, eram de um sta­tus ele­vado, como che­fes ou sacer­do­tes. Havia uma grande dis­tân­cia entre indi­ví­duos reli­gi­o­sos e polí­ti­cos e, em mui­tos casos, acre­di­tava-se que os che­fes e reis das tri­bos eram des­cen­den­tes de deu­ses.

Os sis­te­mas reli­gi­o­sos aca­ba­ram por favo­re­cer as eli­tes soci­ais, e aque­les que ofen­diam os mem­bros des­sas eli­tes tor­na­vam-se víti­mas pre­fe­ren­ci­ais de sacri­fí­cios huma­nos. Porém, quando um tabu que­brado exi­gia sacri­fí­cio humano, às vezes havia fle­xi­bi­li­dade no sis­tema e essa puni­ção não era apli­cada.

Por exem­plo, no Havaí, uma pes­soa que que­brasse um impor­tante tabu não neces­sa­ri­a­mente era morta, pois pode­ria virar um escravo, desde que tivesse con­di­ção (física) a tor­nar-se um.

O sacri­fí­cio humano pode ter sido um meio efi­caz de con­trole social, pois for­ne­ceu uma jus­ti­fi­ca­tiva sobre­na­tu­ral para rea­li­zar-se um ato de vio­lên­cia explí­cita e de per­su­a­são sobre os outros. Já sabía­mos que a mes­cla entre os sis­te­mas polí­ti­cos e reli­gi­o­sos sem­pre per­mi­tiu que as clas­ses domi­nan­tes, em uma soci­e­dade, modi­fi­cas­sem ritu­ais e prin­cí­pios reli­gi­o­sos para asse­gu­rar seu poder. O uso de sacri­fí­cio humano como meio de con­trole social é uma demons­tra­ção maca­bra de quão longe isso pode ir, e um argu­mento a mais a favor da sepa­ra­ção entre polí­tica e reli­gião.


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Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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