O sacrifício humano foi praticado em muitas sociedades ao longo da história, e no mundo inteiro. Na China e no Egito, os túmulos dos governantes eram acompanhados por valas que continham centenas de corpos humanos. A crença baseava-se na noção de que os servos deveriam prestar assistência aos seus governantes mesmo após a sua vida – nem mesmo a morte era garantia de aposentadoria e fim da servidão para esses pobres coitados.

Por todo o continente europeu e nas Ilhas Britânicas, cadáveres foram encontrados enterrados ao lado de anéis, joias de bronze e estatuetas de madeira. Na América Central, os antigos maias e astecas extraíam no alto de altares os corações de suas vítimas ainda palpitantes.

Não é nenhuma surpresa, então, que muitos livros religiosos, incluindo o Alcorão, a Bíblia, o Torá e os Vedas, façam referência ao sacrifício humano.

Isto levanta algumas questões fundamentais: como e por que algo tão horrível como o sacrifício humano pode ter sido tão comum nas primeiras sociedades humanas? Será possível que o sacrifício humano possa ter servido para alguma função social, e trazido benefícios ao menos a alguns membros de uma sociedade?

Talvez a análise de uma região do mundo particularmente afeiçoada ao ritual do sacrifício humano possa dar uma pista.

Hipótese do Controle Social

Quando os primeiros exploradores e missionários ocidentais visitaram as ilhas e arquipélagos que compõem a Austronésia, constataram a importância do sacrifício humano para as culturas da região e ficaram escandalizados com a popularidade dessa prática.

Os antepassados ​​dos austronésios foram excelentes navegadores, originários da ilha chinesa de Taiwan, e migraram para o oeste, passando de Madagascar até a Ilha de Páscoa e ao sul, chegando à Nova Zelândia. Eles navegaram por mais da metade da longitude do mundo. Essas culturas variavam desde pequenas comunidades de base familiar, igualitárias, como era o caso dos Isnag, até os havaianos, que viviam em estados complexos com famílias reais, escravos em centenas de milhares de pessoas.

sacrifício humano
Região que compreende a Austronésia.

A prática do sacrifício pelos austronésios despertou a curiosidade de uma equipe multidisciplinar coordenada pelo pesquisador Joseph Watts. A pesquisa reuniu informações sobre 93 culturas de austronésios tradicionais, e utilizou métodos de biologia evolutiva para aferir como o sacrifício humano afetou a evolução dos sistemas de classes sociais na pré-história humana.

Segundo seus estudos, o sacrifício humano foi realizado em 43% das culturas estudadas na região. Os eventos que exigiam sacrifícios humanos eram dos mais diversos tipos, como a morte de chefes, construção de casas e canoas, preparação para guerras, surtos epidêmicos e violação dos principais tabus sociais. O ritual do sacrifício também variava significativamente, e podia desde estrangular a vítima, incendiá-la, enterrá-la, afogá-la, esmagá-la sob uma canoa, lançá-la de grande altura ou decapitá-la.

A pesquisa resultou em um artigo publicado na revista Nature, propondo uma análise global das motivações por trás desse tipo de prática. Segundo concluiu a equipe de Watts, o sacrifício humano realmente teve um significado social e não apenas religioso nas primeiras sociedades humanas. Essa teoria, chama da de Hipótese do Controle Social, sugere que o sacrifício humano foi usado por elites para aterrorizar as classes inferiores, punir a desobediência e demonstrar autoridade. Dessa forma, o ritual homicida funcionava para construir e manter sistemas de classes.

sacrifício humano
O explorador James Cook presenciou um sacrifício humano, em Tahiti, na Polinésia Francesa, em 1773.

Na região da Austronésia, sacrifícios humanos eram comum em culturas com sistemas de classe rigorosos, mas escasso em culturas igualitárias. Porém, isso não nos diz se o sacrifício humano funcionava para construir sistemas de classe social, ou se os sistemas de classe social levaram ao sacrifício.

Bom para as elites

Usando o que se sabe sobre a árvore genealógica das línguas austronésias e dados coletados em 93 culturas austronésias, os pesquisadores foram capazes de reconstruir a história austronesiana e estudar como o sacrifício e as estruturas sociais humanas co-evoluíram com o tempo.

Isto permitiu que se apurasse não apenas se o sacrifício humano está relacionado com sistemas de classes sociais, mas também se essa prática tende a surgir antes ou depois da formação desse sistema.

Os resultados mostram que o sacrifício humano tende a surgir antes que os sistemas de classe sociais apareçam, ajudando-os a construí-las. Além do mais, ele dificultou que tais culturas se tornassem igualitárias novamente. Isso fornece um forte apoio para a hipótese de Controle Social.

Na Austronésia, as vítimas dos sacrifícios humanos eram muitas vezes de status inferior, como os escravos. Os autores das execuções, por outro lado, eram de um status elevado, como chefes ou sacerdotes. Havia uma grande distância entre indivíduos religiosos e políticos e, em muitos casos, acreditava-se que os chefes e reis das tribos eram descendentes de deuses.

Os sistemas religiosos acabaram por favorecer as elites sociais, e aqueles que ofendiam os membros dessas elites tornavam-se vítimas preferenciais de sacrifícios humanos. Porém, quando um tabu quebrado exigia sacrifício humano, às vezes havia flexibilidade no sistema e essa punição não era aplicada.

Por exemplo, no Havaí, uma pessoa que quebrasse um importante tabu não necessariamente era morta, pois poderia virar um escravo, desde que tivesse condição (física) a tornar-se um.

O sacrifício humano pode ter sido um meio eficaz de controle social, pois forneceu uma justificativa sobrenatural para realizar-se um ato de violência explícita e de persuasão sobre os outros. Já sabíamos que a mescla entre os sistemas políticos e religiosos sempre permitiu que as classes dominantes, em uma sociedade, modificassem rituais e princípios religiosos para assegurar seu poder. O uso de sacrifício humano como meio de controle social é uma demonstração macabra de quão longe isso pode ir, e um argumento a mais a favor da separação entre política e religião.


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escrito por:

Rodrigo Zottis

Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.