robocop

Robocop e o pós-humano

Em Ciência, Consciência, Série Transumanismo por João BottonComentários

1. Robocop faz pensar.

Sexta-feira à noite, não posso sair de casa ou tomar uma cer­veja. Febre, a gar­ganta ruim, muito ruim, os anti­bió­ti­cos me dei­xam meio gro­gue. Um filme ou dois são o melhor a fazer. Fui ver Robo­cop. Por quê? Por­que sou nos­tál­gico e quando era guri eu gos­tava muito desse filme, embora hoje em dia ele pareça meio paté­tico, com todos aque­les cli­chês sen­ti­men­taise mili­ta­ris­tas. O Robo­cop é ao mesmo tempo o homem dedi­cado, pai zeloso que sofre por­que sua nova con­di­ção ciber­né­tica o afasta de sua famí­lia, e a arma de última gera­ção que com­bate o crime no mundo, a jus­ti­fi­ca­ção para a indús­tria bélica ame­ri­cana, uma arma com amor no cora­ção, aliás, com um cora­ção.

Mas a nova ver­são é um pouco dife­rente. Valendo-se de uma boa pro­du­ção e de moder­nos efei­tos espe­ci­ais, supera o antigo. O pri­meiro filme é de 1987, diri­gido por Paul Verho­e­ven. O remake é de 2014, assi­nado pelo bra­si­leiro José Padi­lha, o cara que fez Tropa de Elite(I e II). O roteiro do remake tem pro­ble­mas e as cenas de ação são meio cha­tas.

ciborgue-robocop

É ver­dade, toda cena de ação é chata, tudo sem­pre explode, nada de novo. Ade­mais, impre­vi­si­bi­li­dade não é o que se busca quando se vê esse tipo de filme. O que se busca é, no máximo, a exci­ta­ção dos sen­ti­dos, só dos sen­ti­dos, nenhuma ati­vi­dade lá atrás, onde as ideias se for­mam. Mas é difí­cil evi­tar que, do pro­ces­sa­mento das infor­ma­ções, não surja a refle­xão. E se der­mos vazão a isso, o filme faz pen­sar. É, eu disse isso sim – meus ami­gos filó­so­fos vão parar de ler agora.

Mas por que Robo­cop faz pen­sar? Ora, sou só eu que acha a pos­si­bi­li­dade de inte­ra­ção entre máquina e orga­nismo bio­ló­gico, mais do que isso, a inte­ra­ção entre o cére­bro e um soft­ware extre­ma­mente sofis­ti­cado, algo mara­vi­lhoso e assus­ta­dor? É o que o filme apre­senta: um ser meio máquina, meio homem, com suas par­tes de tal modo entre­la­ça­das que não se con­se­gue saber, no fundo, se é um homem com um corpo pro­té­tico ou uma máquina com cara de gente.

2. O ciborgue de hoje

A figura do cibor­gue não é nova no cinema. Do famoso Blade Run­ner (1982) de Ridley Scott até Robo­cop, pas­sando pela super­pro­du­ção O exter­mi­na­dor do Futuro (1984) de James Came­ron e pelo mal pro­du­zido mas per­tur­ba­dor A Máquina (2014) de Cara­dog James, o cibor­gue já apa­re­ceu de inú­me­ras for­mas no cinema. Ele esteve pre­sente até no expres­si­o­nismo ale­mão, no famoso Metró­po­lis (1927) de Fritz Lang, filme que cau­sou uma revo­lu­ção no cinema. Sobre esse tema, há até um texto clás­sico da filó­sofa Donna Harahay, Mani­festo cibor­gue: ciên­cia, tec­no­lo­gia e femi­nismo-soci­a­lista no final do século XX (1985), e um livro recente de Thi­erry Hoquet, Cyborg phi­lo­sophie:
 pen­ser con­tre les dua­lisms (2011) — pena que este último ainda não saiu em por­tu­guês.

ciborgue-bladerunner

Se a fic­ção cien­tí­fica é sem­pre filo­só­fica, a fic­ção tec­no­ló­gica é mais ainda. Ela põe em causa a con­di­ção mais bási­cas da nossa exis­tên­cia, a con­di­ção bio­ló­gica de mor­ta­li­dade, o fato de ser­mos seres-para-a-morte, como disse Hei­deg­ger, de ter­mos a morte como o hori­zonte de nossa exis­tên­cia. Essa é a única carac­te­rís­tica huma­nas que o cibor­gue não incor­pora, mas suprime. E ele é feito exa­ta­mente para isso. A raci­o­na­li­dade, a inven­ti­vi­dade, a capa­ci­dade de viver em sis­te­mas soci­ais com­ple­xos, a inven­ção e o domí­nio de dife­ren­tes lin­gua­gens, por hipó­tese, fazem parte do cibor­gue. Ele é, no limite, um homem que não morre por­que não depende mais de um orga­nismo bio­ló­gico.

E para quem acha que o cibor­gue é só uma fic­ção mira­bo­lante, basta dar uma olhada no pro­jeto desen­vol­vido pelo neu­ro­ci­en­tista bra­si­leiro Miguel Nico­le­lis, que pro­du­ziu um exo­es­que­leto coman­dado por quem o veste atra­vés de uma inter­face cére­bro-máquina. Os sinais cere­brais são pro­ces­sa­dos em tempo real, deco­di­fi­ca­dos, e fazem mover os con­du­to­res hidráu­li­cos que per­mi­tem movi­men­tar a máquina. Ele até foi usado em um chute sim­bó­lico no jogo de aber­tura da copa entre Bra­sil e Croá­cia, mas nin­guém deu muita bola para isso. Outro exem­plo é Eugene Goost­man, uma IA que recen­te­mente foi a pri­meira a pas­sar no teste de Turing.  Trata-se de um teste rela­ti­va­mente sim­ples em que uma pes­soa capa­ci­tada tenta deter­mi­nar, pelas res­pos­tas que dois indi­ví­duos dão à deter­mi­na­das per­gun­tas, quem é o humano e quem é a máquina. Se a máquina enga­nar o jul­ga­dor, pas­sou no  teste. Se jun­tar­mos Eugene Gos­man e o exo­es­que­leto de Nico­le­lis, temos um cibor­gue com­pleto.

3. O ciborgue de um futuro possível

Quais as con­sequên­cias disso? Faça­mos um expe­ri­mento men­tal. O ano é… sei lá, muito no futuro. A ciber­né­tica e a infor­má­tica são as téc­ni­cas mais avan­ça­das. Os homens, quando come­çam a enve­lhe­cer e o corpo deixa de fun­ci­o­nar, tem as par­tes defei­tu­o­sas subs­ti­tuí­das pau­la­ti­na­mente. Subs­ti­tui-se um mem­bro, um órgão, outro órgão, à medida em que vão dei­xando de fun­ci­o­nar, até que reste só o cére­bro em uma caixa cra­ni­ana de metal a coman­dar o apa­rato mecâ­nico do corpo.

ciborguefuturo

O cére­bro é o cen­tro de todos os pro­ces­sos men­tais, da memó­ria, da ima­gi­na­ção, do raci­o­cí­nio e da emo­ção. Mas, nesse futuro pos­sí­vel, o tecido cere­bral tam­bém enve­lhece e vai sendo subs­ti­tuído aos pou­cos por um sis­tema de hard­ware muito sofis­ti­cado, que toma aos pou­cos o lugar do tecido cere­bral, até se tor­nar o pró­prio cére­bro.

Nesse pro­cesso, as memó­rias das vivên­cias do indi­ví­duo vão sendo depo­si­ta­das em dis­cos rígi­dos super­po­de­ro­sos que dão ori­gem ao mais sofis­ti­cado dos softwa­res, cri­ado a par­tir da inte­ra­ção entre os pro­ces­sos cere­brais e a máquina. Final­mente, o homem fica liberto de qual­quer resquí­cio de maté­ria orgâ­nica. Ele não se torna ape­nas imor­tal, pois qual­quer peça que apre­sente defeito pode ser subs­ti­tuída, mas tam­bém tem todos os pro­ces­sos cog­ni­ti­vos expan­di­dos. Uma memó­ria vir­tu­al­mente  infi­nita e uma ima­gi­na­ção impres­si­o­nan­te­mente potente.

Aqui, a minha ima­gi­na­ção começa a falhar, já que eu não sou um cibor­gue, e fica difí­cil supor como seria a vida des­ses seres que somos nós mes­mos, mas não exa­ta­mente os mes­mos. Seri­a­mos nós mes­mos só que não mais sujei­tos aos limi­tes da nossa pró­pria exis­tên­cia.

ciborgue-metropolis1

Have­riam ainda guer­ras, desi­gual­dade ou injus­tiça? O ultra­pas­sa­mento dos limi­tes mate­ri­ais da exis­tên­cia sig­ni­fi­ca­ria o fim de tudo o que ela tem de mes­qui­nho? Nós seri­a­mos ainda capa­zes de sonhar e de desen­vol­ver sen­ti­men­tos, amor, ami­zade, ou mesmo ódio, já que pelo menos os sen­ti­men­tos mais inten­sos pare­cem nas­cer sem­pre em uma zona de som­bra den­tro de nós? Ou você pode demos­trar em um grá­fico por que algum dia já amou alguém? Não parece que, quando se com­pre­en­der tudo isso, qual­quer sen­ti­mento desa­pa­re­cerá dando lugar ao raci­o­cí­nio claro e dis­tinto? Não sei, é o limite da ima­gi­na­ção.

4. O homem sem categorias

O caso é que ele, o cibor­gue, põe em che­que tudo aquilo que habi­tu­al­mente con­si­de­ra­mos a con­di­ção da nossa exis­tên­cia. A dis­tin­ção entre natu­ral e arti­fi­cial, entre humano e não-humano, entre natu­reza e cul­tura, entre mas­cu­lino e femi­nino, entre nor­mal e pato­ló­gico, e por aí vai… O que é natu­ral para um cibor­gue, em opo­si­ção ao arti­fi­cial? Seria o cibor­gue em que você se trans­for­mou ainda você, ainda um humano? Alguém pode­ria dizer que não, por­que ele não pode reco­nhe­cer a si mesmo em nada, foi com­ple­ta­mente subs­ti­tuído. Mas ele ainda pos­sui as anti­gas memó­rias do seu velho corpo de carne e osso, e as novas memó­rias de metal estão em con­ti­nui­dade com as anti­gas.

ciborgue-mulher-androide

Porém, é difí­cil dizer em que sen­tido o cibor­gue é ainda um humano, já que se trans­for­mou em algo muito dife­rente de você. É, então, um não-humano? Mas nessa etapa o humano nem existe mais. É ele um ser nor­mal ou é anor­mal? Mas por que padrões de nor­ma­li­dade ele pode­ria ser jul­gado? Ele trans­forma pre­ci­sa­mente esses padrões. É homem, é mulher? Mas ele não se repro­duz, se fabrica. Faz parte da natu­reza ou da cul­tura? Ele é inven­tado. Não sei, é o limite da razão.

O pro­blema é que todo o sis­tema de clas­si­fi­ca­ção que usa­mos para raci­o­ci­nar e for­ne­cer sen­tido às coi­sasse baseia em dico­to­mias como essa. Esta­mos habi­tu­a­dos com o certo ou o errado, o ver­da­deiro ou o falso, não há nem pala­vra para des­cre­ver algo que não é nem ver­da­deiro nem falso, o neu­tro em ter­mos de ver­dade. É por isso que, quando vemos um filme cujo per­so­na­gem prin­ci­pal não é nem bom nem mau, a mai­o­ria de nós não sabe o que pen­sar e se sente des­con­for­tá­vel. Se o per­so­na­gem é bom, pode-se ama-lo e tor­cer por ele. Se é mau, pode-se odiá-lo. Se é mau pode-se tam­bém ama-lo, já que há sem­pre um certo charme dis­creto na mal­dade, desde que ela tenha cau­sas bem deter­mi­na­das. E pode-se muito bem detes­tar o bon­zi­nho pedante que não faz mais do que mos­trar como o resto do mundo está aquém dele, desde que não haja dúvi­das sobre a natu­reza de sua bon­dade. Mas com um per­so­na­gem que não é nem bom nem mau, não sabe­mos o que fazer, não cabe em nos­sas cate­go­rias. É melhor des­prezá-lo.

ciborgue-metropolis2

O mais impor­tante para nós, huma­nos, me parece o seguinte: se todas essas dis­tin­ções sem as quais não con­se­gui­mos com­pre­en­der a nossa exis­tên­cia e todos os valo­res com os quais damos sen­tido a ela se des­fa­zem com uma coisa que nós pró­prios cri­a­mos, pode ser que esses padrões não sejam tão impor­tan­tes quanto pen­sa­mos. Afi­nal, o que toma­mos como con­di­ção da nossa exis­tên­cias pode ser pro­fun­da­mente alte­rado por nós mes­mos.

E é isso que é tão assus­ta­dor e fas­ci­nante na natu­reza do cibor­gue. Não o fato de ser meio homem e meio máquina, mas o fato de não saber­mos se é homem ou máquina, por­que a dis­tin­ção dei­xou de fazer sen­tido. Por que então nos ape­ga­mos tanto à nossa cul­tura, aos nos­sos valo­res, às dis­tin­ções con­cei­tu­ais que nos per­mi­tem botar uma eti­queta em cada coisa e guardá-la na pra­te­leira certa para não tro­pe­çar­mos desa­vi­sa­da­mente em algo que não com­pre­en­de­mos? Eu não sei? E você?


Você pode que­rer ler tam­bém:

A Revo­lu­ção da Inte­li­gên­cia Arti­fi­cial
Pode uma máquina sen­tir?

Compartilhe