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Retrô é o novo de novo

Em Arte, Consciência, Sociedade por Felipe Gue MartiniComentário

Sinto muito, mas não tere­mos uma nova musa da MPB este ano. Aliás, parece que ela não virá mais. Tere­mos que nos con­ten­tar, sau­do­sos, com a titu­la­ri­dade das anti­gas, de Car­men Miranda à Dalva de Oli­veira, pas­sando por Eli­zeth Car­doso, Clara Nunes, Maysa, até che­gar na Elis, na Gal, Nana e Bethâ­nia. Não é por falta de talento nem pela crise na indús­tria fono­grá­fica (que o diga Joelma e Chim­bi­nha do Calypso). Parece que o uni­verso da cul­tura mudou em defi­ni­tivo.

Tal­vez o pri­meiro sin­toma da mudança seja o pró­prio dis­po­si­tivo no qual com­par­ti­lha­mos este texto, a faci­li­tar con­ta­tos entre artis­tas, crí­ti­cos e público. Embora não eli­mine as dico­to­mias, apro­xima lei­to­res de escri­to­res e pos­si­bi­lita auto­res de segunda linha, como eu, a encon­trar lei­to­res de pri­meira (ou de quinta), como você. Há uma ampla popu­la­ri­za­ção na pro­du­ção de con­teúdo. E esse acesso gera pro­du­tos e seus res­tos, que não se diluem facil­mente.

Em seu livro Retro­ma­nia, o jor­na­lista e crí­tico musi­cal Simon Rey­nolds afirma que já pro­du­zi­mos mais con­teúdo nos últi­mos 30 anos de vei­cu­la­ção on-line do que em toda his­tó­ria ante­rior da huma­ni­dade. Claro, temos novos clás­si­cos por aí. Mas, para reco­nhecê-los, tate­a­mos o entu­lho.

Cresce nos ambi­en­tes reco­nhe­ci­dos como indús­tria cri­a­tiva a noção de cura­do­ria, medi­a­ção etc, pois um ser humano comum, embe­bido na rotina diá­ria de tra­ba­lho, con­sumo e lazer, não é mais capaz de encon­trar sozi­nho o que gosta ou o que quer. Ele pre­cisa de um sonar, de um guru, de uma luz (ao menos). Se entre as déca­das de 1950 e 1980 viven­ci­a­mos o auge da cul­tura do disco, da esté­tica visual e grá­fica das capas, da mate­ri­a­li­dade do vinil, da aci­dez e per­ti­nên­cia das crí­ti­cas e da não sujei­ção ao mer­cado com a cri­a­ção de uni­ver­sos sub­ver­si­vos, hoje está tudo dis­po­ní­vel desde que tenha­mos habi­li­dade para lidar com a inter­face da soci­e­dade do conhe­ci­mento.

"Retromania", de Simon Reynolds

Retro­ma­nia”, de Simon Rey­nolds

Então esse novo que pro­cu­ra­mos nasce entre essas ruí­nas, cons­truído a par­tir de todo arquivo dis­po­ní­vel. E isso ocorre por­que o banco de dados público da inter­net não con­tém ape­nas o que cri­a­mos de 30 anos pra cá, mas tudo que cri­a­mos antes: Bea­tles, Haen­del, Stra­vinsky, Fela Kuti e Ravi Shan­kar (mis­tu­ra­dos num Tup­peware digi­tal). De certa forma, esta­mos into­xi­ca­dos com o excesso de infor­ma­ção, enquanto público e enquanto cri­a­do­res tam­bém. Afi­nal, não há como des­li­gar o incons­ci­ente para com­por a nova pérola do noise music.

Tal­vez seja uma pro­po­si­ção exa­ge­rada do Rey­nolds afir­mar que a arte se man­terá de pé nas pró­xi­mas gera­ções somente atra­vés da bri­co­la­gem, da recons­ti­tui­ção, recom­bi­na­ção e rear­ranjo dos cacos dis­po­ní­veis na cul­tura con­tem­po­râ­nea. Alguns artis­tas como Vik Muniz e Jane Per­kins ope­ram nessa linha, tal­vez rea­fir­mando essa con­di­ção como crí­tica ou como posi­ci­o­na­mento artís­tico, prá­tica essa ante­ci­pada pelo Bispo do Rosá­rio e tan­tos outros, entre eles futu­ris­tas, dadaís­tas, pré e pós-punks.

Recen­te­mente, o dire­tor Fre­de­rico Ruas, de Porto Ale­gre, lan­çou Ter­ra­queos — Ves­tí­gios de uma era digi­tal, longa metra­gem mon­tado inte­gral­mente com áudios e vídeos dis­po­ní­veis em domí­nio público na inter­net. Já o pro­gra­ma­dor e pro­du­tor audi­o­vi­sual Hugh Han­cock lan­çou Death Knight Love Story, longa de ani­ma­ção que teve como cená­rio a pla­ta­forma on-line do jogo ele­trô­nico World of War­craft. Vale a refle­xão.

Assim como vale refle­tir sobre essa pró­pria ideia de cura­do­ria e medi­a­ção de con­teúdo que tam­bém con­di­ci­ona os uni­ver­sos de con­sumo. A prin­cí­pio, como pau­ta­mos nos­sas esco­lhas (a mai­o­ria delas, ao menos) atra­vés da rede, ope­ra­mos com sis­te­mas de inte­li­gên­cia arti­fi­cial algo­rít­mica. É claro que ouvi­mos um disco por­que um cara legal, que segui­mos num blog, deu a dica (e gos­ta­mos daquele disco!); mas quando abri­mos um player on-line e ele passa a nos suge­rir alguma outra coisa, já esta­mos nesse outro mundo mara­vi­lhoso das pro­ba­bi­li­da­des algo­rít­mi­cas pro­gra­ma­das e cri­a­das para con­di­ci­o­nar nos­sas esco­lhas. Ali den­tro, todos os movi­men­tos estão demar­ca­dos, como num tabu­leiro de Banco Imo­bi­liá­rio (xadrez seria uma metá­fora com dema­si­a­das pos­si­bi­li­da­des).

fitas retro

Além disso, quando deci­di­mos par­tir para ação, atra­vés de uma esté­tica do “faça você mesmo” que os punks nos ensi­na­ram tão bem, logo rea­li­za­mos o down­load de um ou dois edi­to­res musi­cais, com­pra­mos um bom kit de micro­fo­nes via inter­net e mon­ta­mos nossa banda via rede (ou com certo nível de envol­vi­mento car­nal). Afi­nal, cri­a­ti­vi­dade com­bina muito bem com ami­gos em torno de um bal­cão, bebendo alguma coisa e dis­cu­tindo afi­ni­da­des e dis­pa­ri­da­des esté­ti­cas.

Quando final­mente vamos à carga, gui­tar­ras em punho e refrãos ensai­a­dos, esta­mos tra­ba­lhando em pla­ta­for­mas digi­tais pas­teu­ri­za­das. Os plug-ins, os softwa­res de gra­va­ção, com­pres­são e a com­pac­ta­ção de arqui­vos tam­bém têm uma pro­gra­ma­ção res­trita e limi­tada, onde é difí­cil rom­per com sono­ri­da­des pré-pron­tas, com tim­bres dis­po­ní­veis, enfim com mais de todo o mesmo. É a caixa preta de Wilém Flus­ser, que ope­ra­mos e ope­ra­mos bus­cando superá-la, de esgo­tar suas pos­si­bi­li­da­des, mesmo sem saber como fun­ci­ona por den­tro.

Parece que no uni­verso da retro­ma­nia temos um desa­fio desse nível. Lúdico. Mas não pode­mos enca­rar a brin­ca­deira como os adul­tos infan­ti­li­za­dos que o con­sumo de massa nos ensi­nou a ser. Parece que a brin­ca­deira tri­vial de votar na nova voz da MPB ou de musi­car com os ami­gos no fim de semana virou ques­tão de resis­tên­cia cul­tu­ral, de luta pelo tim­bre per­feito. Ou então é tudo um mal-estar pas­sa­geiro e logo tere­mos que orga­ni­zar as pra­te­lei­ras, var­rer para baixo do tapete um tanto de lixo para ree­le­ger nosso ído­los que, como diria o poeta, serão os mes­mos que os dos nos­sos pais.



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