Sinto muito, mas não teremos uma nova musa da MPB este ano. Aliás, parece que ela não virá mais. Teremos que nos contentar, saudosos, com a titularidade das antigas, de Carmen Miranda à Dalva de Oliveira, passando por Elizeth Cardoso, Clara Nunes, Maysa, até chegar na Elis, na Gal, Nana e Bethânia. Não é por falta de talento nem pela crise na indústria fonográfica (que o diga Joelma e Chimbinha do Calypso). Parece que o universo da cultura mudou em definitivo.

Talvez o primeiro sintoma da mudança seja o próprio dispositivo no qual compartilhamos este texto, a facilitar contatos entre artistas, críticos e público. Embora não elimine as dicotomias, aproxima leitores de escritores e possibilita autores de segunda linha, como eu, a encontrar leitores de primeira (ou de quinta), como você. Há uma ampla popularização na produção de conteúdo. E esse acesso gera produtos e seus restos, que não se diluem facilmente.

Em seu livro Retromania, o jornalista e crítico musical Simon Reynolds afirma que já produzimos mais conteúdo nos últimos 30 anos de veiculação on-line do que em toda história anterior da humanidade. Claro, temos novos clássicos por aí. Mas, para reconhecê-los, tateamos o entulho.

Cresce nos ambientes reconhecidos como indústria criativa a noção de curadoria, mediação etc, pois um ser humano comum, embebido na rotina diária de trabalho, consumo e lazer, não é mais capaz de encontrar sozinho o que gosta ou o que quer. Ele precisa de um sonar, de um guru, de uma luz (ao menos). Se entre as décadas de 1950 e 1980 vivenciamos o auge da cultura do disco, da estética visual e gráfica das capas, da materialidade do vinil, da acidez e pertinência das críticas e da não sujeição ao mercado com a criação de universos subversivos, hoje está tudo disponível desde que tenhamos habilidade para lidar com a interface da sociedade do conhecimento.

"Retromania", de Simon Reynolds
“Retromania”, de Simon Reynolds

Então esse novo que procuramos nasce entre essas ruínas, construído a partir de todo arquivo disponível. E isso ocorre porque o banco de dados público da internet não contém apenas o que criamos de 30 anos pra cá, mas tudo que criamos antes: Beatles, Haendel, Stravinsky, Fela Kuti e Ravi Shankar (misturados num Tuppeware digital). De certa forma, estamos intoxicados com o excesso de informação, enquanto público e enquanto criadores também. Afinal, não há como desligar o inconsciente para compor a nova pérola do noise music.

Talvez seja uma proposição exagerada do Reynolds afirmar que a arte se manterá de pé nas próximas gerações somente através da bricolagem, da reconstituição, recombinação e rearranjo dos cacos disponíveis na cultura contemporânea. Alguns artistas como Vik Muniz e Jane Perkins operam nessa linha, talvez reafirmando essa condição como crítica ou como posicionamento artístico, prática essa antecipada pelo Bispo do Rosário e tantos outros, entre eles futuristas, dadaístas, pré e pós-punks.

Recentemente, o diretor Frederico Ruas, de Porto Alegre, lançou Terraqueos – Vestígios de uma era digital, longa metragem montado integralmente com áudios e vídeos disponíveis em domínio público na internet. Já o programador e produtor audiovisual Hugh Hancock lançou Death Knight Love Story, longa de animação que teve como cenário a plataforma on-line do jogo eletrônico World of Warcraft. Vale a reflexão.

Assim como vale refletir sobre essa própria ideia de curadoria e mediação de conteúdo que também condiciona os universos de consumo. A princípio, como pautamos nossas escolhas (a maioria delas, ao menos) através da rede, operamos com sistemas de inteligência artificial algorítmica. É claro que ouvimos um disco porque um cara legal, que seguimos num blog, deu a dica (e gostamos daquele disco!); mas quando abrimos um player on-line e ele passa a nos sugerir alguma outra coisa, já estamos nesse outro mundo maravilhoso das probabilidades algorítmicas programadas e criadas para condicionar nossas escolhas. Ali dentro, todos os movimentos estão demarcados, como num tabuleiro de Banco Imobiliário (xadrez seria uma metáfora com demasiadas possibilidades).

fitas retro

Além disso, quando decidimos partir para ação, através de uma estética do “faça você mesmo” que os punks nos ensinaram tão bem, logo realizamos o download de um ou dois editores musicais, compramos um bom kit de microfones via internet e montamos nossa banda via rede (ou com certo nível de envolvimento carnal). Afinal, criatividade combina muito bem com amigos em torno de um balcão, bebendo alguma coisa e discutindo afinidades e disparidades estéticas.

Quando finalmente vamos à carga, guitarras em punho e refrãos ensaiados, estamos trabalhando em plataformas digitais pasteurizadas. Os plug-ins, os softwares de gravação, compressão e a compactação de arquivos também têm uma programação restrita e limitada, onde é difícil romper com sonoridades pré-prontas, com timbres disponíveis, enfim com mais de todo o mesmo. É a caixa preta de Wilém Flusser, que operamos e operamos buscando superá-la, de esgotar suas possibilidades, mesmo sem saber como funciona por dentro.

Parece que no universo da retromania temos um desafio desse nível. Lúdico. Mas não podemos encarar a brincadeira como os adultos infantilizados que o consumo de massa nos ensinou a ser. Parece que a brincadeira trivial de votar na nova voz da MPB ou de musicar com os amigos no fim de semana virou questão de resistência cultural, de luta pelo timbre perfeito. Ou então é tudo um mal-estar passageiro e logo teremos que organizar as prateleiras, varrer para baixo do tapete um tanto de lixo para reeleger nosso ídolos que, como diria o poeta, serão os mesmos que os dos nossos pais.



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escrito por:

Felipe Gue Martini

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