A renúncia e o estoicismo

Há muitas habilidades emocionais que precisamos nutrir em nosso coração hoje em dia, como compaixão e tolerância. E quase todas elas se referem à nossa relação com os outros. Mas há uma habilidade emocional que diz respeito à nossa relação com nós mesmos, e que nos ajudaria a superar, ao mesmo tempo, muitos dos desafios pessoais diante de nós e também os sintomas de enfermidade que afligem a sociedade moderna. O estoicismo nos fala a seu respeito.

Essa habilidade emocional é a renúncia. No mundo atual, mais do que em qualquer outra época, precisamos aprender a exercer a habilidade emocional de renunciar.

Na sociedade moderna, nosso grande desafio não é lidar com a falta, mas com o excesso. Excesso de informação, excesso de distrações, excesso de estímulos, excesso de possibilidades.

Graças ao avanço tecnológico, cada vez mais fica mais fácil, barato e cômodo deixar-se levar pela torrente de estímulos prazerosos colocados à nossa disposição por pessoas que não se importam conosco, e sim com o poder e a riqueza que podem obter graças ao nosso comportamento de manada. Essas não são minhas palavras, mas de David Foster-Wallace ao jornalista David Lipsky, quando tentou explicar o que o levou a escrever o livro Graça Infinita.

Este trecho do filme que conta os últimos dias de Wallace é imperdível:

Graça Infinita conta a história de uma família cujo patriarca, um físico ótico de sucesso, cria um filme capaz de proporcionar ao espectador uma constante e inesgotável experiência de prazer, que o torna letárgico e viciado em assisti-lo continuamente. O livro de Wallace é uma parábola da vida moderna e do futuro que se descortina diante de nós, em que estamos diante de fáceis oportunidades de distração, e somos estimulados continuamente a procurar um novo prazer, uma nova informação, uma nova forma de perdermos nosso tempo.

As inúmeras abas abertas simultaneamente no navegador (quantas estão abertas aí neste momento, leitor?) são o exemplo claro do que disse Wallace.

É claro que não existe nada de errado em si com a tecnologia, e tampouco não há nada de errado em buscar prazer, distrair-se e mesmo perder algum tempo com bobagens. Isso é óbvio. Mas o problema é quando nos deixamos levar pela torrente de estímulos ao ponto de deixarmos de viver da forma mais plena possível.

Como disse o poeta Blake, a estrada do excesso pode levar ao palácio da sabedoria — mas o problema não é se entregar, vez ou outra, a algum excesso. O problema é quando o excesso passa a nos controlar, quando o excesso não se torna mais uma estrada, e sim uma prisão.

Por isso é tão sintomático o sucesso que textos sobre procrastinação têm hoje em dia (como este, este, este e este). A procrastinação não era um grande problema para nossos antepassados, mas atualmente é um enorme obstáculo para a realização de nossos sonhos. Temos muitas oportunidades de nos distrair, sentir prazer (nem que seja o prazer entorpecedor de ler ou assistir alguma bobagem na internet) e perder tempo. E dessa forma adiamos o quanto possível a execução de tarefas que tornariam nossas vida mais plenas e significativas.

Para resolver esse problema moderno, talvez a sabedoria dos antigos estóicos do período greco-romano tenha algo a nos ensinar.

Segundo o filósofo estóico Epiteto, entre os piores vícios humanos está a incapacidade de saber renunciar a um desejo. Em seu célebre slogan, a essência do estoicismo estava na capacidade de “resistir e renunciar” (anechou kai apechou). Sêneca, outro grande estóico, recomendava a prática periódica de uma vida simples, ou a prática de “exercícios de renúncia”, como por exemplo ficar algum tempo apenas bebendo água, ou comendo uma alimentação muito simples. Isso, o filósofo afirmava, tinha a intenção de fortalecer nosso caráter.

E esse é um ponto importante de se compreender: a habilidade emocional da renúncia sempre foi, em nossa cultura, uma distinção de caráter. Mas não é uma distinção moral — a capacidade de renunciar não é importante por ser algo “bonito”, “bom” ou “virtuoso”. A capacidade de renunciar a um desejo é importante por ser algo útil para atingirmos nossos objetivos e assegurarmos nossa liberdade pessoal diante de qualquer forma de controle externo e manipulação.

O indivíduo que é incapaz de renunciar às distrações, prazeres e estímulos do mundo moderno tem um caráter fraco, é incapaz de disciplinar-se na busca pela realização de suas metas e, pior de tudo, é facilmente manipulável e dominado por quem souber puxar os cordões de seu desejo, tornando-o uma marionete do consumo ou de um estilo de vida já projetado.

Mas a capacidade de renunciar não é apenas útil como ferramenta para assegurar nossa liberdade individual e para nos disciplinar a manter o foco em nossos objetivos de vida. É também uma forma de lidarmos com a constante ansiedade e angústia de nossa modernidade líquida.

Como o sociólogo Zygmunt Bauman demonstrou, nos dias de hoje já não estamos presos, como estavam nossos antepassados, a um papel social definido e a um roteiro de vida pré-estabelecido. Estamos livres para, dentro das limitações materiais de cada um, fazermos o que quisermos com nossas vidas: podemos casar e descasar quantas vezes quisermos, termos ou não filhos, seguirmos uma carreira profissional e subitamente largarmos o emprego na busca de outra profissão almejada. Essa é a modernidade líquida, pois tudo é fluído, nenhum papel social é rígido.

Tal liberdade, porém, tem um efeito colateral: a cada caminho que escolhemos, somos obrigados a abandonar todos os outros caminhos possíveis, e isso produz constante ansiedade e angústia.

Ansiedade pois sempre estamos antecipando todas as escolhas diante de nós e os dilemas delas decorrentes. Angústia pois, uma vez escolhido um dos caminhos possíveis, ficamos constantemente nos perguntando como seria se tivéssemos feito outra opção — não teríamos sido mais felizes? não teríamos vivido mais “autenticamente”? não teríamos as preocupações e os problemas que advém da escolha feita? e que outros problemas teríamos num caminho abdicado e não mais possível?

A habilidade de renunciar a todos os demais caminhos possíveis, quando um deles já foi escolhido, é a forma mais adequada de atenuarmos os efeitos devastadores da modernidade líquida. É pela capacidade de, voluntária e conscientemente, queimarmos todas as pontes que nos levam a outras vidas possíveis que encontramos a paz e o foco necessários para tornar o caminho escolhido a expressão de nossa própria identidade. A partir dessa renúncia consciente, abraçamos o caminho escolhido como o único concreto e pelo qual iremos manifestar a plenitude em nossas vidas.

Precisamos aprender a renunciar, pois apenas a renúncia garante, ontem, hoje e sempre, a liberdade e a autonomia humanas. E os estóicos nos ensinam, em sua sabedoria ancestral, que os males da modernidade podem encontrar nessa virtude antiga um bom antídoto.

Renunciar é uma arte e um poder. Arte pois é algo a ser treinado e periodicamente exercitado para não perdermos a prática. Poder pois aquele que desenvolveu em seu caráter a habilidade emocional de renunciar torna-se senhor de seu destino. O filósofo Jean Paul-Sartre afirmava que o destino é algo que o ser humano constrói, e construindo esse destino é que o indivíduo cria a si mesmo, definindo sua própria natureza. A renúncia, segundo os estoicos, é a ferramenta que utilizamos para esculpir nosso destino, eliminando as lascas de tudo o que não serve à nossa obra de arte pessoal. A renúncia é a arma que precisamos de manter sempre junto ao corpo, pois sua lâmina é capaz de cortar as cordas de desejos e distrações que amesquinham a grandeza do espírito humano.


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Editor do site Ano Zero.
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  • Lucas Favaro

    Fiz questão de fazer login só pra publicar o seguinte: obrigado Victor Lisboa pelos seus textos. Eles sempre me agregam muito. Nao lembro de um texto seu que eu tenha lido, tanto aqui quanto no pdh, que nao tenha sido enriquecedor pra minha vida.

    Ps: tava com seis abas abertas. Consegui resistir aos links adicionados no texto e agora vou pra cinco. Tenho tarefas a fazer, mas só vou conseguir faze-las após fechar todas as abas.

    • Tudo bom Lucas? Olha, escrever é sempre um desafio e tentar expressar ideias que tenham (ou ao menos pareçam ter, quando a gente começa a escrever) significado e possam ser realmente úteis ao leitor é algo muitas vezes bem difícil de fazer, por isso comentários como esse teu são realmente MUITO importantes para dar gás e fazer com que a gente prossiga nessa atividade. Por isso te agradeço com sinceridade. Obrigado também por acompanhar o AZ! Abraço!

  • Engraçado que eu sempre fui do tipo que faz renúncias, mesmo que sutis.
    E nas épocas que eu tenho mais abundância de estímulos e me recuso a renunciar a alguns, são sempre as mais instáveis emocionalmente. Taí um link que eu nunca tinha feito para além de um mero palpite.

    Estóicos sempre me ensinando coisas novas e sábias. E seus textos também.

  • Vinicius Souza Sena

    À partir do momento que você precisa de estímulos, reforço e condicionamento pra renunciar algo, já evidencia que autonomia e liberdade são ideias subjetivas falsas, desculpa, mas livre-arbítrio é biopsicossocialmente (e fisicamente) impossível.