O poder da renúncia, a maior lição do estoicismo

O poder da renúncia, a maior lição do estoicismo

Em Consciência, Série Estoicismo por Victor LisboaComentários

A renúncia e o estoicismo

Há mui­tas habi­li­da­des emo­ci­o­nais que pre­ci­sa­mos nutrir em nosso cora­ção hoje em dia, como com­pai­xão e tole­rân­cia. E quase todas elas se refe­rem à nossa rela­ção com os outros. Mas há uma habi­li­dade emo­ci­o­nal que diz res­peito à nossa rela­ção com nós mes­mos, e que nos aju­da­ria a supe­rar, ao mesmo tempo, mui­tos dos desa­fios pes­so­ais diante de nós e tam­bém os sin­to­mas de enfer­mi­dade que afli­gem a soci­e­dade moderna. O estoi­cismo nos fala a seu res­peito.

Essa habi­li­dade emo­ci­o­nal é a renún­cia. No mundo atual, mais do que em qual­quer outra época, pre­ci­sa­mos apren­der a exer­cer a habi­li­dade emo­ci­o­nal de renun­ciar.

Na soci­e­dade moderna, nosso grande desa­fio não é lidar com a falta, mas com o excesso. Excesso de infor­ma­ção, excesso de dis­tra­ções, excesso de estí­mu­los, excesso de pos­si­bi­li­da­des.

Gra­ças ao avanço tec­no­ló­gico, cada vez mais fica mais fácil, barato e cômodo dei­xar-se levar pela tor­rente de estí­mu­los pra­ze­ro­sos colo­ca­dos à nossa dis­po­si­ção por pes­soas que não se impor­tam conosco, e sim com o poder e a riqueza que podem obter gra­ças ao nosso com­por­ta­mento de manada. Essas não são minhas pala­vras, mas de David Fos­ter-Wal­lace ao jor­na­lista David Lipsky, quando ten­tou expli­car o que o levou a escre­ver o livro Graça Infi­nita.

Este tre­cho do filme que conta os últi­mos dias de Wal­lace é imper­dí­vel:

Graça Infi­nita conta a his­tó­ria de uma famí­lia cujo patri­arca, um físico ótico de sucesso, cria um filme capaz de pro­por­ci­o­nar ao espec­ta­dor uma cons­tante e ines­go­tá­vel expe­ri­ên­cia de pra­zer, que o torna letár­gico e vici­ado em assisti-lo con­ti­nu­a­mente. O livro de Wal­lace é uma pará­bola da vida moderna e do futuro que se des­cor­tina diante de nós, em que esta­mos diante de fáceis opor­tu­ni­da­des de dis­tra­ção, e somos esti­mu­la­dos con­ti­nu­a­mente a pro­cu­rar um novo pra­zer, uma nova infor­ma­ção, uma nova forma de per­der­mos nosso tempo.

As inú­me­ras abas aber­tas simul­ta­ne­a­mente no nave­ga­dor (quan­tas estão aber­tas aí neste momento, lei­tor?) são o exem­plo claro do que disse Wal­lace.

É claro que não existe nada de errado em si com a tec­no­lo­gia, e tam­pouco não há nada de errado em bus­car pra­zer, dis­trair-se e mesmo per­der algum tempo com boba­gens. Isso é óbvio. Mas o pro­blema é quando nos dei­xa­mos levar pela tor­rente de estí­mu­los ao ponto de dei­xar­mos de viver da forma mais plena pos­sí­vel.

Como disse o poeta Blake, a estrada do excesso pode levar ao palá­cio da sabe­do­ria — mas o pro­blema não é se entre­gar, vez ou outra, a algum excesso. O pro­blema é quando o excesso passa a nos con­tro­lar, quando o excesso não se torna mais uma estrada, e sim uma pri­são.

Por isso é tão sin­to­má­tico o sucesso que tex­tos sobre pro­cras­ti­na­ção têm hoje em dia (como este, este, este e este). A pro­cras­ti­na­ção não era um grande pro­blema para nos­sos ante­pas­sa­dos, mas atu­al­mente é um enorme obs­tá­culo para a rea­li­za­ção de nos­sos sonhos. Temos mui­tas opor­tu­ni­da­des de nos dis­trair, sen­tir pra­zer (nem que seja o pra­zer entor­pe­ce­dor de ler ou assis­tir alguma boba­gem na inter­net) e per­der tempo. E dessa forma adi­a­mos o quanto pos­sí­vel a exe­cu­ção de tare­fas que tor­na­riam nos­sas vida mais ple­nas e sig­ni­fi­ca­ti­vas.

Para resol­ver esse pro­blema moderno, tal­vez a sabe­do­ria dos anti­gos estói­cos do período greco-romano tenha algo a nos ensi­nar.

Segundo o filó­sofo estóico Epi­teto, entre os pio­res vícios huma­nos está a inca­pa­ci­dade de saber renun­ciar a um desejo. Em seu céle­bre slo­gan, a essên­cia do estoi­cismo estava na capa­ci­dade de “resis­tir e renun­ciar” (ane­chou kai ape­chou). Sêneca, outro grande estóico, reco­men­dava a prá­tica perió­dica de uma vida sim­ples, ou a prá­tica de “exer­cí­cios de renún­cia”, como por exem­plo ficar algum tempo ape­nas bebendo água, ou comendo uma ali­men­ta­ção muito sim­ples. Isso, o filó­sofo afir­mava, tinha a inten­ção de for­ta­le­cer nosso cará­ter.

E esse é um ponto impor­tante de se com­pre­en­der: a habi­li­dade emo­ci­o­nal da renún­cia sem­pre foi, em nossa cul­tura, uma dis­tin­ção de cará­ter. Mas não é uma dis­tin­ção moral — a capa­ci­dade de renun­ciar não é impor­tante por ser algo “bonito”, “bom” ou “vir­tu­oso”. A capa­ci­dade de renun­ciar a um desejo é impor­tante por ser algo útil para atin­gir­mos nos­sos obje­ti­vos e asse­gu­rar­mos nossa liber­dade pes­soal diante de qual­quer forma de con­trole externo e mani­pu­la­ção.

O indi­ví­duo que é inca­paz de renun­ciar às dis­tra­ções, pra­ze­res e estí­mu­los do mundo moderno tem um cará­ter fraco, é inca­paz de dis­ci­pli­nar-se na busca pela rea­li­za­ção de suas metas e, pior de tudo, é facil­mente mani­pu­lá­vel e domi­nado por quem sou­ber puxar os cor­dões de seu desejo, tor­nando-o uma mari­o­nete do con­sumo ou de um estilo de vida já pro­je­tado.

Mas a capa­ci­dade de renun­ciar não é ape­nas útil como fer­ra­menta para asse­gu­rar nossa liber­dade indi­vi­dual e para nos dis­ci­pli­nar a man­ter o foco em nos­sos obje­ti­vos de vida. É tam­bém uma forma de lidar­mos com a cons­tante ansi­e­dade e angús­tia de nossa moder­ni­dade líquida.

Como o soció­logo Zyg­munt Bau­man demons­trou, nos dias de hoje já não esta­mos pre­sos, como esta­vam nos­sos ante­pas­sa­dos, a um papel social defi­nido e a um roteiro de vida pré-esta­be­le­cido. Esta­mos livres para, den­tro das limi­ta­ções mate­ri­ais de cada um, fazer­mos o que qui­ser­mos com nos­sas vidas: pode­mos casar e des­ca­sar quan­tas vezes qui­ser­mos, ter­mos ou não filhos, seguir­mos uma car­reira pro­fis­si­o­nal e subi­ta­mente lar­gar­mos o emprego na busca de outra pro­fis­são alme­jada. Essa é a moder­ni­dade líquida, pois tudo é fluído, nenhum papel social é rígido.

Tal liber­dade, porém, tem um efeito cola­te­ral: a cada cami­nho que esco­lhe­mos, somos obri­ga­dos a aban­do­nar todos os outros cami­nhos pos­sí­veis, e isso pro­duz cons­tante ansi­e­dade e angús­tia.

Ansi­e­dade pois sem­pre esta­mos ante­ci­pando todas as esco­lhas diante de nós e os dile­mas delas decor­ren­tes. Angús­tia pois, uma vez esco­lhido um dos cami­nhos pos­sí­veis, fica­mos cons­tan­te­mente nos per­gun­tando como seria se tivés­se­mos feito outra opção — não tería­mos sido mais feli­zes? não tería­mos vivido mais “auten­ti­ca­mente”? não tería­mos as pre­o­cu­pa­ções e os pro­ble­mas que advém da esco­lha feita? e que outros pro­ble­mas tería­mos num cami­nho abdi­cado e não mais pos­sí­vel?

A habi­li­dade de renun­ciar a todos os demais cami­nhos pos­sí­veis, quando um deles já foi esco­lhido, é a forma mais ade­quada de ate­nu­ar­mos os efei­tos devas­ta­do­res da moder­ni­dade líquida. É pela capa­ci­dade de, volun­tá­ria e cons­ci­en­te­mente, quei­mar­mos todas as pon­tes que nos levam a outras vidas pos­sí­veis que encon­tra­mos a paz e o foco neces­sá­rios para tor­nar o cami­nho esco­lhido a expres­são de nossa pró­pria iden­ti­dade. A par­tir dessa renún­cia cons­ci­ente, abra­ça­mos o cami­nho esco­lhido como o único con­creto e pelo qual ire­mos mani­fes­tar a ple­ni­tude em nos­sas vidas.

Pre­ci­sa­mos apren­der a renun­ciar, pois ape­nas a renún­cia garante, ontem, hoje e sem­pre, a liber­dade e a auto­no­mia huma­nas. E os estói­cos nos ensi­nam, em sua sabe­do­ria ances­tral, que os males da moder­ni­dade podem encon­trar nessa vir­tude antiga um bom antí­doto.

Renun­ciar é uma arte e um poder. Arte pois é algo a ser trei­nado e peri­o­di­ca­mente exer­ci­tado para não per­der­mos a prá­tica. Poder pois aquele que desen­vol­veu em seu cará­ter a habi­li­dade emo­ci­o­nal de renun­ciar torna-se senhor de seu des­tino. O filó­sofo Jean Paul-Sar­tre afir­mava que o des­tino é algo que o ser humano cons­trói, e cons­truindo esse des­tino é que o indi­ví­duo cria a si mesmo, defi­nindo sua pró­pria natu­reza. A renún­cia, segundo os estoi­cos, é a fer­ra­menta que uti­li­za­mos para escul­pir nosso des­tino, eli­mi­nando as las­cas de tudo o que não serve à nossa obra de arte pes­soal. A renún­cia é a arma que pre­ci­sa­mos de man­ter sem­pre junto ao corpo, pois sua lâmina é capaz de cor­tar as cor­das de dese­jos e dis­tra­ções que ames­qui­nham a gran­deza do espí­rito humano.


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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