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A antiga aliança entre humanos e cachorros

Em Ciência por Rodrigo ZottisComentário

Qual­quer pes­soa que pos­sui um cão está fami­li­a­ri­zada com seu olhar hip­nó­tico, que demanda reci­pro­ci­dade.

Acon­tece que o olhar de reco­nhe­ci­mento mútuo entre seres huma­nos e cachor­ros reflete milha­res de anos de evo­lu­ção, um vín­culo pro­gra­mado em nossa pró­pria quí­mica cor­po­ral. É que uma equipe de pes­quisa no Japão des­co­briu que ambas as espé­cies libe­ram um hormô­nio cha­mado oci­to­cina quando olham para os olhos de cada um, o mesmo hormô­nio libe­rado quando uma mãe humana segura seu bebê.

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Rela­ções anti­gas; ilus­tra­ção de duas mulhe­res chi­ne­sas brin­cando com um cachorro domés­tico no século 8 D.C.

O estudo tam­bém mos­trou que os níveis mais altos de oci­to­cina foram libe­ra­dos durante essa troca de olhar, se com­pa­rado esse gesto com o ato de aca­ri­ciar ou falar com o cão. Parece que para os cães, pelo menos, os olhos real­mente são jane­las para a alma.

Segundo o antro­pó­logo Robert Losey, da Uni­ver­si­dade Alberta, que estuda a rela­ção his­tó­rica entre cachor­ros e huma­nos, os cães têm o mesmo impulso de se rela­ci­o­nar conosco que nós temos em rela­ção a eles.

Mas onde é que essa sim­bi­ose começa? De acordo com Losey, o impulso de liga­ção bioquí­mica é ape­nas uma parte da his­tó­ria. Sua pró­pria pes­quisa está focada em tra­zer à tona as for­ças cul­tu­rais ao longo do tempo que fize­ram cães e seres huma­nos for­ma­rem boa par­ce­ria.

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Um dos pro­je­tos de Losey envolve a esca­va­ção do local onde foram encon­tra­dos res­tos mor­tais de um cão que viveu entre 5.000 e 8.000 anos atrás, no Lago Bai­kal, na Sibé­ria — o lago mais pro­fundo de água doce no mundo. O que é impres­si­o­nante sobre a des­co­berta é que revela que alguns cães foram enter­ra­dos ao lado dos huma­nos nos cemi­té­rios, indi­cando não ape­nas as pri­mei­ras evi­dên­cias da domes­ti­ca­ção do cão, mas tam­bém que a con­vi­vên­cia com cães aumen­tou a alta estima dos seres huma­nos e vice-versa.

Os cães esta­vam sendo tra­ta­dos como as pes­soas quando eles mor­riam”, diz Losey. “Eles esta­vam sendo cui­da­do­sa­mente colo­ca­dos em uma sepul­tura, alguns deles usando colei­ras deco­ra­ti­vas, ou ao lado de outros itens como colhe­res, pos­si­vel­mente para que pudes­sem uti­li­zar esses obje­tos no mundo além-morte.” Em um dos casos, um homem foi encon­trado enter­rado no mesmo túmulo como seus dois cães, um de cada lado.

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Dió­ge­nes, o filó­sofo cínico que vivia como um cão.

Glo­bal­mente, você pode ver que há mais enter­ros de cães na pré-his­tó­ria do que de quais­quer outros ani­mais, incluindo gatos ou cava­los. Os cães pare­cem ter um lugar muito espe­cial nas comu­ni­da­des huma­nas no pas­sado. Há ves­tí­gios de esque­le­tos que se pare­cem com o cachorro moderno em torno de 14.000 anos atrás.”

Por meio da aná­lise quí­mica dos ossos de um cão, Losey tam­bém foi capaz de deter­mi­nar que os cães do Lago Bai­kal foram ali­men­ta­dos com a mesma dieta que os seres huma­nos. “Logo no iní­cio, já per­ce­be­mos evi­dên­cias que suge­rem que as pes­soas ama­vam e cui­da­vam de seus cães da mesma forma que faze­mos agora. Eles tam­bém foram com­pa­nhei­ros de tra­ba­lho, envol­vendo-se em todas as nos­sas tare­fas diá­rias. Milha­res de anos atrás, havia até mesmo lap­dogs — cães que cabiam na mão de uma pes­soa comum — os roma­nos os tinham. Cla­ra­mente, há muito tempo as pes­soas come­ça­ram a criar cães para fins espe­cí­fi­cos.”

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A prin­cesa Eka­te­rina Golitsyna com um Pug, 1759.

Acre­dita-se que os cães moder­nos des­cen­de­ram do lobo cin­zento euro-asiá­tico, uma subes­pé­cie da qual foi se rami­fi­cado, e come­çou a inte­ra­gir com os seres huma­nos entre 30.000 e 40.000 anos atrás, pro­va­vel­mente por conta pró­pria, sem seres huma­nos inter­vi­rem em suas vidas. Os lobos pro­va­vel­mente per­ma­ne­ciam na peri­fe­ria de acam­pa­men­tos huma­nos, apro­xi­mando-se gra­du­al­mente. Uma vez que o seu poten­cial como com­pa­nhei­ros e cole­gas de tra­ba­lho tor­nou-se apa­rente, eles foram domes­ti­ca­dos e cri­a­dos sele­ti­va­mente.

Em algum lugar entre 10.000 e 15.000 anos atrás, o lobo tinha evo­luído para um ani­mal gene­ti­ca­mente indis­tin­guí­vel do cão moderno. Ape­sar de o cão de hoje em dia ser mais pró­ximo gene­ti­ca­mente ao seu antigo ances­tral do que ao lobo moderno, raças mais espe­cí­fi­cas têm raí­zes que remon­tam ape­nas a cerca de 200 anos.

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Uma árvore gene­a­ló­gica sim­pli­fi­cada da evo­lu­ção natu­ral do lobo cin­zento.

Losey agora inves­tiga um local abun­dante de enter­ros do cão no Ártico Sibe­ri­ano. Com mais de 100 amos­tras de cães, é a maior cole­ção arque­o­ló­gica de cães em toda aquela região. Ali ele já encon­trou evi­dên­cias pre­co­ces de cães de trenó, ves­tindo o que pare­cem ser arreios, junto com sinais de que renas foram tam­bém uti­li­za­das. Para com­pli­car o cená­rio, enquanto os seres huma­nos pare­cem ter domes­ti­cado os cães para fins de tra­ba­lho, eles tam­bém os comiam, como têm feito em vários momen­tos ao longo da his­tó­ria.

A his­tó­ria de seres huma­nos e cães não é uma linha com­pleta de iní­cio e fim, e às vezes as peças do que­bra-cabeça não se encai­xam facil­mente. Mas Losey espera que o regis­tro arque­o­ló­gico acabe por nos aju­dar a enten­der melhor o que está no cerne da rela­ção entre espé­cies, tal­vez a nossa mais dura­doura.

O que pode­mos apren­der sobre a rela­ção das pes­soas com os cães no pas­sado? Que nos­sas rela­ções de tra­ba­lho com esses ani­mais gra­du­al­mente tran­si­tou de uma par­ce­ria base­ada em inte­res­ses para o envol­vi­mento emo­ci­o­nal e uma leal ami­zade entre as duas espé­cies, algo que hoje passa longe de qual­quer inte­resse prá­tico. Por­tanto, uma das melho­res for­mas de criar laços afe­ti­vos e de con­fi­ança com os outros é atra­vés do tra­ba­lho e da par­ce­ria honesta em torno de inte­res­ses em comum.


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Rodrigo Zottis
Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.

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