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Precisamos reinventar a educação

Em Consciência, Série Educação por Luís MiguelComentários

A ati­vi­dade esco­lar é a por­ção mais sig­ni­fi­ca­tiva da vida dos jovens e con­some a maior parte de seu dia. Quando estão na escola, eles têm que ficar sen­ta­dos por horas, pas­sam por aulas can­sa­ti­vas e mudan­ças brus­cas de assun­tos, até que, no fim do período, seu ren­di­mento e capa­ci­dade de con­cen­tra­ção são insig­ni­fi­can­tes. Todo o desem­pe­nho esco­lar de um estu­dante é resu­mido a núme­ros. Há um abismo gigan­tesco entre o modo como o con­teúdo é ensi­nado e como ele é apli­cado no mundo real.

Mesmo assim, é nesse sis­tema que esta­mos apos­tando.

Depois de ter pas­sado pelo sis­tema de edu­ca­ção tra­di­ci­o­nal até o ensino médio, regis­tro, aqui, minhas obser­va­ções a seu res­peito, com rela­ção ao con­teúdo ensi­nado, método empre­gado e ava­li­a­ções de desem­pe­nho, des­ta­cando algu­mas das con­sequên­cias desse modelo.

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE

Afirma-se, com certa frequên­cia, que a maior dife­rença entre o ser humano e outros ani­mais é que o pri­meiro tem capa­ci­dade de raci­o­cí­nio pri­vi­le­gi­ada. Acre­dito não ser exa­gero afir­mar que a edu­ca­ção é um dos pou­cos assun­tos com aspec­tos polí­ti­cos cuja impor­tân­cia é reco­nhe­cida por todos. Vemos nela uma opor­tu­ni­dade para pro­mo­ver o desen­vol­vi­mento humano indi­vi­dual e, con­se­quen­te­mente, para o cres­ci­mento do país.

Além disso, vive­mos na “era da infor­ma­ção”. Nunca pro­du­zi­mos e arma­ze­na­mos tan­tos dados, os quais podem ser facil­mente aces­sa­dos por qual­quer pes­soa atra­vés de um dis­po­si­tivo conec­tado à inter­net. Valo­ri­za­mos os avan­ços tec­no­ló­gi­cos e os bene­fí­cios que a ciên­cia traz para nos­sas vidas.

Uma soci­e­dade como a nossa (que dá tanto valor à infor­ma­ção) deve­ria ter um ótimo sis­tema edu­ca­ci­o­nal, espe­ci­al­mente nos níveis mais bási­cos, diri­gido às cri­an­ças e ado­les­cen­tes — sur­pre­en­den­te­mente, não tem; mas mui­tos estu­dos e pes­qui­sas cien­tí­fi­cas indi­cam que a edu­ca­ção ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada é falha por estar presa a tra­di­ções e lógi­cas que tal­vez nunca tenham dado certo.

As dis­cus­sões polí­ti­cas sobre o assunto, quando acon­te­cem, ten­dem a ser pouco pro­fun­das e geral­mente não se trans­for­mam em medi­das prá­ti­cas. Para um polí­tico, é van­ta­joso e cer­teiro defen­der a edu­ca­ção — trata-se de uma ques­tão rele­vante, que nunca foi solu­ci­o­nada por com­pleto e envolve a vida de mui­tas pes­soas — mas quais são as pro­pos­tas? Elas cos­tu­mam ter como base o aumento de inves­ti­men­tos e cri­a­ção de novas esco­las. Acon­tece que não importa o quanto se investe num sis­tema que não fun­ci­ona — ele não vai gerar bons resul­ta­dos. O ideal seria que os pro­fes­so­res fos­sem con­sul­ta­dos ao serem toma­das cer­tas deci­sões — mas, de qual­quer forma, a falta de diá­logo polí­tico com os pro­fis­si­o­nais não é um pro­blema exclu­sivo do setor edu­ca­ci­o­nal.

Além disso, somos uma demo­cra­cia recente; ainda temos muito que aper­fei­çoar nas nos­sas ins­ti­tui­ções. Tenho cer­teza de que exis­tem pes­soas com­pe­ten­tes inte­res­sa­das na melho­ria da edu­ca­ção nas esfe­ras gover­na­men­tais. Só que, mui­tas vezes, nos deba­tes polí­ti­cos, peque­nos deta­lhes são dis­cu­ti­dos, tais como o número de alu­nos por sala e número de maté­rias por dia, sem haver espaço ques­ti­o­nar qual é o obje­tivo da edu­ca­ção em si, qual deve­ria ser a fun­ção da escola na atu­a­li­dade e como as aulas deve­riam ser.

O ensino nem sem­pre foi do jeito que é hoje. Mui­tas gera­ções foram sub­me­ti­das a esse sis­tema, a ponto de ter­mos a impres­são de que essa é a maneira natu­ral e ine­vi­tá­vel de se ensi­nar. A sepa­ra­ção de cri­an­ças por idade, o tempo de cada aula, os tipos de maté­ria que são ensi­na­dos e até mesmo a sepa­ra­ção do con­teúdo em maté­rias são meras con­ven­ções desen­vol­vi­das ao longo da his­tó­ria. Por­tanto, não exis­tem razões natu­rais impe­dindo que tudo isso seja feito de outra maneira. Algu­mas pes­qui­sas cien­tí­fi­cas inclu­sive indi­cam que há manei­ras muito melho­res de ela­bo­rar uma escola, de acordo com a maneira que os seres huma­nos apren­dem. Esta maté­ria de Pedro Bur­gos para a Supe­rin­te­res­sante, por exem­plo, fala sobre as novas for­mas de se pen­sar a edu­ca­ção.

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O modelo “atual”, ins­pi­rado no antigo modelo prus­si­ano, feito de lousa e giz, aulas expo­si­ti­vas (o pro­fes­sor fala e os estu­dan­tes ouvem e ano­tam), maté­rias fixas e horá­rios pré-esta­be­le­ci­dos, sofreu pou­cas modi­fi­ca­ções desde que foi cri­ado há pra­ti­ca­mente dois sécu­los — e fun­ci­ona ape­nas para uma pequena fra­ção das pes­soas que con­se­guem acom­pa­nhar seu ritmo, tole­rar suas inco­e­rên­cias e aguen­tar sua inten­si­dade.

Ape­sar de ter sido esse modelo o res­pon­sá­vel por uni­ver­sa­li­zar a edu­ca­ção e aumen­tar imen­sa­mente a taxa de alfa­be­ti­za­ção nos paí­ses que o ado­ta­ram, uma con­sulta rápida mos­tra que o Bra­sil tem o nível de alfa­be­ti­za­ção de 91,3%, o que leva ao ques­ti­o­na­mento do real sig­ni­fi­cado por trás desse número. Não pre­ci­sa­mos ape­nas de edu­ca­ção — ela pre­cisa ser de qua­li­dade tam­bém.

Entre os pro­ble­mas do modelo que ado­ta­mos está o fato de ele não reco­nhe­cer que as pes­soas são dife­ren­tes e, por­tanto, têm inte­res­ses, afi­ni­da­des, rit­mos e méto­dos de estudo dife­ren­tes, além de horá­rios espe­cí­fi­cos para sua melhor pro­du­ti­vi­dade. Há tam­bém a quan­ti­dade exces­siva de fór­mu­las e con­cei­tos ensi­na­dos que são esque­ci­dos gra­da­ti­va­mente, por não serem uti­li­za­dos fora da escola (algu­mas infor­ma­ções, con­tudo, podem até per­ma­ne­cer no cére­bro e darem uma falsa impres­são de conhe­ci­mento dura­douro).

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Há uma auto­ma­ti­za­ção e padro­ni­za­ção do pro­cesso edu­ca­ci­o­nal, que coloca as pro­vas acima de tudo e forma indi­ví­duos com conhe­ci­men­tos rasos e des­co­nec­ta­dos sobre assun­tos muito dife­ren­tes. O ensino ade­qua-se à prova, e não o con­trá­rio. Ensina-se ape­nas aquilo que é teó­rico, que pode ser per­gun­tado numa ques­tão múl­ti­pla esco­lha e, depois, men­su­rado. Con­se­quen­te­mente, o modo como esse modelo vem sendo usado tam­bém ignora a vida dos estu­dan­tes fora da escola. Ele tam­bém não é muito bom em for­mar pes­soas crí­ti­cas, autô­no­mas e cri­a­ti­vas.

O con­teúdo ensi­nado é cons­ti­tuído ape­nas do sufi­ci­ente para for­mar, por exem­plo, um ope­rá­rio fun­ci­o­nal, que con­siga repro­du­zir tra­ba­lhos pré-esta­be­le­ci­dos e obe­de­cer a ordens, sem refle­tir acerca do que está fazendo (acho que não espe­ra­mos isso dos cida­dãos de nosso tempo). O estu­dante é mol­dado para acei­tar e con­cor­dar, mas não para ques­ti­o­nar e des­co­brir. Devido a todas essas carac­te­rís­ti­cas, tal sis­tema foi con­ve­ni­en­te­mente uti­li­zado por gover­nos auto­ri­tá­rios para dis­se­mi­nar ide­o­lo­gias e criar sol­da­dos dis­ci­pli­na­dos para lutar em guer­ras.

PROBLEMAS COMPLEXOS

Os pri­mei­ros agru­pa­men­tos huma­nos eram pouco com­ple­xos e havia um equi­lí­brio entre pes­soas e tare­fas a serem rea­li­za­das, porém, com o pas­sar do tempo, as soci­e­da­des foram ficando cada vez mais hie­rar­qui­za­das e seg­men­ta­das (com­ple­xas), para que con­se­guis­sem rea­li­zar deter­mi­na­das tare­fas.

Digo isso, com base nesta maté­ria, da qual eu reco­mendo a lei­tura na ínte­gra, escrita por Denis Bur­gi­er­man, tam­bém para a Supe­rin­te­res­sante, cujo título é “O mundo está muito com­plexo”. Ela fala sobre os pro­ble­mas de nossa soci­e­dade, vis­tos sob a ótica do estudo de sis­te­mas com­ple­xos, com base nos estu­dos de Yaneer Bar-Yam, espe­ci­a­lista em sis­te­mas com­ple­xos.

A ques­tão é que, no século XX, com a inven­ção da linha de mon­ta­gem, apro­xi­ma­da­mente, no ano de 1913, cri­ada para aten­der à neces­si­dade de pro­du­ção de car­ros em grande quan­ti­dade e ado­tada com sucesso por Henry Ford, veio a lógica da padro­ni­za­ção e sepa­ra­ção de tra­ba­lhos em eta­pas espe­cí­fi­cas, à qual esta­mos pre­sos até hoje. A pró­pria ação do tra­ba­lha­dor pas­sou a ser repe­ti­tiva e não exi­gia dele o pen­sa­mento.

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Assim, prin­ci­pal­mente por causa das revo­lu­ções indus­tri­ais, nós nos tor­na­mos muito bons em tra­ba­lhar com as coi­sas em larga escala, mas não com as coi­sas espe­cí­fi­cas (a com­ple­xi­dade). Só que Yaneer afirma que, para um sis­tema com­plexo fun­ci­o­nar, é pre­ciso dar conta tanto da escala quanto da com­ple­xi­dade.

O único jeito de lidar com sis­te­mas com­ple­xos é cri­ando estru­tu­ras de con­trole com­ple­xas: redes de gente com auto­no­mia de iden­ti­fi­car e resol­ver pro­ble­mas.”
–Yaneer Bar-Yam

Um sis­tema edu­ca­ci­o­nal focado na escala é capaz, por exem­plo, de colo­car todas as cri­an­ças e ado­les­cen­tes enfi­lei­ra­dos em salas de aula, apre­sen­tar aulas padro­ni­za­das e apli­car pro­vas idên­ti­cas, rea­li­zar ves­ti­bu­la­res e exa­mes naci­o­nais como o ENEM com pre­ci­são mili­tar (o ENEM é segundo maior exame do mundo para ingresso no ensino supe­rior, atrás ape­nas do exame da China), mas não de iden­ti­fi­car as habi­li­da­des e difi­cul­da­des de cada estu­dante, reco­nhe­cer pes­soas talen­to­sas em áreas espe­cí­fi­cas ou apli­car ava­li­a­ções mais dire­ci­o­na­das.

Atu­al­mente, pas­sa­mos por um momento his­tó­rico no qual tudo é per­so­na­li­zado, rápido e “just-in-time” (algo “ape­nas no momento” ou “ape­nas na hora exata”. O obje­tivo é oti­mi­zar todos os pro­ces­sos ao máximo, reti­rando o que é supér­fluo e pro­du­zindo ape­nas o que é neces­sá­rio, quando exis­tir a demanda), a edu­ca­ção, con­ti­nua sendo “just-in-case” (algo como “no caso de” ou “por via das dúvi­das” — ine­fi­ci­ente e cri­a­dora de exces­sos).

Obvi­a­mente, não é por­que a maior habi­li­dade de uma pes­soa não é menos impor­tante por não estar na lista clás­sica de maté­rias. Só que, com esse modelo, dei­xa­mos para trás pes­soas que pode­riam ser abso­lu­ta­mente bri­lhan­tes e pode­riam con­tri­buir muito para a soci­e­dade em suas áreas, não neces­sa­ri­a­mente aca­dê­mi­cas. Afi­nal, o con­trato social no qual esta­mos inse­ri­dos é van­ta­joso para nós jus­ta­mente por­que cada um pode cola­bo­rar com o seu ponto forte.

Um vídeo bem escla­re­ce­dor sobre as con­sequên­cias desse sis­tema é essa famosa pales­tra no TED de Ken Robin­son, na qual ele explica por que “esco­las matam a cri­a­ti­vi­dade”:

MUDANÇAS

Como Tim Mon­real explica neste artigo (em inglês), as pro­pos­tas polí­ti­cas de “reforma” (e não recons­tru­ção com­pleta) do sis­tema edu­ca­ci­o­nal não sig­ni­fi­cam nada e ser­vem ape­nas para camu­flar os pro­ble­mas pró­prios do modelo atual:

As pes­soas apon­tam para diver­sas áreas de insa­tis­fa­ção, mas eu ouço fre­quen­te­mente as seguin­tes pre­o­cu­pa­ções: desi­gual­dade, apoio ao pro­fes­sor, reten­ção do pro­fes­sor, acesso, a dis­pa­ri­dade de con­quis­tas, moti­va­ção e enga­ja­mento, recur­sos, padrões, e cur­rí­culo. (…) Parece que todo mundo tem uma ideia para refor­mu­lar ou refor­mar o sis­tema atual de edu­ca­ção. Não é esse o pro­blema. Nós pre­ci­sa­mos ques­ti­o­nar quase todas as par­tes de nosso sis­tema atual, não mirar em refor­mu­lar suas par­tes dís­pa­res e dis­fun­ci­o­nais. Solu­ções e suges­tões para refor­mas edu­ca­ci­o­nais sim­ples­mente refi­nam os para­dig­mas atu­ais de edu­ca­ção. A reforma, geral­mente intro­du­zida por pes­soas que nunca pisa­ram numa sala de aula, pega as par­tes atu­ais de edu­ca­ção, mes­cla-as, ofe­re­cendo melho­rias insig­ni­fi­can­tes, e então cospe de volta uma forma mini­ma­mente mais atra­ente da ori­gi­nal. Não há mudança ver­da­deira, ape­nas um ajuste adi­ci­o­nal à forma atual da escola. A base do sis­tema edu­ca­ci­o­nal per­ma­nece igual, mesmo quando novos pro­gra­mas são imple­men­ta­dos ou tes­ta­dos. A reforma edu­ca­ci­o­nal coloca uma boa e polida camada de tinta para cobrir os amas­sa­dos da parede. O que nós pre­ci­sa­mos é de uma parede total­mente nova.” (grifo meu | tra­du­ção livre)

Com isso, nota-se que o pro­blema da edu­ca­ção não é exclu­sivo do Bra­sil. O tre­cho acima, por exem­plo, refere-se à edu­ca­ção nos Esta­dos Uni­dos. Ape­sar de ter­mos alguns pro­ble­mas espe­cí­fi­cos e gra­ves em nosso país, acre­dito que, em geral, a situ­a­ção é a mesma boa parte do mundo oci­den­tal, já que, ape­sar de cada país seguir um sis­tema edu­ca­ci­o­nal dife­rente, as bases são as mes­mas.

O MODELO BASEADO EM AVALIAÇÕES

Se o obje­tivo desse sis­tema fosse o apren­di­zado, não deve­ria haver pra­zos extre­ma­mente res­tri­tos para a assi­mi­la­ção do con­teúdo. No final, ele só bene­fi­cia aque­les que con­se­guem apren­der (ou memo­ri­zar) deter­mi­nado con­teúdo den­tro de um período limi­tado de tempo. E esse ciclo acaba por se agra­var ainda mais para aque­les que não con­se­guem: se a pes­soa tivesse mais tempo para estu­dar aquele assunto de forma com­pleta, poten­ci­al­mente con­se­gui­ria enten­der os assun­tos pos­te­ri­o­res com muito mais faci­li­dade.

Nesse modelo, a edu­ca­ção fica com “bura­cos”, par­tes não pre­en­chi­das, dúvi­das não res­pon­di­das — conhe­ci­men­tos des­co­nec­ta­dos. Além de aulas, que mui­tas vezes ocu­pam o período da manhã e da tarde, cobra-se lições de casa, tra­ba­lhos extras e estu­dos para pro­vas e simu­la­dos, para serem fei­tos fora do horá­rio esco­lar.

CONSEQUÊNCIAS DOS EXCESSOS

Jus­tin Cox fala, entre outras coi­sas, sobre as con­sequên­cias emo­ci­o­nais de uma edu­ca­ção opres­siva neste artigo (em inglês):

Com tan­tas pro­vas, não é de se sur­pre­en­der que o foco da sala de aula mudou de ensi­nar cri­a­ti­va­mente para pre­pa­rar para pro­vas futu­ras. (…) Exis­tem pro­fes­so­res mara­vi­lho­sos por aí que têm a habi­li­dade de abrir a mente dos estu­dan­tes e intro­du­zir-lhes con­cei­tos de manei­ras cri­a­ti­vas. O pro­blema é que esses pro­fes­so­res mara­vi­lho­sos estão pre­sos em um sis­tema falido — um sis­tema que os força a pre­pa­rar para pro­vas e então os culpa pelos resul­ta­dos que seus estu­dan­tes rece­bem. Pro­vas tam­bém não são o ini­migo. Elas não são per­fei­tas, mas são a fer­ra­menta mais fácil dis­po­ní­vel para ava­liar se um estu­dante sabe a maté­ria ou não. Mas quando o foco da sala de aula está em tes­tar e não no conhe­ci­mento e expe­ri­ên­cia, outra coisa acon­tece: nós cri­a­mos uma gera­ção de cri­an­ças que são ansi­o­sas e estres­sa­das além do limite.

(tra­du­ção livre)

Por essas razões, mui­tos estu­dan­tes estão tomando remé­dios para o aumento da con­cen­tra­ção ou con­tra a ansi­e­dade e insô­nia, para lidar com essa rotina esco­lar.

PROVAS

Tanto no ensino fun­da­men­tal quanto no médio um estu­dante será ava­li­ado atra­vés de pro­vas.

O sis­tema per­mite que ele obte­nha notas rela­ti­va­mente ruins durante o ano todo, mas se estu­dar para ape­nas uma prova — a de recu­pe­ra­ção — e con­se­guir ficar na média, será apro­vado.

Prin­ci­pal­mente no ensino médio, man­ter a nota acima da média em todas as maté­rias e durante o ano todo, é uma tarefa (no mínimo) com­pli­cada para a mai­o­ria dos estu­dan­tes e a recu­pe­ra­ção torna-se a única solu­ção.

Se numa escola com notas de 0 a 10, a média para apro­va­ção for 7, por exem­plo, pouco importa se um estu­dante tira 10 ou 7 durante o ano. Para o sis­tema, é a mesma coisa: apro­vado.

Está tudo bem se ele não apren­der (supos­ta­mente) 30 por cento da maté­ria a cada bimes­tre. Ele será pas­sado para a frente. Como uma pes­soa pode ser apro­vada sem ter con­se­guido apren­der tudo o que deve­ria?

Acon­tece que esse estu­dante não teria dei­xado, hipo­te­ti­ca­mente, de apren­der ape­nas 30 por cento. Na ver­dade, pode ser que ele domine uma por­cen­ta­gem bem menor do con­teúdo. Acer­tar 7 de 10 ques­tões de uma prova dis­ser­ta­tiva ou de múl­ti­pla esco­lha sig­ni­fica que o estu­dante sabe a res­posta daque­las 7 ques­tões em par­ti­cu­lar.

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Tal­vez se as per­gun­tas fos­sem outras, ele acer­tasse uma quan­ti­dade muito menor ou muito maior. É pos­sí­vel, tam­bém, acer­tar ques­tões na prova por “sorte”, por intui­ção ou por chute. Ele pode ter deco­rado tudo no dia ante­rior e tal­vez daqui a um ano não se lem­bre de mais nada; aquilo que não for uti­li­zado nova­mente será esque­cido.

A ocu­pa­ção da mente com novas maté­rias fará com que a pes­soa se esqueça da maior parte daquilo que estu­dou ante­ri­or­mente, por­que é sim­ples­mente muita infor­ma­ção para dar conta. É como se esti­vés­se­mos incen­ti­vando o apren­di­zado de conhe­ci­mento “des­car­tá­vel”. O sis­tema em si não se importa com conhe­ci­mento ou esforço, e sim, com notas.

Pode ser que esse estu­dante tenha tirado 7 por­que não con­se­guiu, num bimes­tre, apren­der mais de dez maté­rias dife­ren­tes (e não por­que ele sim­ples­mente dei­xou de estu­dar). Se mesmo estu­dando inten­sa­mente, o resul­tado numé­rico que ele rece­ber não for favo­rá­vel, há chan­ces de que ele acabe ficando des­mo­ti­vado, passe a acre­di­tar que nunca con­se­guirá enten­der deter­mi­nada maté­ria, que não tem capa­ci­dade cog­ni­tiva para aprendê-la, etc. E isso é um absurdo.

A mai­o­ria das pes­soas tem ple­nas con­di­ções de com­pre­en­der os con­teú­dos do ensino médio, pre­ci­sando de mais ou menos tempo para isso e mais ou menos ajuda para isso — mas têm. A ques­tão é que tal­vez esses con­teú­dos nem mesmo deves­sem ser cobra­dos desse estu­dante ou então a maneira como são ensi­na­dos e cobra­dos dele pode não ser a mais ade­quada tam­bém.

De qual­quer forma, os estu­dan­tes even­tu­al­mente são apro­va­dos, afi­nal vem mais gente por aí e não há tempo a per­der…

As pro­vas deve­riam ser­vir de diag­nós­tico, mas elas são apli­ca­das, cons­tata-se o quanto o estu­dante enten­deu da maté­ria e, mui­tas vezes, mesmo se ele não enten­deu tudo, não se faz nada a res­peito, prin­ci­pal­mente se ele não ficou abaixo da média. Não há nenhum “con­trole de qua­li­dade” nesse pro­cesso. Então, o estu­dante segue em frente com a pró­xima maté­ria, mesmo sem ter com­pre­en­dido a ante­rior. É como cons­truir um pré­dio sem pre­pa­rar seus ali­cer­ces.

Ape­sar disso, algu­mas esco­las ten­tam con­tor­nar esse pro­blema fazendo a cor­re­ção da prova ou ofe­re­cendo horá­rios para tirar dúvi­das com pro­fes­so­res ou moni­to­res. Con­tudo, a maté­ria em si não é ensi­nada nova­mente.

notas e aprendizado - Neil Tyson

Quando estu­dan­tes colam nas pro­vas é por­que nosso sis­tema edu­ca­ci­o­nal valo­riza notas mais do que estu­dan­tes valo­ri­zam apren­di­zado.” — Neil DeGrasse Tyson, via Twit­ter.


MATÉRIAS

Quando argu­mento que vários dos con­teú­dos ensi­na­dos no ensino médio são supér­fluos, exem­pli­fi­cando com algum con­teúdo de uma maté­ria, cos­tumo rece­ber uma res­posta como:

Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre [insira assunto aqui]”.

A meu ver, porém, a esco­lha de um con­teúdo em lugar de outro é, mui­tas vezes, arbi­trá­ria, por­que essa res­posta fun­ci­ona para pra­ti­ca­mente qual­quer área do conhe­ci­mento.

Fun­ci­ona para assun­tos que são abor­da­dos no ensino médio:

Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre botâ­nica”.
Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre ter­mo­di­nâ­mica”.

Para assun­tos que não são abor­da­dos no ensino médio:

Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre cri­a­ção de sites”.
Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre latim”.

para assun­tos que não são abor­da­dos no ensino médio, mas são muito impor­tan­tes:

Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre ali­men­ta­ção e cozi­nha”.
“Ah, mas é impor­tante ter uma noção básica sobre pri­mei­ros-socor­ros”.

Eu real­mente espero que haja um cri­té­rio para a deci­são de cer­tos temas em detri­mento de outros, mas se há, ele é muito amplo e pouco conec­tado com as exi­gên­cias do mundo real. Em se tra­tando de ensino médio, nunca é uma noção básica. Aprende-se o básico no ensino fun­da­men­tal (e logo em seguida, acaba-se esque­cendo de mui­tas infor­ma­ções). O ensino médio pode­ria refor­çar o que já foi ensi­nado, apro­fun­dar um pouco, mas vai muito além.

Claro que mui­tas das novi­da­des que apren­de­mos no ensino médio são impor­tan­tes (por exem­plo, como fazer para se pre­ve­nir de cer­tas doen­ças), mas mui­tas outras são esco­lhi­das ape­nas para com­por uma grade cur­ri­cu­lar “com­pleta”. Elas são apro­fun­da­das demais para quem não quer seguir uma certa área do conhe­ci­mento, mas rasas demais para quem real­mente tem inte­resse por ela. É apren­der por apren­der.

Estou falando de infor­ma­ções e fatos que não têm nenhuma ser­ven­tia, nem se conec­tam com outras áreas que a pes­soa pode seguir. O que fica é ape­nas uma satis­fa­ção inte­lec­tual para quem con­se­gue se lem­brar deles.

É impor­tante des­ta­car que uma pes­soa pode bus­car infor­ma­ções por conta pró­pria sobre um assunto mesmo que ele não seja leci­o­nado no ensino médio.

Então, argu­menta-se: “mas e se você pre­ci­sar daquilo em algum momento?”. Real­mente, é impos­sí­vel saber se, em deter­mi­nado dia da minha vida, pre­ci­sa­ria de uma infor­ma­ção que é ensi­nada na escola — ou de qual­quer outra que não é. É impos­sí­vel estar pre­pa­rado para qual­quer assunto exis­tente.

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Como men­ci­o­nei, as pes­soas podem fazer pes­qui­sas, caso hou­ver neces­si­dade. Além disso, se alguém pre­ci­sar de conhe­ci­men­tos do ensino médio no futuro para sua car­reira pro­fis­si­o­nal, estudo aca­dê­mico, ou qual­quer outra razão, terá que estudá-los de novo, por­que pos­si­vel­mente não se lem­brará de tudo, ou então pre­ci­sará de uma lei­tura mais deta­lhada sobre o assunto.

Tam­bém não usa­mos essa jus­ti­fi­ca­tiva para outras situ­a­ções coti­di­a­nas. Dando um exem­plo bem tosco, se você per­gun­tar a alguém “Será que eu levo tinta acrí­lica para o mer­cado?”, pro­va­vel­mente não rece­berá uma res­posta séria do tipo “Leva, quem sabe você acaba pre­ci­sando?!”, pois se trata de algo que nin­guém espera ter de usar num super­mer­cado.

Outro argu­mento pode­ria ser que a ques­tão não é reter todo o con­teúdo, mas sim, saber que ele existe. Ainda assim, isso ainda soa muito ques­ti­o­ná­vel e ale­a­tó­rio, por­que mui­tos assun­tos igual­mente com­pli­ca­dos das maté­rias tra­di­ci­o­nais são dei­xa­dos de fora.

A forma que o con­teúdo, alheio à área pre­ten­dida, é cobrado tam­bém pode­ria ser dife­rente. Pode­ria sim­ples­mente não valer nota ou não cair no ves­ti­bu­lar daquele estu­dante, por exem­plo. Entre­tanto, no nosso modelo de ves­ti­bu­lar atual, para terem bons resul­ta­dos, as pes­soas real­mente pre­ci­sam se lem­brar de tudo, deta­lha­da­mente.


FÓRMULAS

As maté­rias são ensi­na­das atra­vés de algo­rit­mos: fór­mu­las ins­tan­tâ­neas e muito prá­ti­cas, mas igual­mente ine­fe­ti­vas. Ainda que seja e fácil e rápido apre­sentá-las aos estu­dan­tes, enfa­tizo: eles pre­ci­sa­rão revê-las depois de um tempo, pois a mente dará conta de des­cartá-las. Elas for­ne­cem, pron­ta­mente, a res­posta para um pro­blema, mesmo que o meca­nismo de seu fun­ci­o­na­mento per­ma­neça oculto. Seria pos­sí­vel com­pre­en­der qual­quer assunto de um mesmo tópico se a lógica/o raci­o­cí­nio por trás dele fosse ensi­nado, no lugar da sim­ples apre­sen­ta­ção da fór­mula.

Da mesma maneira que não se espera de uma escola dou­tri­nar nin­guém, e sim ensi­nar o estu­dante a pen­sar cri­ti­ca­mente e argu­men­tar coe­ren­te­mente, com rela­ção ao campo das ciên­cias huma­nas, não deve­ría­mos espe­rar que fos­sem ensi­na­das as fór­mu­las sem mos­trar o pen­sa­mento por trás delas, nas ciên­cias exa­tas. O estu­dante deve­ria saber che­gar sozi­nho à fór­mula, ou pelo menos enten­der o que está fazendo ao aplicá-la.

Se o tópico é tão difí­cil a ponto de não ser pos­sí­vel explicá-lo sem recor­rer a uma fór­mula, e nem mesmo a fór­mula pode ser expli­cada, não acho que ele deve­ria ser abor­dado no ensino médio. Mesmo assim, acre­dito que a mai­o­ria dos assun­tos mate­má­ti­cos, tra­di­ci­o­nal­mente ensi­na­dos nessa etapa, pode ser ensi­nada em sua tota­li­dade e com­ple­xi­dade, ainda que demore mais tempo ou dê mais tra­ba­lho, no obje­tivo de resul­tar num conhe­ci­mento dura­douro.

A TECNOLOGIA VAI MUDAR TUDO?

A tec­no­lo­gia já ajuda em alguns pon­tos: é pos­sí­vel ver de perto quais são as difi­cul­da­des dos estu­dan­tes usando os sites e apli­ca­ti­vos que ana­li­sam o desem­pe­nho deles e geram dados/relatórios, que mais tarde são envi­a­dos para os pro­fes­so­res, per­mi­tindo um acom­pa­nha­mento espe­cí­fico e indi­vi­dual e a per­so­na­li­za­ção de rotei­ros de estudo. Entre­tanto, além da ques­tão prá­tica de que as novas tec­no­lo­gias não serem aces­sí­veis a todos, elas não cons­ti­tuem uma solu­ção para todos os pro­ble­mas (inclu­sive por­que “tec­no­lo­gia” é um termo bem amplo). Este vídeo do canal Veri­ta­sium demons­tra o porquê disso:

Imple­men­tar apa­re­lhos moder­nos nas esco­las e usá-los de forma ina­de­quada ou des­con­tex­tu­a­li­zada não ajuda. Por isso, a tec­no­lo­gia sozi­nha não con­se­gue revo­lu­ci­o­nar a edu­ca­ção. Ainda assim, ela pode ser usada como fer­ra­menta para expli­car um mesmo assunto de dife­ren­tes manei­ras. O ensino de qua­li­dade tem foco no con­teúdo e assim con­se­gue ser, de fato, didá­tico — os sites edu­ca­ci­o­nais e vídeo-aulas, por exem­plo, mui­tas vezes, tor­nam-se a sal­va­ção dos estu­dan­tes para a rea­li­za­ção tra­ba­lhos esco­la­res e pro­vas.

CONTRA A PASSIVIDADE, ACEITAÇÃOCÓPIA.

Edu­ca­ção é sobre apren­di­zado. Se o apren­di­zado não está acon­te­cendo, a edu­ca­ção não está acon­te­cendo.”

Ken Robin­son (How To Escape Education’s Death Val­ley — TED)

Estar den­tro da escola não sig­ni­fica estar apren­dendo.

O ideal seria que o sis­tema for­masse estu­dan­tes ati­vos e autô­no­mos, ou seja, pes­soas res­pon­sá­veis que vão atrás de res­pos­tas por von­tade pró­pria, sabem fazer pes­qui­sas, sele­ci­o­nam infor­ma­ções rele­van­tes, reco­nhe­cem fon­tes con­fiá­veis, tra­ba­lham em grupo e resol­vem pro­ble­mas de forma cri­a­tiva.

Nada disso invi­a­bi­liza o tra­ba­lho do pro­fes­sor — ele ape­nas dei­xa­ria de ser o único deten­tor do conhe­ci­mento na sala. No lugar disso, pas­sa­ria a ser um guia no pro­cesso de apren­di­zado e tira­ria as dúvi­das que sur­gis­sem. Ele não pre­ci­sa­ria usar sua aula para expli­car o que já está escrito no mate­rial didá­tico. Na ver­dade, ele pode­ria com­par­ti­lhar jus­ta­mente os aspec­tos daquele assunto que não esti­ves­sem nos livros esco­la­res e usar mais de seu tempo para aju­dar aque­les estu­dan­tes que real­mente pre­ci­sam de ajuda.

Além disso, o modelo atual coloca os pro­fes­so­res numa pés­sima situ­a­ção: eles dão aula per­ce­bendo que a turma está exausta e ente­di­ada, mui­tas vezes tendo a impres­são de que seus esfor­ços não estão valendo à pena, já que não têm como saber se naquele momento os estu­dan­tes estão apren­dendo ou não, e per­dem muita ener­gia e tempo de aula ten­tando enga­jar os estu­dan­tes.

Fre­quen­te­mente são igno­ra­dos, seja por can­saço ou desin­te­resse do estu­dante, além de haver momen­tos em que o espaço de fala deles não é res­pei­tado e eles sim­ples­mente não con­se­guem dar aula.

Nada disso acon­te­ce­ria se todos os estu­dan­tes tives­sem de ir atrás da infor­ma­ção, esti­ves­sem moti­va­dos ou iden­ti­fi­cas­sem na escola um ambi­ente con­vi­da­tivo de apren­di­zado. Para mui­tos deles, a sen­sa­ção é a de que com­pa­re­cer à escola é o cum­pri­mento de uma obri­ga­ção sem sen­tido, de algo essen­ci­al­mente maçante que lhes foi imposto pela soci­e­dade.

Espera-se que os pro­fes­so­res con­si­gam “sal­var o mundo” nes­sas con­di­ções.

CONTEÚDO

Não há regras sim­ples para lidar com o que é com­plexo.”
–Yaneer Bar-Yam

Pes­so­al­mente, não acre­dito em res­pos­tas fáceis ou solu­ções mila­gro­sas. Como mos­tra a cita­ção de Yaneer, não exis­tem solu­ções sim­ples para pro­ble­mas com­ple­xos. Todos os mode­los têm prós e con­tras.

Além disso, mudan­ças geram cus­tos e exi­gem que abra­mos mão de algu­mas coi­sas, mas pre­ci­sa­mos pon­de­rar o que real­mente é neces­sá­rio. Exis­tem boas inten­ções por trás de mui­tos aspec­tos desse sis­tema, que sim­ples­mente não fun­ci­o­nam na prá­tica. Seria ótimo poder for­mar cida­dãos que têm domí­nio sobre diver­sas áreas do conhe­ci­mento humano — mas isso não está acon­te­cendo com a estra­té­gia que esta­mos usando.

Eu com­pre­endo que deve ser uma mis­são real­mente difí­cil esco­lher as maté­rias, os assun­tos e a pro­fun­di­dade daquilo que será cobrado dos estu­dan­tes de todo um país. Por isso, as maté­rias pode­riam ser esco­lhi­das pelos estu­dan­tes de acordo com a área na qual têm mais habi­li­dade.

Não sou con­tra o ensino de temas que não têm uma uti­li­dade “prá­tica” (até mesmo por­que, em alguns casos, isso é sub­je­tivo), de con­cei­tos abs­tra­tos ou de refle­xões filo­só­fi­cas, pelo con­trá­rio — há escas­sez de aulas de filo­so­fia, soci­o­lo­gia ou his­tó­ria da arte em mui­tas esco­las, e essas aulas desen­vol­vem o inte­lecto e o pen­sa­mento crí­tico dos estu­dan­tes e os fazem entrar em con­tato com a pro­du­ção cul­tu­ral de nossa soci­e­dade.

O que estou ques­ti­o­nando é a vali­dade da memo­ri­za­ção de infor­ma­ções essen­ci­al­mente des­ne­ces­sá­rias, extre­ma­mente espe­cí­fi­cas e téc­ni­cas, as quais podem ser con­sul­ta­das inclu­sive por pro­fis­si­o­nais, e ocu­pam espaço no cére­bro, sem acres­cen­tar em nada a uma deter­mi­nada pes­soa, por não serem apro­vei­ta­das por ela nem mesmo na facul­dade. É pos­sí­vel deco­rar maté­rias como deco­ra­mos as letras de uma música sem que enten­da­mos o que elas real­mente estão dizendo.

educação calvin

Se quase toda a infor­ma­ção do mundo está dis­po­ní­vel para as pes­soas de forma gra­tuita nas bibli­o­te­cas e na inter­net, a inte­li­gên­cia está em saber o que deve­mos guar­dar na cabeça e o que pode­mos dei­xar impresso ou ano­tado. O cére­bro deve ser a fer­ra­menta pela qual faze­mos as cone­xões e não um depó­sito de arqui­vos que fica cons­tan­te­mente sobre­car­re­gado.

O conhe­ci­mento é sepa­rado em maté­rias como se a mente humana tivesse cai­xi­nhas onde se depo­si­tam infor­ma­ções que nunca sai­rão de lá. Ainda que as maté­rias sejam for­mas prá­ti­cas de orga­ni­zar conhe­ci­mento — e o ser humano venha orga­ni­zando, cate­go­ri­zando e clas­si­fi­cando conhe­ci­mento há sécu­los — é muito mais van­ta­joso, em diver­sas oca­siões, uti­li­zar a inter­dis­ci­pli­na­ri­dade. O ENEM, por exem­plo, já inclui ques­tões que abran­gem mais de uma área do conhe­ci­mento.

Tam­bém não estou afir­mando que as aulas tra­di­ci­o­nais devam ser bani­das a todo custo e que isso resol­verá o pro­blema — eu já tive óti­mas aulas expo­si­ti­vas. Acon­tece que elas não fun­ci­o­nam para todos os assun­tos, nem para todas as pes­soas, e mui­tas vezes não acon­te­cem em horá­rios ade­qua­dos para o apren­di­zado, nem em ambi­en­tes amis­to­sos. Não sou con­tra o fato de os estu­dan­tes ganha­rem agi­li­dade e sabe­rem admi­nis­trar tare­fas e geren­ciar o tempo — mas reco­nheço que exis­tem for­mas muito mais sau­dá­veis para fazer isso do que os sobre­car­re­gando de tra­ba­lhos cujos pra­zos que não podem ser devi­da­mente cum­pri­dos.

Com rela­ção às ava­li­a­ções tra­di­ci­o­nais: ideal seria dimi­nuir a frequên­cia com que são apli­ca­das. Elas não veri­fi­cam se as pes­soas de fato enten­de­ram, nem reco­nhe­cem esforço. Exis­tem alter­na­ti­vas para um estu­dante pro­var que enten­deu a maté­ria (que incluem desen­vol­ver pro­je­tos, apre­sen­tar um tra­ba­lho, ou sim­ples­mente falar o que você sabe para o pro­fes­sor).

Defendo maior liber­dade (inclu­sive na esco­lha das maté­rias), pre­o­cu­pa­ção com o bem-estar e saúde men­tal dos estu­dan­tes, uma visão mais “humana” da edu­ca­ção e uso das pes­qui­sas cien­tí­fi­cas para ela­bo­rar os nos­sos mode­los edu­ca­ci­o­nais. Uma edu­ca­ção per­so­na­li­zada per­mite que o estu­dante se dedi­que ao que ele pre­cisa de ver­dade.

Todos nós apren­de­mos dife­ren­te­mente. Que tal se nós hon­rás­se­mos nos­sas dife­ren­ças dando aos pro­fes­so­res e estu­dan­tes as fer­ra­men­tas espe­cí­fi­cas que eles pre­ci­sam para ter sucesso?

O apren­di­zado per­so­na­li­zado nos per­mite fazer exa­ta­mente isso. Pense nos per­so­nal trai­ners numa aca­de­mia — eles desen­vol­vem pro­gra­mas dire­ci­o­na­dos para neces­si­da­des, obje­ti­vos e graus de habi­li­dade úni­cos de cada cli­ente.

Os mes­mos con­cei­tos estão sendo apli­ca­dos na edu­ca­ção.”

(tra­du­ção livre | grifo meu)
Allan Gols­ton — Les­sons from 15 Years: Wor­king to Improve Ame­ri­can Edu­ca­tion

Pode pare­cer mais difí­cil fazer tudo dessa maneira (o que não é neces­sa­ri­a­mente ver­dade, como mos­tram as exce­ções de esco­las que não seguem modelo tra­di­ci­o­nal). Libe­rar mais tempo para os estu­dan­tes estu­da­rem do jeito deles — sozi­nhos, em grupo, com vídeo-aulas, livros, apos­ti­las, moni­to­res esco­la­res, enfim, com o que for neces­sá­rio, por exem­plo, já os aju­da­ria muito.

Além disso, com mais vari­e­da­des de mode­los edu­ca­ci­o­nais, eles pode­riam esco­lher aquele cujas carac­te­rís­ti­cas eles mais se iden­ti­fi­cam. Não sei se os “méto­dos alter­na­ti­vos” seriam ade­qua­dos para fazer um estu­dante pas­sar numa prova de ves­ti­bu­lar, con­se­quen­te­mente, o ves­ti­bu­lar tam­bém teria de ser repen­sado.

Con­tudo, pode ser que esses méto­dos sejam ainda mais ade­qua­dos que as prá­ti­cas tra­di­ci­o­nais jus­ta­mente por­que o obje­tivo deles é fomen­tar conhe­ci­mento dura­douro e ver­da­deiro. Eles bus­cam a efi­ci­ên­cia do ensino e a efi­cá­cia do apren­di­zado, e não o esgo­ta­mento men­tal gra­tuito dos estu­dan­tes.

ALTERNATIVAS

Exis­tem inú­me­ras alter­na­ti­vas para o modelo tra­di­ci­o­nal, mas eu vou colo­car aqui uma das expe­ri­ên­cias mais notá­veis, que moti­vou a cri­a­ção e modi­fi­ca­ção de mui­tas outras esco­las, inclu­sive no Bra­sil – a Escola da Ponte. Nesta entre­vista para a Revista Escola, José Pacheco, o fun­da­dor dessa escola, que fica em Por­tu­gal, fala sobre os prin­cí­pios que a regem. A intro­du­ção da entre­vista des­creve o fun­ci­o­na­mento da mesma:

A Ponte não segue um sis­tema base­ado em seri­a­ção ou ciclos e seus pro­fes­so­res não são res­pon­sá­veis por uma dis­ci­plina ou por uma turma espe­cí­fi­cas. As cri­an­ças e os ado­les­cen­tes que lá estu­dam — mui­tos deles vio­len­tos, trans­fe­ri­dos de outras ins­ti­tui­ções — defi­nem quais são suas áreas de inte­resse e desen­vol­vem pro­je­tos de pes­quisa, tanto em grupo como indi­vi­du­ais. A cada ano, as cri­an­ças e os jovens criam as regras de con­vi­vên­cia que serão segui­das inclu­sive por edu­ca­do­res e fami­li­a­res. É fácil pre­ver que pro­ble­mas de adap­ta­ção acon­te­cem. Há pro­fes­so­res que vão embora e alu­nos que estra­nham tanta liber­dade. Nada, no entanto, que faça a equipe desa­ni­mar. O sis­tema tem se mos­trado viá­vel por pelo menos dois moti­vos: pri­meiro, por­que os edu­ca­do­res estão aber­tos a mudan­ças; segundo, por­que as famí­lias dos alu­nos apóiam e defen­dem a escola ide­a­li­zada por Pacheco.” (grifo meu)

CONSIDERAÇÕES

Nesse texto falei das minhas visões acerca de algu­mas carac­te­rís­ti­cas do ensino médio atual e sobre como ele fun­ci­ona nas “con­di­ções nor­mais de tem­pe­ra­tura e pres­são”, isto é, como o modelo fun­ci­ona na forma que ele foi ide­a­li­zado, sem con­si­de­rar pro­ble­mas exter­nos a ele, com base em minhas expe­ri­ên­cias pes­so­ais, rela­tos de cole­gas e lei­tu­ras de outros tex­tos.

O ves­ti­bu­lar, inclu­sive, é um pro­blema em si mesmo, que está inse­rido num pro­blema muito maior, que envolve a quan­ti­dade de recur­sos dis­po­ní­veis reser­va­dos para a edu­ca­ção no país.

Exis­tem mui­tos outros pro­ble­mas sobre os quais eu não falei (como por exem­plo, aque­les enfren­ta­dos em mui­tas esco­las públi­cas), mas pre­tendo abordá-los em outro texto, caso seja pos­sí­vel.

Tenho cons­ci­ên­cia de que a fase esco­lar já foi muito pior para gera­ções mais anti­gas de estu­dan­tes (agora adul­tos) do que ela é para as de hoje, por diver­sos moti­vos, sendo que os mais recor­ren­tes eram as for­mas de puni­ção. A ques­tão é jus­ta­mente ques­ti­o­nar o sen­tido de tudo o que foi feito e de tudo o que ainda é feito, desen­vol­ver uma pos­tura crí­tica e bus­car obser­var com cla­reza os resul­ta­dos prá­ti­cos desse sis­tema.

De forma mais ampla, acre­dito que um sis­tema falho pode impac­tar inclu­sive a vida uma pes­soa que não esteja mais estu­dando. Claro, ele pode afe­tar dire­ta­mente seus filhos, seus sobri­nhos, os filhos dos seus ami­gos em idade esco­lar. Mas, além disso, exis­tem outros pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos com uma edu­ca­ção insu­fi­ci­ente e de má qua­li­dade que podem aca­bar se vol­tando con­tra toda a soci­e­dade.

Sinto que, com esse sis­tema, esta­mos des­per­di­çando poten­cial e per­dendo tempo. As esco­las têm poten­cial para ser muito mais do que uma ocu­pa­ção para aque­les que ainda não têm idade sufi­ci­ente para o tra­ba­lho for­mal.

Não pode­mos dei­xar que a escala passe por cima da gente.

Para ler mais sobre essas ques­tões, reco­mendo a lei­tura do livro “Um mundo, uma escola: A edu­ca­ção rein­ven­tada” de Sal­man Khan, fun­da­dor da Khan Aca­demy, um dos mai­o­res sites edu­ca­ci­o­nais do mundo. Tem um bom artigo resu­mindo alguns dos pon­tos do livro (em inglês) aqui.


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Luís Miguel
Tenho interesse em assuntos como design, educação, inclusão e tecnologia. Quando posso, leio, escrevo e desenho um pouco.

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