A atividade escolar é a porção mais significativa da vida dos jovens e consome a maior parte de seu dia. Quando estão na escola, eles têm que ficar sentados por horas, passam por aulas cansativas e mudanças bruscas de assuntos, até que, no fim do período, seu rendimento e capacidade de concentração são insignificantes. Todo o desempenho escolar de um estudante é resumido a números. Há um abismo gigantesco entre o modo como o conteúdo é ensinado e como ele é aplicado no mundo real.

Mesmo assim, é nesse sistema que estamos apostando.

Depois de ter passado pelo sistema de educação tradicional até o ensino médio, registro, aqui, minhas observações a seu respeito, com relação ao conteúdo ensinado, método empregado e avaliações de desempenho, destacando algumas das consequências desse modelo.

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE

Afirma-se, com certa frequência, que a maior diferença entre o ser humano e outros animais é que o primeiro tem capacidade de raciocínio privilegiada. Acredito não ser exagero afirmar que a educação é um dos poucos assuntos com aspectos políticos cuja importância é reconhecida por todos. Vemos nela uma oportunidade para promover o desenvolvimento humano individual e, consequentemente, para o crescimento do país.

Além disso, vivemos na “era da informação”. Nunca produzimos e armazenamos tantos dados, os quais podem ser facilmente acessados por qualquer pessoa através de um dispositivo conectado à internet. Valorizamos os avanços tecnológicos e os benefícios que a ciência traz para nossas vidas.

Uma sociedade como a nossa (que dá tanto valor à informação) deveria ter um ótimo sistema educacional, especialmente nos níveis mais básicos, dirigido às crianças e adolescentes — surpreendentemente, não tem; mas muitos estudos e pesquisas científicas indicam que a educação institucionalizada é falha por estar presa a tradições e lógicas que talvez nunca tenham dado certo.

As discussões políticas sobre o assunto, quando acontecem, tendem a ser pouco profundas e geralmente não se transformam em medidas práticas. Para um político, é vantajoso e certeiro defender a educação — trata-se de uma questão relevante, que nunca foi solucionada por completo e envolve a vida de muitas pessoas — mas quais são as propostas? Elas costumam ter como base o aumento de investimentos e criação de novas escolas. Acontece que não importa o quanto se investe num sistema que não funciona — ele não vai gerar bons resultados. O ideal seria que os professores fossem consultados ao serem tomadas certas decisões — mas, de qualquer forma, a falta de diálogo político com os profissionais não é um problema exclusivo do setor educacional.

Além disso, somos uma democracia recente; ainda temos muito que aperfeiçoar nas nossas instituições. Tenho certeza de que existem pessoas competentes interessadas na melhoria da educação nas esferas governamentais. Só que, muitas vezes, nos debates políticos, pequenos detalhes são discutidos, tais como o número de alunos por sala e número de matérias por dia, sem haver espaço questionar qual é o objetivo da educação em si, qual deveria ser a função da escola na atualidade e como as aulas deveriam ser.

O ensino nem sempre foi do jeito que é hoje. Muitas gerações foram submetidas a esse sistema, a ponto de termos a impressão de que essa é a maneira natural e inevitável de se ensinar. A separação de crianças por idade, o tempo de cada aula, os tipos de matéria que são ensinados e até mesmo a separação do conteúdo em matérias são meras convenções desenvolvidas ao longo da história. Portanto, não existem razões naturais impedindo que tudo isso seja feito de outra maneira. Algumas pesquisas científicas inclusive indicam que há maneiras muito melhores de elaborar uma escola, de acordo com a maneira que os seres humanos aprendem. Esta matéria de Pedro Burgos para a Superinteressante, por exemplo, fala sobre as novas formas de se pensar a educação.

educação

O modelo “atual”, inspirado no antigo modelo prussiano, feito de lousa e giz, aulas expositivas (o professor fala e os estudantes ouvem e anotam), matérias fixas e horários pré-estabelecidos, sofreu poucas modificações desde que foi criado há praticamente dois séculos — e funciona apenas para uma pequena fração das pessoas que conseguem acompanhar seu ritmo, tolerar suas incoerências e aguentar sua intensidade.

Apesar de ter sido esse modelo o responsável por universalizar a educação e aumentar imensamente a taxa de alfabetização nos países que o adotaram, uma consulta rápida mostra que o Brasil tem o nível de alfabetização de 91,3%, o que leva ao questionamento do real significado por trás desse número. Não precisamos apenas de educação — ela precisa ser de qualidade também.

Entre os problemas do modelo que adotamos está o fato de ele não reconhecer que as pessoas são diferentes e, portanto, têm interesses, afinidades, ritmos e métodos de estudo diferentes, além de horários específicos para sua melhor produtividade. Há também a quantidade excessiva de fórmulas e conceitos ensinados que são esquecidos gradativamente, por não serem utilizados fora da escola (algumas informações, contudo, podem até permanecer no cérebro e darem uma falsa impressão de conhecimento duradouro).

educação

Há uma automatização e padronização do processo educacional, que coloca as provas acima de tudo e forma indivíduos com conhecimentos rasos e desconectados sobre assuntos muito diferentes. O ensino adequa-se à prova, e não o contrário. Ensina-se apenas aquilo que é teórico, que pode ser perguntado numa questão múltipla escolha e, depois, mensurado. Consequentemente, o modo como esse modelo vem sendo usado também ignora a vida dos estudantes fora da escola. Ele também não é muito bom em formar pessoas críticas, autônomas e criativas.

O conteúdo ensinado é constituído apenas do suficiente para formar, por exemplo, um operário funcional, que consiga reproduzir trabalhos pré-estabelecidos e obedecer a ordens, sem refletir acerca do que está fazendo (acho que não esperamos isso dos cidadãos de nosso tempo). O estudante é moldado para aceitar e concordar, mas não para questionar e descobrir. Devido a todas essas características, tal sistema foi convenientemente utilizado por governos autoritários para disseminar ideologias e criar soldados disciplinados para lutar em guerras.

PROBLEMAS COMPLEXOS

Os primeiros agrupamentos humanos eram pouco complexos e havia um equilíbrio entre pessoas e tarefas a serem realizadas, porém, com o passar do tempo, as sociedades foram ficando cada vez mais hierarquizadas e segmentadas (complexas), para que conseguissem realizar determinadas tarefas.

Digo isso, com base nesta matéria, da qual eu recomendo a leitura na íntegra, escrita por Denis Burgierman, também para a Superinteressante, cujo título é “O mundo está muito complexo”. Ela fala sobre os problemas de nossa sociedade, vistos sob a ótica do estudo de sistemas complexos, com base nos estudos de Yaneer Bar-Yam, especialista em sistemas complexos.

A questão é que, no século XX, com a invenção da linha de montagem, aproximadamente, no ano de 1913, criada para atender à necessidade de produção de carros em grande quantidade e adotada com sucesso por Henry Ford, veio a lógica da padronização e separação de trabalhos em etapas específicas, à qual estamos presos até hoje. A própria ação do trabalhador passou a ser repetitiva e não exigia dele o pensamento.

educação the wall

Assim, principalmente por causa das revoluções industriais, nós nos tornamos muito bons em trabalhar com as coisas em larga escala, mas não com as coisas específicas (a complexidade). Só que Yaneer afirma que, para um sistema complexo funcionar, é preciso dar conta tanto da escala quanto da complexidade.

“O único jeito de lidar com sistemas complexos é criando estruturas de controle complexas: redes de gente com autonomia de identificar e resolver problemas.”
-Yaneer Bar-Yam

Um sistema educacional focado na escala é capaz, por exemplo, de colocar todas as crianças e adolescentes enfileirados em salas de aula, apresentar aulas padronizadas e aplicar provas idênticas, realizar vestibulares e exames nacionais como o ENEM com precisão militar (o ENEM é segundo maior exame do mundo para ingresso no ensino superior, atrás apenas do exame da China), mas não de identificar as habilidades e dificuldades de cada estudante, reconhecer pessoas talentosas em áreas específicas ou aplicar avaliações mais direcionadas.

Atualmente, passamos por um momento histórico no qual tudo é personalizado, rápido e “just-in-time” (algo “apenas no momento” ou “apenas na hora exata”. O objetivo é otimizar todos os processos ao máximo, retirando o que é supérfluo e produzindo apenas o que é necessário, quando existir a demanda), a educação, continua sendo “just-in-case” (algo como “no caso de” ou “por via das dúvidas” — ineficiente e criadora de excessos).

Obviamente, não é porque a maior habilidade de uma pessoa não é menos importante por não estar na lista clássica de matérias. Só que, com esse modelo, deixamos para trás pessoas que poderiam ser absolutamente brilhantes e poderiam contribuir muito para a sociedade em suas áreas, não necessariamente acadêmicas. Afinal, o contrato social no qual estamos inseridos é vantajoso para nós justamente porque cada um pode colaborar com o seu ponto forte.

Um vídeo bem esclarecedor sobre as consequências desse sistema é essa famosa palestra no TED de Ken Robinson, na qual ele explica por que “escolas matam a criatividade”:

MUDANÇAS

Como Tim Monreal explica neste artigo (em inglês), as propostas políticas de “reforma” (e não reconstrução completa) do sistema educacional não significam nada e servem apenas para camuflar os problemas próprios do modelo atual:

“As pessoas apontam para diversas áreas de insatisfação, mas eu ouço frequentemente as seguintes preocupações: desigualdade, apoio ao professor, retenção do professor, acesso, a disparidade de conquistas, motivação e engajamento, recursos, padrões, e currículo. (…) Parece que todo mundo tem uma ideia para reformular ou reformar o sistema atual de educação. Não é esse o problema. Nós precisamos questionar quase todas as partes de nosso sistema atual, não mirar em reformular suas partes díspares e disfuncionais. Soluções e sugestões para reformas educacionais simplesmente refinam os paradigmas atuais de educação. A reforma, geralmente introduzida por pessoas que nunca pisaram numa sala de aula, pega as partes atuais de educação, mescla-as, oferecendo melhorias insignificantes, e então cospe de volta uma forma minimamente mais atraente da original. Não há mudança verdadeira, apenas um ajuste adicional à forma atual da escola. A base do sistema educacional permanece igual, mesmo quando novos programas são implementados ou testados. A reforma educacional coloca uma boa e polida camada de tinta para cobrir os amassados da parede. O que nós precisamos é de uma parede totalmente nova.” (grifo meu | tradução livre)

Com isso, nota-se que o problema da educação não é exclusivo do Brasil. O trecho acima, por exemplo, refere-se à educação nos Estados Unidos. Apesar de termos alguns problemas específicos e graves em nosso país, acredito que, em geral, a situação é a mesma boa parte do mundo ocidental, já que, apesar de cada país seguir um sistema educacional diferente, as bases são as mesmas.

O MODELO BASEADO EM AVALIAÇÕES

Se o objetivo desse sistema fosse o aprendizado, não deveria haver prazos extremamente restritos para a assimilação do conteúdo. No final, ele só beneficia aqueles que conseguem aprender (ou memorizar) determinado conteúdo dentro de um período limitado de tempo. E esse ciclo acaba por se agravar ainda mais para aqueles que não conseguem: se a pessoa tivesse mais tempo para estudar aquele assunto de forma completa, potencialmente conseguiria entender os assuntos posteriores com muito mais facilidade.

Nesse modelo, a educação fica com “buracos”, partes não preenchidas, dúvidas não respondidas — conhecimentos desconectados. Além de aulas, que muitas vezes ocupam o período da manhã e da tarde, cobra-se lições de casa, trabalhos extras e estudos para provas e simulados, para serem feitos fora do horário escolar.

CONSEQUÊNCIAS DOS EXCESSOS

Justin Cox fala, entre outras coisas, sobre as consequências emocionais de uma educação opressiva neste artigo (em inglês):

“Com tantas provas, não é de se surpreender que o foco da sala de aula mudou de ensinar criativamente para preparar para provas futuras. (…) Existem professores maravilhosos por aí que têm a habilidade de abrir a mente dos estudantes e introduzir-lhes conceitos de maneiras criativas. O problema é que esses professores maravilhosos estão presos em um sistema falido — um sistema que os força a preparar para provas e então os culpa pelos resultados que seus estudantes recebem. Provas também não são o inimigo. Elas não são perfeitas, mas são a ferramenta mais fácil disponível para avaliar se um estudante sabe a matéria ou não. Mas quando o foco da sala de aula está em testar e não no conhecimento e experiência, outra coisa acontece: nós criamos uma geração de crianças que são ansiosas e estressadas além do limite.

(tradução livre)

Por essas razões, muitos estudantes estão tomando remédios para o aumento da concentração ou contra a ansiedade e insônia, para lidar com essa rotina escolar.

PROVAS

Tanto no ensino fundamental quanto no médio um estudante será avaliado através de provas.

O sistema permite que ele obtenha notas relativamente ruins durante o ano todo, mas se estudar para apenas uma prova — a de recuperação — e conseguir ficar na média, será aprovado.

Principalmente no ensino médio, manter a nota acima da média em todas as matérias e durante o ano todo, é uma tarefa (no mínimo) complicada para a maioria dos estudantes e a recuperação torna-se a única solução.

Se numa escola com notas de 0 a 10, a média para aprovação for 7, por exemplo, pouco importa se um estudante tira 10 ou 7 durante o ano. Para o sistema, é a mesma coisa: aprovado.

Está tudo bem se ele não aprender (supostamente) 30 por cento da matéria a cada bimestre. Ele será passado para a frente. Como uma pessoa pode ser aprovada sem ter conseguido aprender tudo o que deveria?

Acontece que esse estudante não teria deixado, hipoteticamente, de aprender apenas 30 por cento. Na verdade, pode ser que ele domine uma porcentagem bem menor do conteúdo. Acertar 7 de 10 questões de uma prova dissertativa ou de múltipla escolha significa que o estudante sabe a resposta daquelas 7 questões em particular.

charge

Talvez se as perguntas fossem outras, ele acertasse uma quantidade muito menor ou muito maior. É possível, também, acertar questões na prova por “sorte”, por intuição ou por chute. Ele pode ter decorado tudo no dia anterior e talvez daqui a um ano não se lembre de mais nada; aquilo que não for utilizado novamente será esquecido.

A ocupação da mente com novas matérias fará com que a pessoa se esqueça da maior parte daquilo que estudou anteriormente, porque é simplesmente muita informação para dar conta. É como se estivéssemos incentivando o aprendizado de conhecimento “descartável”. O sistema em si não se importa com conhecimento ou esforço, e sim, com notas.

Pode ser que esse estudante tenha tirado 7 porque não conseguiu, num bimestre, aprender mais de dez matérias diferentes (e não porque ele simplesmente deixou de estudar). Se mesmo estudando intensamente, o resultado numérico que ele receber não for favorável, há chances de que ele acabe ficando desmotivado, passe a acreditar que nunca conseguirá entender determinada matéria, que não tem capacidade cognitiva para aprendê-la, etc. E isso é um absurdo.

A maioria das pessoas tem plenas condições de compreender os conteúdos do ensino médio, precisando de mais ou menos tempo para isso e mais ou menos ajuda para isso — mas têm. A questão é que talvez esses conteúdos nem mesmo devessem ser cobrados desse estudante ou então a maneira como são ensinados e cobrados dele pode não ser a mais adequada também.

De qualquer forma, os estudantes eventualmente são aprovados, afinal vem mais gente por aí e não há tempo a perder…

As provas deveriam servir de diagnóstico, mas elas são aplicadas, constata-se o quanto o estudante entendeu da matéria e, muitas vezes, mesmo se ele não entendeu tudo, não se faz nada a respeito, principalmente se ele não ficou abaixo da média. Não há nenhum “controle de qualidade” nesse processo. Então, o estudante segue em frente com a próxima matéria, mesmo sem ter compreendido a anterior. É como construir um prédio sem preparar seus alicerces.

Apesar disso, algumas escolas tentam contornar esse problema fazendo a correção da prova ou oferecendo horários para tirar dúvidas com professores ou monitores. Contudo, a matéria em si não é ensinada novamente.

notas e aprendizado - Neil Tyson
“Quando estudantes colam nas provas é porque nosso sistema educacional valoriza notas mais do que estudantes valorizam aprendizado.” – Neil DeGrasse Tyson, via Twitter.

MATÉRIAS

Quando argumento que vários dos conteúdos ensinados no ensino médio são supérfluos, exemplificando com algum conteúdo de uma matéria, costumo receber uma resposta como:

“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre [insira assunto aqui]”.

A meu ver, porém, a escolha de um conteúdo em lugar de outro é, muitas vezes, arbitrária, porque essa resposta funciona para praticamente qualquer área do conhecimento.

Funciona para assuntos que são abordados no ensino médio:

“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre botânica”.
“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre termodinâmica”.

Para assuntos que não são abordados no ensino médio:

“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre criação de sites”.
“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre latim”.

para assuntos que não são abordados no ensino médio, mas são muito importantes:

“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre alimentação e cozinha”.
“Ah, mas é importante ter uma noção básica sobre primeiros-socorros”.

Eu realmente espero que haja um critério para a decisão de certos temas em detrimento de outros, mas se há, ele é muito amplo e pouco conectado com as exigências do mundo real. Em se tratando de ensino médio, nunca é uma noção básica. Aprende-se o básico no ensino fundamental (e logo em seguida, acaba-se esquecendo de muitas informações). O ensino médio poderia reforçar o que já foi ensinado, aprofundar um pouco, mas vai muito além.

Claro que muitas das novidades que aprendemos no ensino médio são importantes (por exemplo, como fazer para se prevenir de certas doenças), mas muitas outras são escolhidas apenas para compor uma grade curricular “completa”. Elas são aprofundadas demais para quem não quer seguir uma certa área do conhecimento, mas rasas demais para quem realmente tem interesse por ela. É aprender por aprender.

Estou falando de informações e fatos que não têm nenhuma serventia, nem se conectam com outras áreas que a pessoa pode seguir. O que fica é apenas uma satisfação intelectual para quem consegue se lembrar deles.

É importante destacar que uma pessoa pode buscar informações por conta própria sobre um assunto mesmo que ele não seja lecionado no ensino médio.

Então, argumenta-se: “mas e se você precisar daquilo em algum momento?”. Realmente, é impossível saber se, em determinado dia da minha vida, precisaria de uma informação que é ensinada na escola — ou de qualquer outra que não é. É impossível estar preparado para qualquer assunto existente.

educação materias

Como mencionei, as pessoas podem fazer pesquisas, caso houver necessidade. Além disso, se alguém precisar de conhecimentos do ensino médio no futuro para sua carreira profissional, estudo acadêmico, ou qualquer outra razão, terá que estudá-los de novo, porque possivelmente não se lembrará de tudo, ou então precisará de uma leitura mais detalhada sobre o assunto.

Também não usamos essa justificativa para outras situações cotidianas. Dando um exemplo bem tosco, se você perguntar a alguém “Será que eu levo tinta acrílica para o mercado?”, provavelmente não receberá uma resposta séria do tipo “Leva, quem sabe você acaba precisando?!”, pois se trata de algo que ninguém espera ter de usar num supermercado.

Outro argumento poderia ser que a questão não é reter todo o conteúdo, mas sim, saber que ele existe. Ainda assim, isso ainda soa muito questionável e aleatório, porque muitos assuntos igualmente complicados das matérias tradicionais são deixados de fora.

A forma que o conteúdo, alheio à área pretendida, é cobrado também poderia ser diferente. Poderia simplesmente não valer nota ou não cair no vestibular daquele estudante, por exemplo. Entretanto, no nosso modelo de vestibular atual, para terem bons resultados, as pessoas realmente precisam se lembrar de tudo, detalhadamente.


FÓRMULAS

As matérias são ensinadas através de algoritmos: fórmulas instantâneas e muito práticas, mas igualmente inefetivas. Ainda que seja e fácil e rápido apresentá-las aos estudantes, enfatizo: eles precisarão revê-las depois de um tempo, pois a mente dará conta de descartá-las. Elas fornecem, prontamente, a resposta para um problema, mesmo que o mecanismo de seu funcionamento permaneça oculto. Seria possível compreender qualquer assunto de um mesmo tópico se a lógica/o raciocínio por trás dele fosse ensinado, no lugar da simples apresentação da fórmula.

Da mesma maneira que não se espera de uma escola doutrinar ninguém, e sim ensinar o estudante a pensar criticamente e argumentar coerentemente, com relação ao campo das ciências humanas, não deveríamos esperar que fossem ensinadas as fórmulas sem mostrar o pensamento por trás delas, nas ciências exatas. O estudante deveria saber chegar sozinho à fórmula, ou pelo menos entender o que está fazendo ao aplicá-la.

Se o tópico é tão difícil a ponto de não ser possível explicá-lo sem recorrer a uma fórmula, e nem mesmo a fórmula pode ser explicada, não acho que ele deveria ser abordado no ensino médio. Mesmo assim, acredito que a maioria dos assuntos matemáticos, tradicionalmente ensinados nessa etapa, pode ser ensinada em sua totalidade e complexidade, ainda que demore mais tempo ou dê mais trabalho, no objetivo de resultar num conhecimento duradouro.

A TECNOLOGIA VAI MUDAR TUDO?

A tecnologia já ajuda em alguns pontos: é possível ver de perto quais são as dificuldades dos estudantes usando os sites e aplicativos que analisam o desempenho deles e geram dados/relatórios, que mais tarde são enviados para os professores, permitindo um acompanhamento específico e individual e a personalização de roteiros de estudo. Entretanto, além da questão prática de que as novas tecnologias não serem acessíveis a todos, elas não constituem uma solução para todos os problemas (inclusive porque “tecnologia” é um termo bem amplo). Este vídeo do canal Veritasium demonstra o porquê disso:

Implementar aparelhos modernos nas escolas e usá-los de forma inadequada ou descontextualizada não ajuda. Por isso, a tecnologia sozinha não consegue revolucionar a educação. Ainda assim, ela pode ser usada como ferramenta para explicar um mesmo assunto de diferentes maneiras. O ensino de qualidade tem foco no conteúdo e assim consegue ser, de fato, didático — os sites educacionais e vídeo-aulas, por exemplo, muitas vezes, tornam-se a salvação dos estudantes para a realização trabalhos escolares e provas.

CONTRA A PASSIVIDADE, ACEITAÇÃO E CÓPIA.

“Educação é sobre aprendizado. Se o aprendizado não está acontecendo, a educação não está acontecendo.”

Ken Robinson (How To Escape Education’s Death Valley — TED)

Estar dentro da escola não significa estar aprendendo.

O ideal seria que o sistema formasse estudantes ativos e autônomos, ou seja, pessoas responsáveis que vão atrás de respostas por vontade própria, sabem fazer pesquisas, selecionam informações relevantes, reconhecem fontes confiáveis, trabalham em grupo e resolvem problemas de forma criativa.

Nada disso inviabiliza o trabalho do professor — ele apenas deixaria de ser o único detentor do conhecimento na sala. No lugar disso, passaria a ser um guia no processo de aprendizado e tiraria as dúvidas que surgissem. Ele não precisaria usar sua aula para explicar o que já está escrito no material didático. Na verdade, ele poderia compartilhar justamente os aspectos daquele assunto que não estivessem nos livros escolares e usar mais de seu tempo para ajudar aqueles estudantes que realmente precisam de ajuda.

Além disso, o modelo atual coloca os professores numa péssima situação: eles dão aula percebendo que a turma está exausta e entediada, muitas vezes tendo a impressão de que seus esforços não estão valendo à pena, já que não têm como saber se naquele momento os estudantes estão aprendendo ou não, e perdem muita energia e tempo de aula tentando engajar os estudantes.

Frequentemente são ignorados, seja por cansaço ou desinteresse do estudante, além de haver momentos em que o espaço de fala deles não é respeitado e eles simplesmente não conseguem dar aula.

Nada disso aconteceria se todos os estudantes tivessem de ir atrás da informação, estivessem motivados ou identificassem na escola um ambiente convidativo de aprendizado. Para muitos deles, a sensação é a de que comparecer à escola é o cumprimento de uma obrigação sem sentido, de algo essencialmente maçante que lhes foi imposto pela sociedade.

Espera-se que os professores consigam “salvar o mundo” nessas condições.

CONTEÚDO

“Não há regras simples para lidar com o que é complexo.”
-Yaneer Bar-Yam

Pessoalmente, não acredito em respostas fáceis ou soluções milagrosas. Como mostra a citação de Yaneer, não existem soluções simples para problemas complexos. Todos os modelos têm prós e contras.

Além disso, mudanças geram custos e exigem que abramos mão de algumas coisas, mas precisamos ponderar o que realmente é necessário. Existem boas intenções por trás de muitos aspectos desse sistema, que simplesmente não funcionam na prática. Seria ótimo poder formar cidadãos que têm domínio sobre diversas áreas do conhecimento humano — mas isso não está acontecendo com a estratégia que estamos usando.

Eu compreendo que deve ser uma missão realmente difícil escolher as matérias, os assuntos e a profundidade daquilo que será cobrado dos estudantes de todo um país. Por isso, as matérias poderiam ser escolhidas pelos estudantes de acordo com a área na qual têm mais habilidade.

Não sou contra o ensino de temas que não têm uma utilidade “prática” (até mesmo porque, em alguns casos, isso é subjetivo), de conceitos abstratos ou de reflexões filosóficas, pelo contrário — há escassez de aulas de filosofia, sociologia ou história da arte em muitas escolas, e essas aulas desenvolvem o intelecto e o pensamento crítico dos estudantes e os fazem entrar em contato com a produção cultural de nossa sociedade.

O que estou questionando é a validade da memorização de informações essencialmente desnecessárias, extremamente específicas e técnicas, as quais podem ser consultadas inclusive por profissionais, e ocupam espaço no cérebro, sem acrescentar em nada a uma determinada pessoa, por não serem aproveitadas por ela nem mesmo na faculdade. É possível decorar matérias como decoramos as letras de uma música sem que entendamos o que elas realmente estão dizendo.

educação calvin

Se quase toda a informação do mundo está disponível para as pessoas de forma gratuita nas bibliotecas e na internet, a inteligência está em saber o que devemos guardar na cabeça e o que podemos deixar impresso ou anotado. O cérebro deve ser a ferramenta pela qual fazemos as conexões e não um depósito de arquivos que fica constantemente sobrecarregado.

O conhecimento é separado em matérias como se a mente humana tivesse caixinhas onde se depositam informações que nunca sairão de lá. Ainda que as matérias sejam formas práticas de organizar conhecimento — e o ser humano venha organizando, categorizando e classificando conhecimento há séculos — é muito mais vantajoso, em diversas ocasiões, utilizar a interdisciplinaridade. O ENEM, por exemplo, já inclui questões que abrangem mais de uma área do conhecimento.

Também não estou afirmando que as aulas tradicionais devam ser banidas a todo custo e que isso resolverá o problema — eu já tive ótimas aulas expositivas. Acontece que elas não funcionam para todos os assuntos, nem para todas as pessoas, e muitas vezes não acontecem em horários adequados para o aprendizado, nem em ambientes amistosos. Não sou contra o fato de os estudantes ganharem agilidade e saberem administrar tarefas e gerenciar o tempo — mas reconheço que existem formas muito mais saudáveis para fazer isso do que os sobrecarregando de trabalhos cujos prazos que não podem ser devidamente cumpridos.

Com relação às avaliações tradicionais: ideal seria diminuir a frequência com que são aplicadas. Elas não verificam se as pessoas de fato entenderam, nem reconhecem esforço. Existem alternativas para um estudante provar que entendeu a matéria (que incluem desenvolver projetos, apresentar um trabalho, ou simplesmente falar o que você sabe para o professor).

Defendo maior liberdade (inclusive na escolha das matérias), preocupação com o bem-estar e saúde mental dos estudantes, uma visão mais “humana” da educação e uso das pesquisas científicas para elaborar os nossos modelos educacionais. Uma educação personalizada permite que o estudante se dedique ao que ele precisa de verdade.

“Todos nós aprendemos diferentemente. Que tal se nós honrássemos nossas diferenças dando aos professores e estudantes as ferramentas específicas que eles precisam para ter sucesso?

O aprendizado personalizado nos permite fazer exatamente isso. Pense nos personal trainers numa academia — eles desenvolvem programas direcionados para necessidades, objetivos e graus de habilidade únicos de cada cliente.

Os mesmos conceitos estão sendo aplicados na educação.”

(tradução livre | grifo meu)
Allan Golston — Lessons from 15 Years: Working to Improve American Education

Pode parecer mais difícil fazer tudo dessa maneira (o que não é necessariamente verdade, como mostram as exceções de escolas que não seguem modelo tradicional). Liberar mais tempo para os estudantes estudarem do jeito deles — sozinhos, em grupo, com vídeo-aulas, livros, apostilas, monitores escolares, enfim, com o que for necessário, por exemplo, já os ajudaria muito.

Além disso, com mais variedades de modelos educacionais, eles poderiam escolher aquele cujas características eles mais se identificam. Não sei se os “métodos alternativos” seriam adequados para fazer um estudante passar numa prova de vestibular, consequentemente, o vestibular também teria de ser repensado.

Contudo, pode ser que esses métodos sejam ainda mais adequados que as práticas tradicionais justamente porque o objetivo deles é fomentar conhecimento duradouro e verdadeiro. Eles buscam a eficiência do ensino e a eficácia do aprendizado, e não o esgotamento mental gratuito dos estudantes.

ALTERNATIVAS

Existem inúmeras alternativas para o modelo tradicional, mas eu vou colocar aqui uma das experiências mais notáveis, que motivou a criação e modificação de muitas outras escolas, inclusive no Brasil – a Escola da Ponte. Nesta entrevista para a Revista Escola, José Pacheco, o fundador dessa escola, que fica em Portugal, fala sobre os princípios que a regem. A introdução da entrevista descreve o funcionamento da mesma:

“A Ponte não segue um sistema baseado em seriação ou ciclos e seus professores não são responsáveis por uma disciplina ou por uma turma específicas. As crianças e os adolescentes que lá estudam — muitos deles violentos, transferidos de outras instituições — definem quais são suas áreas de interesse e desenvolvem projetos de pesquisa, tanto em grupo como individuais. A cada ano, as crianças e os jovens criam as regras de convivência que serão seguidas inclusive por educadores e familiares. É fácil prever que problemas de adaptação acontecem. Há professores que vão embora e alunos que estranham tanta liberdade. Nada, no entanto, que faça a equipe desanimar. O sistema tem se mostrado viável por pelo menos dois motivos: primeiro, porque os educadores estão abertos a mudanças; segundo, porque as famílias dos alunos apóiam e defendem a escola idealizada por Pacheco.” (grifo meu)

CONSIDERAÇÕES

Nesse texto falei das minhas visões acerca de algumas características do ensino médio atual e sobre como ele funciona nas “condições normais de temperatura e pressão”, isto é, como o modelo funciona na forma que ele foi idealizado, sem considerar problemas externos a ele, com base em minhas experiências pessoais, relatos de colegas e leituras de outros textos.

O vestibular, inclusive, é um problema em si mesmo, que está inserido num problema muito maior, que envolve a quantidade de recursos disponíveis reservados para a educação no país.

Existem muitos outros problemas sobre os quais eu não falei (como por exemplo, aqueles enfrentados em muitas escolas públicas), mas pretendo abordá-los em outro texto, caso seja possível.

Tenho consciência de que a fase escolar já foi muito pior para gerações mais antigas de estudantes (agora adultos) do que ela é para as de hoje, por diversos motivos, sendo que os mais recorrentes eram as formas de punição. A questão é justamente questionar o sentido de tudo o que foi feito e de tudo o que ainda é feito, desenvolver uma postura crítica e buscar observar com clareza os resultados práticos desse sistema.

De forma mais ampla, acredito que um sistema falho pode impactar inclusive a vida uma pessoa que não esteja mais estudando. Claro, ele pode afetar diretamente seus filhos, seus sobrinhos, os filhos dos seus amigos em idade escolar. Mas, além disso, existem outros problemas relacionados com uma educação insuficiente e de má qualidade que podem acabar se voltando contra toda a sociedade.

Sinto que, com esse sistema, estamos desperdiçando potencial e perdendo tempo. As escolas têm potencial para ser muito mais do que uma ocupação para aqueles que ainda não têm idade suficiente para o trabalho formal.

Não podemos deixar que a escala passe por cima da gente.

Para ler mais sobre essas questões, recomendo a leitura do livro “Um mundo, uma escola: A educação reinventada” de Salman Khan, fundador da Khan Academy, um dos maiores sites educacionais do mundo. Tem um bom artigo resumindo alguns dos pontos do livro (em inglês) aqui.


Você pode querer ler também:

O que pensava Aristóteles sobre a educação?
5 coisas que deveríamos aprender na escola

escrito por:

Luís Miguel

Tenho interesse em assuntos como design, educação, inclusão e tecnologia. Quando posso, leio, escrevo e desenho um pouco.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.