O Rei Moribundo e o Narciso Enfermo

O Rei Moribundo e o Narciso Enfermo

Em Consciência por Victor LisboaComentário

Dayadh­vam: Ouvi a chave girar na porta uma vez e ape­nas uma vez
Na chave pen­sa­mos, cada qual em sua pri­são
E quando nela pen­sa­mos, pri­si­o­nei­ros nos sabe­mos…”
(tre­cho de Terra Deso­lada — T. S. Eliot, tra­du­ção de Ivan Jun­queira)


A Balada do Rei Moribundo

 

Conta uma das len­das dos Cava­lei­ros da Távola Redonda (a ver­são é de Wol­fram von Eschen­bach) que Sir Per­ci­val, certa vez, entrou no cas­telo do Rei Amfor­tas, o “Rei Pes­ca­dor”, e esse lhe mos­trou uma ferida hor­renda em sua perna. Todos os súdi­tos e o pró­prio Rei Amfor­tas espe­ra­vam que Per­ci­val per­gun­tasse a ori­gem daquela ferida, pois tal per­gunta sal­va­ria o reino de uma espé­cie de mal­di­ção a qual estava con­de­nado.

Mas Sir Per­ci­val per­ma­ne­ceu em silên­cio, já que se lem­brou de que sua mãe havia o acon­se­lhado a jamais fazer per­gun­tas cons­tran­ge­do­ras, pois era sinal de des­cor­te­sia.

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Fazer uma per­gunta é um ato de cons­ci­ên­cia. Na lenda de Amfor­tas, esse ato era fun­da­men­tal para sal­var o reino. Aquilo que é nome­ado se coloca diante de nos­sos olhos e pode ser com­pre­en­dido. Fazer uma per­gunta cons­tran­ge­dora é enca­rar a ori­gem de um tabu, é pra­ti­car uma deso­be­di­ên­cia neces­sá­ria.

Necessária sim, pois aquilo que enfrentamos deixa de nos manipular cegamente.

 

A mãe de Per­ci­val, ao reco­men­dar a seu filho que não fizesse per­gun­tas, repre­senta a igno­rân­cia volun­tá­ria que pre­fere des­co­nhe­cer a ferida fun­da­men­tal do ser humano (alguns cha­mam de “ferida nar­cí­sica”) para, dessa forma, man­ter o véu da incons­ci­ên­cia que impede o indi­ví­duo de evo­luir. Deso­be­de­cer a ordem materna é que­brar um tabu, e repre­senta o rom­pi­mento com um está­gio pri­mor­dial onde a ino­cên­cia ape­nas se man­tém gra­ças ao pesado tri­buto da eterna estag­na­ção.

O mito do rei mori­bundo é recor­rente na tra­di­ção medi­e­val. Sua ori­gem remonta aos ritos cel­tas. O rei enve­lhe­cido no sols­tí­cio de inverno deve mor­rer e ser subs­ti­tuído por seu suces­sor, que trará a reno­va­ção da pri­ma­vera e a época da colheita. Isso tam­bém está repre­sen­tado na fase do pro­cesso alquí­mico deno­mi­nada “mor­ti­fi­ca­tio”, na qual o rei deve ser morto para renas­cer revi­go­rado. A ferida repre­senta a impo­tên­cia do velho rei, sua inca­pa­ci­dade de fer­ti­li­zar a terra. É o esgo­ta­mento do poder cri­a­tivo tão neces­sá­rio à vida e que deve ser res­ga­tado atra­vés do casa­mento do novo rei com a filha do velho sobe­rano. Os ciclos da vida e da morte são ple­na­mente rea­li­za­dos. Mas para renas­cer, é pre­ciso saber mor­rer.

É preciso saber morrer sim, pois apenas compreendendo a
realidade da morte é que nos tornamos capazes de viver plenamente.

 

Esse mesmo mito tam­bém está pre­sente na lenda do Rei Artur, mas com a per­tu­ba­dora dife­rença de que o velho rei e seu filho Mor­dred são mor­tos durante a bata­lha, após uma luta san­grenta. Não há suces­sor, não há reno­va­ção. Ao fim da lenda, a espada Esca­li­bur é escon­dida nas águas de um lago — ou seja, o poder ana­lí­tico e orde­na­dor do mundo, que sus­ten­tava o reino, mer­gu­lha no incons­ci­ente. A lenda do Rei Artur é, por­tanto, uma adul­te­ra­ção da lenda ori­gi­nal dos cel­tas e um indi­ca­tivo da soci­e­dade moderna, onde a culpa judaico-cristã não reco­nhece os ciclos da vida e da morte, pro­me­tendo aos fiéis uma ilu­só­ria vida eterna que, na ver­dade, sub­mete todos a uma rotina de quase-morte aqui neste mundo. Não há, em sín­tese, nova colheita, só deso­la­ção.

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Essa morte do Rei Arthur ao lado do seu suces­sor Mor­dred con­dena miti­ca­mente o mundo moderno à este­ri­li­dade que T. S. Eliot lamu­riou em sua obra “Terra Deso­lada”. Nesse poema, o autor faz alu­sões à tra­di­ção hindu — e vale lem­brar que os hin­dus cha­mam nossa época de Kali Yuga ou “Era de Ferro”, a era onde o homem cria cha­gas no pla­neta e faz a crosta ter­res­tre ver­ter san­gue negro. Por isso a lenda do Rei Arthur é tão moderna, tão atual: ela repre­senta a pas­sa­gem de um período em que as for­ças huma­nas eram res­tau­ra­das atra­vés de um pro­cesso cíclico de morte e renas­ci­mento ritual para um tempo em que impera o pro­cesso de nega­ção da nossa ferida, o nosso tempo.

O nosso tempo sim, pois vivemos em uma cultura que nos mantém infantilizados.

 

Se esta­mos pre­sos a um pro­cesso de infan­ti­li­za­ção, pre­ci­sa­mos, então, des­per­tar nossa cri­ança interna para que ela cresça. E essa cri­ança den­tro de nós tem um nome. Ela se chama Nar­ciso.

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A Balada do Belo Menino

Conta uma lenda grega que Nar­ciso era um jovem bonito e muito orgu­lhoso, que certo dia foi punido com uma mal­di­ção pelos deu­ses: ele se apai­xo­na­ria pela pri­meira pes­soa que visse. E a pri­meira pes­soa que Nar­ciso viu foi a si pró­prio no reflexo de um lago. Inca­paz de per­ce­ber que se tra­tava de um reflexo, apai­xo­nado ele mer­gu­lhou no lago para abra­çar a pes­soa que via a sua frente. E assim mor­reu afo­gado. A par­tir dessa fábula, criou-se o sím­bolo da ferida nar­cí­sica: quando per­ce­be­mos que esta­mos apai­xo­na­dos por nós mes­mos.

Uma forma bem fácil de expli­car a ferida nar­cí­sica é dizer que as três prin­ci­pais feri­das da huma­ni­dade ocor­re­ram nos últi­mos sécu­los: com Copér­nico, des­co­bri­mos que não somos o cen­tro do uni­verso; com Darwin, des­co­bri­mos que somos chi­pan­zés super­de­sen­vol­vi­dos; com Freud, des­co­bri­mos que nos­sas ati­tu­des nobres mal ocul­tam nos­sos ins­tin­tos pri­mi­ti­vos.

A cada des­co­berta, o Nar­ciso-Huma­ni­dade mer­gu­lhou no lago e viu que aquela ima­gem pro­je­tada na super­fí­cie não pas­sava de uma mira­gem. Ape­sar da decep­ção, a cada mer­gu­lho afo­ga­ram-se suas ilu­sões e o homem emer­giu for­ta­le­cido.

Fortalecido sim, pois há uma grande potência em descobrir o quão pouco se pode.

Assim como a huma­ni­dade, cada ser humano, em sua vida íntima, depara-se com a ferida nar­cí­sica ao per­ce­ber que seus melho­res sonhos, mai­o­res vai­da­des e mais que­ri­das expec­ta­ti­vas não cor­res­pon­dem em abso­luto à rea­li­dade. Na ver­dade, quase sem­pre que algo nos inco­moda no coti­di­ano é por­que, no fundo, levan­ta­ram a cas­qui­nha da ferida e cutu­ca­ram justo lá, onde a pele é bem ver­me­lha e mais sen­sí­vel.

Mas isso é bom.

É uma opor­tu­ni­dade e tanto de real­mente evo­luir. Como ensina a Lenda do Santo Graal, é essen­cial que Per­ci­val reco­nheça a ferida do Rei. Afi­nal, um homem comum que se julga gigante vê um objeto lon­gín­quo e supõe que basta esti­car o braço para alcançá-lo. Esse gesto, con­tudo, será obvi­a­mente em vão. Porém, se tiver a sorte de decep­ci­o­nar-se e des­co­brir que não passa de um homem com esta­tura nor­mal, poderá ir até o objeto e efe­ti­va­mente agarrá-lo, nem que para isso pre­cise cami­nhar um bocado.

Caminhar um bocado sim, pois é a planta do pé firmada
no chão batido que nos permite seguir com a cabeça erguida.

 

Toda vez que alguém falece em nossa famí­lia, sofre­mos uma ferida nar­cí­sica, pois temos a cons­ci­ên­cia do quão pouco pode­mos diante de um des­tino que parece, seja­mos sin­ce­ros, ale­a­tó­rio e incle­mente. Nossa inca­pa­ci­dade de, às vezes, ali­viar a dor de um ente que­rido revela o quão nossa pró­pria con­di­ção humana é frá­gil.

Mas nem todo mundo nas­ceu para ver e — prin­ci­pal­mente — enten­der Gri­tos e Sus­sur­ros de Berg­man, um filme que revela à luz do dia os aspec­tos mais desa­gra­dá­veis da natu­reza humana. Desse modo, se qui­ser­mos, pode­mos igno­rar a lição e nar­co­ti­zar nossa cons­ci­ên­cia com alguma dis­tra­ção. Mas, agindo assim, con­ti­nu­a­re­mos para sem­pre cri­an­ças per­di­das.

Crianças perdidas sim, pois só um adulto sabe dar valor ao poder que emerge de cada derrota.

 

Toda vez que algo ou alguém nos rejeita, seja em uma entre­vista de emprego, em uma ami­zade pro­posta, em um flerte ensai­ado, em uma prova de capa­ci­dade ou em um con­curso público, mer­gu­lha­mos nova­mente no lago.

É quando mais um pouco do Nar­ciso morre e, se for­mos pers­pi­ca­zes, o que emer­girá será alguém mais des­perto.

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Apren­de­re­mos que o uni­verso não é um espe­lho pronto para refle­tir nosso ego — esse pequeno ego, que deve­ria ape­nas ope­ra­ci­o­na­li­zar nossa rela­ção com o mundo cir­cun­dante, ao invés de agir como dés­pota de nossa psi­que, como rei­zi­nho mimado e arro­gante.

Bom, nada melhor para des­tro­nar esse tirano do que um banho no lago onde está a ver­dade, pois a cada mer­gu­lho ele perde um pouco de seu mando.

Perde um pouco de seu mando sim, pois percebemos que a vida é muito maior que nossos desejos.

 

Por isso, caso faça­mos o dever de casa direi­ti­nho, atin­gi­re­mos certa idade na qual se desen­vol­ver é um pro­cesso auto­má­tico, exer­cendo uma força gra­vi­ta­ci­o­nal sobre nos­sas esco­lhas.

Não há decep­ção que não seja, a par toda tris­teza ine­rente, um degrau a mais em que nosso pequeno ego esmo­rece e é dei­xado para trás. E esse esmo­re­cer é sem­pre uma espé­cie de vitó­ria sobre si mesmo. A par­tir de então, sem­pre que somos feri­dos, algo em nós sor­rirá gen­til­mente, por saber que se trata de uma opor­tu­ni­dade de ouro para fazer bro­tar uma cons­ci­ên­cia maior.

Eu ouso até dizer que há um momento de nos­sas vidas no qual pas­sa­mos a pro­cu­rar a desor­dem, o caos e o pro­ble­má­tico, não por maso­quismo, mas por ter­mos apren­dido que, a cada queda, o que morre era des­ti­nado a assim mor­rer, e o que se ergue é o que tinha de assim nas­cer.

Tinha de nascer sim. E a tudo que nos derruba devemos um “muito obrigado”.

 

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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