“Dayadhvam: Ouvi a chave girar na porta uma vez e apenas uma vez
Na chave pensamos, cada qual em sua prisão
E quando nela pensamos, prisioneiros nos sabemos…”
(trecho de Terra Desolada – T. S. Eliot, tradução de Ivan Junqueira)


A Balada do Rei Moribundo

 

Conta uma das lendas dos Cavaleiros da Távola Redonda (a versão é de Wolfram von Eschenbach) que Sir Percival, certa vez, entrou no castelo do Rei Amfortas, o “Rei Pescador”, e esse lhe mostrou uma ferida horrenda em sua perna. Todos os súditos e o próprio Rei Amfortas esperavam que Percival perguntasse a origem daquela ferida, pois tal pergunta salvaria o reino de uma espécie de maldição a qual estava condenado.

Mas Sir Percival permaneceu em silêncio, já que se lembrou de que sua mãe havia o aconselhado a jamais fazer perguntas constrangedoras, pois era sinal de descortesia.

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Fazer uma pergunta é um ato de consciência. Na lenda de Amfortas, esse ato era fundamental para salvar o reino. Aquilo que é nomeado se coloca diante de nossos olhos e pode ser compreendido. Fazer uma pergunta constrangedora é encarar a origem de um tabu, é praticar uma desobediência necessária.

Necessária sim, pois aquilo que enfrentamos deixa de nos manipular cegamente.

 

A mãe de Percival, ao recomendar a seu filho que não fizesse perguntas, representa a ignorância voluntária que prefere desconhecer a ferida fundamental do ser humano (alguns chamam de “ferida narcísica”) para, dessa forma, manter o véu da inconsciência que impede o indivíduo de evoluir. Desobedecer a ordem materna é quebrar um tabu, e representa o rompimento com um estágio primordial onde a inocência apenas se mantém graças ao pesado tributo da eterna estagnação.

O mito do rei moribundo é recorrente na tradição medieval. Sua origem remonta aos ritos celtas. O rei envelhecido no solstício de inverno deve morrer e ser substituído por seu sucessor, que trará a renovação da primavera e a época da colheita. Isso também está representado na fase do processo alquímico denominada “mortificatio”, na qual o rei deve ser morto para renascer revigorado. A ferida representa a impotência do velho rei, sua incapacidade de fertilizar a terra. É o esgotamento do poder criativo tão necessário à vida e que deve ser resgatado através do casamento do novo rei com a filha do velho soberano. Os ciclos da vida e da morte são plenamente realizados. Mas para renascer, é preciso saber morrer.

É preciso saber morrer sim, pois apenas compreendendo a
realidade da morte é que nos tornamos capazes de viver plenamente.

 

Esse mesmo mito também está presente na lenda do Rei Artur, mas com a pertubadora diferença de que o velho rei e seu filho Mordred são mortos durante a batalha, após uma luta sangrenta. Não há sucessor, não há renovação. Ao fim da lenda, a espada Escalibur é escondida nas águas de um lago – ou seja, o poder analítico e ordenador do mundo, que sustentava o reino, mergulha no inconsciente. A lenda do Rei Artur é, portanto, uma adulteração da lenda original dos celtas e um indicativo da sociedade moderna, onde a culpa judaico-cristã não reconhece os ciclos da vida e da morte, prometendo aos fiéis uma ilusória vida eterna que, na verdade, submete todos a uma rotina de quase-morte aqui neste mundo. Não há, em síntese, nova colheita, só desolação.

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Essa morte do Rei Arthur ao lado do seu sucessor Mordred condena miticamente o mundo moderno à esterilidade que T. S. Eliot lamuriou em sua obra “Terra Desolada“. Nesse poema, o autor faz alusões à tradição hindu – e vale lembrar que os hindus chamam nossa época de Kali Yuga ou “Era de Ferro”, a era onde o homem cria chagas no planeta e faz a crosta terrestre verter sangue negro. Por isso a lenda do Rei Arthur é tão moderna, tão atual: ela representa a passagem de um período em que as forças humanas eram restauradas através de um processo cíclico de morte e renascimento ritual para um tempo em que impera o processo de negação da nossa ferida, o nosso tempo.

O nosso tempo sim, pois vivemos em uma cultura que nos mantém infantilizados.

 

Se estamos presos a um processo de infantilização, precisamos, então, despertar nossa criança interna para que ela cresça. E essa criança dentro de nós tem um nome. Ela se chama Narciso.

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A Balada do Belo Menino

Conta uma lenda grega que Narciso era um jovem bonito e muito orgulhoso, que certo dia foi punido com uma maldição pelos deuses: ele se apaixonaria pela primeira pessoa que visse. E a primeira pessoa que Narciso viu foi a si próprio no reflexo de um lago. Incapaz de perceber que se tratava de um reflexo, apaixonado ele mergulhou no lago para abraçar a pessoa que via a sua frente. E assim morreu afogado. A partir dessa fábula, criou-se o símbolo da ferida narcísica: quando percebemos que estamos apaixonados por nós mesmos.

Uma forma bem fácil de explicar a ferida narcísica é dizer que as três principais feridas da humanidade ocorreram nos últimos séculos: com Copérnico, descobrimos que não somos o centro do universo; com Darwin, descobrimos que somos chipanzés superdesenvolvidos; com Freud, descobrimos que nossas atitudes nobres mal ocultam nossos instintos primitivos.

A cada descoberta, o Narciso-Humanidade mergulhou no lago e viu que aquela imagem projetada na superfície não passava de uma miragem. Apesar da decepção, a cada mergulho afogaram-se suas ilusões e o homem emergiu fortalecido.

Fortalecido sim, pois há uma grande potência em descobrir o quão pouco se pode.

Assim como a humanidade, cada ser humano, em sua vida íntima, depara-se com a ferida narcísica ao perceber que seus melhores sonhos, maiores vaidades e mais queridas expectativas não correspondem em absoluto à realidade. Na verdade, quase sempre que algo nos incomoda no cotidiano é porque, no fundo, levantaram a casquinha da ferida e cutucaram justo lá, onde a pele é bem vermelha e mais sensível.

Mas isso é bom.

É uma oportunidade e tanto de realmente evoluir. Como ensina a Lenda do Santo Graal, é essencial que Percival reconheça a ferida do Rei. Afinal, um homem comum que se julga gigante vê um objeto longínquo e supõe que basta esticar o braço para alcançá-lo. Esse gesto, contudo, será obviamente em vão. Porém, se tiver a sorte de decepcionar-se e descobrir que não passa de um homem com estatura normal, poderá ir até o objeto e efetivamente agarrá-lo, nem que para isso precise caminhar um bocado.

Caminhar um bocado sim, pois é a planta do pé firmada
no chão batido que nos permite seguir com a cabeça erguida.

 

Toda vez que alguém falece em nossa família, sofremos uma ferida narcísica, pois temos a consciência do quão pouco podemos diante de um destino que parece, sejamos sinceros, aleatório e inclemente. Nossa incapacidade de, às vezes, aliviar a dor de um ente querido revela o quão nossa própria condição humana é frágil.

Mas nem todo mundo nasceu para ver e – principalmente – entender Gritos e Sussurros de Bergman, um filme que revela à luz do dia os aspectos mais desagradáveis da natureza humana. Desse modo, se quisermos, podemos ignorar a lição e narcotizar nossa consciência com alguma distração. Mas, agindo assim, continuaremos para sempre crianças perdidas.

Crianças perdidas sim, pois só um adulto sabe dar valor ao poder que emerge de cada derrota.

 

Toda vez que algo ou alguém nos rejeita, seja em uma entrevista de emprego, em uma amizade proposta, em um flerte ensaiado, em uma prova de capacidade ou em um concurso público, mergulhamos novamente no lago.

É quando mais um pouco do Narciso morre e, se formos perspicazes, o que emergirá será alguém mais desperto.

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Aprenderemos que o universo não é um espelho pronto para refletir nosso ego – esse pequeno ego, que deveria apenas operacionalizar nossa relação com o mundo circundante, ao invés de agir como déspota de nossa psique, como reizinho mimado e arrogante.

Bom, nada melhor para destronar esse tirano do que um banho no lago onde está a verdade, pois a cada mergulho ele perde um pouco de seu mando.

Perde um pouco de seu mando sim, pois percebemos que a vida é muito maior que nossos desejos.

 

Por isso, caso façamos o dever de casa direitinho, atingiremos certa idade na qual se desenvolver é um processo automático, exercendo uma força gravitacional sobre nossas escolhas.

Não há decepção que não seja, a par toda tristeza inerente, um degrau a mais em que nosso pequeno ego esmorece e é deixado para trás. E esse esmorecer é sempre uma espécie de vitória sobre si mesmo. A partir de então, sempre que somos feridos, algo em nós sorrirá gentilmente, por saber que se trata de uma oportunidade de ouro para fazer brotar uma consciência maior.

Eu ouso até dizer que há um momento de nossas vidas no qual passamos a procurar a desordem, o caos e o problemático, não por masoquismo, mas por termos aprendido que, a cada queda, o que morre era destinado a assim morrer, e o que se ergue é o que tinha de assim nascer.

Tinha de nascer sim. E a tudo que nos derruba devemos um “muito obrigado”.

 

escrito por:

Victor Lisboa

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