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Reciclagem: basta ser politicamente correto?

Em Consciência, Filosofia, Meio Ambiente, Sociedade por Sérgio SardiComentário

A reci­cla­gem con­some ener­gia e gera resí­duos. Reci­clar é impor­tante, mas não é a solu­ção dos pro­ble­mas ambi­en­tais e soci­ais do mundo.

Em geral, as pes­soas dese­jam hoje ser poli­ti­ca­mente cor­re­tas em rela­ção ao meio ambi­ente. Mas, pen­sam elas por si mes­mas ao pen­sa­rem assim? Ser “poli­ti­ca­mente cor­reto” é sufi­ci­ente?

Ouvi­mos dizer em toda parte, por exem­plo, que a reci­cla­gem é a solu­ção para o lixo que se acu­mula em todo o pla­neta, além de pou­par os recur­sos natu­rais. Isso está par­ci­al­mente cor­reto. Porém não se trata da solu­ção, mas de parte dela, e tal­vez de uma parte bem pequena. Pois não nos damos conta de que a reci­cla­gem tam­bém con­some ener­gia e gera resí­duos, mui­tas vezes tóxi­cos, além de não ser pra­ti­cá­vel de forma efi­ci­ente com alguns mate­ri­ais. Além disso, é pre­cá­ria a reci­cla­gem do lixo gerado durante a pro­du­ção de uma mer­ca­do­ria, e nos pre­o­cu­pa­mos ape­nas com o resul­tado final, ou seja, a mer­ca­do­ria já fabri­cada, essa que con­su­mi­mos em nos­sas casas. Sim, reci­clar é impor­tante, mas não é a solu­ção.

Isso se torna mais grave quando jul­ga­mos que a reci­cla­gem resol­verá todos os pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos com a pro­du­ção desen­fre­ada de mer­ca­do­rias e à gera­ção de lixo. Pois, no fundo, esta­ría­mos ape­nas jus­ti­fi­cando que man­te­nha­mos o ritmo atual de depre­da­ção da natu­reza, de trans­for­ma­ção dos recur­sos natu­rais, de con­sumo e de des­carte, e o con­su­mismo desen­fre­ado, para nos man­ter­mos livres de culpa. Se pen­sar­mos que essa é a solu­ção final, con­ti­nu­a­re­mos pro­du­zindo e con­su­mindo de forma linear, que se carac­te­riza pela extra­ção dos recur­sos, trans­for­ma­ção pela indús­tria, comer­ci­a­li­za­ção, con­sumo do pro­duto final e des­carte na forma de lixo. Na natu­reza, porém, não há pro­du­ção de lixo, pois ali tudo é cíclico. O que vem da natu­reza é a ela devol­vido e volta a par­ti­ci­par da teia da vida.

A reci­cla­gem, sim, é impor­tante, pois ela pode ame­ni­zar o impacto da pro­du­ção sobre o meio ambi­ente. Mas nem de longe é a solu­ção para a exi­gên­cia de uma pro­du­ção e con­sumo sus­ten­tá­vel. É pre­ciso muito mais.

A cres­cente perda da bio­di­ver­si­dade segue em ritmo ace­le­rado. Geral­mente pen­sa­mos na pre­ser­va­ção ape­nas na medida em que deter­mi­na­das espé­cies são úteis ao ser humano, ou se tor­na­ram meros sím­bo­los de pre­ser­va­ção, ou por inte­res­sa­rem à indús­tria bio­ge­né­tica. Os oce­a­nos se tor­na­ram depó­si­tos de deje­tos. A água potá­vel é cada vez mais escassa. Desas­tres nucle­a­res e der­ra­ma­men­tos de petró­leo no oce­ano, den­tre outras catás­tro­fes ambi­en­tais cau­sa­das pela inter­ven­ção humana, são pos­si­bi­li­da­des imi­nen­tes. O degelo dos polos segue ace­le­rado. A deser­ti­fi­ca­ção do pla­neta avança, sem con­tar os deser­tos ver­des da indús­tria de celu­lose. Enquanto isso, o movi­mento ambi­en­tal, assim como ações iso­la­das em defesa do meio ambi­ente, embora impres­cin­dí­veis, pare­cem ape­nas adiar o que seria apa­ren­te­mente ine­vi­tá­vel, a con­si­de­rar a ten­dên­cia mais forte em curso, esta regida pela lei do lucro.

Tra­tado como con­junto de recur­sos natu­rais, o meio ambi­ente é visto como um espaço de depre­da­ção em busca de lucro e poder. O con­sumo de mer­ca­do­rias resume o sen­tido da vida em nos­sos tem­pos. O stress coti­di­ano é a regra, e as rela­ções pro­pri­a­mente huma­nas são aos pou­cos subs­ti­tuí­das por pro­ces­sos arti­fi­ci­ais. De tanto viver­mos em um mundo arti­fi­ci­al­mente arqui­te­tado, ini­cia-se um pro­cesso de esque­ci­mento da inte­gra­ção e da res­pon­sa­bi­li­za­ção do ser humano para com a vida como um todo.

Há algo no cora­ção do sis­tema que não ousa­mos tocar. Tal­vez por­que isso exi­gi­ria mudan­ças pro­fun­das de com­por­ta­mento e, inclu­sive, de valo­res e de per­cep­ção. Um exem­plo impor­tante é o caso do con­su­mismo e da “obso­les­cên­cia pla­ni­fi­cada”, ou seja, a pro­du­ção de mer­ca­do­rias des­ti­na­das a ir, em pouco tempo, para o lixo, ace­le­rando ainda mais o con­sumo. Faze­mos parte disso tudo.

Para atin­gir o núcleo deste sis­tema pre­da­tó­rio e res­ga­tar­mos o sen­tido de nos­sas vidas, que valo­res deve­re­mos afir­mar? Que valo­res deve­re­mos negar? Que ati­tu­des deve­re­mos cons­truir?


 

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Sérgio Sardi
Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.

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