A reciclagem consome energia e gera resíduos. Reciclar é importante, mas não é a solução dos problemas ambientais e sociais do mundo.

Em geral, as pessoas desejam hoje ser politicamente corretas em relação ao meio ambiente. Mas, pensam elas por si mesmas ao pensarem assim? Ser “politicamente correto” é suficiente?

Ouvimos dizer em toda parte, por exemplo, que a reciclagem é a solução para o lixo que se acumula em todo o planeta, além de poupar os recursos naturais. Isso está parcialmente correto. Porém não se trata da solução, mas de parte dela, e talvez de uma parte bem pequena. Pois não nos damos conta de que a reciclagem também consome energia e gera resíduos, muitas vezes tóxicos, além de não ser praticável de forma eficiente com alguns materiais. Além disso, é precária a reciclagem do lixo gerado durante a produção de uma mercadoria, e nos preocupamos apenas com o resultado final, ou seja, a mercadoria já fabricada, essa que consumimos em nossas casas. Sim, reciclar é importante, mas não é a solução.

Isso se torna mais grave quando julgamos que a reciclagem resolverá todos os problemas relacionados com a produção desenfreada de mercadorias e à geração de lixo. Pois, no fundo, estaríamos apenas justificando que mantenhamos o ritmo atual de depredação da natureza, de transformação dos recursos naturais, de consumo e de descarte, e o consumismo desenfreado, para nos mantermos livres de culpa. Se pensarmos que essa é a solução final, continuaremos produzindo e consumindo de forma linear, que se caracteriza pela extração dos recursos, transformação pela indústria, comercialização, consumo do produto final e descarte na forma de lixo. Na natureza, porém, não há produção de lixo, pois ali tudo é cíclico. O que vem da natureza é a ela devolvido e volta a participar da teia da vida.

A reciclagem, sim, é importante, pois ela pode amenizar o impacto da produção sobre o meio ambiente. Mas nem de longe é a solução para a exigência de uma produção e consumo sustentável. É preciso muito mais.

A crescente perda da biodiversidade segue em ritmo acelerado. Geralmente pensamos na preservação apenas na medida em que determinadas espécies são úteis ao ser humano, ou se tornaram meros símbolos de preservação, ou por interessarem à indústria biogenética. Os oceanos se tornaram depósitos de dejetos. A água potável é cada vez mais escassa. Desastres nucleares e derramamentos de petróleo no oceano, dentre outras catástrofes ambientais causadas pela intervenção humana, são possibilidades iminentes. O degelo dos polos segue acelerado. A desertificação do planeta avança, sem contar os desertos verdes da indústria de celulose. Enquanto isso, o movimento ambiental, assim como ações isoladas em defesa do meio ambiente, embora imprescindíveis, parecem apenas adiar o que seria aparentemente inevitável, a considerar a tendência mais forte em curso, esta regida pela lei do lucro.

Tratado como conjunto de recursos naturais, o meio ambiente é visto como um espaço de depredação em busca de lucro e poder. O consumo de mercadorias resume o sentido da vida em nossos tempos. O stress cotidiano é a regra, e as relações propriamente humanas são aos poucos substituídas por processos artificiais. De tanto vivermos em um mundo artificialmente arquitetado, inicia-se um processo de esquecimento da integração e da responsabilização do ser humano para com a vida como um todo.

Há algo no coração do sistema que não ousamos tocar. Talvez porque isso exigiria mudanças profundas de comportamento e, inclusive, de valores e de percepção. Um exemplo importante é o caso do consumismo e da “obsolescência planificada”, ou seja, a produção de mercadorias destinadas a ir, em pouco tempo, para o lixo, acelerando ainda mais o consumo. Fazemos parte disso tudo.

Para atingir o núcleo deste sistema predatório e resgatarmos o sentido de nossas vidas, que valores deveremos afirmar? Que valores deveremos negar? Que atitudes deveremos construir?


 

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escrito por:

Sérgio Sardi

Professor de Filosofia na PUCRS. Atua com Metodologia de Ensino Filosófico, Filosofia da Linguagem e Metafísica, bem como com Filosofia com Crianças. É idealizador das notáveis Olimpíada de Filosofia com Crianças e Olimpíada de Filosofia do Rio Grande do Sul, as quais já estão se espalhando pelo Brasil e o mundo.


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