[dropcap]E[/dropcap]u tenho um pouco de problema com dois usos que vejo de uma mesma palavra: racionalidade. Talvez meu incômodo seja exatamente porque no geral eu gosto da palavra/conceito e instintivamente quero defendê-la, e isso intensifica a irritação quando leio gente usando de maneira esquisita.

De um lado, uma certa tradição “crítica”, que podemos chamar de esquerda caso tenhamos preguiça. Essa postura vai identificar no “racionalismo” os sinais da hegemonia e da dominação: razão é o nome que homens brancos ocidentais deram ao conjunto de signos erigido para justificar e garantir a sua supremacia na sociedade.

Como toda ideia efetivamente problemática, há um fundo de verdade aí: o apelo à razão como árbitro neutro foi constante em esforços para sufocar críticas ao sistema vigente, culminando no cientificismo que busca eliminar a contradição via autoridade ou no discurso escatológico de certo liberalismo “não há alternativa”.

O problema, claro, é jogar fora o bebê junto da água suja. Ainda que certos discursos tenham recorrido ao “racionalismo” para justificar absurdos, isso não diz nada sobre a efetividade deste enquanto instrumento. Pelo contrário: se é uma ferramenta tão potente, o certo a fazer é tomá-la para si, apropriá-la. O racionalismo foi fundamental para que esses grupos se tornassem dominantes. Vamos desprezar essa arma?

A racionalidade aspira a ser neutra e livre. Se só uma parcela dominante e autoritária da sociedade detém controle sobre esse aparato, a razão está incompleta, ferida. Cabe aos “outros lados” cooptarem-na e a absorverem para que ela cumpra seu papel. A vocação da racionalidade é o abstrato, o anônimo: que qualquer um possa falar como ninguém. Ainda não chegamos lá.

Do outro lado, existe um certo discurso arrogante que fetichiza a razão como “meu reflexo no espelho”. O apelo ao racionalismo torna-se mais um contraste: razão sou eu, não razão (emoção, sentimento, etc) são os outros.

Esse pensamento costuma ser a justificativa derrotista da bela alma preguiçosa. “O mundo está errado, eu penso certo, por isso é impossível me comunicar com esses bárbaros”. Razão vira apenas um código para “desisti de tentar”.

[pullquote cite=”Guilherme Assi” type=”left”]um racionalismo que despreza a diferença e se contenta com a embriaguez de “estar certo” não merece o seu nome.[/pullquote]

Eu gosto muito de uma noção de sanidade: agir como se só você fosse são e os outros loucos é um sinal de loucura. Ou: agir a partir de um modelo mental no qual todo mundo pensa igual a você é burrice.

Eu não vou entrar em discussões improdutivas sobre “mas existe verdade? Existem fatos? Existe mundo real?”. Vou me ater a uma só ideia: pessoas diferentes vivem em mundos e visões diferentes, e isso é um dado tão relevante quanto “fogo queima” ou “água molha”.

Levando isso em conta, um racionalismo que despreza a diferença e se contenta com a embriaguez de “estar certo” não merece o seu nome. Razão não é (ou não deveria ser) um fetiche que culmina em si mesmo, mas sim um instrumento que nos ajuda a alcançar objetivos. A posição racional não é “esses bárbaros sentimentais não pensam como eu, problema deles”, mas sim “os sentimentos e preconceitos e visões dessa pessoa são informações que vão me ajudar a desenvolver a melhor estratégia possível para um diálogo eficiente e produtivo”.

Em resumo, só consigo pensar no slogan de um site famosinho por aí: rationality is winning (uma brincadeira de duplo sentido que pode significar tanto “racionalidade é ganhar” quanto “a racionalidade está ganhando”). Nem um sinal maculado do poder dominante, nem um fetiche isolacionista de quem se recusa a entender o outro. Razão é apenas buscar as melhores estratégias pra, bom, ganhar (seja através de diálogo, convencimento, ciência, planejamento ou o que for). Razão é: aquilo que funciona.

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.