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A razão enquanto fetiche e instrumento

Em Consciência por Guilherme AssisComentário

Eu tenho um pouco de pro­blema com dois usos que vejo de uma mesma pala­vra: raci­o­na­li­dade. Tal­vez meu incô­modo seja exa­ta­mente por­que no geral eu gosto da palavra/conceito e ins­tin­ti­va­mente quero defendê-la, e isso inten­si­fica a irri­ta­ção quando leio gente usando de maneira esqui­sita.

De um lado, uma certa tra­di­ção “crí­tica”, que pode­mos cha­mar de esquerda caso tenha­mos pre­guiça. Essa pos­tura vai iden­ti­fi­car no “raci­o­na­lismo” os sinais da hege­mo­nia e da domi­na­ção: razão é o nome que homens bran­cos oci­den­tais deram ao con­junto de sig­nos eri­gido para jus­ti­fi­car e garan­tir a sua supre­ma­cia na soci­e­dade.

Como toda ideia efe­ti­va­mente pro­ble­má­tica, há um fundo de ver­dade aí: o apelo à razão como árbi­tro neu­tro foi cons­tante em esfor­ços para sufo­car crí­ti­cas ao sis­tema vigente, cul­mi­nando no cien­ti­fi­cismo que busca eli­mi­nar a con­tra­di­ção via auto­ri­dade ou no dis­curso esca­to­ló­gico de certo libe­ra­lismo “não há alter­na­tiva”.

O pro­blema, claro, é jogar fora o bebê junto da água suja. Ainda que cer­tos dis­cur­sos tenham recor­rido ao “raci­o­na­lismo” para jus­ti­fi­car absur­dos, isso não diz nada sobre a efe­ti­vi­dade deste enquanto ins­tru­mento. Pelo con­trá­rio: se é uma fer­ra­menta tão potente, o certo a fazer é tomá-la para si, apro­priá-la. O raci­o­na­lismo foi fun­da­men­tal para que esses gru­pos se tor­nas­sem domi­nan­tes. Vamos des­pre­zar essa arma?

A raci­o­na­li­dade aspira a ser neu­tra e livre. Se só uma par­cela domi­nante e auto­ri­tá­ria da soci­e­dade detém con­trole sobre esse apa­rato, a razão está incom­pleta, ferida. Cabe aos “outros lados” coop­ta­rem-na e a absor­ve­rem para que ela cum­pra seu papel. A voca­ção da raci­o­na­li­dade é o abs­trato, o anô­nimo: que qual­quer um possa falar como nin­guém. Ainda não che­ga­mos lá.

Do outro lado, existe um certo dis­curso arro­gante que feti­chiza a razão como “meu reflexo no espe­lho”. O apelo ao raci­o­na­lismo torna-se mais um con­traste: razão sou eu, não razão (emo­ção, sen­ti­mento, etc) são os outros.

Esse pen­sa­mento cos­tuma ser a jus­ti­fi­ca­tiva der­ro­tista da bela alma pre­gui­çosa. “O mundo está errado, eu penso certo, por isso é impos­sí­vel me comu­ni­car com esses bár­ba­ros”. Razão vira ape­nas um código para “desisti de ten­tar”.

um raci­o­na­lismo que des­preza a dife­rença e se con­tenta com a embri­a­guez de “estar certo” não merece o seu nome.Gui­lherme Assi

Eu gosto muito de uma noção de sani­dade: agir como se só você fosse são e os outros lou­cos é um sinal de lou­cura. Ou: agir a par­tir de um modelo men­tal no qual todo mundo pensa igual a você é bur­rice.

Eu não vou entrar em dis­cus­sões impro­du­ti­vas sobre “mas existe ver­dade? Exis­tem fatos? Existe mundo real?”. Vou me ater a uma só ideia: pes­soas dife­ren­tes vivem em mun­dos e visões dife­ren­tes, e isso é um dado tão rele­vante quanto “fogo queima” ou “água molha”.

Levando isso em conta, um raci­o­na­lismo que des­preza a dife­rença e se con­tenta com a embri­a­guez de “estar certo” não merece o seu nome. Razão não é (ou não deve­ria ser) um feti­che que cul­mina em si mesmo, mas sim um ins­tru­mento que nos ajuda a alcan­çar obje­ti­vos. A posi­ção raci­o­nal não é “esses bár­ba­ros sen­ti­men­tais não pen­sam como eu, pro­blema deles”, mas sim “os sen­ti­men­tos e pre­con­cei­tos e visões dessa pes­soa são infor­ma­ções que vão me aju­dar a desen­vol­ver a melhor estra­té­gia pos­sí­vel para um diá­logo efi­ci­ente e pro­du­tivo”.

Em resumo, só con­sigo pen­sar no slo­gan de um site famo­si­nho por aí: rati­o­na­lity is win­ning (uma brin­ca­deira de duplo sen­tido que pode sig­ni­fi­car tanto “raci­o­na­li­dade é ganhar” quanto “a raci­o­na­li­dade está ganhando”). Nem um sinal macu­lado do poder domi­nante, nem um feti­che iso­la­ci­o­nista de quem se recusa a enten­der o outro. Razão é ape­nas bus­car as melho­res estra­té­gias pra, bom, ganhar (seja atra­vés de diá­logo, con­ven­ci­mento, ciên­cia, pla­ne­ja­mento ou o que for). Razão é: aquilo que fun­ci­ona.

Guilherme Assis
Tem 25 anos, trabalha com audiovisual e sempre se disse de esquerda. A definição mudou, mas ele continua o mesmo - sempre na oposição.

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