você é uma raposa ou um porco-espinho

Você é uma raposa ou um porco-espinho?

Em Comportamento, Consciência, O MELHOR DO AZ, Sobre o AZ por Victor LisboaComentários

Em 1953 o filó­sofo polí­tico Isaiah Ber­lin publi­cou seu livro O Ouriço e a Raposa: Um Ensaio sobre a Visão da His­tó­ria de Tols­tói. Como o sub­tí­tulo já escan­cara, o obje­tivo do tra­ba­lho era ana­li­sar a per­cep­ção da his­tó­ria na obra do escri­tor russo Leon Tols­tói, prin­ci­pal­mente em seu romance Guerra e Paz, que curi­o­sa­mente estou lendo neste momento (já pas­sei da página 1.900, ufa!).

Mas O Ouriço e a Raposa não se tor­nou céle­bre pela aná­lise da obra de Tols­tói, e sim pela inter­pre­ta­ção que o Isaiah Ber­lin deu ao pro­vér­bio grego que ins­pi­rou o curi­oso título: a raposa conhece mui­tas coi­sas, mas o porco-espi­nho conhece uma coisa grande (no ori­gi­nal do livro em inglês: the fox knows many things, but the hed­gehog knows one big thing).

Isaiah Ber­lin esta­be­lece, a par­tir desse pro­vér­bio, duas for­mas de pen­sar. Porco-espi­nho são aque­las pes­soas que rela­ci­o­nam todas as coi­sas a uma deter­mi­nada grande ideia, e raposa são todos aque­les que conhe­cem mui­tas ideias mas estão cien­tes de que elas não se encai­xam neces­sa­ri­a­mente em um único sis­tema. Nas pala­vras do pró­prio autor, que tra­duzo livre­mente (o ori­gi­nal vai abaixo em parên­te­ses):

Há um grande abismo entre aque­les que, de um lado, rela­ci­o­nam tudo a uma única visão cen­tral, a um sis­tema, mais ou menos coe­rente ou arti­cu­lado, em ter­mos dos quais eles enten­dem, pen­sam e sen­tem — um único e uni­ver­sal prin­cí­pio orga­ni­za­dor, em torno do qual tudo o que elas são e dizem têm sig­ni­fi­cado, e, de outro lado, aque­les que bus­cam mui­tos fins, mui­tas vezes dís­pa­res e até mesmo con­tra­di­tó­rios e cuja cone­xão, quando muito, ocorre somente de um modo fac­tual, por alguma causa fisi­o­ló­gica ou psi­co­ló­gica, mas sem esta­rem rela­ci­o­na­dos a nenhum prin­cí­pio moral ou esté­tico.”

(“There exists a great chasm between those, on one side, who relate everything to a sin­gle cen­tral vision, one sys­tem, less or more cohe­rent or arti­cu­late, in terms of which they unders­tand, think and feel- a sin­gle, uni­ver­sal, orga­ni­zing prin­ci­ple in terms of which alone all that they are and say has sig­ni­fi­cance- and on the other side, those who pur­sue many ends, often unre­la­ted and even con­tra­dic­tory, con­nec­ted, if at all, only in some de facto way, for some psy­cho­lo­gi­cal or phy­si­o­lo­gi­cal cause, rela­ted to no moral or aesthe­tic prin­ci­ple.”)

A melhor maneira de enten­der isso é ana­li­sar o per­fil que Isaiah Ber­lin faz de Tols­toi a par­tir dessa cate­go­ri­za­ção. Na sua opi­nião, Tols­toi seria, em Guerra e Paz, uma raposa, pois apre­senta a his­tó­ria como um grande e incom­pre­en­sí­vel pro­cesso, muito além da capa­ci­dade humana de enten­der e con­tro­lar.

lievtolstoi

Mas qual o inte­resse prá­tico nessa divi­são?

Bem, a ver­dade é que o mundo pre­cisa de mais rapo­sas e menos porco-espi­nhos.

Para tor­nar mais fácil a com­pre­en­são desse ponto, peço licença ao lei­tor parar trans­cre­ver mais uma cita­ção. Dessa vez, é a defi­ni­ção que Daniel Kah­ne­man, psi­có­logo ganha­dor do Prê­mio Nobel, faz da raposa e do porco-espi­nho no seu pre­ci­oso livro Rápido e Deva­gar:

Por­cos-espi­nhos “sabem uma grande ver­dade” e têm uma teo­ria sobre o mundo; eles expli­cam even­tos par­ti­cu­la­res den­tre de uma estru­tura coe­rente, ficam eri­ça­dos de impa­ci­ên­cia com quem não enxerga as coi­sas da mesma maneira que eles e são con­fi­an­tes em seus prog­nós­ti­cos. Tam­bém se mos­tram espe­ci­al­mente relu­tan­tes em admi­tir um erro (…). São cheios de opi­niões e segu­rança, e esse é exa­ta­mente o motivo pelo qual os pro­du­to­res de TV ado­ram vê-los em seus pro­gra­mas. Dois por­cos espi­nhos em lados dife­ren­tes de uma ques­tão, um ata­cando as ideias imbe­cis do outro, dão uma boa mesa redonda.”

Agora lei­tor, lem­bre-se das últi­mas elei­ções pre­si­den­ci­ais e apli­que essa defi­ni­ção aos seus ami­gos e como eles se com­por­ta­ram nas redes soci­ais durante o período. É fácil iden­ti­fi­car os por­cos-espi­nhos entre os elei­to­res mais eufó­ri­cos dos prin­ci­pais can­di­da­tos, ou mesmo dos can­di­da­tos nani­cos que apre­sen­ta­vam um dis­curso de porco-espi­nho.

Por­cos-espi­nhos são bons em criar rótu­los para aque­les que dis­cor­dam de sua visão de mundo (coxi­nhaspetra­lhasesquer­dista, direi­tis­tas…). São tam­bém hábeis em for­mu­lar defi­ni­ções de quem são os “gran­des ini­mi­gos”, os “res­pon­sá­veis pelo pro­blema”, e ten­dem a rea­gir emo­ci­o­nal­mente quando suas con­vic­ções são ques­ti­o­na­das.

No âmbito da polí­tica, tanto a direita como a esquerda estão reple­tos des­sas pes­soas. Na esquerda, há aque­les que ten­tam encai­xar tudo, abso­lu­ta­mente tudo, até mesmo o Bóson de Higgs, na ótica do soci­a­lismo, na lógica do opres­sor e do opri­mido. Tam­bém ten­tam atri­buir a res­pon­sa­bi­li­dade por quase tudo a um único vilão cha­mado “mer­cado” (ou o “Grande Capi­tal Inter­na­ci­o­nal”). Do lado dos libe­rais, há aque­les que ten­tam expli­car todas as ques­tões segundo a lógica da capa­ci­dade de auto-ges­tão humana, ao ponto de con­si­de­ra­rem que a soci­e­dade ideal é aquela em que não have­ria Estado (o grande vilão) ou qual­quer forma cen­tra­li­zada de con­tro­lar mini­ma­mente o com­por­ta­mento dos indi­ví­duos.

Observe que digo “há aque­les”. Ou seja, há sim na esquerda e na direita algu­mas rapo­sas, pes­soas que se encai­xam na defi­ni­ção feita por Daniel Kah­ne­man:

Rapo­sas, pelo con­trá­rio, são pen­sa­do­ras com­ple­xas. Não acre­di­tam que um único fato con­duza a mar­cha da his­tó­ria. Em vez disso, as rapo­sas reco­nhe­cem que a rea­li­dade emerge das inte­ra­ções de mui­tos agen­tes e for­ças dife­ren­tes, incluindo o acaso cego, mui­tas vezes pro­du­zindo resul­ta­dos gran­des e impre­vi­sí­veis. Elas têm menos pro­ba­bi­li­dade do que os por­cos-espi­nhos de serem con­vi­da­das para deba­tes de tele­vi­são.”

E a grande vir­tude das rapo­sas é justo seu maior pro­blema: elas não cha­mam a aten­ção, o que é desas­troso na polí­tica. Como estão cien­tes de que todas as coi­sas deri­vam de inte­ra­ções com­ple­xas de múl­ti­plos fato­res e rara­mente de uma única causa, não cedem a expli­ca­ções fáceis e sim­ples, resis­tem a rotu­lar pes­soas e difi­cil­mente apon­tam um “grande ini­migo”. E isso é impo­pu­lar, pois as pes­soas têm pre­guiça de pen­sar e gos­tam de for­tes emo­ções. Num palan­que, as rapo­sas per­dem feio para os por­cos-espi­nhos, que estão pron­tos para segu­rar o micro­fone e expli­car todas as coi­sas do mundo em meia dúzia de fra­ses de efeito — e sem­pre apon­tando o dedo para um grande adver­sá­rio

Con­vic­tos de que sabem uma grande ver­dade, enquanto as rapo­sas têm pou­cas cer­te­zas, insu­fi­ci­en­tes para insu­flar mul­ti­dões, os por­cos-espi­nhos se encai­xam per­fei­ta­mente naquele triste cená­rio que Yeats faz do mundo moderno em seu fan­tás­tico poema The Second Coming de Yeats: aos melho­res falta con­vic­ção, enquanto os pio­res estão cheios de apai­xo­nada inten­si­dade.

Porcos-espinhos contra porcos-espinhos: eles precisam um do outro para sustentar sua narrativa.

Por­cos-espi­nhos con­tra por­cos-espi­nhos: eles pre­ci­sam um do outro para sus­ten­tar sua nar­ra­tiva.

Nós, seres huma­nos, ado­ra­mos nar­ra­ti­vas coe­ren­tes. Na ver­dade pre­ci­sa­mos de nar­ra­ti­vas coe­ren­tes, inte­li­gí­veis, para lidar com os aspec­tos caó­ti­cos da rea­li­dade. Nossa mente foge do des­con­forto cog­ni­tivo que é reco­nhe­cer um mundo com­plexo diante de si, e faz isso de forma ins­tin­tiva. Por esse motivo é que a visão apre­sen­tada por um porco-espi­nho é muito sedu­tora, e ele faz muito mais sucesso em público, ao apre­sen­tar sua nar­ra­tiva coe­rente sobre o porquê de todas as coi­sas esta­rem do jeito que estão, e sobre o que deve­mos fazer diante da situ­a­ção, do que a raposa, que insiste em des­mon­tar nar­ra­ti­vas para inves­ti­gar e des­co­brir os deta­lhes da real com­ple­xi­dade do mundo.

Além disso, por­cos-espi­nhos for­ne­cem com frequên­cia ao público aquilo que api­menta ainda mais toda boa nar­ra­tiva: teo­rias cons­pi­ra­tó­rias. Quando con­fron­ta­dos com fatos extre­ma­mente com­ple­xos e que desa­fiam sua visão de mundo coe­ren­te­mente arru­mada em torno de um punhado de gran­des ver­da­des, os por­cos-espi­nhos for­ne­cem a sua audi­ên­cia uma teo­ria da cons­pi­ra­ção capaz de expli­car que, na ver­dade, por trás de todo aquele caos apa­rente há um grande e único fator que se encaixa naquela visão de mundo: uma cons­pi­ra­ção, seja dos judeus, seja dos Ilu­mi­nat­tis, seja do Foro de São Paulo.

Outra carac­te­rís­tica dos por­cos-espi­nhos é que pre­fe­rem ter por adver­sá­rios outros por­cos-espi­nhos, sim­ples­mente por­que isso con­firma a sua nar­ra­tiva. Afi­nal, o que seria de uma boa nar­ra­tiva se ela não tivesse, além dos heróis, os vilões, os ini­mi­gos? E ter como adver­sá­rios rapo­sas, sem­pre con­ci­li­a­do­ras, pro­pen­sas ao diá­logo (pois não ado­tam uma visão de mundo que exclui as demais), é deses­ti­mu­lante, já que não se ajus­tam ade­qua­da­mente à fan­ta­sia de ini­migo. Ter por­cos-espi­nhos como adver­sá­rios do outro lado é até mesmo vital para os por­cos-espi­nhos desse lado.

É por isso que intuí­mos em cer­tos con­fli­tos a exis­tên­cia de uma sutil sim­bi­ose entre ini­mi­gos mor­tais. É por isso que intuí­mos que os radi­cais sio­nis­tas de Israel pre­ci­sam dos radi­cais fun­da­men­ta­lis­tas do Islã, e esses pre­ci­sam dos radi­cais neo­na­zis­tas e isla­mo­fó­bi­cos da Europa. Já as rapo­sas são impres­tá­veis como ini­mi­gos, e facil­mente os porco-espi­nhos for­mu­lam uma retó­rica segundo a qual as rapo­sas ou são ingê­nuos que não per­ce­bem a ver­dade ou então são repre­sen­tan­tes do ini­migo, envi­a­dos na mis­são estra­té­gica e insi­di­osa de, com seu dis­curso con­ci­li­a­dor ou apa­ren­te­mente impar­cial, des­mo­ti­var as filei­ras dos defen­so­res da ver­dade.

Para com­pli­car a situ­a­ção de pes­soas que pen­sam como rapo­sas, já tão pouco pres­ti­gi­a­das no mundo, em nosso país nós temos um rótulo. Cer­ta­mente, como todo rótulo, foi ela­bo­rado por por­cos-espi­nhos, para pes­soas que se recu­sam a tomar uma posi­ção defi­ni­tiva sobre todos os temas: em cima do muro. E, como país latino-ame­ri­cano de forte tra­di­ção machista, há uma asso­ci­a­ção sutil entre ser “em cima do muro” e não pos­suir fibra, mas­cu­li­ni­dade sufi­ci­ente para tomar ati­tu­des deci­si­vas. Uma cari­ca­tu­ri­za­ção pobre, mas que fun­ci­ona muito bem em ambi­en­tes soci­ais nos quais se ins­taura. Só esque­ce­rem de lem­brar que é em cima do muro que se enxerga mais longe e de uma pers­pec­tiva mais ampla.

E é justo por essa razão que o mundo pre­cisa de mais rapo­sas e menos por­cos-espi­nhos. Pre­ci­sa­mos de pes­soas que tenham o olhar trei­nado para ver os pro­ble­mas do mundo de uma pers­pec­tiva ampla, de pes­soas com menos slo­gans e pala­vras-de-ordem e mais dis­po­si­ção para o diá­logo.

Indo mais longe, eu diria que o Ano Zero é um espaço con­for­tá­vel para rapo­sas, e não é sem motivo que nosso mas­cote vir­tual é Rey­nard, uma raposa de len­das medi­e­vais, que desa­fi­ava as auto­ri­da­des com sua astú­cia. Por outro lado, o pro­jeto Ano Zero é um lugar que deses­ti­mula a lógica do porco-espi­nho. Dito de outra forma, nosso obje­tivo é trans­for­mar por­cos-espi­nhos, na medida do pos­sí­vel, em rapo­sas, e pro­pi­ciar às rapo­sas já exis­ten­tes um espaço em que se sin­tam pro­te­gi­das para dia­lo­ga­rem e for­mu­la­rem suas con­cep­ções sobre a evo­lu­ção dos indi­ví­duos e da soci­e­dade sem a pres­são e ten­dên­cia rotu­la­dora dos por­cos-espi­nhos.

Então, você é uma raposa? Seja bem-vindo ao Ano Zero! E se você reco­nhe­ceu a si mesmo como porco-espi­nho, con­si­dere o belo e cora­joso desa­fio que será trei­nar seu olhar para reco­nhe­cer um mundo mais com­plexo e sur­pre­en­dente bem diante de seus olhos.

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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