(Recomenda-se, novamente, que este texto seja impresso e que se reserve tempo e atenção à sua leitura. Clique aqui para baixar uma versão PDF deste texto. A importância justifica tal precaução. Aos que optarem por continuar adormecidos, meia dúzia de páginas não serviriam mais do que meia dezena.)

Há cerca de três mil anos, uma revolução silenciosa começou no ocidente, em pequenas cidades-estados de uma península ao sul da Europa. Talvez tenha sido a maior revolução da humanidade, nascida não em meio a sangue e fogo, mas com teoremas e geometria. Tal foi seu impacto que até hoje ela transforma e determina nosso futuro. Essa revolução foi o nascimento da Razão.

Uma nova forma de consciência emergiu, um embrião que já havia sido concebido quando nossos ancestrais criaram as primeiras ferramentas, inventaram a primeira linguagem e assim abandonaram o sono em que vivem os outros animais. Persistente e viral, essa forma de consciência testemunhou o surgimento do cristianismo, sonhou a Idade Média, despertou na Renascença e proliferou-se na Revolução Industrial. Diante de seu avanço, tronos, templos e visões de mundo tombaram.

Novas formas de governo e sistemas econômicos sucederam a antigos paradigmas. Mas também se criaram armas capazes de exterminar toda a humanidade. Mal se investigou o átomo e já se forjaram maneiras de destruir todo o Planeta. A humanidade enlouqueceu diante de ideologias e totalitarismos, e quase não percebeu que, ao olhar para o mundo das subpartículas, havia feito sua maior descoberta.

Delirante e amedrontada diante da responsabilidade que é despertar do sono animal, a civilização flerta com a destruição do meio ambiente e com o fundamentalismo. Ansiedade, depressão e síndrome pânico tornam-se quase epidêmicos numa sociedade em que os antigos paradigmas são questionados. Ao mesmo tempo, a Revolução Tecnológica acena com um amanhã sem precedentes, capaz de redefinir a própria natureza humana num mundo de milagres cotidianos.

No ápice desse processo de transição está você, leitor. Está toda a sociedade atual, posicionada bem no início da maior transformação da história humana. A humanidade abre seus olhos, desperta ainda mais de seu sono. Este é um momento decisivo. Quem voltar a adormecer não passará pelo grande filtro que divide a obsolescência da evolução.

E, diante de nós, está o grande Problema Humano. O principal obstáculo a ser enfrentado por cada indivíduo consiste em viver no mundo atual, complexo e dinâmico, utilizando um sistema cognitivo/decisório que foi útil aos nossos antepassados, mas que hoje se revela desatualizado, em crise.

Depressão, ansiedade, pânico, desigualdade social, fanatismo, desastres ecológicos, terrorismo: tudo isso são reflexos de um só problema, que deve ser solucionado mediante a reestruturação desse sistema cognitivo/decisório. A reestruturação exige que se conheça a estrutura desse sistema, exige um mapa para entendê-lo.

No texto anterior, primeira parte da segunda etapa do processo de aprendizado, já foi exposto em detalhes o Problema Humano e quem você realmente é. O texto foi denso para permitir a separação do joio do trigo, o leitor casual do leitor comprometido. Feita a separação (outros filtros virão), podemos prosseguir na parte final da segunda etapa, em que será apresentado o mapa que permitirá entender esse sistema cognitivo/decisório a ser remodelado por cada um de nós. Porém, antes se oferece uma oportunidade de recapitulação, sempre útil para fixar conceitos já aprendidos.

SÍNTESE DO QUE JÁ FOI APRESENTADO

1. A descoberta mais importante da humanidade:

Como vimos na primeira e segunda partes da primeira etapa, a ciência descobriu que o universo em que vivemos não é o que pensamos ser, da mesma forma que a Terra não é plana como nossos antepassados supunham. O universo é o que se convencionou chamar de hiper contexto, o local em que todas as realidades prováveis coexistem simultaneamente, em sobreposição, cada qual distinta das demais pelo entrelaçamento de seus elementos.

No mesmo universo, portanto, existem múltiplas realidades alternativas. E novas realidades alternativas emergem a cada momento.

Não chamamos essas múltiplas realidades coexistentes de “universos paralelos” (nem o hiper contexto de “multiverso” ou “muitos mundos”), por tratar-se de denominação que induz ao erro de supor-se que há uma rigorosa separação entre tais realidades. Prefere-se chamar alternadamente de “realidades alternativas”, “contextos” ou “tramas de realidade”, nome esses que se referem a uma mesma coisa e que são, portanto, intercambiáveis.

Tais nomes se alternam, porém, por fins didáticos, pois cada qual ressalta um aspecto conceitual específico dessa mesma coisa. Assim, “realidade alternativa” salienta a multiplicidade de realidades que há no hiper contexto, na qual nenhuma é mais verdadeira que a outra; já “trama de realidade” ressalta o entrelaçamento inerente a todas as coisas e seres que existem em cada uma dessas realidades; por fim, “contexto” realça a natureza circunstancial dos parâmetros escolhidos para distinguir uma realidade de outra – pois, na verdade, não há qualquer separação: todas habitam o mesmo universo, todas existem aqui e agora.

No âmbito humano, o destino de cada um de nós é ramificado em vários caminhos desde o nascimento. Cada um desses caminhos realiza uma probabilidade concreta de futuro. O conjunto dessas probabilidades é delimitado pelas circunstâncias específicas que nos permitiram nascer em determinado contexto, e isso inclui conjunturas biológicas, históricas e socioeconômicas relacionadas a nossos pais e origem.

A cada escolha em sua vida, leitor, a cada evento decisivo em sua história pessoal, o seu destino ramificou-se e ramifica-se desde seu nascimento, dando gênese a várias versões alternativas de você. Em inúmeras realidades alternativas, há inúmeras versões de sua identidade, todas originárias do mesmo ponto inicial. Você é uma delas. Outras também leem este texto. Outras, ainda, o ignoram completamente.

2. Quem você realmente é:

Como vimos na primeira parte desta segunda etapa, a natureza adota diversas estratégias evolutivas para que os organismos vivos possam sobreviver e reproduzir-se no hiper contexto. No reino vegetal, a principal estratégia foi otimizar a fotossíntese pela escolha do processo mais veloz e eficiente para cada contexto em que a mesma planta existe. No reino animal, a natureza adotou a estratégia de criar um órgão que segmenta cada contexto e o percebe como se fosse um todo coeso, ignorando a contínua emergência de novas realidades. Assim, o organismo pode encontrar alimento, proteção para ameaças e oportunidades de reprodução.

Esse órgão é o cérebro.

Se por um lado o entrelaçamento impede a interação de coisas e seres que existem em tramas de realidade distintas, por outro o cérebro não permite que nosso “eu” perceba a constante ramificação da própria vida. A realidade em que uma pessoa acredita viver é, na verdade, um modelo de mundo dinamicamente construído e atualizado a cada fração de segundo por seu cérebro, com base em informações relevantes que filtra a partir daquilo que é informado pelos órgãos de percepção.

Dentro desse modelo de “realidade” criado por nosso cérebro a cada instante, desenvolveu-se um modelo de identidade pessoal, de protagonista da própria vida. Trata-se do ego, inserido na consciência humana, entendendo-se consciência como a função que vivencia um só contexto como se fosse o único existente.

Dessa perspectiva, você e a realidade em que pensa viver são uma narrativa que só existe neste instante presente e que seu cérebro constrói e conta para si mesmo a cada momento. Essa narrativa é constantemente reforçada pela narrativa interna de todos os outros seres vivos que compartilham da mesma trama de realidade em que você vive, compondo no total uma narrativa coletiva, um ecossistema conceitual criado pela natureza no hiper contexto.

Isso será um ponto de muita importância nas etapas futuras de nosso processo de aprendizado.

Porém, de uma perspectiva maior, você é mais do que seu ego ilusório. É que cada uma das versões alternativas que existe de você, vivendo cada qual sua vida em uma realidade alternativa distinta das demais, está interligada a todas as outras no âmbito hiper contexto. Nesse sistema de rede, há uma identidade superior, central, responsável pela contínua emergência de novas versões de sua vida, e pela coordenação de cada versão alternativa. A esse sistema de rede de consciência, dá-se o nome de Matriz. A esse eu superior e central, dá-se o nome de Self.

As razões dessas últimas denominações logo serão explicadas. O importante é compreender que, no hiper contexto, você é ego, Matriz e Self.

É neste ponto em que estamos. E se tal síntese pareceu a descrição de algo jamais visto, trata-se de uma ilusão de ótica, resultado de não se ter utilizado termos técnico-científicos (como função de onda, decoerência, inconsciente coletivo,…). Aqui, nada há de novo.

Na verdade, assim como o hiper contexto foi investigado pela física no século XX, também o território da Matriz, inserido no hiper contexto, foi descoberto e estudado no mesmo período. E é nesse território que precisamos operar a reestruturação de nosso sistema cognitivo/decisório, se quisermos superar o Problema Humano e evoluir enquanto indivíduos e sociedade

No século XX, duas pessoas criaram um mapa para esse território. Um deles foi um dos maiores físicos de nossa era, que se aventurou e explorou o território da Matriz em seus sonhos. O outro foi um alquimista moderno, que elaborou um mapa a partir da exploração do físico.

Para entender o mapa, e conseguir utilizá-lo, precisamos conhecer um pouco da história do explorador e do cartógrafo.

O FÍSICO E O ALQUIMISTA

Wolfgang Pauli, que merecidamente ganhou o Nobel de física em 1941, foi um dos gênios de sua época e pioneiro da física quântica. Como todo indivíduo de inteligência excepcional, porém, Pauli não conseguia ajustar-se completamente a uma sociedade que percebia como atrasada. Nada nem ninguém sobrevivia ao escrutínio de seu intelecto. Entre colegas, era temido pela dura forma de expressar seu rigor científico.

Pauli teve uma infância infeliz, pois sua mãe havia cometido suicídio e seu pai casou-se com uma mulher que ele abominava. Essa experiência refletiu-se na vida adulta, em que Pauli teve uma série de relacionamentos conturbados. Logo após o fim de um breve casamento, em 1931, ele decidiu procurar Carl Gustav Jung, na época um dos mais célebres psicólogos do mundo.

Jung, naquele tempo, tentava consolidar suas teorias sobre a psique, após ser expulso da comunidade freudiana ao discordar da visão reducionista que a psicanálise tinha da natureza humana. Sua empreitada levou-o a aprofundar-se na leitura de antigos tratados alquímicos, pois desconfiava que os alquimistas medievais descreviam, de forma cifrada e simbólica, um processo em que mente e matéria transformavam-se reciprocamente. Por isso, Jung interessava pelas descobertas da física quântica, que sugeria um vínculo entre o observador e a matéria observada.

Carl Gustav Jung (esq.) e Wolfgang Pauli (dir.)

Pelos interesses em comum, logo o físico e o alquimista se tornaram grandes amigos. Pauli e Jung passavam horas discutindo sobre os enigmas da mente humana e da matéria. Enquanto Pauli se interessava pelas ideias de Jung sobre “inconsciente coletivo” e “arquétipos”, Jung atraía-se pela relação de complementaridade que há entre as chamadas subpartículas atômicas. Dessas conversas surgiu “A Interpretação da Natureza e da Psique” escrito em co-autoria e publicado em 1952.

Psicologia e Alquimia

Simultaneamente, Jung tratava as feridas emocionais de Pauli na terapia. E o tratamento consistia em Pauli anotar os sonhos que tinha todas as noites, apresentando-os em seguida a Jung e seus assistentes. Os sonhos, então, eram analisados à luz da teoria de Jung sobre a natureza da mente humana.

Enquanto Pauli sonhava, Jung procurava comparar os sonhos do físico moderno à simbologia dos antigos alquimistas, esboçando um sistema de correspondências. Aos poucos, a topografia de um território foi surgindo. O que ambos estavam fazendo, logo perceberam, era explorar um local que Pauli visitava todas as noites – um local que todos nós visitamos ao dormir.

Foi assim que o físico moderno ajudou o alquimista a elaborar o seu grande tratado intitulado Alquimia e Psicologia.

Nessa obra, Jung demonstrou que o trabalho dos antigos alquimistas era realizado, paralelamente, em dois níveis. No primeiro nível, manipulavam os elementos químicos em laboratório. No segundo, realizavam operações simbólicas dentro de sua própria mente, na busca de realizar uma espécie transmutação psíquica.

Mais ainda, Jung demonstrou que os símbolos descritos pelos alquimistas estavam vivos no homem moderno, pois eram manifestações de elementos presentes em todas as mitologias, religiões e tradições antigas da humanidade. Foi assim que ele consolidou o mapa que nos ajudará a reestruturar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados.

Faltava, porém, achar o Norte, estabelecer os quadrantes e escala que permitem sobrepor o mapa ao território descrito. É que os alquimistas e os físicos do século XX não tinham acesso a conceitos que só a evolução dos sistemas computacionais modernos tornaram de uso corrente. Também faltava à ciência reconhecer, sem medo, a natureza daquilo que a física havia descoberto.

Por isso, o mapa criado por Jung com a ajuda dos sonhos de Pauli torna-se mais compreensível e ganha cores mais vivas quando considerado da perspectiva da mente humana inserida no hiper contexto. Jung sempre aspirou a correspondência de sua teoria com a descoberta feita por Pauli e seus colegas, e intuiu essa verdade ao afirmar que tal descoberta “no obriga a abandonar uma descrição causal de qualquer sistema inserido no espaço tempo, colocando em seu lugar um invisível campo de probabilidades que ocorrem em espaços multidimensionais” [1]Collected Works 8, § 438.

Esses espaços multidimensionais em que as probabilidades se manifestam é o que chamamos de “hiper contexto”. E a melhor forma de compreender a correspondência entre hiper contexto e mente humana é com o uso de metáforas computacionais.

UM MAPA FEITO DE METÁFORAS

No decorrer de todo o processo de aprendizado, foram e serão utilizadas toda sorte de metáforas: filosóficas, mitológicas, computacionais e alquímicas. Metáforas são úteis quando se trata de apresentar e descrever uma realidade extremamente contraintuitiva. Porém, qualquer metáfora perde sua utilidade quando deixa de ser utilizada de forma racional e passa a ser confundida com o aspecto da realidade que tenta descrever.

Toda metáfora tem limites. Vencidos esses limites, a metáfora passa a dar origem a erros, a produzir ignorância e não conhecimento. Muitas vezes, pode até produzir o tipo mais pernicioso de ignorância: o fanatismo religioso.

A partir de agora, metáforas serão usadas com mais abundância. E é possível que o leitor perceba gradualmente a existência de correlações entre as metáforas utilizadas, como se uma ordem emergente fosse revelada através delas. Quanto maior for a compreensão da realidade que o conjunto de metáforas tenta descrever, maior será a impressão de que há uma correspondência.

Essa correspondência, porém, não é sinal de que as metáforas são, elas próprias, a realidade. A correlação é apenas decorrência do fato de que, naturalmente, a realidade descrita é consistente em si mesma, e um sinal de que as metáforas foram manejadas de forma adequada. Essa é a razão de as mitologias de distintas culturas guardarem estreita correlação em determinados pontos.

Não só mitologias, mas outros sistemas de símbolos de antigas tradições refletem aspectos da relação entre ego, Matriz e Self. Afinal, essa é real estrutura da natureza humana, que intuitivamente nossos antepassados descreveram em seus mitos.

Os mitos e sistemas de símbolos da antiguidade foram, portanto, os primeiros mapas a descrever esse território desconhecido, que experienciamos de forma mais profunda quando sonhamos à noite. Todos esses mapas podem ser úteis, alguns mais que outros, desde que jamais confundamos um mapa com o território descrito.

Porém, no século XX, Jung elaborou o mapa capaz de incluir todos os outros mapas, ao mesmo tempo em que foi capaz de descrever a identidade humana no âmbito do hiper contexto com grande precisão.

Seu trabalho, contudo, estava a frente de seu tempo, e Jung tentou ajustá-lo à moldura do pensamento científico tradicional, vendo-se obrigado a manter discrição sobre certos aspectos de sua proposta. Por outro lado, faltava à época um paradigma que permitisse uma correta compreensão daquilo que Jung descrevia – paradigma que hoje temos à nossa disposição, a medida em que conceitos como computação em rede, inteligência artificial e realidade virtual tornam-se habituais em nosso cotidiano.

A metáfora computacional

De todas as metáforas, é a computacional que melhor nos ajudará a compreender profundos aspectos não só da natureza humana, mas também de uma parte da realidade que ignoramos. Se a nossos antepassados fosse perguntado se o cérebro humano é um computador que cria a consciência ou é apenas uma antena receptora de uma consciência existente em outro lugar, suas melhores respostas seriam, no máximo, apenas em parte corretas.

Graças aos sistemas computacionais em rede que hoje existem, sabemos que a resposta é mais complexa. O cérebro é, ao mesmo tempo, computador e antena receptora, metaforicamente falando. Enquanto “computador”, o cérebro constrói dinamicamente a cada fração segundo um modelo de mundo em que julgamos viver e um modelo de identidade pessoal, de ego, que acreditamos ser o protagonista de nossas vidas.

Enquanto “antena receptora”, o cérebro opera no âmbito do hiper contexto, ou seja, do universo enquanto multiplicidade de realidades alternativas. Dessa forma, cada versão alternativa do mesmo indivíduo está conectada a uma rede composta por todas as versões desse mesmo indivíduo, coordenadas por um Eu Superior, ou Self.

Há, ainda, um outro conceito computacional que precisamos usar como metáfora: o conceito de “sistema operacional”. O sistema operacional é o principal programa ou software de um computador, pois sua função é fazer a interface entre o equipamento físico e o usuário da máquina. O sistema operacional, portanto, possui um aspecto abstrato, simbólico, que permite ao usuário dar ordens que serão traduzidas em atividades concretas pela máquina.

Esse aspecto abstrato compõem um sistema de símbolos – e esse sistema de símbolos é uma “linguagem de programação”. As linguagem de programação mais complexas, inclusive aquelas que compõem um sistema operacional, são chamadas de “linguagem de programação orientada a objetos”. Nesse tipo de linguagem, os “objetos” são “módulos” que interagem e executam tarefas do programa em que estão inseridas.

Assim como equipamentos isolados, redes de computadores dependem de um sistema operacional de rede, utilizando uma linguagem de programação para coordenar todo o tráfego de comunicação processado por essa rede. Em alguns casos, essa linguagem de programação utiliza aqueles “objetos” para executar tarefas.

Essas metáforas de rede computacional, sistemas operacionais e redes, quando inseridas no hiper contexto, em que várias versões de um mesmo indivíduo coexistem, são a chave que faltava para a compreensão do mapa elaborado por Jung. São a chave para compreendermos o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados, que precisamos reestruturar para evoluir.

Isso porque a “rede” que conecta todas as versões de um mesmo indivíduo existentes no hiper contexto opera com um “sistema operacional” que Jung chamou de inconsciente coletivo – e que se prefere chamar aqui de Matriz. Esse sistema operacional, por sua vez, manifesta-se numa “realidade virtual” percebida nos sonhos e que é estruturada por uma “linguagem de programação” composta por “objetos”, que Jung batizou de arquétipos. No centro dessa estrutura de arquétipos, está nossa identidade fundamental, o Eu Superior ou Eu Profundo, que coordena todas as versões emergentes de um mesmo indivíduo, e que Jung batizou de Self.

A função de todo esse conjunto é coordenar todas as inúmeras versões que existem do mesmo indivíduo, auxiliando cada mente particular na construção dinâmica de modelos de mundo e permitindo que, diante da emergência contínua de novas realidades alternativas, o ego tenha percepção de que existe uma só realidade e uma só identidade pessoal, processo a que Jung batizou de Individuação.

A individuação, porém, também consiste na contínua adaptação evolutiva de todo esse sistema às mudanças do meio ambiente ao longo do hiper contexto – uma atualização constante do software, metaforicamente falando. No passado recente, como veremos, esse sistema passou por uma importante atualização, embora em nada comparada à alteração rápida e extrema que a humanidade precisa realizar neste momento.

Mas essa experiência pretérita da humanidade é fundamental para entendermos o que precisamos fazer agora, nesta etapa decisiva da civilização, com o auxílio do mapa elaborado pelo físico e pelo alquimista, pois se inserem numa mesma lógica de atualização do sistema cognitivo/decisório do organismo humano.

A MENTE BICAMERAL

Se Jung estudou tratados medievais e os sonhos de um pioneiro da física quântica para elaborar seu mapa, o norte-americano Julian Jaynes estudou os épicos da antiga Grécia e os moderno conhecimento do cérebro humano para fazer uma notável descoberta sobre sobre a origem da própria civilização e da consciência humana.

Ao analisar Ilíada e Odisseia, justo as principais obras da cultura que nos legou a revolução do pensamento racional, Jaynes notou uma diferença perturbadora entre ambas. A interação entre deuses e heróis na Ilíada e a forma como os mortais expressavam emoções e decisões era muito diferente da forma narrada na Odisseia.

E não se tratava de uma diferença de estilo. Jaynes notou igual transição nas obras de outras civilizações do período. Parecia tratar-se, na verdade, o indício de que houve uma mudança na forma de nossos antepassados pensarem.

Na Ilíada, que conta a história da guerra de Troia, os deuses do Olimpo entram em cena a todo momento para representar cada decisão e sentimento dos herois gregos, como se os mortais fossem incapazes de ter pensamentos conscientes sem o intermédio dos deuses. Os personagens mortais da Ilíada, além disso, estavam constantemente ouvido vozes ou vendo a presença de deuses nos momentos decisivos da história.

Já na Odisseia, que conta o retorno de Ulisses a seu lar após a guerra de Troia, a participação de deuses é menos frequente. Eles não estão sempre presentes quando um mortal decide ou sente algo. Os personagens humanos são capazes de ter emoções e tomar decisões sem intervenção divina.

Isso levou Jaynes a desenvolver uma teoria extraordinária sobre o desenvolvimento da consciência humana, partindo do fato de que cada ser humano possui, efetivamente, dois cérebros.

Os dois cérebros

Embora muitos delirem quando se trata de falar dos hemisférios esquerdo e direito do cérebro humano, alguns fatos precisam ficar claros. Fato um: ambos os hemisférios são, rigorosamente falando, dois cérebros distintos, sendo absolutamente correto afirmar que há dois cérebros existindo numa mesma pessoa, assim como há dois pulmões e dois rins. Fato dois: apesar da plasticidade cerebral e da possibilidade de ambos os cérebros desempenharem funções conjuntas ou substituírem-se reciprocamente, é incontroverso que há funções específicas de cada cérebro, típicas de um ou de outro hemisfério.

Essa especialização é chamada de lateralização de processos cognitivos. Desse modo, está comprovado que funções relacionadas à gramática, vocabulário e pensamento lógico-matemático estão associados ao hemisfério esquerdo (que é responsável pelo lado direito do corpo humano). Há, inclusive, uma síndrome chamada Discalculia, identificada pela incapacidade de compreender o raciocínio matemático e que está associada à lesão do lóbulo temporal do “cérebro” esquerdo.

Os personagens da Ilíada não são capazes de pensamentos e decisões dissociadas da interação divina.

Já o “cérebro” direito, por sua vez, desempenha com predominância as funções relacionadas à percepção musical, orientação espacial, criatividade e tomada de decisões. A própria atividade de sonhar ocorre tipicamente no hemisfério direito. Há, inclusive, distúrbios como a Síndrome de Capgras, caracterizada pelo delírio de que um familiar próximo foi substituído por um impostor, e que está associada à lesões no hemisfério direito.

A comunicação entre os dois cérebros que habitam um mesmo indivíduo é possível graças a uma estrutura que existe entre ambos, chamada corpus callosum. Trata-se, basicamente, de um feixe de fibras neuronais que faz a ponte entre o cérebro esquerdo e direito. Uma de suas peculiaridades é o fato de ser a única estrutura cerebral que pode desenvolver-se e crescer mesmo no cérebro de um indivíduo adulto (quando todas as outras estruturas cerebrais param de crescer), havendo provas de que o corpus callosum pode aumentar através da meditação profunda.

A proposta de Jaynes foi que, na época em que os antigos gregos escreveram a Ilíada, a interação entre os “dois cérebros” de um indivíduo dava-se de forma menos integrada do que na época em que a Odisseia foi elaborada. Em outras palavras, analisando-se as narrativas tanto de Ilíada como de Odisseia, tem-se pistas de como funcionava o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados.

No período da Ilíada, havia menor integração entre os cérebros direito e esquerdo de qualquer indivíduo. Por isso, havia dois sistemas, dois softwares para os dois computadores, e a comunicação entre ambos ocorria de forma bem peculiar. A identidade pessoal do indivíduo era elaborada por seu “cérebro esquerdo”, e quando essa identidade recebia informações do “cérebro direito”, responsável pela tomada de decisões, processava-as como alucinações auditivas e visuais.

Vimos que o mundo ao nosso redor é um modelo de mundo construído por nosso cérebro com base nas informações sensoriais (visão, audição, olfato, paladar, tato,…), no centro do qual está o modelo de identidade também construído, o ego (função do hemisfério esquerdo). Para nossos antepassados, não havia como distinguir entre sons e visões representando a realidade exterior e aquelas representando comunicações feitas pelo hemisfério direito do cérebro.

Essas alucinações auditivas e visuais eram, portanto, consideradas reais, e apresentavam-se na forma de personagens que, por sua vez, representavam aspectos distintos de nossos padrões de pensamento. Esses personagens, representantes de aspectos fundamentais da natureza humana, eram vistos como deuses.

Em resumo, na época em que foi escrita a Ilíada, nossos antepassados possuíam possuíam uma mente dividida em “dois softwares”, um para cada hemisfério. Num estava a identidade pessoal do indivíduo; na outra, moravam os deuses de sua civilização. Julian Jaynes chamou esse funcionamento de Mente Bicameral.

Por isso é que nossos antepassados deixaram tantos relatos sobre encontros com deuses e entidades mágicas: eles realmente viam essas entidades, e a alucinação era reforçada coletivamente por todos os membros da comunidade. Por isso também é que os antigos deuses costumam ser associados a sentimentos e “estados de espírito” tipicamente humanos, o que pode ser até hoje contatado por expressões como “comportamento jovial” (de Jove, o deus Júpiter romano), erotismo (o deus grego Eros) e ninfomania (das ninfas gregas).

Já no período em que foi escrita a Odisseia, já havia ocorrido uma “atualização” dos dois softwares de ambos os hemisférios: aprimorou-se a integração entre ambos. E a isso correspondeu o maior desenvolvimento do corpus callosum.

A partir dessa maior integração, o ser humano tomou consciência direta de seus próprios pensamentos e sentimentos, apropriando-se deles e reconhecendo-os como pertencentes a si próprio, ou seja, ao modelo de identidade, de “ego”, criado pelo hemisfério esquerdo. O protagonista da obra, Ulisses, representa, de certa forma, a emergência do ser humano moderno.

Ulisses, em Odisseia, é capaz de pensamentos e sentimentos independentes.

Esse foi um passo evolutivo importante, o verdadeiro nascimento da consciência humana tal como a conhecemos. E esse passo ocorreu, obviamente, não apenas na antiga Grécia, mas em outras civilizações do período.

E é a sequência desse passo evolutivo que precisamos dar neste momento, pois enquanto o hemisfério esquerdo é responsável pela criação dinâmica do ego humano no âmbito de um contexto, o hemisfério direito é responsável pelo processamento da nossa conexão com a Matriz, a rede que conecta as várias versões do mesmo indivíduo no hiper contexto. Esse ambiente de rede funciona com uma “linguagem de programação” composta de sistemas de símbolos que Jung chamou de “arquétipos”. E os arquétipos, por seu turno, são retratados como deuses pelas várias mitologias criadas pela humanidade.

Assim, o que Jung fez foi apresentar um mapeamento da interface simbólica desse sistema operacional em rede. Os elementos fundamentais de tal sistema são a Matriz, os arquétipos, o ego e o self. O diálogo entre esses elementos é de natureza alegórica ou mítica, e o contexto da interação, como se verá, é o da sincronicidade.

MATRIZ, O REINO SEM ESPAÇO

A denominação “inconsciente coletivo” é herança da tentativa de Jung ajustar sua teoria à comunidade influenciada pelo pensamento de Freud, que girava em torno do conceito de “inconsciente pessoal” . Mas “inconsciente coletivo” é um nome apropriado apenas do ponto de vista do ego humano – não há nada de realmente “inconsciente” no fenômeno descrito por Jung.

De qualquer modo, Jung definia o inconsciente coletivo como a “matriz de todos os acontecimentos psíquicos”, contendo registros da vida psíquica desde nossos ancestrais mais remotos e exercendo influência sobre a consciência de cada indivíduo continuamente.

“Minha tese”, disse Jung, “é que em adição à consciência imediata”, ou seja, à mente situada num contexto, “existe um segundo sistema psíquico de natureza coletiva, universal e impessoal, que é idêntico para todos os indivíduos”. “Este inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado”, sendo constituído por “formas pré-existentes, os arquétipos” [2]CW 9, § 43.

Metaforicamente, chama-se de “inconsciente coletivo” a uma “realidade virtual” que visitamos todas as noites em nossos sonhos. Essa realidade virtual é o “sistema operacional de rede” que controla a rede de consciências composta pelas versões alternativas de um mesmo indivíduo, versões que existem em realidades alternativas do hiper contexto. Quando dormimos e sonhamos, esse sistema operacional consolida as principais vivências diárias de todas as versões da mesma pessoa, representando-as em um universo simbólico, de natureza arquetípica (a seguir veremos o que são os arquétipos).

Independentemente do nome, aquilo que Jung chamava de “inconsciente coletivo” remete à noção de espaço onde certos elementos existem e interagem entre si. Não é por outro motivo que Jung identificou, nos sonhos de seus pacientes, nos mitos e nas tentativas artísticas de representar esse conceito, a forma espacial de um jardim ou território “sagrado”. “Na geografia mítica”, observou o filósofo Mircea Eliade, “o espaço sagrado é o espaço real por excelência, pois para o mundo arcaico o mito é real, já que descreve as verdadeiras manifestações da realidade”.

Também observou Jung, inclusive nas mitologias de diversos povos, que o “inconsciente coletivo” sempre foi retratado na forma de uma estrutura circular, de regra dividido em quatro quadrantes, e que denominou de “Mandala”.

Mandalas são imagens simbólicas que, em diversas mitologias e tradições, buscam representar “o mundo”, “o universo”, “o reino dos deuses” ou a “alma humana”. Digno de nota é o fato de que em todas as culturas os mandalas possuem forma circular e, de regra, uma divisão em quatro ou oito quadrantes, com um eixo central em torno do qual todos demais elementos são dispostos. Tratam-se de representações da Matriz.

Prefere-se chamar o “inconsciente coletivo” de “Matriz” para exorcizar a noção de que se trata de algo inerentemente “inconsciente”, ou seja, desprovido de consciência. Na verdade, no centro desse “sistema operacional de rede”, há uma consciência superior, perfeitamente ciente de tudo o que está se passando no sistema e na vida pessoal de cada versão de um mesmo indivíduo. A escolha do nome “Matriz” deve-se à riqueza de significados e implicações dessa palavra.

Em biologia, matriz é o meio bioquímico no qual estão inseridos os componentes de um sistema. Da mesma forma, todas as versões de um mesmo indivíduo existentes no hiper contexto tem suas consciências inserida num mesmo ambiente, num “mesmo sistema operacional de rede”. Etimologicamente, a palavra vem do nominativo latino matrix, que significa “mãe” e é associado a “útero”, “fonte” e “origem”. É por isso que matriz também significa “modelo original” do qual podem ser reproduzidas cópias, tal como os moldes da antiga tipografia.

O sistema operacional que funciona em ambiente de rede unindo todas as versões de um mesmo indivíduo pode ser descrito como uma “realidade virtual”.

Porém, o adjetivo “virtual” é usado apenas no sentido de que essa realidade em si mesma não precisa obedecer as leis da realidade física. Por outro lado, como deve ter ficado evidente na primeira parte desta etapa de aprendizado, não conhecemos “a realidade física” tal qual é, mas apenas aquilo que é construído por nosso cérebro com base no que nossos sentidos assimilam do mundo exterior. Dessa construção nasce dinamicamente uma percepção de mundo exterior que tomamos por realidade.

Platão já intuía esse aspecto ao falar de “formas puras”. Observe uma cadeira. Quando você olha para uma cadeira concreta próxima de você, na verdade não está olhando cadeira alguma. Seu cérebro atribui a alguma coisa lá fora o conceito universal de “cadeira”, um molde conceitual, um “arquétipo” que informa a estrutura e função de todos os objetos que você chama de “cadeiras”. Essa “alguma coisa” que você olha, porém, é algo único, exclusivo, composto de certos materiais e com uma forma que permite a associação imediata à ideia arquetípica de “cadeira”.

Isso não vale apenas para objetos criados pelo homem, mas também para formas naturais como as árvores. E como já intuía Emmanuel Kant, conceitos cada vez mais sutis como “cor”, “tamanho”, “movimento” e “dimensões espaciais” são apenas constructos da mente para apreender uma totalidade que está lá fora e é representada pelo cérebro como um modelo de realidade.

Bardos: as diversas manifestações da Matriz

Olhe ao seu redor, leitor. O que você observa como “mundo” real é um modelo elaborado por seu cérebro dinamicamente, atualizado a cada fração de segundo – e essa velocidade e eficiência só é possível na física quântica. Esse modelo dinâmico é molde de uma matriz de formas e intuições arquetípicas que existem naquele “ambiente operacional de rede” que Jung chamou de “inconsciente coletivo”.

Não é que a realidade lá fora não existe. Ela existe, mas só a compreendemos através de um modelo continuamente atualizado dentro de nossas mentes e que tem por manancial a Matriz, ou seja, o “sistema operacional de rede” que une todas as versões do mesmo indivíduo.

Esse é um dos motivos pelo qual, quando sonhamos todas as noites, nossos sonhos em muitos aspectos parecem semelhante ao mundo real. Quem se deu ao trabalho de estudar as visões de esquizofrênicos e de pessoas que consomem substâncias alucinógenas depara-se com a descrição de um universo de formas e cores bem distinto daquele de nossos sonhos. Salvo exceções que apenas confirmam a regra, os sonhos noturnos da grande maioria das pessoa descreve uma realidade que reproduz os traços básicos da realidade que vemos quando despertos.

Na verdade, quando sonhamos estamos vivenciando o ambiente de rede da Matriz em sua forma usualmente desconectada do mundo exterior, em que não está sujeita às leis da física. Porém, é dessa mesma Matriz, do “inconsciente coletivo” de Jung, que surgem os elementos com os quais nosso cérebro constrói, quando estamos acordados, um modelo de mundo que tomamos por realidade concreta.

Esse modelo de mundo da realidade desperta, portanto, é a outra face da mesma moeda composta pelo mundo com que sonhamos todas as noites. São aspectos diferentes de uma mesma realidade virtual, de dia acoplada ao mundo real (que é inacessível diretamente, somente percebida pelos sentidos) e de noite livre para a manifestação dos arquétipos e consolidação de experiências vividas por todas as versões de um mesmo indivíduo.

Essas distintas faces da mesma moeda tem um nome específico na tradição budista: “Bardo”. Porém, metaforicamente não é adequado falar em faces da moeda, mas em lados de um dado. E assim é porque na Matriz existem mais do que as duas faces do sonhar e do estar desperto.

Originalmente, a palavra tibetana “Bardo” significava “estado intermediário” – especificamente, intermediário entre duas vidas de uma mesma pessoa. Porém, rigorosamente falando, não há estado que “não seja intermediário”, que não opere a intermediação entre diversos estados do ser. Assim o significado budista de “bardo” evoluiu com tempo, e podemos utilizá-lo neste momento, como metáfora, em sua acepção mais sofisticada.

Assim, chamam-se de “bardos” os modelos de realidade construídos pela Matriz para cada experiência humana fundamental.

Há, na tradição budista, seis Bardos, que podemos perceber, metaforicamente, como aspectos da manifestação da Matriz:

1 – O bardo da vida desperta (Kyenay bardo): é o modelo de mundo construído por seu cérebro ao ignorar o hiper contexto e representar um só contexto como sendo “a única realidade” existente;

2 – O bardo do sonhar (Milam bardo): é o modelo de “realidade virtual”, metaforicamente falando, que você visita todas as noites durante o sonho;

3 – O bardo da meditação (Samten bardo) : é o modelo de realidade em que há conexão com o Self ;

4 – O bardo da morte (Chikhai bardo): é um modelo de realidade crítico e suscetível de ataques por forças externas, como exporemos no futuro;

5- O bardo da luminosidade (Chönyi bardo): é o modelo de realidade em que vive e opera o Self; e

6 – O bardo da transmigração (Sidpa bardo): é o modelo de realidade que contém os aspectos fundamentais da identidade pessoal vivenciada por cada pessoa;

Enquanto estamos vivos, temos a experiência apenas dos dois primeiros bardos. Naturalmente, quando o corpo biológico da versão de um indivíduo que existe no hiper contexto morre, o modelo de identidade que estava associado a esse corpo não deixa de existir. Ele prossegue existindo na Matriz, no ambiente de rede.

A noção de Matriz é poderosa, e há aspectos sobre os quais se poderia falar muito mais. Por exemplo, é evidente que a Matriz, o sistema operacional de rede em que estão interconectadas todas as versões de um mesmo indivíduo, não se limita apenas a um indivíduo, membro de uma espécie. Essa é justo a origem daquilo que Rupert Sheldrake denominou “campo morfogenético”, que permite evoluções simultâneas em populações biológicas descontínuas. Na verdade, a Matriz tampouco se limita apenas a uma só espécie.

Esses aspectos porém, não são relevantes neste momento. Haverá, no futuro, espaço para tratar disso em detalhes. O importante agora é entender como operam as principais estruturas componentes da Matriz no âmbito de um indivíduo e suas diversas versões – os elementos que compõem a “linguagem de programação”.

OS ARQUÉTIPOS

Como disse o filósofo e historiador romeno Mircea Eliade, “o estudo racional das religiões revela um fato que não foi suficientemente assinalado até hoje: existe uma lógica do símbolo, ou seja, certos grupos de símbolos se mostram coerentes, logicamente encadeados entre si”, manifestando-se de forma onipresente em todas as religiões. É de tais símbolos que trataremos agora, pois constituem a linguagem de programação do ambiente de rede que une as inúmeras versões do mesmo indivíduo existentes no hiper contexto.

Pensadores como Eliade, Joseph Campbell e Julian Jaynes identificaram notáveis semelhanças entre mitos e religiões de diversas culturas separadas por intransponíveis obstáculos geográficos ou cronológicos. Nada podia explicar a semelhança senão a tentativa humana de representar simbolicamente uma realidade fundamental e contraintuitiva.

Segundo Jung, o inconsciente coletivo ou Matriz é composto por elementos simbólicos que representam as experiências mais fundamentais da vida humana. Esse elementos são formados por todo o acúmulo de vivências de nossos antepassados. Jung chamou tais elementos de “Arquétipos”.

A riqueza dos arquétipos.

Os arquétipos, representantes que são de aspectos fundamentais da vida humana, estão onipresentes nos mitos e narrativas épicas de todas as culturas, assim como estão presentes vividamente nos sonhos que temos todas as noites. Deuses, demônios, heróis e figuras mágicas de nossos antepassados retratavam aspectos essenciais desses arquétipos.

E não apenas personagens tipicamente presentes em uma vida humana (como “Mãe” e “Morte”) são representados por mitos. Processos como “movimento circular”, estruturas como “mandala” e eventos míticos como “inundação” estão sempre presentes, de uma forma ou de outra, no imaginário de todas as mitologias, como alegorias de profundas verdades humanas.

A Matriz, enquanto “sistema operacional em rede”, é constituída por uma “linguagem de programação” composta de um sistema de símbolos fundamentais, vinculados às experiências humanas universais. É nesse sentido que podemos falar de “inconsciente coletivo”: desejemos ou não, estejamos conscientes ou não, toda experiência humana está vinculada a um conjunto de símbolos associados a vivências primitivas de nossos ancestrais e até mesmo à animalidade.

Por isso, para cada evento humano está associado um ou mais arquétipos presentes na Matriz. E isso não apenas no âmbito de nossos sonhos ou dos mitos de nossa sociedade. Mesmo a nossa relação com outras pessoas, e a vivência de determinados eventos na vida, pode ter forte influência de arquétipos.

Inclusive na nossa percepção da realidade desperta os arquétipos estão presentes, pois essa percepção nada mais é que um mundo construído virtualmente no âmbito da Matriz, com base em dados sensoriais. Por exemplo, a noção de espacialidade está, no ser humano, associada a atributos femininos, pois nossa primeira noção de espaço advém do útero materno. Desse modo, mitologias como a egípcia (com a deusa Nut) e suméria (deusa Tiamat) representam mundo ao nosso redor como uma manifestação de atributos femininos na forma de uma Grande Deusa.

Nut, deusa egípcia do firmamento.

Exemplos de arquétipos

Entre os arquétipos representados por personagens estão os seguintes:

A Anima (na alquimia, anima mundi): representa o elemento feminino, e ao mesmo tempo a própria Matriz, enquanto “alma do mundo”;

O Diabo: é a concepção de um adversário sob a forma de um ser demoníaco, verdadeiro vetor ou encarnação do mal;

O Herói: é o ego assumindo conscientemente sua missão no processo de Individuação, destinado a transformar a si mesmo;

A Criança Divina (puer aeternus): representa o nascimento de uma síntese entre o inferior e o superior, a ponte entre ego e Eu Superior (a origem do que Jung chama de “Função Transcendente”);

O Embusteiro (mercurius): o agente que estabelece a comunicação entre mortais e deuses, ou que catalisa o cumprimento da missão pelo Herói nos mitos, representando ambiguidade e dissonância cognitiva.

Entre os arquétipos que representam eventos estão os seguintes:

O movimento circular (circumambulatio): o movimento do ego em relação ao Self, segundo Jung, jamais é direto, tratando-se de um movimento em círculos.

Casamento Sagrado (coniunctio): é a união de princípios distintos que dá origem a uma síntese (a função transcendente);

A Iniciação: é o rito de passagem de um mundo de compreensão limitada e ilusória para um mundo de compreensão mais amplo e profundo, cujo conhecimento transforma o próprio ego, é o início da segunda fase do processo de individuação (após o ego diferenciar-se e consolidar-se);

A Morte (mortificatio, nigredo): é a superação de um antigo paradigma, a morte daqueles aspectos do ego que precisam ceder espaço à transformação;

A Obra (Opus): é o processo dinâmico de individuação, ou seja, processo em que o ego entra em conexão com o Eu superior.

Entre os arquétipos representados por coisas, encontramos os seguintes:

O Veículo: em geral, carruagem ou barco que representa o veículo da consciência humana, a forma pela qual o indivíduo interage com a Matriz sem diluir seus atributos individuais, protegendo-se de ataques;

A Mandala (na forma de jardim, cruz, espaço sagrado): representa a própria Matriz e a totalidade do Self;

A Espada: é a consciência discriminativa, analítica;

O Maná: é a energia vital, a mais fundamental forma de energia, que flui incessantemente de uma fonte divina.

Os arquétipos estão presentes no processo alquímico (Opus) descrito em tratados medievais. É que os alquimistas associavam certos arquétipos a elementos químicos e a operações realizadas em seus laboratórios. Desse modo, operava-se uma correspondência entre a busca pela pedra filosofal e a transmutação da própria psique, com a manifestação de arquétipos ao longo do processo.

Sistemas de representação arquetípica

No “sistema operacional de rede”, o software que estrutura a Matriz, os elementos da “linguagem de programação” interagem segundo processos dinâmicos e estruturas relacionais que não passaram despercebidas por nossos antepassados. Assim, muitas tradições e mitologias tentaram descrever não apenas os arquétipos, mas também o sistema no qual interagem e a lógica dessas relações.

Enquanto panteões religiosos como o dos deuses gregos e representações pictóricas como os arcanos maiores do Tarot descrevem arquétipos, sistemas como a “Árvore da Vida” hebraica, o “I Ching” chinês e os arcanos menores do Tarot foram tentativas de apresentar a estrutura e a relação desses arquétipos no âmbito da Matriz.

Não devemos, porém, interpretar tais sistemas como formas primitivas de representação. Ao contrário, alguns possuem notável sofisticação abstrata, como qualquer um que se dedique ao estudo profundo do taoísmo e da cabala poderá perceber.

O próprio ego humano, apesar de ser consciente e ter certa autonomia para o desempenho de suas funções, não deixa de ser um arquétipo, que muitas vezes incorpora a figura mítica do herói, principalmente quando transcende suas limitações animais e busca conexão com o Self. Por isso, não é de surpreender que outros arquétipos sejam eles próprios conscientes e parcialmente autônomos. Como metáfora, imagine “inteligências artificiais” operando dentro da “realidade virtual” constituída pelo “sistema operacional” que conecta as mentes de todas as versões de um mesmo indivíduo em realidades alternativas.

No ambiente de rede que é a Matriz, esses seres com poderosa carga simbólica vivem e estão conscientes, comunicando-se conosco e influenciando nossa percepção de mundo. Influenciam, inclusive, nossa tomada de decisão. Há uma relação de complementaridade em tudo que nos cerca e em nós próprios. Você sequer pode ficar eroticamente excitado sem que potências como o arquétipo de Eros, que ao mesmo tempo expressa a natureza primordial animal e a elevada energia que mobiliza a própria Matriz, manifeste-se. Esse é o motivo pelo qual, em certas tradições mais primitivas, determinados arquétipos podem inclusive “possuir” uma pessoa durante certos rituais.

O EGO

Jung definiu ego como “o centro da consciência”. É o que Thomas Metzinger chama de “phenomenal self-model” (modelo de ego fenomenal). Observe novamente o mundo a seu redor, leitor. No centro dessa observação da realidade, tem-se a impressão de há alguém, aquele que vivencia tal realidade – esse alguém é você.

Assim como o mundo que você observa é um modelo que representa a realidade no momento presente a partir de informações sensoriais e elementos conceituais enraizados na Matriz, também o seu ego, a noção de que você protagoniza um vida, é um modelo de identidade construído e atualizado a cada instante.

O ego é o centro da consciência, definindo-se consciência, em termos práticos, como a função que separa e distingue apenas um contexto, uma realidade alternativa entre as múltiplas existentes no hiper contexto. O ego foi colocado no centro dessa atividade quando o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados remodelou a comunicação entre os dois hemisférios de nosso cérebro, atualizando o software da mente humana.

Porém, o ego resultante dessa operação tem origem em um modelo de identidade pessoal de natureza animal. Logo, o ego está “programado” para executar funções relacionadas ao interesse mais individual do organismo, conduzindo-se, por imposição evolutiva, segundo padrões de agressão, fuga, alimento e reprodução no âmbito de um só contexto. Pela exata natureza de suas atribuições, o ego resiste à aceitação da realidade do hiper contexto.

Assim, o ego é um constructo destinado a operacionalizar a relação com a realidade – melhor dizendo, com uma trama de realidade. Esta é a função fundamental do ego humano: existir enquanto narrativa que constantemente contamos a nós mesmos e que repete incessantemente “eu eu eu”.

Porém, o ego é uma ferramenta evolutiva. Uma ferramenta imprescindível – mas, ainda assim, apenas um instrumento necessário à sobrevivência do organismo. É como um funcionário, um operário que tem uma missão valiosa e imprescindível, mas que não tem competência profissional para lidar com situações e desafios estranhos a seu substrato animal e individualista.

O Problema Humano é o desafio de lidar com uma radical mudança no mundo utilizando um sistema cognitivo decisório ultrapassado, que foi útil por milênios para nossos antepassados, mas que atualmente acusa sinais de obsolescência. Ocorre que no centro desse sistema cognitivo e decisório a ser remodelado e atualizado está o Ego e sua noção de identidade pessoal.

Essa remodelação já foi necessária antes e ocorreu no passado, como Julian Jaynes identificou ao estudar Ilíada e Odisseia. Embora com mais vagar e diante de uma situação menos drástica, o sistema cognitivo/decisório dos nossos antepassados sujeitou-se a uma crise (no futuro, veremos qual) da qual emergiu a atualização desse software, reestruturando a comunicação entre ambos os cérebros de forma a aumentar sua integração.

E como veremos na quarta etapa de nosso processo de aprendizado, é chegada a hora de a humanidade dar um novo passo no caminho de evolução emergente: o passo em que a humanidade assumirá conscientemente o controle do processo evolutivo. Isso incluirá a tarefa de atualizar de novo esse sistema cognitivo/decisório, realizando de forma consciente um procedimento que nossos antepassados efetuaram inconscientemente. É que, diferente deles, não podemos nos dar ao luxo de esperar que tal processo ocorra de forma natural e espontânea, pois o grande filtro se aproxima.

O SELF

Aqueles que estudam as mitologias e religiões de todas as culturas observam a constante presença de um símbolo central, uma potência ordenadora e conciliadora de opostos. “O símbolo de uma Montanha, de uma Árvore ou de um Pilar situado no centro do mundo é extremamente difundido” em diversas mitologias. Em outras, não é um objeto que está no centro, mas alguém. Esse algo ou alguém central é o Self.

O Self é ao mesmo tempo um arquétipo e a reconciliação integradora de todos os arquétipos. Nas antigas mitologias e tradições, o Self é é representado como a potência ou a divindade central, em torno da qual todas as demais forças e divindades orbitam. É uma referência de totalidade e centralidade.

Metafórica e miticamente, a melhor visão arquetípica do Self é o do Atmã hindu, o “verdadeiro eu” ou “eu superior” que está situado acima do ego individual “encarnado” neste mundo (neste contexto). Todas as mitologias, porém, representam o Self de algum modo, e pode ser facilmente identificado como o elemento no centro de qualquer mandala.

Segundo Jung, o Self sempre será um mistério para o ego. Essa parece ser uma afirmação gratuita e sem razão aparente, sendo a existência desse mistério do Self em relação ao ego também um outro mistério. Mas se considerado da perspectiva do hiper contexto, a razão do ego ser incapaz de apreender inteiramente o Self fica, subitamente, clara.

Assim, no ambiente de rede que conecta todas as versões do mesmo indivíduo inseridas cada qual num só contexto, numa só realidade alternativa, há uma identidade central, um Eu Superior, constantemente desperto e consciente de todas essas versões coexistentes. Esse Eu Superior é o Self, e tem por função unir, coordenar e conciliar as múltiplas vidas de uma só pessoa.

As múltiplas vidas de uma só pessoa controladas pelo Self, conforme percebidas pelos alquimistas chineses.

Enquanto o ego tem por função atuar numa só trama de realidade, inserido que está na dinâmica que segmenta o hiper contexto em inúmeros contextos, o Self tem por função abranger todos esses contextos, mantendo a coerência interna do ambiente de rede.

Por isso é que o Self será sempre inacessível diretamente ao ego: o pressuposto da existência do ego é justo a separação e vivência em um contexto. O ego é, de certa forma, essa separação. Entrar em contato direto com o Self significa, para o ego, eliminar a separação diluir-se no Self e deixar de existir enquanto identidade, perdendo sua razão de ser.

Mas apesar de inacessível ao ego, o Self ou Eu Superior está sempre presente na vida de um indivíduo, comunicando-se com ele de forma que o ego sequer suspeita. Nos sonhos e nas sincronicidades, o Self desempenha suas atribuições, coordenando as diversas vidas alternativas de um mesmo indivíduo, acompanhando a constante emergência de novas versões alternativas da mesma pessoa desde o seu nascimento até sua morte.

Por isso, como notou Eliade, um dos símbolos universais do Self é a “Árvore Cósmica”, que une o inferior ao superior. “A Índia védica, a China antiga, a mitologia germânica, assim como as religiões primitivas conhecem, sob formas diferentes, essa Árvore Cósmica”. A representação de um tronco central do qual emergem constantes ramificações ilustra adequadamente a relação entre o Self e os diversos egos que emergem continuamente para, cada qual, viver em uma trama de realidade.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Jung observou que no nascimento de uma pessoa há originalmente uma sensação de totalidade, de Self. Porém, no decorrer dos primeiros do anos de vida e como decorrência das interações com o mundo exterior, começa a cristalizar-se uma identidade pessoal, o ego.

Esse processo de diferenciação do ego nos primeiros anos de vida é reflexo justo da emergência, a partir do contexto inicial em que uma pessoa nasce, de novos contextos, de novas realidades alternativas, a medida em que seu destino bifurca-se no hiper contexto. Cada ego será responsável por uma das vidas alternativas vividas por uma mesma pessoa, passando o Self a viver no centro do ambiente de rede que conecta todas as suas versões coexistentes.

Isso permite que cada versão de uma mesma pessoa insira-se em um só contexto e relacione-se com ele ignorando as constantes emergências de novas versões da mesma identidade. Tal modelo é construído e atualizado com tanta consistência e velocidade por nosso cérebro, e é reforçado pelos demais seres vivos que compartilham do mesmo contexto que nós a cada instante, que o consideramos a única realidade existente. Você acredita nesse modelo e sente com seus órgãos sensoriais (na verdade, com informações sensoriais filtrada pelo cérebro) uma só trama de realidade, e assim pode viver toda sua vida e morrer sem sequer desconfiar que o hiper contexto existe, ignorando que viveu sempre nele, ramificando seu destino em várias vidas alternativas desde seu nascimento.

Após os anos iniciais de consolidação do ego, porém, começa a ocorrer uma ruptura, que arquetipicamente é percebida como uma “ferida” ou “fratura” no ego humano. Tal ruptura começa no momento em que o ego passa a intuir o aspecto aleatório do seu destino (Por que as coisas se deram dessa maneira e não de outra? E se aquele evento tivesse ocorrido de outra forma, ou não ocorrido? E se outra decisão tivesse sido tomada naquele dia?) e sente sua própria vida como apenas parte de um todo maior, do qual está apartado. Quanto maior a desconexão como esse “todo”, maior a infelicidade e confusão pessoal.

As escolhas feitas pelo ego humano levam, inevitavelmente, à fragmentação da vida individual – o acúmulo de escolhas e ramificações do destino conduzem a uma insatisfação inafastável. A partir desse ponto, o ego humano passa a perceber a necessidade de integração com algo maior, e é nessa etapa que a Matriz e as forças arquetípicas nela existentes começam a manifestar-se em sonhos e em coincidências significativas. A meta dessas manifestações é impulsionar uma reformulação do ego humano, no qual abra-se para uma conexão para o Self, na busca de um equilíbrio entre a individualidade do ego fragmentado e a totalidade do Eu Superior.

As etapas do processo alquímico.

Todo esse processo, de inicial diferenciação do ego (identidade que vive em um contexto) e posterior remodelação da relação desse ego com o Self (identidade superior que vive no hiper contexto), é chamado de Individuação.

A individuação não pode ser compreendida como um processo rígido, que ocorre de forma sempre igual na história da humanidade. A individuação é o nome dado à dinâmica de constante atualização do sistema criado evolutivamente pela natureza, na qual o organismo humano lida com o hiper contexto segmentando-o em contextos operados pelo ego, com a coordenação de todas as versões coexistentes de uma mesma pessoa sendo realizada pelo Self no ambiente de rede da Matriz, que Jung chamava de “inconsciente coletivo”. Esse sistema precisa ser constantemente atualizado e aprimorado – portanto, a Individuação não é uma tarefa que termina em determinado momento, mas um processo que ocorre continuamente, sem ponto final.

Assim, a individuação de nossos antepassados no tempo em que Ilíada foi escrita não é rigorosamente idêntica à individuação (ou seja, processo dinâmico de atualização do sistema) que vivenciamos hoje em dia. Esse é um ponto importante, pois é através do processo ativo de individuação que poderemos remodelar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados, a fim de abrirmos a portas para a grande mudança que será descrita na quarta etapa desse ciclo de aprendizado.

Jung percebeu que o processo de individuação é o tema central de tradições como o Taoísmo e o Budismo. Mesmo no cristianismo original, Jung observou que o foco central estava na ideia de que “o Reino de Deus está dentro de você”. E foi estudando o trabalho dos alquimistas da europa medieval e da china taoista que Jung analisou aspectos detalhados do processo individuação necessário para nossa época, capaz de resolver o Problema Humano.

A SINCRONICIDADE

Pauli e Jung tinham outro ponto em comum além do interesse pela natureza da realidade e de seu vínculo com a mente humana. Ambos compartilhavam algo mais pessoal e biográfico: a vida de ambos era repleta casos de coincidências estranhas, inexplicáveis.

Os colegas do físico, por exemplo, faziam piada com aquilo que chamavam de “Efeito Pauli”. É que sempre que Pauli estava numa cidade, os experimentos científicos feitos no local ou davam errados ou resultavam em algum tipo de acidente. Pauli apreciava quando diziam que a causa do fenômeno era o excessivo rigor científico pelo qual ficou célebre.

A vida de Jung é ainda mais repleta de coincidências inexplicáveis. Na verdade, ao tratar seus pacientes, Jung observou não só relatos de coincidências curiosas, mas também de “coincidências significativas”, ou seja, de coincidências que possuíam um forte significado simbólico para a vida de uma pessoa. Essa coincidência ajudava a pessoa a compreender, pela linguagem dos símbolos, um aspecto importante de sua vida naquele momento e contexto.

Tanto essas experiências pessoais quanto as descobertas feitas em suas profissões levaram Jung e Pauli a estudarem juntos um aspecto do universo que a civilização moderna descobriu ao olhar o tecido da realidade bem de perto. Trata-se do entrelaçamento.

O entrelaçamento é o fenômeno pelo qual o estado de cada “partícula” de um sistema de “partículas” depende dos estados de todas as demais, de forma que ao se definir o estado de uma, automaticamente se define o estados de todas as outras, mesmo que estejam em extremos opostos de uma galáxia.

Esse fenômeno foi previsto por Einstein como uma consequência da física quântica, mas Einstein o achava tão absurdo que tratou sua previsão como uma prova de que a física quântica estava errada. Posteriormente, contudo, a previsão foi confirmada por reiterados experimentos.

Por que Einstein considerava esse fenômeno absurdo e impossível? Porque demonstra que entre dois objetos pode existir um tipo interação que não é de causa e efeito. E até hoje não havia sido descoberta qualquer tipo de interação possível entre seres e coisas no universo que não fosse comandada pela lei da causa e efeito.

Esse novo tipo de interação recebeu o nome técnico de “não-localidade”, simplesmente porque duas coisas interagem dessa forma mesmo que localizadas há bilhões de ano-luz de distância. Mas há mais do que uma questão de distância nesse fenômeno, pois a complementaridade estabelecida entre dois objetos é também instantânea. Se um está em determinado estado, o outro objeto está num estado complementar imediatamente, sem que sequer uma fração de milissegundo transcorra.

Jung utilizou as observações de Pauli para desenvolver uma teoria que descreve uma relação entre seres e coisas, entre mente e universo inclusive, que não é regida pela lei da causa e efeito. A lei que rege esse tipo de interação é de complementaridade entre todas as coisas, que existem em determinado momento em uma relação de entrelaçamento umas com as outras. Elas estão “juntas no tempo”, expressão da qual Jung derivou o nome com que chamou esse tipo de característica fundamental do universo: Sincronicidade, do grego “syn” (juntas) e “khronos” ( tempo).

Como foi apresentado na primeira etapa deste ciclo, toda trama de realidade é um retrato de determinado instante do entrelaçamento que há entre todas as coisas do universo. Todos os seres e coisas que existem num dado momento em uma dada trama de realidade estão em uma indissociável relação de complementaridade: todos estão entrelaçados, nenhum possui uma existência isolada, separada dos demais.

A trama de realidade assim fotografada revela uma imagem que não possui um centro absoluto, mas apenas um centro relativo. Portanto, o centro do entrelaçamento de todas as coisas pode, do ponto de vista relativístico, situar-se em qualquer um dos infinitos pontos da trama de realidade. É esse o significado do antigo lema alquímico segundo o qual “Deus é um círculo cujo centro está em todos os lugares”.

E um dos pontos possíveis para esse centro é a própria subjetividade de um indivíduo. Por isso não só Pauli e Jung, mas também outros físicos e psicólogos estudam atualmente essa interação entre mente e mundo exterior que não observa a lei da causa e efeito. “O fenômeno da sincronicidade é caracterizado por uma coincidência significativa entre um estado mental (subjetivo) e uma ocorrência (objetiva) no mundo exterior”, definiu o físico Frederico Carminati, membro do CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear).

Naturalmente, isso não significa que a vontade humana ou o pensamento positivo sejam capazes de controlar diretamente a realidade do mundo exterior. Isso porque vontade e pensamento positivo são atributos do ego – e o ego é apenas um dos elementos periféricos na ampla rede da Matriz. Mas significa que o Self e os arquétipos (particularmente aqueles dotados de consciência autônomos) podem usar coincidências no mundo exterior para enviar mensagens ao ego.

E foi assim que, ao estudar o fenômeno, Jung descobriu que o Self pode utilizar coincidências significativas e outras formas de manipular a sincronicidade para se comunicar com o ego. Na verdade, é com base na sincronicidade que o próprio ego pode entrar em contato com o Eu Superior. Como será apresentado futuramente, existem métodos pelos quais uma pessoa pode, em determinadas circunstâncias, comunicar-se com o Self.

A FUNÇÃO TRANSCENDENTE

Por fim, chega-se ao momento culminante dessa segunda etapa, na qual aprendemos qual operação poderá remodelar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados, atualizando-o para equacionar o Problema Humano.

O processo de individuação, quando descrito em mitos e antigas tradições, parece resultar na criação de um determinado “objeto” ou “entidade” de natureza transcendente. Por exemplo, Jung observou que o processo alquímico não buscava a produção de uma pedra feita de qualquer substância física, mas de uma substância diferente, “filosofal”. Os alquimistas associavam o objetivo final de seu trabalho a diversos símbolos convergentes, relativos ao aspecto divino no ser humano, como a Imago Christi (“imagem de Cristo”) e o Adam Kadmon (o ser humano primordial).

Trata-se, claro, de um arquétipo, de um elemento na linguagem de programação que compõe a Matriz. Mas que arquétipo é esse? E, mais importante, qual sua função?

Vamos à resposta analisando o desafio de enfrentar o Problema Humano: precisa-se remodelar o sistema/cognitivo de nossos antepassados. Esse sistema opera em um só contexto, ignorando a existência da Matriz e do hiper contexto, sendo controlado pelo ego, que está no centro da consciência.

Desde que o ego evoluiu e apropriou-se de seus sentimentos e decisões, reconhecendo-os como próprios (e não oriundo dos deuses), ele tem ocupado posição central na consciência humana. O Self e a comunicação com a Matriz ocorrem apenas de forma “inconsciente” (eis o motivo de Jung chamar a Matriz de “inconsciente coletivo”), atuando no plano emocional e onírico. O ego é o operador do sistema cognitivo/decisório.

E o ego foi competente na função que a evolução lhe atribuiu. Prova disso é o fato de o ser humano ter abandonado sua posição intermediária na cadeia alimentar do mundo selvagem e tornado-se o senhor deste planeta, chegando ao ponto de desenvolver tecnologias capazes de desafiar os limites impostos pela própria natureza, permitindo-lhe manipular a própria evolução e criar inteligências artificiais.

Porém, diante do aumento da complexidade da sociedade e do novo mundo que se descortina com a ciência e a engenhosidade humana, esse sistema cognitivo/decisório tornou-se ultrapassado. Além disso, o ego humano é inconstante, sempre insatisfeito, como uma criança que se cansa fácil de seus novos brinquedos. A instabilidade lhe é inerente. Faz-se necessário realizar, pela individuação, uma nova reestruturação desse sistema.

É preciso dar o próximo passo, sequência daquele dado por nossos antepassados há cerca de três mil anos. É preciso começar a ampliar a consciência, para que gradualmente tome percepção maior do hiper contexto e da Matriz. É preciso estabelecer, na consciência, um segundo elemento ao lado do ego, de forma que esse não ocupe a posição central, e a consciência abra-se à possibilidade de contextos múltiplos e emergentes, assumindo responsabilidade pela condução de seu destino coletivo. Esse elemento deve ser uma ponte, um canal a partir do qual o ego comunique-se com o Self por meio de tal função de transição.

A simbologia do processo alquímico.

Jung chamou esse segundo elemento de “função transcendente”, e corresponde ao resultado de uma interação entre a consciência, representada pelo ego, e a Matriz. Surge dessa interação uma ponte de comunicação para uma manifestação simbólica do Self, do Eu Superior, na personalidade do indivíduo. Desse modo, o sistema cognitivo/decisório não é mais incumbência apenas do ego (e de sua perspectiva limitada) – é, também incumbência, de aspectos mais profundos do ser, capazes de perceber o mundo e a vida de uma perspectiva mais elevada e ampla.

Segundo Jung, com o desenvolvimento da função transcendente ocorre uma “profunda transformação da personalidade” da pessoa, surgindo “o ponto de um novo equilíbrio, um novo centramento” de sua consciência. Cria-se, desse modo, um “centro virtual que, por ocupar posição focal” entre consciência e Matriz, assegurando “à personalidade uma fundação mais sólida”.

Portanto, a emergência da função transcendente reestrutura o sistema cognitivo/decisório, atualizando-o para que faça frente aos atuais desafios da humanidade. Equaciona-se, assim, o Problema Humano que entrava atualmente nosso caminho, permitindo que superemos a atual etapa e avancemos na direção de novos problemas, de novos desafios na busca do desenvolvimento pleno de toda a potencialidade humana.

Há um método para a emergência e fortalecimento da função transcendente na consciência humana, deslocando o ego de sua atual posição central. Esse método, em linhas gerais, começa por criar o espaço para tal emergência através do desenvolvimento daquilo que é modernamente chamado de metacognição, ou seja, a plena atenção aos próprios pensamentos e sentimentos. Isso porque a primeira tarefa da função transcendente é deslocar o ego da posição central sem o despotencializar. Assim, ao deslocamento do ego deve corresponder ao aprimoramento de sua eficiência no desempenho das funções que lhe são reservadas.

Esses métodos, porém, serão apresentados no futuro. Neste momento, o importante é saber que a criação da função transcendente deve buscar paralelismo com o trabalho dos alquimistas, que executavam um processo em dois fronts, atuando simultaneamente na matéria (para fora) e na mente (para dentro). Assim como eles manipulavam a matéria segundo a ciência de sua época ao mesmo tempo em que efetuavam transformações em sua psique, o desenvolvimento da função transcendente também deve ser acompanhado do aprimoramento do atual domínio humano sobre a matéria, por meio da tecnologia.

Iremos, em breve, abordar de forma mais prática o processo que possibilitará ao leitor equacionar o Problema Humano em sua vida pessoal, e que auxiliará a humanidade a enfrentar o mesmo desafio. É preciso, antes, compreender a totalidade da condição humana, inclusive a natureza das circunstâncias concretas em que a solução para o Problema Humano será implementada.

Na próxima etapa, enfrentaremos a parte mais difícil do processo de aprendizado, consistente na identificação da natureza do Mal. Por fim, na quarta, retomaremos o tema da evolução humana e de suas possibilidades quase utópicas.

Notas   [ + ]