Todos vivem com a noção de ser alguém. Por exemplo, neste momento, você tem a noção de que é alguém que está lendo este texto. Isso parece banal. Essa é a natureza da condição humana, a vivência mais íntima e fundamental que você tem a cada instante de sua vida: ser quem você é.

Apesar disso, no cotidiano, você raramente se detém e analisa com cuidado uma pergunta óbvia, que não só decorre naturalmente dessa vivência fundamental como também é de vital importância. E, nos poucos momentos que o faz, parece não encontrar resposta, ao menos não sem aceitar algum tipo de fé ou superstição. Essa pergunta é:

QUEM É VOCÊ?

Apesar de sua importância, colocamos tal pergunta facilmente entre aquelas questões abstratas, filosóficas, cuja improvável resposta, inútil e metafísica, é da competência de especialistas acadêmicos. Chegamos a acreditar na perigosa ilusão de que não só é impossível obter uma resposta clara, mas que também podemos viver realmente nossas vidas sem responder com clareza quem é que, afinal, está vivendo nossas vidas.

Isso parece ser de uma estupidez impressionante. De algum modo, nos iludimos e fingimos não perceber a utilidade autoevidente de conhecermos a resposta antes de começarmos a viver conscientemente nossas vidas. Fingimos não saber que apenas uma vida com tal resposta é uma vida plena, e que uma vida plena é aquela desperta do sonho em que os outros animais vivem, sonho no qual ignoram quem realmente são e onde estão.

O leitor duvida? Quando vemos a carne de animais em nosso prato ou exposta nos mercados, esquecemos da lição subjacente a essa experiência comum: a de que só foi possível criar e matar o animal que nos alimenta pois ele viveu imerso num sonho em que não percebia quem era e que estava destinado apenas ao abate. Um sonho que nossos ancestrais também sonhavam e do qual o ser humano em parte despertou – mas não completamente.

Mas somos assim estúpidos? Com certeza, não. A razão de nos distrairmos facilmente diante de tal pergunta e de termos dificuldade em encontrar a resposta deveria nos dar uma pista sobre a natureza dessa resposta. Trata-se de uma resistência de origem mais forte, como logo ficará claro.

Na verdade, o fato de que nos distraímos facilmente diante dessa pergunta e de que parecemos não encontrar resposta deveria dar-nos uma pista sobre a natureza dessa resposta.

A partir de agora, iremos apresentar tal resposta, pois não é mera questão abstrata e filosófica, mas a chave para a solução do maior problema humano, aquele que aflige cada indivíduo e toda a sociedade. Porém, a resposta não é simples e tampouco é agradável – em outras palavras, é contraintuitiva e contrária às expectativas idealizadas sobre a natureza humana.

Pela importância deste texto, o leitor deve dedicar tempo e atenção à sua leitura. Imprima-o, se possível.

O PROBLEMA HUMANO

Por séculos, tenta-se identificar qual o maior problema da humanidade e de cada indivíduo, o problema do qual derivam todos os outros problemas sociais e pessoais.

Para os mais idealistas, esse problema seria a falta de fé ou de conexão com alguma divindade – ou alguma outra postura moral e espiritual a ser ajustada. Para outros, o problema seria de ordem econômica, consistindo no dinheiro enquanto lógica das relações capitalistas – ou, inversamente, no controle estatal e socialista da liberdade individual. Para alguns, ainda, o problema seria sociocultural, consistindo na opressão do patriarcado ou, ao contrário, na subversão da ordem e das tradições.

Há por fim, aqueles que negam a existência de qualquer problema central, afirmando que a angústia e ansiedade sentida intimamente por todos os seres humanos, bem como as guerras, miséria e violência que assolam populações, constituem parte inerente da vida tal como é neste momento.

Não é esse, porém, o caso. Há um problema, e sua natureza é clara quando a situação humana é observada à distância.

O maior problema humano atual, tanto para cada indivíduo como para a sociedade, é o desafio de operar numa realidade progressivamente complexa e sem precedentes históricos tendo como única ferramenta um sistema cognitivo e decisório condicionado para operar nas primitivas savanas da África.

Caça, competição, acasalamento, abrigo, predador, agressão e fuga; medo, raiva, desejo, fome e sede; necessidade de aceitação tribal, hostilidade e dominação do inimigo. Vive-se hoje com um sistema cognitivo e decisório programado evolutivamente para operar num ambiente em que o ser humano não era muito diferente dos demais animais, sequer posicionando-se no topo da cadeia alimentar. Um ambiente no qual a perfeita inserção na dinâmica de uma tribo representava a melhor chance de sobrevivência para o indivíduo.

Esse sistema foi eficiente por dezenas de milhares de anos, ao longo dos quais ele se adaptou com sucesso às mudanças do meio ambiente. Nada há de errado com ele. No momento, o problema é a alteração quase imediata do mundo em que vivemos, exigindo adaptação que tal sistema não consegue fazer em si mesmo do dia para noite – ou melhor, de um milênio para outro.

Essa é a raiz de todos os outros problemas contemporâneos, individuais e coletivos. Depressão, ansiedade, síndrome do pânico, intolerância. Terrorismo, fundamentalismo, profunda desigualdade social, degradação ambiental. Na sociedade complexa e dinâmica de hoje, que se transforma a cada momento, tenta-se enfrentar desafios cotidianos com um sistema cognitivo e decisório que era extremamente eficiente quando se tratava de caçar animais de pequeno porte, fugir de um leopardo, ser aceito pelos membros da tribo e defendê-la de tribos rivais, mas que fracassa reiteradamente diante da mudança abrupta da realidade humana. O estresse estrutural desse sistema a cada fracasso resulta em rupturas de sua coesão, e tal desajuste produz e continuará a produzir crises cíclicas, cujas consequências serão medidas em vidas humanas.

O GRANDE FILTRO

O Problema Humano não surgiu de um dia para o outro, os primeiros abalos sísmicos foram percebidos há muito tempo. Mas, nos últimos dois mil anos, a medida em que se acentuava o rompimento com os paradigmas de nossos antepassados, apenas ajustes discretos foram feitos. A sociedade prosseguiu organizando-se em torno de instituições, normas e formas de pensar que preservaram, na medida do possível, o sistema cognitivo e decisório que tantos serviços prestou aos nossos ancestrais.

Agir assim, de modo conservador, é lógico e natural. Afinal, o sistema cognitivo e decisório que herdamos está condicionado por nossa própria biologia animal. Ajustá-lo minimamente, portanto, exige enorme consumo de energia e não pode ser feito sem significativo estresse para o próprio organismo. Por isso são ingênuos os que acreditam que a solução depende de uma simples tomada de decisão no sentido de deixarmos de pensar de uma determinada maneira para começarmos a pensar de outra.

Por ironia, a crise do sistema cognitivo e decisório de nossos antepassados para lidar com os desafios do mundo atual deve-se justo à sua estabilidade e robustez. Graças a suas virtudes, a humanidade chegou ao ponto em que o progresso retroalimenta-se e cresce de modo exponencial, até transformar a realidade ao seu redor.

Transições que exigiam milênios ocorrem em cem anos – e, a seguir, numa década. Com o êxito da espécie humana, a ciência decifra o mundo, a tecnologia revoluciona o cotidiano, novas necessidades e problemas surgem, a sociedade torna-se cada vez mais complexa e dinâmica, as relações humanas transformam-se, os papéis sociais fragmentam-se.

Nos últimos séculos, progressivamente a forma como estamos biologicamente condicionados a operar diante do mundo começou tornar-se obsoleta. A tentativa do sistema cognitivo e decisório humano de ajustar-se aos novos desafios resultou em abalo irreversível de sua estrutura. Nietzsche expressou essa irreversibilidade com uma célebre metáfora: “Deus morreu. Deus permanece morto. E nós o matamos.”

Se há ou não Deus no sentido objetivo, outra pergunta que persegue a humanidade, responderemos apenas ao fim de nosso processo de aprendizado sobre a verdade. O importante é reconhecer que a situação humana é crítica, e brevemente será emergencial.

Neste momento, a humanidade encontra-se numa situação sem precedentes históricos. E isso demanda ação imediata. Nos últimos séculos, ao menos desde o Iluminismo, o processo de rompimento de paradigmas acelerou-se em progressão geométrica, e aproxima-se de sua fase culminante.

Não é sem exagero dizer que a humanidade se encontra, no momento em que essas palavras são publicadas pela primeira vez, numa etapa em que cada indivíduo e sociedade precisará definir a estratégia da qual dependerá seu destino. É a etapa do Grande Filtro que separará o caminho da obsolescência e perecimento do caminho da evolução e sobrevivência.

Por essa razão, é mais urgente que nunca responder à pergunta “Quem é você?”. A visão de mundo e de identidade pessoal, a forma como fomos condicionados a operar com a realidade, tornou-se defasada diante do mundo real. Os paradigmas rompidos não podem ser reconstituídos, só reformulados.

Entender quem realmente você é fornece a chave para essa reformulação, a única forma de solucionar-se o Problema Humano. Afinal, só é possível ajustar o sistema cognitivo e decisório herdado de nossos antepassados com a rapidez exigida pelas circunstâncias se cada indivíduo compreender como esse sistema está relacionado com sua identidade pessoal e, principalmente, com o mundo em que essa identidade opera.

Portanto, para responder à pergunta “Quem é você?”, é preciso, antes, saber a resposta para outra questão:

ONDE VOCÊ ESTÁ?

Ao abordarmos A Maior Descoberta da Humanidade, utilizamos três tipos de metáforas para responder a essa questão: uma metáfora alquímica, outra da matemática e ainda uma terceira computacional.

Com um antigo lema dos alquimistas, descrevemos dois princípios gêmeos da realidade em que vivemos: “solve et coagula” – ou “dispersa e entrelaça”. Pela dispersão, novas realidades alternativas emergem do momento presente a cada instante (solve). Por outro lado, tais realidades não interagem a nível macroscópico, pois apenas os seres e coisas que estão entrelaçados em determinada trama de realidade podem interagir entre si (coagula). Essa é a razão de não percebermos as demais realidades alternativas, exceto quando observamos o mundo muito de perto, tal como ocorre em laboratório.

O ambiente em que infinitas realidades alternativas coexistem, e no qual o próprio destino humano bifurca-se em inúmeras versões de sua própria vida, foi chamado de hiper contexto.

O hiper contexto é o espaço em que todas as probabilidades de algo ocorrer se manifestam ao longo do tempo e coexistem simultaneamente. Característica desse processo é a contínua emergência de novas possibilidades de futuro a partir de um mesmo momento presente – e há infinitos momentos presentes coexistindo neste instante.

A consequência para sua vida é simples: desde que você, leitor, nasceu, a cada evento aleatório relevante e a cada escolha decisiva que fez em sua vida, houve uma divisão de seu destino em vários caminhos prováveis, todos eles coexistindo simultaneamente, cada um deles vivido por uma versão alternativa de você. Você próprio é uma dessas versões, e nenhuma é mais verdadeira ou mais importante que a outra. Cada uma dessas versões ignora a existência das demais pois cada uma encontra-se entrelaçada em uma trama de realidade distinta das outras. E cada uma dessas versões não percebe os momentos em que seu destino se divide em vários futuros por razões que logo serão demonstradas.

Já com a metáfora matemática, aprendemos que a vida humana é como o infinito conjunto de números fracionados que existem nos estreitos limites entre zero e um. Ou seja, apesar de a biografia de um ser humano ramificar-se em diversos destino alternativos ao longo do tempo, realizando inúmeras possibilidades de viver e ser, tais destinos ocorrem dentro de possibilidades limitadas.

Essa metáfora permite afastar a equivocada ideia segundo a qual, havendo realidades alternativas, há uma em que você é um guitarrista famoso, outra em que você é um bilionário e até mesmo outra em que você jamais morrerá (pois a morte, em cada momento de risco de vida, pode ocorrer ou não, e haveria uma vida na qual ela jamais ocorreria para alguém). Afinal, argumenta-se, tudo isso é cientificamente possível.

Mas o que é possível não é o que é provável, e raramente os eventos prováveis em um destino humano resultam de um só fator. Assim como o envelhecimento e a morte, os principais eventos do destino humano são processos para o qual convergem múltiplos fatores, e esses fatores estabelecem o contexto em que o virtualmente possível torna-se “concretamente” provável.

Ademais, os futuros possíveis para uma criança são condicionados também pelo contexto inicial de seu nascimento. Uma criança nascida numa aldeia da floresta amazônica não se tornará uma bilionária, e se você não herdou de seus pais qualquer inclinação para a música, não se tornará um guitarrista célebre.

Desse modo, somos o infinito encapsulado dentro dos limites do que é cientificamente possível e contextualmente provável. Eventos no mundo macroscóspico são processos decorrentes de múltiplos agentes e são condicionados por múltiplos fatores, todos eles entrelaçados, e isso é como uma força gravitacional que curva o conjunto de possibilidades virtuais de forma a mantê-lo circunscrito a uma esfera ainda mais restrita de probabilidades “concretas”.

Por fim, pela metáfora computacional, foi apresentada a noção de que todo o universo observável, e que nosso cérebro percebe como sendo tridimensional, pode ser codificado em uma superfície bidimensional, tal como no caso de uma holografia.

Assim, propusemos ao leitor que imaginasse a realidade tridimensional em que vive como se estivesse codificada na trama de uma tapeçaria bidimensional de espessura muito fina, que se encontra empilhada com outras tapeçarias em cuja trama, por seu turno, estão codificadas outras realidades tridimensionais, inicialmente distintas umas das outras por discretas diferenças de codificação. Essas diferenças, contudo, ampliam-se progressivamente, e há enormes discrepâncias entre tramas que se situam em pontos distantes da topografia do hiper contexto.

Mas metáfora do espaço bidimensional que codifica uma realidade tridimensional empilhada junto a outras é, como todas as metáforas, limitada. É nesse ponto em que se percebe como são inadequados termos populares como “teoria dos muitos mundos” e “multiverso”, pois induzem à noção de que há universos apartados evoluindo paralelamente, sem interagirem de qualquer modo.

Na verdade, novas tramas de realidade estão constantemente emergindo das tramas de realidade que existem neste instante. E o momento presente transita em direção ao futuro dando gênese a novas tramas de realidade em que todas as versões coexistentes de uma só coisa ou ser se entrelaçam com a versões dos seres e coisas ao seu redor.

O entrelaçamento, por sua vez, não é uma propriedade da realidade que, “amarrando” os elementos de uma trama, aparta-a de todas as outras, como se fossem dimensões enfileiradas e que não interagem entre si. O entrelaçamento é a relação de complementaridade fundamental que existe entre todas as coisas que emergem no universo, inclusive no âmbito do hiper contexto. Novas formas de ser de cada objeto originam-se de modo correlacionado com novas formas de ser dos objetos com os quais se encontra entrelaçado. O segredo do próprio tempo e da gravidade dos corpos macroscópicos está no lema solve et coagula.

O nome “hiper contexto” não é por acaso: chama-se assim algo que se situa além de todos os contextos, ou seja, de todos os possíveis conjuntos de circunstâncias que coexistem em determinado instante. Ora, falar em “hiper contexto” é também usar uma metáfora: na verdade, o que se está descrevendo é meramente o universo tal como é.

Isto é o universo. É neste exato lugar em que você está agora, neste exato instante presente.

PROVAS DO HIPER CONTEXTO, A FÁBULA DOS CEGOS E UM ENIGMA.

Neste momento, há provas suficientes para que a existência do hiper contexto já seja reconhecida pela humanidade como a maior descoberta feita em sua história. De experimentos como a Dupla Fenda a paradoxos como o EPR, da Equação de Schödinger à rigorosa lógica de Hugh Everett, já há material suficiente para que qualquer um possa reconhecer a verdade do hiper contexto com clareza e honestidade intelectual. Novas provas surgirão com o tempo, pois trata-se de um fato testável (isto é, falseável) – e, inclusive, novas provas serão apresentadas a seguir, quando tratarmos do Reino Vegetal.

Quanto à atual postura da comunidade científica a respeito da existência do hiper contexto (e parte considerável da comunidade científica já a admite), só há uma coisa a dizer: prossiga-se investigando, prossiga-se questionando, prossiga-se testando. A questão, aliás, é justamente essa. David Wallace serenamente expôs, com clareza epistemológica, que os princípios científicos não estão sendo observados por aqueles que não levam a sério a importância das pesquisas sobre o hiper contexto. Afinal, a conclusão de Hugh Everett (que foi o primeiro a denunciar publicamente o hiper contexto) não ofende a Navalha de Occam – ao contrário, trata-se do único modelo que a observa. A resistência de alguns tem o mesmo fundamento da resistência à esfericidade da Terra: recusa em aceitar uma possibilidade extremamente contraintuitiva.

Logo, é inevitável que a comunidade científica chegue à conclusão unânime sobre a existência do hiper contexto cedo ou tarde, em 2022 ou em 3087. Esse é um ponto tranquilo. Aqui, o importante é ter em mente que o objetivo não é competir com a ciência, tampouco fazer ciência, mas narrar um fato a leitor – e, reconhecidos ou não, os fatos estão sempre presentes.

Também é importante perceber que o objetivo do conjunto desses textos não se limita e nem se deterá na discussão daquele fato já descoberto no século XX: o objetivo final é expor a verdadeira natureza de um risco concreto, embora o risco concreto exista e deva ser reconhecido independentemente do conhecimento de sua verdadeira natureza. A ignorância ou a recusa em aceitar um ato não nos impede, nesse caso, de agir diante do perigo.

E a recusa e a ignorância voluntária são esperadas, pois desde a descoberta das primeiras pistas sobre a existência de infinitas realidades alternativas, a humanidade tem interpretado o que viu de várias formas equivocadas, que denunciam uma reação instintiva contra a natureza extremamente contraintuitiva da verdade.

Exemplo disso é a reação de aversão cética ou de fascínio místico que a palavra “quântico” costuma despertar, e que uma fábula oriental ilustra muito bem.

Conta-se que, certa vez, numa aldeia na Índia, três cegos foram apresentados a um elefante, animal sobre o qual jamais tinham ouvido falar. Pediu-se que o descrevessem, e o primeiro cego, tateando sua tromba, disse que o elefante era como uma serpente. O segundo, abraçando uma das pernas, disse que o animal era como o tronco de árvore. O terceiro, apalpando seu flanco, afirmou que era como uma pedra.

Desde que a humanidade começou a identificar vestígios e pistas sobre a verdadeira natureza da realidade, houve duas reações típicas: a primeira é de austera negação da verdade, a segunda é de infantil delírio. A primeira vingou no seio da comunidade científica, a segunda nasceu de entusiastas do misticismo. Ambas correspondem à cegueira da fábula.

A chamada Interpretação de Copenhagen (segundo a qual a natureza quântica da realidade se restringe ao mundo microscópico das subpartículas, mas não ao mundo macroscópico em que vivemos), defendida por menos da metade da comunidade científica, nega a realidade ao crer em superstições como o conceito de “medição” e em dogmas como uma suposta linha de separação entre o mundo das subpartículas e o mundo macroscópico – dogma esse já fulminado pelo Teorema de Bell (e, como se verá, até pela planta mais ordinária do mundo). Já o chamado Ocultismo Quântico, popular entre místicos, nega a realidade ao supor que a consciência humana é dotada de algum poder mágico capaz de materializar o universo a partir de infinitas potencialidades, de modo que alguma espécie de pensamento positivo misterioso seria capaz de trazer sorte e fortuna a qualquer um.

Os cegos que negam e os cegos que deliram diante da palavra “quântico” perdem-se justamente no ponto em que se deparam com um certo enigma. Trata-se de uma questão que perturba e confunde a ambos, induzindo-lhes a cegueira.

O enigma consiste em determinar qual participação tem o ser humano na realidade do hiper contexto. Ocorre que responder esse enigma é a chave para a pergunta “Quem é você?”.

Contudo, a melhor forma de desvendar o enigma, curiosamente, não é observar o ser humano. A melhor forma consiste em observar a planta mais próxima de você neste exato momento, por mais simples que ela seja.

O GRANDE SEGREDO DO REINO VEGETAL

Como é evidente, nossos corpos também participam do hiper contexto, também são da mesma substância de tudo ao nosso redor (tecnicamente, também são funções de onda), coexistindo nesse exato momento em vários estados alternativos. E assim nossos corpos também se correlacionam, pelo entrelaçamento, com estados sobrepostos de todas as coisas ao redor. No nível macroscópico, todas as realidades alternativas que habitamos ao mesmo tempo coexistem de forma transparente, aqui e agora, e continuamente dão origem a novas realidades.

Pense em duas bolas de bilhar que se chocam. O que ocorre é que suas funções de onda, ou seja, suas coexistentes possibilidades sobrepostas, chocam-se observando um continuum de interações decorrentes do entrelaçamento (complementaridade) entre as possibilidades de cada bola. O corpo de um cientista no laboratório, inclusive seu cérebro e sistema visual, também existe em vários estados possíveis, e encontra-se em constante relação de entrelaçamento com o equipamento em todos os seus estados possíveis.

A compreensão correta da natureza do hiper contexto, isto é, do universo enquanto tal, leva à conclusão de que a vida biológica fez, em algum momento, uma escolha evolucionária em relação a essa realidade. E isso pode ser percebido claramente no mundo vegetal.

A planta mais próxima de você, por mais comum que seja, é um exemplo de como a natureza adotou uma estratégia não só para sobreviver no hiper contexto, como também para beneficiar-se da lógica do hiper contexto. Esse é um fato recentemente descoberto e já extensivamente estudado, conforme demonstram as pesquisas conduzidas separadamente por biólogos como Engel, Ishizakia, Olaya-Castro e Collini.

Trata-se do processo de fotossíntese.

De modo simplificado, durante a fotossíntese, a energia de um fóton incidente na superfície da folha é capturada. Essa energia luminosa é, a seguir, processada dentro dos cloroplastos, organelas que existem nas células da planta. Dentro de um cloroplasto, a energia luminosa capturada é transmitida “de mão em mão”, passando de um cromóforo (são estruturas moleculares distribuídas por todo o cloroplasto) a outro, numa sequência de cromóforos, até chegar num lugar chamado de “centro de reação”, onde a energia luminosa é convertida em energia química.

Porém, ao analisar-se a fotossíntese de uma simples planta de jardim, observa-se uma rapidez e eficiência de aproveitamento espantosas. Um só processo de captura e transporte da energia luminosa de um só fóton dentro da planta leva milionésimos de bilionésimos de segundo.

Algo indicava que, de alguma forma, a planta “sabia” qual o caminho era mais eficiente em cada caso.

O mistério foi resolvido quando se descobriu que, na fotossíntese, a planta aproveita-se da coexistência de múltiplos estados possíveis e coexistentes de cada fóton para que todos os trajetos possíveis entre os cromóforos sejam tomados de uma só vez. A seguir, a planta seleciona em seu centro de reação a energia que foi transmitida pelo melhor caminho, entre todos os trajetos tomados simultaneamente pelo mesmo quantum de energia luminosa.

Isso não é especulação, isso é um fatocomprovado e estudado. E esse fato pode ser descrito de várias formas complementares.

Tecnicamente, qualquer folha da planta mais ordinária que brota entre as junções de um muro é capaz de explorar todos os possíveis estados concomitantes do fóton e assim fazer com que a energia capturada siga ao mesmo tempo todos os caminhos possíveis pelos cromóforos, escolhendo (via coerência) o caminho mais eficiente para que a energia seja transmitida até o centro de reação.

De forma mais ampla, o que ocorre é que essa planta é capaz de explorar os múltiplos estados coexistentes de um mesmo fóton no âmbito do hiper contexto, associando o caminho mais eficiente para cada trama de realidade em ela existe e no qual faz sua fotossíntese.

De forma mais simplificada, a planta associa a cada versão sua, que existe em cada realidade alternativa desse universo, o trajeto de transporte da energia luminosa que for mais vantajoso naquela realidade específica.

Isso é feito por todas as plantas, seja uma grande sequoia, seja um pé de alface. E esse fato também fulmina o dogma de que há uma separação entre a física das subpartículas e o mundo macroscópico.

Por tal razão, não é absolutamente exagerado afirmar, como veículos de divulgação científica com credibilidade têm afirmado, que as plantas, na fotossíntese, funcionam como computadores quânticos.

Na verdade, não é também exagero dizer, como tem-se dito, que os organismos vivos são genuínas máquinas quânticas.

É que as plantas não são o único exemplo das escolhas evolucionárias que a natureza fez no hiper contexto. Como foi constatado, pássaros voam seguindo trajetórias coexistentes de forma que correspondam ao padrão de entrelaçamento que emerge do campo magnético da Terra em todas as realidades alternativas. Futuramente, será confirmado o que já se suspeita: que sentidos humanos como o olfato e a visão (um processo tão surpreendentemente rápido e eficiente quanto o da fotossíntese) dependem de estratégias evolutivas da natureza em relação ao hiper contexto. Essa também é a razão pela qual apenas determinados isótopos servem ao tratamento farmacológico de transtornos depressivos no cérebro humano.

Contudo, afirmar que somos “máquinas quânticas”, além de perturbar o ânimo dos cegos que negam e dos cegos que deliram diante da palavra “quântico”, também induz ao erro de que há algo especial, de “mágico” no fato de os seres vivos operarem no hiper contexto. É como dizer que o corpo humano é uma “máquina do tempo”, já que “viajamos” no tempo, indo do passado em direção ao futuro.

Ocorre que os organismos vivos operam no hiper contexto com a mesma naturalidade com que operam no tempo e nas três dimensões espaciais – pois tudo isso são aspectos de um só ambiente em que toda forma de vida nasce, cresce e morre. O hiper contexto é agente indissociável da vida orgânica, desde sua origem até os ecossistemas mais complexos nos dias de hoje.

A ORIGEM DA VIDA

É digno de nota que a primeira característica fundamental da vida orgânica foi a capacidade de replicar-se nos antigos oceanos e assim reproduzir, no âmbito do espaço tridimensional (um contexto) algo que ocorre com qualquer partícula no âmbito do hiper contexto: a dispersão contínua de uma só coisa em diferentes estados e posições (manifestação da entropia). É como se, de certo modo, as primeiras moléculas replicantes, que dariam origem à vida, criassem um segundo nível, subsidiário, de dispersão de uma só coisa (solve), aninhando num só contexto inicial um fenômeno existente para além de todos o contextos.

Também é notável que outra característica da vida orgânica seja a capacidade de lidar com a entropia utilizando-a a seu favor para produzir a energia necessária a sua manutenção. Na verdade, a origem da vida está associada à existência do hiper contexto.

E, no âmbito do hiper contexto, em que múltiplas possibilidades de configuração do meio ambiente coexistem, a natureza ensaia estratégias de sobrevivência que permitam adaptar-se e beneficiar-se das múltiplas realidades alternativas. Na produção de energia das bactérias, na fotossíntese das plantas, na orientação visual de aves, no sistema nervoso dos animais complexos, a natureza está sempre ensaiando novas formas de tirar proveito das múltiplas tramas de realidade, que emergem continuamente com o entrelaçamento de todos os seres e partículas. No fundo, trata-se um objetivo não muito diferente das diversas estratégias que a vida orgânica cria, pela evolução, para obter energia do ambiente circundante.

Perceba-se, antes de tudo, que a evolução, ao desenvolver progressivamente o sistema nervoso em animais complexos como o ser humano, buscava apenas desenvolver mais um órgão útil para a sobrevivência do organismo. Perceba-se, também, que se tratava, neste nível de complexidade, de um desafio bem maior do que aquele de obter energia solar da forma mais eficiente a cada segundo: o desafio consistia em fazer um organismo complexo operar num ambiente em constante ramificação em novas tramas de realidades.

Em outras palavras, seria útil um órgão que representasse com acuidade as características mais importantes do ambiente circundante, de forma que o organismo pudesse operar no hiper contexto encontrando alimento, defesa e meios de reprodução. Esse órgão é o cérebro.

Usando uma comparação quase metafórica, assim como a folha da mais simples planta escolhe em cada trama de realidade o trajeto mais eficiente para a fotossíntese, o sistema nervoso central dos animais complexos seleciona informações sensoriais da trama com a qual pode interagir a cada instante, e faz isso para obter nutrientes, encontrar oportunidades de reproduzir-se e evitar ameaças.

O desenvolvimento desse sistema nervoso resultou no aprimoramento da capacidade decisória do organismo vivo diante de cada situação presente num contexto específico, de forma a responder ajustadamente aos inúmeros futuros alternativos que continuamente emergem. Uma estratégia adotada pela natureza de “dividir (o hiper contexto em contextos) e conquistar”.

Nesse momento, algumas coisas já devem ser óbvias ao leitor.

Podemos imaginar a natureza optou, em outras formas de organização da vida, por lidar com a realidade do hiper contexto de outras formas, isto é, sem essa segmentação feita pela consciência dos animais complexos. O fato de que a vida vegetal adotou uma estratégia peculiar e distinta da nossa é um indicativo claro dessa possibilidade. E, de fato há, ao nosso redor formas de vida insuspeitas, que se desenvolveram estabelecendo uma relação distinta com o hiper contexto. Mas esse não é o tópico nesta parte de nosso aprendizado, e será abordado mais detidamente no futuro, na ocasião em que se tratará das implicações factuais e históricas do hiper contexto.

Nesta etapa, o que importa é começar a desvendar quem somos a partir da percepção de que nosso cérebro é um órgão criado evolutivamente para operar no âmbito de múltiplas realidades alternativas. E nisso não é em nada diferente das organelas que realizam a fotossíntese numa couve-flor.

CONSCIÊNCIA E HIPER CONTEXTO

Se você perguntasse a um discípulo de Newton (pai da Física clássica) o que é consciência humana, ele apresentaria uma mesa de bilhar. Nessa mesa, colocaria dezenas de bolas. A seguir, ele explicaria que, se uma das bolas for impulsionada de encontro às outras, e souber-se a exata posição inicial de cada uma, bem como as demais condições físicas de todo o sistema, seria possível descrever todos os movimentos subsequentes de todas as bolas a partir do primeiro choque, bem como sua posição no próximo segundo, no próximo minuto e assim por diante. É um sistema determinístico, onde cada instante seguinte pode ser deduzido das condições do instante antecedente. Além disso, também seria possível descrever todos os movimentos na mesa de bilhar no sentido inverso, voltando até o impulsionamento da primeira bola – pois, nesse sistema, o tempo é reversível.

Da mesma forma, continuaria o discípulo de Newton, se fosse conhecida a condição exata de todos os elementos constituintes de seu cérebro e de todas as variáveis determinantes nos processos cerebrais, seria possível prever seus pensamentos no próximo minuto, nos próximos dez minutos e no dia seguinte. Seria possível, também, descobrir o que você pensou no passado. Na verdade, sequer se poderia falar que você “pensou” em algo, pois a consciência seria apenas um subproduto irrelevante e colateral (um epifenômeno), dos movimentos na mesa de bilhar que é seu cérebro.

Mas sabemos que essa mesa de bilhar não é uma mesa de bilhar – é um conjunto de funções de onda composto por cada um de seus elementos constituintes, ela é, na verdade, a sobreposição de vários possíveis estados da mesa de bilhar, situada no hiper contexto. E sabemos, pela Equação de Schrödinger, que o hiper contexto não é apenas determinístico – ele é hiper determinístico, pois todas as probabilidades de futuro realizam-se em vários encadeamentos causais simultâneos.

Também sabemos que a noção de separação do universo em realidades alternativas não é algo inerente ao mundo exterior, mas um recorte da realidade feito pelo organismo – uma maneira de a vida orgânica segmentar sua interação com o meio ambiente do hiper contexto. É o que um pé de alface faz todos os dias. Trata-se, em síntese, de uma estratégia evolutiva. Como Andreas Whichert diria, esse é um processo de homeostase do organismo no âmbito das múltiplas realidades coexistentes.

Não é sem razão que o físico russo Michael Mensky, membro do Instituto de Física Lebedev, decidiu definir consciência como sendo nada mais que A separação de realidades alternativas e coexistentes. Em outras palavras, diante da coexistência de informações visuais conflitantes no momento em que um pesquisador num laboratório abre a caixa em que está o gato de Schödinger, a fim de descobrir se ele está vivo ou morto, sua consciência inicia uma separação de percepções que acompanhará as duas versões do pesquisador no caminho até sua casa após o expediente: em uma dessas versões, irá enterrar o gato no jardim; em outra, dará de comer ao animal.

Nesse exato momento, começam a surgir linhas de investigação teóricas e práticas que, não sem tropeços, comprovarão que o cérebro humano também opera no âmbito do hiper contexto. Ou seja, o cérebro humano utiliza-se do continuum de realidades alternativas pois é para essa função que primordialmente foi evolutivamente criado pela natureza.

E foi a partir da descoberta desse fato que o respeitado biologista Stuart Kauffman percebeu a relação existente entre o binding problem e o entrelaçamento fundamental das tramas de realidade.

O binding problem é um problema enfrentado pelas ciências da mente e pode ser descrito da seguinte maneira: se um observador vê um elefante vermelho diante de si, sua mente conecta as definições de “elefante” e de “vermelho”, que são armazenadas em regiões distintas do cérebro (na verdade, pelo sistema da segregação funcional, é um pouco mais complexo que isso, mas vamos manter o exemplo simples), para processar a ideia de que está vendo um elefante vermelho. Porém, se o elefante vermelho estiver montado por um macaco de chapéu, agora o observador precisa conectar mais três informações de regiões distintas de seu cérebro (a que está “macaco”, e a que está “chapéu”, a que está “montado”) e estabelecer conexão entre esses cinco elementos entre si (“elefante”, “vermelho”, “macaco”, “chapéu” e “montado”).

O problema é que, no mundo real, o observador não veria só um elefante amarelo montado por um macaco: ele receberia simultaneamente inúmeras informações sensoriais sobre o ambiente circundante, informações que estão continuamente mudando a todo instante. Na verdade, informações que não só chegam a cada momento, mas que estão sobrepostas em várias versões alternativas do macaco, do elefante e do ambiente no hiper contexto. E é preciso unir tudo isso numa percepção imediata do mundo que seja consistente.

Ocorre que é o entrelaçamento estabelecido entre as informações contidas em regiões distintas do cérebro e determinada trama de realidade que inicia essa separação, realizada pela consciência, entre a percepção de diversas tramas coexistentes. Isso tudo ocorre de forma muito rápida e consistente, em frações de milissegundos, numa velocidade capaz de rivalizar com a velocidade do processo de fotossíntese. Essa é a mesma conclusão a que chegou o neurocientista Danko Georgiev, e a dinâmica pode ser expressa na seguinte formulação de Matthew J. Donald, membro do Departamento de Física da Universidade de Cambridge:

“Quando um único indivíduo entra em contato com uma imagem pela primeira vez, todas essas diferentes possibilidades ocorrem, mas cada padrão diferente dos demais é visto por uma mente diferenciada. São mentes com o mesmo passado e o mesmo nome, mas que experienciam diferentes presentes e diferentes futuros, e que não tem forma de comunicar-se umas com as outras. A probabilidade de ver determinado padrão é determinada, pelo menos numa primeira aproximação, pela influência correspondente no estado quântico.”

Como afirmou o físico israelense e professor do Departamento de Física de Berkley, Rafael Bousso, e o norte-americano Leonard Susskind, de Universidade de Stanford, aquilo que é percebido como “decoerência”, ou seja, a segmentação do hiper contexto em tramas de realidade, é algo subjetivo e dependente de escolhas nos graus de liberdade possíveis do meio ambiente circundante.

O matemático Stuart Kauffman observou que, do ponto de vista computacional, há evidências de que o cérebro humano usa lógica segundo o formalismo quântico (o hiper contexto, de possibilidades coexistentes), e não segundo o formalismo da física clássica (a mesa de bilhar de Newton), o que é endossado pelo trabalho do físico da Universidade de Bruxelas, Diederik Aerts, e da psicóloga Liane Gabora. Ambos estudaram a forma como os seres vivos representam mentalmente sua interação com o hiper contexto: um organismo existe em estado de potencialidade (de manifestar-se no futuro imediato em várias versões alternativas de si mesmo) ao mesmo tempo em que o mundo exterior demanda, através de constantes estímulos, que esse organismo interaja com um único e determinado contexto de realidade.

Como ambos afirmaram, esse contexto “induz uma mudança no estado cognitivo” do animal, “que o faz transitar de um estado de sobreposição” (múltiplas realidades coexistentes) para um “estado de colapso” (a impressão de que há uma só realidade definida, com a qual pode interagir).

Em suma, enquanto você vive seu cotidiano, depara-se com decisões e fatos aleatórios que segmentam sua vida em vários futuros coexistentes, e sua mente segmenta a experiência de modo que cada versão de você vivencie apenas uma trama de realidade.

Mas a natureza “escolheu” (figurativamente falando) não nos informar a respeito disso. Vivemos emergindo em realidades alternativas, realizando futuros potenciais, ramificando nosso destino conforme escolhas e eventos decisivos. Assim, a sua história pessoal não é uma linha de vida, mas uma árvore de vida.

Como percebemos nossas vidas.
Como nossas vidas são.

Porém, você ignora essa vivência contínua, e isso ocorre justamente porque ignorar esse fato é parte indissociável da função do órgão que é seu cérebro. A natureza não tem qualquer inclinação pela verdade: a natureza tem inabalável inclinação pela sobrevivência e reprodução do organismo. A função de nossa consciência não é perceber a verdade sobre o mundo ao redor, mas possibilitar que nosso organismo interaja apropriadamente com aquele contexto de realidade no qual pode obter alimento, abrigo e reprodução – e do qual podem surgir efetivos riscos à sua sobrevivência. Sua consciência produz a separação de “tramas de realidade” assim seu o fígado produz bile.

O MODELO MENTAL QUE TOMAMOS POR REALIDADE

Na verdade, é incorreto supor que a consciência humana é destinada a tentar perceber a verdade sobre a realidade circundante. Ela é um órgão, e como tal sua função é fornecer ao organismo uma descrição acurada de aspectos da realidade circundante que importam para sua sobrevivência. A natureza não se inclina à verdade, mas à sobrevivência e reprodução de si mesma. Ademais, na economia da natureza, informações inúteis para seus fins não precisam ser processadas e armazenadas pelo organismo. Eis o motivo pelo qual não vemos as ondas de rádio que passam por nós nesse exato momento, ou não ouvimos sons abaixo de determinada frequência.

O filósofo alemão Thomas Metzinger, especialista no estudo sobre a consciência e identidade humana, recentemente demonstrou que o cérebro de um organismo consciente constrói a cada instante um modelo do mundo exterior. Essa é uma atividade incessante, e reconhecida pela neurobiologia, pois a cada instante a consciência é inundada por uma torrente de informações sensoriais sobre o mundo circundante e a cada um desses instantes precisa organizar essas informações de forma a construir um modelo coeso e compreensível desse mundo.

E isso é feito a uma velocidade impressionante, tal como a velocidade da transmissão de energia na fotossíntese. Afinal, a cada segundo pode surgir um predador ou outro tipo de ameaça à sobrevivência.

Com base nessas informações sensoriais, nosso cérebro cria um simulacro de realidade no qual sentimos que estamos inseridos. Como diz Metzinger, “o modelo global de realidade construído por nosso cérebro é atualizado com tanta velocidade e consistência que de regra não o vivenciamos como um modelo”, mas como a realidade em si mesma. Por isso a resistência humana em aceitar o hiper contexto é tão ou mais forte do que a de aceitarmos que a Terra em que pisamos não é plana, mas faz parte de uma esfera que flutua no espaço sem “lado para cima” e “lado para baixo”. Para nós, “a realidade fenomenal não é um espaço simulado construído por nossos cérebros”, mas o mundo real. “De uma forma direta e intranscendente enquanto experiência, trata-se do mundo em que vivemos”.

Você olha ao seu redor e acredita que está presenciando a realidade, o mundo no qual está inserido. Mas, na verdade, está percebendo um modelo de mundo criado dinamicamente por seu cérebro, através do qual pode interagir com os outros seres ao seu redor. Graças a um processo baseado no princípio da segregação funcional, áreas diferentes de seu cérebro constroem em sua mente (utilizando padrões de ativação das colunas thalamocorticais), a cada fração de segundo, esse simulacro eficiente de realidade consensual que você compartilha com todos os outros humanos e demais seres vivos que estão entrelaçados na mesma trama de realidade em que você está inserido.

Esse modelo de realidade, nos organismos mais evoluídos, é ainda mais complexo: ele inclui um modelo também de self, de si mesmo. Um modelo de identidade, de individualidade, que é criado dentro aquele outro modelo de mundo, fornecendo à sua consciência a percepção de que alguém vive sua vida.

Esse modelo de identidade é você. Ao menos em parte. Assim, a pergunta inicial começa a ser respondida.

QUEM É VOCÊ (EM UM CONTEXTO)

Então, quem você é? Qual é sua identidade? A resposta dependerá dos limites do enquadramento que fizermos do hiper contexto.

No enquadramento de uma trama de realidade percebida por sua consciência, você é um modelo de identidade pessoal criado e inserido no modelo de mundo que seu cérebro constrói dinamicamente a cada segundo ao segmentar o hiper contexto em contextos separados. Esse modelo de identidade pessoal testemunha a vida de uma perspectiva de primeira pessoa, e ele é o que denominamos de ego.

O ego trouxe grandes vantagens evolutivas aos organismos complexos. Metzinger considera-o uma verdadeira arma, “desenvolvida na corrida armamentista cognitiva” que há entre os seres vivos. É “como um instrumento ou órgão abstrato, inventado e constantemente atualizado pelo sistema biológico” que o sustenta.

Portanto, você é uma dentre várias identidades do mesmo organismo, coexistentes no hiper contexto, cada qual vivendo em um destino específico, dentro de uma moldura de realidade. Seu cérebro está constantemente atualizando esse modelo que você sente como o mundo real ao seu redor. Seu cérebro está constantemente contando para você próprio uma narrativa sobre quem você é e onde está. No centro desse modelo, há um modelo de identidade pessoal – o seu ego.

Mas essa narrativa não é individual, tampouco é meramente humana. A narrativa sobre a trama de realidade em que você está não é contada apenas pelo seu cérebro a cada instante, mas também pelo cérebro das pessoas ao seu redor. Tais narrativas de cada indivíduo são complementares, e reforçam-se mutuamente. Assim, o que há é uma enorme teia de narrativas contadas por todos ao seu redor.

E isso não inclui apenas os seres humanos, mas também todos os animais desenvolvidos, que a natureza também decidiu dotar de um cérebro que segmenta realidades e cria modelos de mundo e identidade pessoal em maior ou menor grau (nem todo chegam a desenvolver um ego, mas desenvolvem ao menos uma noção rudimentar de identidade pessoal). Na clareira de uma floresta, tanto o leopardo faminto como sua vítima humana compartilham uma narrativa coletiva de terá fatais consequências para um deles – suas narrativas são complementares, estão “entrelaçadas”.

Essa é uma forma de organização ecossistêmica que há no âmbito do hiper contexto, nada diferença em funcionalidade que o ecossistema no qual trocamos nutrientes e outras substâncias com um conjunto de seres vivos. Mas esse é um ecossistema de informação. Todos os seres vivos evoluídos estão narrando a mesma história uns para os outros, “encenando-a” dentro de modelo simulado de realidade que existe dentro dos seus cérebros.

A noção que você tem sobre quem é, onde está e o que está vivenciando neste momento é um modelo construído por seu cérebro a cada instante, a medida em que você flui pelo hiper contexto, segmentando sua vida em caminhos diferentes diante de cada decisão ou acaso que estabelece novas probabilidades de viver – e ao mesmo coexistindo com versões alternativas de você que estão exatamente aqui, neste espaço no universo. Mas com essas múltiplas versões você não pode interagir, pois elas não pertencem ao contexto de entrelaçamento com o qual você é pode de interagir.

Poderíamos dizer que é como se a natureza tivesse decidido, por questões evolucionárias, adotar a estratégia de “nos enganar” a todo momento, fazendo-nos ignorar o hiper contexto em que vivemos e a constante emergência de novos futuros ao qual reagimos com a divisão de nossa identidade em versões alternativas.

Mas falar assim seria pressupor de que a natureza tem alguma obrigação de nos apresentar a verdade. E isso seria um raciocínio invertido. A natureza é que nos criou para uma função específica em relação ao nosso organismo: operar em determinado contexto, em determinada trama de realidade. Para isso, elas municiou-nos com um sistema sensorial capaz de fornecer informações para que o cérebro construa um modelo minucioso e dinâmico de mundo.

Assim, o modelo continuamente construído ignora qualquer informação sobre a realidade que não apenas seja inútil para nosso contexto de sobrevivência (por isso não vemos, entre outras coisas, luz infravermelha) mas também estruturalmente prejudicial para a estratégia evolutiva que foi adotada.

Por isso é que facilmente nos distraímos da pergunta sobre quem somos, apesar de sua auto evidente importância, e temos dificuldade de encontrar a resposta: somos vocacionados à ignorância. Na verdade, expondo de forma mais exata, somos vocacionados a ter um conhecimento seletivo sobre as coisas, em que há zonas delimitadas por uma ignorância estrutural. A ignorância estrutural decorre do fato de que, evolutivamente, fomos criados para operar como um modelo de identidade pessoal, ou seja: o ego existe para acreditar que é alguém que vive uma vida. Responder de fato à pergunta é contrário à programação evolutiva.

Nesse momento, o leitor pode objetar que o conhecimento desse fato pode legitimar o suicídio ou a algum tipo de desestruturação da identidade humana, com graves consequências. Em relação ao suicídio, futuramente será demonstrado porque o matar-se é realmente uma péssima ideia no âmbito do hiper contexto. Quanto à outra objeção, convém lembrar que deixar de ter um ego, de vivenciar o mundo com uma identidade pessoal, é quase tão impossível para qualquer um quanto seria impossível a você desligar seu cérebro e cair morto neste exato momento simplesmente decidindo parar de pensar e tentando interromper qualquer atividade neurológica. Você é esse modelo de identidade que acredita viver sua vida, e continuará sempre sendo esse modelo de identidade.

Além disso, esse sistema é reforçado por um sistema maior, a matriz em que você vive, e cujo entendimento perceberá que respondamos com mais profundidade ainda à pergunta “Quem é você”.

A MATRIZ EM QUE VOCÊ VIVE

A evolução é emergente. Isso já reconhecia Alfred Russell Wallace, amigo de Darwin e um dos formuladores da teoria da evolução. E por “emergência” tem-se algo muito simples: é o contrário da linearidade. Na linearidade, o todo é igual a simples soma de suas partes. Na emergência, o todo é mais que a soma de suas partes.

Isso é perfeitamente claro quando colocamos da seguinte forma: podemos empilhar ao lado do animal todas as substâncias inanimadas que compõem seu organismo, desde todo o carbono e minerais até as moléculas de água. Porém, esse conjunto de elementos empilhados não será semelhante ao animal, da simples concatenação das partes não resulta o todo. O animal é algo mais, possui propriedades de termodinâmica e reprodução que os elementos inanimados não tem.

O que diferencia o animal daquele conjunto de elementos empilhados é a organização e interação desses elementos em uma determinada ordem: é informação. Não somos exatamente as células do nosso corpo, que morrem aos milhões a cada minuto. Somos a informação que é transmitida às novas células que constantemente são produzidas pela meiose.

Dessa perspectiva, tudo o que a vida orgânica faz neste mundo é reproduzir um sistema de informação consistente na sequência de DNA: não é a molécula de DNA que se transmite, mas a informação representada por uma configuração determinada de encadeamentos de bases nitrogenadas. Não é um objeto, mas uma informação ordenativa que tem como suporte um conjunto de objetos. Isso ocorre mesmo nas bactérias primitivas.

A evolução é inerentemente emergente, e tende a produzir sistemas de informações de nova ordem no curso da adaptação. Da mesma forma, como diria Julian Jaynes, a consciência humana é emergente, e não pode ser resumida como o mero conjunto de neurônios de um cérebro humano. No desenvolvimento desse órgão evolutivo destinado a ajudar o organismo a operar no hiper contexto, emergem estruturas de informação de maior nível de complexidade.

A consciência humana é resultado dessa emergência – neste momento, ela começa a reconhecer sua função de segmentar realidades e passa a ir além dessa função. Paralelamente, no âmbito do hiper contexto, a rede de representações de realidade passa a ir além do contexto onírico em que vivem os animais primitivos e desenvolve um sistema altamente organizado e superior de consciência ao qual nossos egos (nossas representações de realidade e identidade pessoal vinculadas a uma trama de realidade específica, a um contexto) não têm acesso.

Do outro extremo da história evolutiva outros sistemas de informação, mais abstratos, desenvolveram-se. No cérebro dos organismos mais complexos, há sistemas de informação que, na terminologia de Metzinger, constroem e atualizam dinamicamente uma representação da realidade que o animal considera ser o mundo real. Em organismos mais desenvolvidos, desenvolveu-se dentro dessa representação um modelo de identidade pessoal que trouxe enormes vantagens evolutivas. No ser humano, esse modelo é chamado de “ego”.

Mas para além desse sistema de representação de realidade no qual se inseriu uma representação de identidade pessoal, de ego, há um sistema de informação que é o princípio organizativo de todas as representações de realidade realizadas pelo cérebro no hiper contexto. Surgem desse sistema novas representações de realidade e identidade para cada realidade alternativa em que uma versão do mesmo organismo passa a viver.

Não estamos sozinhos apenas no sentido de que, no presente contexto em que estamos todos vivos, nessa trama de realidade que nos cabe viver, compartilhamos da mesma narrativa coletiva e entrelaçada. Também no âmbito do hiper contexto participamos de outros tipos de narrativas, que são subjacentes a certos processos também resultantes de escolhas evolucionárias.

Falar em narrativas, claro, é falar em estruturas informacionais que estão em constante transmissão e atualização diante das mudanças no meio ambiente. E as mudanças no meio ambiente estão intrincadamente associadas ao fluxo das possibilidades no hiper contexto. Assim como os vários organismos vivos compartilham de um mesmo ecossistema informacional no âmbito de determinado contexto, a consciência de um só indivíduo, continuamente fluindo pelo hiper contexto e segmentando-se em realidades alternativas, depende de um mínimo de coesão informacional.

Segure uma moeda em suas mãos. Ela não é só uma moeda, mas uma convergência de potenciais estados de ser da mesma moeda. Atire-a no chão. Num ambiente determinado pela aleatoriedade fundamental do mundo das partículas, a moeda cairá com as faces cara e coroa voltadas para cima, em realidades sobrepostas e coexistentes. As realidades potenciais até então convergentes passaram a divergir. Mas seu cérebro apenas processa uma só informação: ou cara ou coroa. O modelo de realidade precisa ser imediatamente atualizado.

Portanto, além de escolhas evolutivas terem resultado num modelo de identidade pessoal (ego) aninhado no modelo de mundo construído a cada instante pelo cérebro, um modelo ou sistema informacional de ordem superior precisa existir, a fim de organizar e promover a construção de novos modelos de identidade e de mundo a medida em que os futuros potenciais se concretizam diante do mesmo ser vivo.

Michael Lockwook chamou esse modelo superior de “Mente” (Mind), com inicial maiúscula, para distinguir das “mentes” (minds) que habitavam cada uma das realidades alternativas. M. B. Menski chamou-a de “super-consciência” (super-consciousness), para distinguir das consciências que acompanhavam a ramificação do momento presente em vários caminhos futuros. No ambiente em que essas verdades foram transmitidas antes de serem apresentadas ao leitor, é denominado de “Eu Profundo”.

Porém, cada um de nós tem ideias pré-concebidas do que seria “mente”, “consciência” e “eu”. Por outro lado, é mais fácil entender o que é um sistema de informação ou de rede.

O modelo informacional de rede é tão arcaico na natureza quanto o processo quântico de fotossíntese. Bactérias primitivas estabelecem redes de informação por meio de canais de íon para otimização da colônia bacteriana, e pesquisadores notaram recentemente sua semelhança com redes neuronais. Nas florestas, árvores distantes estabelecem entre si uma rede de comunicação graças à simbiose com fungos (mycorrhiza), prevenindo a ação de patógenos e fortalecendo as defesas do sistema como um todo.

A capacidade de sonhar dos répteis, bem como de todos os mamíferos, deixa evidente que essa rede de informação que funciona no âmbito do hiper contexto, abrangendo todas as representações de realidade de um só organismo, existe há muito tempo, mesmo que de forma rudimentar. Sim, como se verá adiante, a atividade onírica é fundamental para a existência dessa rede e um dos indícios de sua existência em um organismo vivo. O ponto importante neste momento é que essa rede tem por função original a homeostase do organismo no âmbito de um universo em que múltiplas realidades alternativas coexistem e o cérebro evoluiu optando por segmentar a representação de cada uma dessas realidades. Nisso, em nada é diferente do processo de homeostase que mantém o equilíbrio da temperatura corporal em condições ambientais variáveis.

Portanto, em posição hierárquica superior ao “mundo” construído dinamicamente pelo seu cérebro para representar uma só trama de realidade, há uma rede de informação sustentada dinamicamente por sua mente para descrever todas as tramas de realidade em que versões de você estão vivendo neste momento. A essa rede situada no hiper contexto daremos o nome de Matriz, por analogia à matriz celular que une as células de um mesmo indivíduo. Essa Matriz é inacessível ao seu ego, mas une a consciência de todas as versões suas que existem em diversas realidades alternativas.

E nos organismos ainda mais complexos e desenvolvidos, se por um lado a construção de uma identidade pessoal, o ego, trouxe vantagens evolucionárias, por outro o desenvolvimento de uma identidade superior e operante na Matriz representou também foi um desenvolvimento importante.

Em outras palavras, assim como há uma identidade pessoal construída dentro do modelo de mundo que representa uma só trama de realidade, existe um centro coordenador e organizador dentro da Matriz a que você pertence.

É nesse momento que reformulamos a pergunta “Quem é você?”.

QUEM É VOCÊ (NO HIPER CONTEXTO)

No âmbito de um contexto determinado, da trama de realidade em que você lê estas palavras, você é um modelo de identidade pessoal plasmado por seu cérebro e inserido no centro da representação de realidade que dinamicamente ele constrói a cada fração de segundo. Você só existe enquanto personagem dessa representação em cada instante presente – você não existe no futuro nem no passado, mas unicamente aqui e agora. Sua mente conta incessantemente uma narrativa que relata qual seu passado, qual sua identidade e onde você está. E essa narrativa é reforçada por todos ao seu redor que compartilham da mesma experiência, que estão entrelaçado na mesma trama.

Isso é seu ego, no âmbito de um contexto.

Porém, para além dessa trama de realidade, no âmbito do hiper contexto que abarca todas as tramas de realidade em que você vive versões alternativas de sua vida, você é uma rede de informação, a Matriz, constantemente sustentada e coordenada por uma inteligência central, a sua “identidade superior”.

Essa identidade superior, que está além de todas as suas identidades pessoais coexistentes, opera no hiper contexto consciente do hiper contexto, e por isso é uma forma de consciência suprior. Para constratar com o ego, chamamos essa hiper identidade de Self.

Você também é o Self, no âmbito do hiper contexto.

É inviável ao ego (a qualquer ego de qualquer realidade alternativa em que você viva) acessar diretamente ao Self. Isso representaria, no atual estágio evolucionário, a própria desestruturação do ego e uma genuína forma de morte, já que o ego é estruturado pela própria segmentação da identidade em um contexto específico. Quem vivenciou o rompimento dos limites entre ego e Self percebe o impacto da experiência, impacto esse nem sempre benéfico. Como diz a fábula hebraica, dos quatro homens que visitaram o Jardim do Éden, o primeiro morreu, o segundo enlouqueceu, o terceiro se encheu de fúria e só o quarto conseguiu entrar e sair em paz.

A CARTOGRAFIA DE QUEM VOCÊ É

Você é ego, Matriz e Self – um indivíduo, uma rede de indivíduos e uma consciência superior.

Ao longo da história, várias tradições de pensamento tentaram descrever a verdade sobre a identidade humana. No budismo, o ego é percebido como uma forma de ilusão condicionada pelo desejo (as pulsões animais instintivas) e pela ignorância (a incapacidade de perceber a própria identidade e o mundo tal como são). No hinduísmo, crê-se na natureza ilusória da identidade, enredada no sonho de Maya, a grande tecelã de realidades. Mesmo nas religiões ocidentais há a descrição de um eu condicionado, cujos desejos devem ser submetidos ao exercício da humildade, se quiser fortalecer sua conexão com uma potência superior.

Da mesma forma, outros mitos e lendas de nossos antepassados tentaram delinear, de maneira rudimentar, alguns aspectos gerais da Matriz em que cada um de nós está inserido. Afinal, todas as noites, ao sonharmos, visitamos esse território, e é natural que nossos ancestrais intuíssem algo sobre sua existência e natureza.

Na verdade, desde tempos imemoriais a humanidade tenta criar mapas para descrever esse território em que todos estamos inseridos e que visitamos todas as noites, ao sonharmos. Os primeiros mapas eram simples, e em geral todos eram inexatos. Pior ainda, com frequência o mapa era confundido com o território, dando gênese à dogmas e religiões organizadas.

Ocorre que, neste momento, alterações abruptas estão ocorrendo no mundo, e ameaças desconhecidas insinuam-se no horizonte da humanidade. Essa situação é emergencial, e exige que compreendamos aspectos mais amplos desse território chamado Matriz, bem como da natureza do Self e da função do ego nesse sistema.

A humanidade precisa, em suma, de uma cartografia mais precisa e descritiva, que nos permita adaptar com rapidez e eficiência o sistema cognitivo e decisório que herdamos de nossos antepassados, sem corrermos o risco de confundir o mapa com o território.

No século XX, felizmente, alguns cartógrafos começaram a analisar esse território e a descrever sua topografia de forma mais precisa. Seus nomes são C. G. Jung, Julian Jaynes e Mircea Eliade. O mapa elaborado por esses cartógrafos será objeto de nosso próximo texto, que será menos árido e técnico do que este. Na verdade, ele terá a cor e fluidez dos sonhos humanos.