chibata capa

Quem segura nossa chibata?

Em Consciência por Victor LisboaComentário

.“Eles que­riam sin­ce­ra­mente aju­dar esses caras”..

Foi dessa maneira que uma fotó­grafa russa ten­tou expli­car a inten­ção de dois ex-mem­bros de um fight club em Mos­cou, que deci­di­ram criar seu pró­prio clube, algo que parece mis­tu­rar pseudo-tera­pia psi­co­ló­gica, ritu­ais humi­lhan­tes e intuito de lucro.  A entre­vista com­pleta, imper­dí­vel, pode ser lida aqui.

Maria Tur­chen­kova acres­cen­tou que a tarefa dos par­ti­ci­pan­tes do Clube da Luta mos­co­vita “é agir como se eles esti­ves­sem lutando por suas vidas”. “Os sen­ti­men­tos de inu­ti­li­dade, des­per­so­na­li­za­ção e a ina­bi­li­dade de ter con­fi­ança no futuro — esses sen­ti­men­tos são uni­ver­sais”, acres­cen­tou. “Ao mesmo tempo, esses sen­ti­men­tos são par­ti­cu­la­res na Rús­sia, assim como em mui­tos outros luga­res: pode haver mui­tas com­pa­nhias e, por­tanto, mui­tas opor­tu­ni­da­des no momento, mas não há um meca­nismo para aju­dar a assi­mi­lar as pes­soas com esse mundo glo­bal, com a eco­no­mia de mer­cado.”

Embora pos­sa­mos repro­var a ini­ci­a­tiva dos dois rus­sos esper­ta­lhões, como bons nego­ci­an­tes eles con­se­gui­ram enxer­gar uma demanda — ou melhor, uma insa­tis­fa­ção, um buraco no espí­rito de seu público-alvo: o homem moderno. Segundo a fotó­grafa, medi­ante humi­lha­ções os par­ti­ci­pan­tes “tinham que con­fron­tar sua fra­queza moral”. Aí que está o pro­blema.

ali3

Qual seria a natu­reza dessa “fra­queza moral”?

Ampli­ando mais a per­gunta: o que, em maior ou menor grau, nos torna fra­cos? O que não con­se­gui­mos obter por falta de “força moral”?

Sendo mais direto, lei­tor:

O que você quer?

Cui­dado ao res­pon­der. Tal­vez você seja livre para fazer o que quer, mas não é livre para esco­lher o que quer, segundo um sábio ran­zinza mas de inte­li­gên­cia afi­ada.

Pois o que você quer está ins­crito em cada célula de seu corpo pela mãe natu­reza. E, quanto a isso, não há qual­quer con­trole.  Por isso, para res­pon­der essa per­gunta, basta escu­tar seu corpo.

Mas o seu pro­blema nem é esse. O seu pro­blema é que você, filho de nossa soci­e­dade, nem mesmo tem cora­gem de fazer o que a natu­reza exige o que você queira.

Por­que você é um escravo.

E o pior tipo de escravo: aquele que se recusa a reco­nhe­cer sua situ­a­ção, pois sig­ni­fi­ca­ria rever mui­tos de seus con­cei­tos, inclu­sive aque­les rela­ti­vos a sua impor­tân­cia no mundo. Não, você não é impor­tante. E o pri­meiro passo de um escravo moderno é reco­nhe­cer essa situ­a­ção.

Antes de tudo, os ani­mais que somos não foram mol­da­dos para o excesso de con­forto. Basta olhar nos­sos cor­pos, a pura expres­são dessa ani­ma­li­dade: não fica­mos mais mus­cu­lo­sos ao fim de cada dia sen­ta­dos no sofá. Nos­sos cor­pos foram fei­tos para resis­tir em con­di­ções de grande adver­si­dade. Den­tro de nós há um bicho for­jado para enfren­tar situ­a­ções de crise, e não para sen­tar diante do com­pu­ta­dor nave­gando pela inter­net.

Por isso, falei ape­nas meia ver­dade quando disse, certa vez, que nosso corpo quer movi­mento. Nosso corpo quer mais: nosso corpo quer é luta, quer é enfren­tar adver­si­da­des. Embora os comer­ci­ais de car­ros con­for­tá­veis nos ven­dam a ideia oposta — trans­for­mando nossa soci­e­dade em uma soci­e­dade de bun­dões.

A vida de nos­sos mais remo­tos ante­pas­sa­dos ainda era muito seme­lhante ao mundo sel­va­gem: na Gré­cia e Roma clás­si­cas, a expec­ta­tiva de vida era de 28 anos. As inces­san­tes bata­lhas por ter­ri­tó­rio e fon­tes de ali­mento man­ti­nham os homens naquele estado de con­tí­nuo desa­fio e perigo que atende o cla­mor de nossa cons­ti­tui­ção ani­mal.

Aqui não se trata de uma ques­tão moral: guerra e situ­a­ções vio­len­tas podem ser moral­mente um mal (e são), mas o mundo natu­ral é amo­ral, e é desse mundo que vie­mos. Espor­tes radi­cais e artes mar­ci­ais são for­mas de dar vazão a esse ins­tinto pri­mi­tivo de forma con­tro­lada, mas nem todos nos iden­ti­fi­ca­mos com essas ati­vi­da­des.

ali4

O homem só se rea­liza quando está em con­tí­nua expan­são, em cons­tante dese­qui­lí­brio na busca por uma har­mo­nia que jamais é atin­gida total­mente, exceto quando mor­re­mos — a vida é um con­tí­nuo andar na corda-bamba. A com­ba­ti­vi­dade e a pre­dis­po­si­ção ao desa­fio são natu­rais ao ani­mal que somos e, nas anti­gas soci­e­da­des, eram esti­mu­la­das, valo­ri­zando-se os guer­rei­ros, os des­bra­va­do­res e os con­quis­ta­do­res. Era moral­mente ter­rí­vel, huma­na­mente deplo­rá­vel, pois sig­ni­fi­cava escra­vi­zar os ini­mi­gos, sub­ju­gar povos con­quis­ta­dos. A solu­ção moderna, porém, não foi tor­nar todos os homens livres, mas sim fazer de todos um pouco escra­vos.

A com­ba­ti­vi­dade hoje, é repri­mida para que seja cana­li­zada para inte­res­ses econô­mi­cos. Que­rem que seja­mos paca­tos pais de famí­lia e que sin­ta­mos ver­go­nha de nos­sos ins­tin­tos. Repri­mem nossa com­ba­ti­vi­dade e beli­ge­rân­cia pri­meiro para nos fazer inse­gu­ros e, assim, bus­car no con­sumo a auto­con­fi­ança que não temos se esti­ver­mos sem posse: um ver­da­deiro homem é auto­con­fi­ante ainda que pos­sua ape­nas a roupa do corpo.

Segundo, repri­mem a vazão natu­ral des­ses ins­tin­tos a fim de que sejam cana­li­za­dos em pro­veito de um sis­tema que esti­mula o exer­cí­cio da agres­si­vi­dade no âmbito das empre­sas: a busca de pro­mo­ções, de melho­res car­gos, de maior efi­ci­ên­cia, de mai­o­res lucros e de der­rota da empresa rival. É a com­pe­ti­ção da eco­no­mia de mer­cado, é a guerra indi­vi­dual e cole­tiva em que segui­mos livros de auto-ajuda sobre como nos tor­nar­mos líde­res em sete pas­sos. Assim nossa agres­si­vi­dade é ins­tru­men­ta­li­zada não em nosso bene­fí­cio, mas em bene­fí­cio de algo­rí­ti­mos soci­ais.

Mas nossa escra­vi­dão se revela quando bri­ga­mos no trân­sito por boba­gem ou quando for­ma­mos tor­ci­das orga­ni­za­das ou quando faze­mos parte de mani­fes­ta­ções e, mas­ca­ra­dos, ape­nas que­re­mos que­brar vidra­ças. São todas expres­sões de que algo está errado, mas não que­re­mos reco­nhe­cer a ver­da­deira natu­reza desse algo.

E o que não que­re­mos reco­nhe­cer é que somos escra­vos.

Já disse que vive­mos em uma soci­e­dade um pouco bun­dona. Ven­dem-nos a ilu­são da segu­rança até con­ver­ter a todos nós na gera­ção álcool gel, uma gera­ção apa­vo­rada com qual­quer coisa que remo­ta­mente possa repre­sen­tar um risco a um estilo de vida exces­si­va­mente con­for­tá­vel, enga­no­sa­mente cômodo e supos­ta­mente sem peri­gos.

Porém, toda vez que esco­lhe­mos a segu­rança, refor­ça­mos o medo den­tro de nós. Uma soci­e­dade alfa-patri­ar­cal tenta man­ter tam­bém os homens domes­ti­ca­dos e assus­ta­dos, pois a inse­gu­rança eleva nossa com­pul­são por adqui­rir pro­du­tos subs­ti­tu­ti­vos do que deve­ría­mos ter den­tro de nós: auto­con­fi­ança.

ali5

Mas não se iluda: você não é escravo de pode­ro­sos ban­quei­ros (eles, de certa forma, tam­bém são pri­si­o­nei­ros) — você é escravo de uma lógica social, de um con­junto de pro­ce­di­men­tos e sis­te­mas que fariam rir aos nos­sos ante­pas­sa­dos, pois a eles pare­ce­ria coisa de maluco. Você é escravo de algo que Stein­beck (amigo de um dos pou­cos homens que se recu­sou a ser escravo) des­cre­veu de modo for­mi­dá­vel em Vinhas da Ira, e que Edu­ardo Pinheiro bem cha­mou de algo­rit­mos con­tra­tu­ais que regem vidas huma­nas. Somos escra­vos não de pes­soas, mas de um flu­xo­grama de memes.

Isso não é uma crí­tica ao capi­ta­lismo. Ao con­trá­rio, é uma crí­tica a uma espé­cie de capi­ta­lismo, que está impe­dindo que a eco­no­mia de mer­cado se desen­volva e assuma uma con­for­ma­ção que nos torne, todos, mais rea­li­za­dos não ape­nas enquanto seres pen­san­tes — mas tam­bém enquanto ani­mais. O mer­cado e a lógica capi­ta­lista, como toda estru­tura e ins­tru­mento, podem ser um meca­nismo moe­dor de espí­ri­tos ou um meca­nismo impul­si­o­na­dor do cres­ci­mento de todos os indi­ví­duos.

A Rús­sia é o exem­plo de uma soci­e­dade que, ao sair do inferno comu­nista, fez seus homens dei­xa­rem de ser fri­tos para serem cozi­nha­dos: ainda uma forma de angús­tia, só que agora mais insi­di­osa. Não nos ilu­da­mos, o sis­tema comu­nista não é melhor do que o capi­ta­lista — o que muda é ape­nas a mão que segura o chi­cote. Agora, não é um líder comu­nista que escra­viza, mas um sis­tema sem rosto, um sis­tema no qual nós, no oci­dente, já está­va­mos sub­mer­sos.

Por isso, não é de sur­pre­en­der que lá eles tenham imple­men­tado (ainda que de forma ama­dora, ainda que com uma meto­do­lo­gia repro­vá­vel e ainda que com o obje­tivo ape­nas de lucrar) uma ideia que nas­ceu ape­nas como fábula de um escri­tor ame­ri­cano que, entre outras coi­sas, cri­ti­cou a lógica das empre­sas e o con­su­mismo. Os rus­sos são os gran­des nova­tos em nossa máquina de fazer lou­cos - e, gra­ças a tal situ­a­ção, seu olhar não está acos­tu­mado demais a ponto de não per­ce­be­rem o que nos­sos olhos já con­si­de­ram algo tão nor­mal que sequer repa­ra­mos. Eles gri­tam mais do que nós, pois seu couro ainda não foi endu­re­cido pelas chi­ba­ta­das.

Mas não nos per­ca­mos em diva­ga­ções. O que importa aqui é: você é um escravo.

A luta não é con­tra outro homem, a luta é con­tra você mesmo. Você pode ins­tru­men­ta­li­zar o com­bate com outra pes­soa como forma de colo­car no palco o com­bate con­tra você mesmo — con­tra suas inse­gu­ran­ças. Pois o gri­lhão e o chi­cote que faz de você um escravo não está nas mãos de nenhum senhor: é você que se prende todos os dias, é você que se chi­co­teia todos os dias. O que há de insi­di­oso nessa nova forma de escra­vi­dão é que ela foi inter­na­li­zada por todos nós.

ali2

Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

Compartilhe