.“Eles queriam sinceramente ajudar esses caras”..

Foi dessa maneira que uma fotógrafa russa tentou explicar a intenção de dois ex-membros de um fight club em Moscou, que decidiram criar seu próprio clube, algo que parece misturar pseudo-terapia psicológica, rituais humilhantes e intuito de lucro.  A entrevista completa, imperdível, pode ser lida aqui.

Maria Turchenkova acrescentou que a tarefa dos participantes do Clube da Luta moscovita “é agir como se eles estivessem lutando por suas vidas”. “Os sentimentos de inutilidade, despersonalização e a inabilidade de ter confiança no futuro — esses sentimentos são universais”, acrescentou. “Ao mesmo tempo, esses sentimentos são particulares na Rússia, assim como em muitos outros lugares: pode haver muitas companhias e, portanto, muitas oportunidades no momento, mas não há um mecanismo para ajudar a assimilar as pessoas com esse mundo global, com a economia de mercado.”

Embora possamos reprovar a iniciativa dos dois russos espertalhões, como bons negociantes eles conseguiram enxergar uma demanda – ou melhor, uma insatisfação, um buraco no espírito de seu público-alvo: o homem moderno. Segundo a fotógrafa, mediante humilhações os participantes “tinham que confrontar sua fraqueza moral”. Aí que está o problema.

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Qual seria a natureza dessa “fraqueza moral”?

Ampliando mais a pergunta: o que, em maior ou menor grau, nos torna fracos? O que não conseguimos obter por falta de “força moral”?

Sendo mais direto, leitor:

O que você quer?

Cuidado ao responder. Talvez você seja livre para fazer o que quer, mas não é livre para escolher o que quer, segundo um sábio ranzinza mas de inteligência afiada.

Pois o que você quer está inscrito em cada célula de seu corpo pela mãe natureza. E, quanto a isso, não há qualquer controle.  Por isso, para responder essa pergunta, basta escutar seu corpo.

Mas o seu problema nem é esse. O seu problema é que você, filho de nossa sociedade, nem mesmo tem coragem de fazer o que a natureza exige o que você queira.

Porque você é um escravo.

E o pior tipo de escravo: aquele que se recusa a reconhecer sua situação, pois significaria rever muitos de seus conceitos, inclusive aqueles relativos a sua importância no mundo. Não, você não é importante. E o primeiro passo de um escravo moderno é reconhecer essa situação.

Antes de tudo, os animais que somos não foram moldados para o excesso de conforto. Basta olhar nossos corpos, a pura expressão dessa animalidade: não ficamos mais musculosos ao fim de cada dia sentados no sofá. Nossos corpos foram feitos para resistir em condições de grande adversidade. Dentro de nós há um bicho forjado para enfrentar situações de crise, e não para sentar diante do computador navegando pela internet.

Por isso, falei apenas meia verdade quando disse, certa vez, que nosso corpo quer movimento. Nosso corpo quer mais: nosso corpo quer é luta, quer é enfrentar adversidades. Embora os comerciais de carros confortáveis nos vendam a ideia oposta – transformando nossa sociedade em uma sociedade de bundões.

A vida de nossos mais remotos antepassados ainda era muito semelhante ao mundo selvagem: na Grécia e Roma clássicas, a expectativa de vida era de 28 anos. As incessantes batalhas por território e fontes de alimento mantinham os homens naquele estado de contínuo desafio e perigo que atende o clamor de nossa constituição animal.

Aqui não se trata de uma questão moral: guerra e situações violentas podem ser moralmente um mal (e são), mas o mundo natural é amoral, e é desse mundo que viemos. Esportes radicais e artes marciais são formas de dar vazão a esse instinto primitivo de forma controlada, mas nem todos nos identificamos com essas atividades.

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O homem só se realiza quando está em contínua expansão, em constante desequilíbrio na busca por uma harmonia que jamais é atingida totalmente, exceto quando morremos – a vida é um contínuo andar na corda-bamba. A combatividade e a predisposição ao desafio são naturais ao animal que somos e, nas antigas sociedades, eram estimuladas, valorizando-se os guerreiros, os desbravadores e os conquistadores. Era moralmente terrível, humanamente deplorável, pois significava escravizar os inimigos, subjugar povos conquistados. A solução moderna, porém, não foi tornar todos os homens livres, mas sim fazer de todos um pouco escravos.

A combatividade hoje, é reprimida para que seja canalizada para interesses econômicos. Querem que sejamos pacatos pais de família e que sintamos vergonha de nossos instintos. Reprimem nossa combatividade e beligerância primeiro para nos fazer inseguros e, assim, buscar no consumo a autoconfiança que não temos se estivermos sem posse: um verdadeiro homem é autoconfiante ainda que possua apenas a roupa do corpo.

Segundo, reprimem a vazão natural desses instintos a fim de que sejam canalizados em proveito de um sistema que estimula o exercício da agressividade no âmbito das empresas: a busca de promoções, de melhores cargos, de maior eficiência, de maiores lucros e de derrota da empresa rival. É a competição da economia de mercado, é a guerra individual e coletiva em que seguimos livros de auto-ajuda sobre como nos tornarmos líderes em sete passos. Assim nossa agressividade é instrumentalizada não em nosso benefício, mas em benefício de algorítimos sociais.

Mas nossa escravidão se revela quando brigamos no trânsito por bobagem ou quando formamos torcidas organizadas ou quando fazemos parte de manifestações e, mascarados, apenas queremos quebrar vidraças. São todas expressões de que algo está errado, mas não queremos reconhecer a verdadeira natureza desse algo.

E o que não queremos reconhecer é que somos escravos.

Já disse que vivemos em uma sociedade um pouco bundona. Vendem-nos a ilusão da segurança até converter a todos nós na geração álcool gel, uma geração apavorada com qualquer coisa que remotamente possa representar um risco a um estilo de vida excessivamente confortável, enganosamente cômodo e supostamente sem perigos.

Porém, toda vez que escolhemos a segurança, reforçamos o medo dentro de nós. Uma sociedade alfa-patriarcal tenta manter também os homens domesticados e assustados, pois a insegurança eleva nossa compulsão por adquirir produtos substitutivos do que deveríamos ter dentro de nós: autoconfiança.

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Mas não se iluda: você não é escravo de poderosos banqueiros (eles, de certa forma, também são prisioneiros) – você é escravo de uma lógica social, de um conjunto de procedimentos e sistemas que fariam rir aos nossos antepassados, pois a eles pareceria coisa de maluco. Você é escravo de algo que Steinbeck (amigo de um dos poucos homens que se recusou a ser escravo) descreveu de modo formidável em Vinhas da Ira, e que Eduardo Pinheiro bem chamou de algoritmos contratuais que regem vidas humanas. Somos escravos não de pessoas, mas de um fluxograma de memes.

Isso não é uma crítica ao capitalismo. Ao contrário, é uma crítica a uma espécie de capitalismo, que está impedindo que a economia de mercado se desenvolva e assuma uma conformação que nos torne, todos, mais realizados não apenas enquanto seres pensantes – mas também enquanto animais. O mercado e a lógica capitalista, como toda estrutura e instrumento, podem ser um mecanismo moedor de espíritos ou um mecanismo impulsionador do crescimento de todos os indivíduos.

A Rússia é o exemplo de uma sociedade que, ao sair do inferno comunista, fez seus homens deixarem de ser fritos para serem cozinhados: ainda uma forma de angústia, só que agora mais insidiosa. Não nos iludamos, o sistema comunista não é melhor do que o capitalista – o que muda é apenas a mão que segura o chicote. Agora, não é um líder comunista que escraviza, mas um sistema sem rosto, um sistema no qual nós, no ocidente, já estávamos submersos.

Por isso, não é de surpreender que lá eles tenham implementado (ainda que de forma amadora, ainda que com uma metodologia reprovável e ainda que com o objetivo apenas de lucrar) uma ideia que nasceu apenas como fábula de um escritor americano que, entre outras coisas, criticou a lógica das empresas e o consumismo. Os russos são os grandes novatos em nossa máquina de fazer loucos – e, graças a tal situação, seu olhar não está acostumado demais a ponto de não perceberem o que nossos olhos já consideram algo tão normal que sequer reparamos. Eles gritam mais do que nós, pois seu couro ainda não foi endurecido pelas chibatadas.

Mas não nos percamos em divagações. O que importa aqui é: você é um escravo.

A luta não é contra outro homem, a luta é contra você mesmo. Você pode instrumentalizar o combate com outra pessoa como forma de colocar no palco o combate contra você mesmo – contra suas inseguranças. Pois o grilhão e o chicote que faz de você um escravo não está nas mãos de nenhum senhor: é você que se prende todos os dias, é você que se chicoteia todos os dias. O que há de insidioso nessa nova forma de escravidão é que ela foi internalizada por todos nós.

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escrito por:

Victor Lisboa

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