Por Dr. Raymond Boisvert


Filósofos muitas vezes falam sobre “o bem”, como se fosse uma coisa singular. Às vezes isso coloca os pensadores em apuros.

Platão e Aristóteles fizeram muito bem. Algum tipo de equilíbrio entre os vários elementos sempre esteve presente no trabalho deles.

Platão pensava em termos de uma boa sociedade, em que “bom” era definido pela boa disposição dos diversos elementos. Aristóteles inventou uma palavra, eudaimonia, para indicar “felicidade”, ou “prosperidade”.

A vida próspera envolve vários elementos: organização adequada das disposições, bons hábitos, amigos, um pouco de sorte no que diz respeito a coisas como saúde e uma sociedade estável, juntamente com uma razoabilidade geral e atenção ao que é aprendido com a experiência. A eudaimonia, como resultado, sempre foi um assunto complexo.

Depois de Aristóteles, Epicuro definiu “prazer” como o conteúdo da bondade.

Como filósofo, ele fez uma complicada pergunta: o que é prazer? Ele acabou por definir por “ataraxia”, ou seja, sem distúrbios. Uma vida vivida em equilíbrio, com perturbações mínimas, é a vida mais agradável.

Os estóicos, muitas vezes contrastados com os epicuristas, tinham um ideal semelhante, “apatheia”, ausência de poderosos transtornos emocionais.

Estes movimentos pós-aristotélicos marcaram uma mudança importante: a introspecção. Coisas que devem ser evitadas, por exemplo, distúrbios, transtornos emocionais, distúrbios de vida em equilíbrio, tudo isso surgiu a partir do que se encontra exterior a nós.

Quanto menos nos envolvêssemos, menos vulneráveis seríamos, e maior seriam as chances de alcançar uma vida prazerosa e com perturbações mínimas.

A velha ética partia do princípio de que uma vida boa e feliz não era possível a menos que houvesse pessoas em quem se pudesse confiar. Já a nova ética seguiu a trajetória presente na letra da música de Whitney Houston: “E então eu aprendi a depender de mim.”

A religião acrescentou outro ingrediente. Este chegou por meio dos ensinamentos de um sábio persa chamado Mani. A distinção entre interno e externo tornou-se tão acentuada quando a distinção entre o bem e o mal.

O maniqueísmo descreveu um mundo no qual o bem e o mal, a luz e as trevas, espírito e matéria eram irreconciliáveis.

O bem e o mal possuíam manifestações físicas. A matéria era má, o espírito era bom. Neste contexto faz todo o sentido para um grande número de homens, aspirando uma vida boa, retirarem-se do mundo e tornarem-se monges.

Também incentivou uma tendência tão antiga quanto a humanidade: a identificação de bodes expiatórios. Mulheres rotuladas de bruxas sentiram essa ira, assim como os hereges.

Escritores, mais tarde, traçaram a origem dos problemas políticos nos “parasitas”, sejam os ricos ociosos (Lenin os criticou) ou pessoas pobres (Ayn Rand as criticou). Os nazistas trataram os seus inimigos como parasitas e germes, agentes que necessitavam ser erradicados.

Bactérias não são combatidas em queijo.

Pensei em tudo isso quando visitei recentemente uma loja de queijos artesanais, a Kennebec Cheesery na região dos lagos de Belgrade em Maine. Este lugar especial é muito acolhedor. É uma casa de campo, com muitas terras, cabras e ovelhas.

Além disso, há abundância de pequenos organismos, alguns visíveis, outros invisíveis e outros ainda em pacotes refrigerados. Dentre os seres invisíveis estão presentes principalmente as bactérias. Dentro da disposição maniqueísta, as bactérias se enquadram na categoria “mal a ser exterminado“.

As manchetes de jornal sobre a notória Escherichia coli não ajudam, especialmente quando deixam de mencionar que a maioria das cepas são inofensivas e até mesmo benéficas. Eliminá-las seria desastroso para a nossa saúde. Melhor seria trabalhar com elas.

Esta é a hora na qual os pacotes refrigerados vem a calhar. Os pacotes com tais organismos possuem em sua embalagem nomes que podem causar um certo receio, como Streptococcus thermophilus, ou Lactobacillus casei.

Outros, têm rótulos mais reconhecíveis, Penicillium roqueforti, Penicillium camemberti. Em vez de visar a eliminação, os fabricantes de queijo recebem de braços abertos esses “germes”. O resultado: queijos saudáveis e saborosos.

O sistema pós-aristotélico da ética, ou seja, a introspecção, foi duplamente problemático.

1 – Uma boa vida seria alcançada por meio do isolamento dos caprichos da existência.

2 – Tal sistema incentivava um modo de combate, ou seja, não apenas a retirada, mas as tentativas de purificação através da erradicação do que era considerado unilateralmente e de forma inequívoca “mal”.

Por outro lado, a produção de queijos oferece outro modelo: Streptococcus, Lactobacillus, Penicillium, podemos todos trabalhar juntos. Poderíamos, é claro, ir à rota radical dos antibióticos.

Mas é melhor rejeitar o movimento maniqueísta, purificador. Em vez da abordagem hostil, começar com uma que seja hospitaleira.

Vírus? Não os elimine, mas procure a integração. (Chamamos isso de vacinação) Bactérias? Evite julgamentos indiscriminados. Admita uma combinação entre o bem e o mal. Então, abrace, integre, harmonize, traga realizações frutíferas. Faça queijo.

Mary Douglas, um antropólogo interessado em comida, escreveu um livro importante sobre o ímpeto pela purificação. O livro foi chamado de Pureza e Perigo. A lição ética oferecida pelos produtores de queijo sugere, como orientação de vida, um título diferente: A Pureza é Perigosa.


Conheça o livro “Penso, Logo Como“, de Raymond Boisvert.


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