Imagem de capa do artigo "A quebra de paradigmas como exercício para liberdade", de Bruno Braz, publicado no portal Ano Zero.

A quebra de paradigmas como exercício para liberdade

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Bruno BrazComentários

Já ouviu falar em para­digma? Neste texto sobre que­bra de para­dig­mas, vou usá-lo com o mesmo sen­tido de visão de mundo: as “len­tes” que esco­lhe­mos para enxer­gar e mol­dar a rea­li­dade. Em resumo, trata-se de uma abs­tra­ção, ou melhor, um exer­cí­cio de liber­dade tão pode­roso quanto sutil.

Se você já pas­sou por alguma que­bra de para­dig­mas sabe do impacto que isso tem no que cha­ma­mos de “cer­teza” — não a do 2+2=4, mas aquela que se des­faz quando um dis­curso, um pará­grafo ou um punhado de pala­vras trans­for­mam seu mundo inteiro num pis­car de olhos.

Dito isso, posso garan­tir que minha inten­ção não é mudar sua visão de mundo, mas lem­brar do quão difí­cil é enxer­gar as entre­li­nhas da vida, seja você inte­lec­tual ou anal­fa­beto fun­ci­o­nal.

Tudo come­çou quando me dei conta da fra­gi­li­dade do que antes con­si­de­rava inques­ti­o­ná­vel e ousei ir além do meu modo auto­má­tico de pen­sar. Desde então, pas­sei a apre­ciar o cará­ter mutá­vel da minha rea­li­dade indi­vi­dual.

Já dizia Des­car­tes: “Penso, logo existo”. E a única exis­tên­cia que conheço sem­pre con­fir­mou minha crença de que sou a pes­soa mais impor­tante do mundo, o cen­tro do Uni­verso.

 

O Eu paradigmático

Ora, isso não deve­ria ser nenhuma sur­presa, certo? Toda e qual­quer expe­ri­ên­cia, desde a minha pri­meira lem­brança, sem­pre teve uma única refe­rên­cia: Eu — sem­pre remete a algo que vi, par­ti­ci­pei, acon­te­ceu comigo ou com os outros ao meu redor.

Nem os pen­sa­men­tos e sen­ti­men­tos de outras pes­soas fogem à regra, pois têm que che­gar até mim, o recep­tor abso­luto, seja qual for o meio de comu­ni­ca­ção uti­li­zado. Do con­trá­rio, não são reais. Afi­nal, só tenho con­tato ime­di­ato com meus pró­prios pen­sa­men­tos e sen­ti­men­tos.

Todos nós temos essa sen­sa­ção, é ine­rente ao que cha­ma­mos de cons­ci­ên­cia, algo tão evi­dente que nem nos damos ao tra­ba­lho de falar sobre o assunto.

É neces­sá­ria uma refle­xão sobre nos­sas expe­ri­ên­cias de vida coti­di­a­nas, par­tindo da ideia de que nos­sas sub­je­ti­vi­da­des têm a mesma ori­gem e con­ver­gem em alguns pon­tos — quem já se iden­ti­fi­cou pro­fun­da­mente com as ideias ou sen­ti­men­tos de alguém sabe do que estou falando — é que temos algo em comum.

Pen­se­mos sobre a impor­tân­cia de que­brar para­dig­mas, algo que demanda tama­nho esforço.

Não é fácil enxer­gar as coi­sas sob outra pers­pec­tiva, acei­tar novas ideias e ir além da inér­cia que nos con­some dia­ri­a­mente em forma de rotina. Não é fácil ir além do “piloto auto­má­tico” que nos dire­ci­ona a uma visão de mundo ego­cên­trica. Não é fácil ir além desse refe­ren­cial único e abso­luto cha­mado “Eu”. Não é nada fácil.

Quebra de paradigmas

Veja o João, por exem­plo, um cida­dão comum que se viu pres­si­o­nado a ado­tar um deter­mi­nado estilo de vida assim que rece­beu seu diploma uni­ver­si­tá­rio — como mui­tos de nós.

Ele acorda cedo todos os dias e tra­ba­lha mais de 10 horas para man­ter seu emprego. No fim do expe­di­ente, já estres­sado e can­sado, ele só pensa em che­gar em casa, comer, rela­xar e dor­mir um pouco mais pra com­pen­sar o sono acu­mu­lado ao longo da semana. Ele sabe que pre­cisa levan­tar bem dis­posto para enfren­tar as mes­mas coi­sas no dia seguinte.

Ape­sar de ser um cara legal, João se vê cons­tan­te­mente irri­tado pelo excesso de pes­soas, pelo trân­sito, pela ler­deza dos ido­sos, pela falta de res­peito de tanta gente egoísta, pela hipe­ra­ti­vi­dade das cri­an­ças, pelo tama­nho das filas e pela fal­si­dade dos rela­ci­o­na­men­tos no tra­ba­lho. Enfim, ele odeia tudo e todos que insis­tem em atra­pa­lhar seus dese­jos, pla­nos e expec­ta­ti­vas.

Para se livrar da inér­cia, cada uma des­sas peque­nas situ­a­ções que com­põem uma rotina infer­nal requer certa dose de esforço. Se João não esco­lher cons­ci­en­te­mente uma outra maneira de inter­pre­tar esses even­tos, pode apos­tar, vol­tará a se sen­tir irri­tado e infe­liz. Sei disso por­que comigo fun­ci­ona da mesma forma.

Quando o cen­tro do Uni­verso sou Eu, é natu­ral que só pense em mim e tenha a nítida impres­são de que o mundo gira em torno das minhas neces­si­da­des, meus horá­rios, minhas opi­niões, meus valo­res e meu can­saço. É natu­ral que encare outras pes­soas como obs­tá­cu­los, meros figu­ran­tes no espe­tá­culo da minha pró­pria exis­tên­cia.

eu e o mundo eu no centro do universo |quebra de paradigmas

O Mundo girando em torno do seu Eu.

Por outro lado, se assumo uma ver­são “soci­al­mente cor­reta” do para­digma ante­rior, tal­vez deixe de focar nas pes­soas e comece a jul­gar suas ide­o­lo­gias e cren­ças. Afi­nal, são todos pre­gui­ço­sos, cor­rup­tos, indi­vi­du­a­lis­tas, ali­e­na­dos e bur­ros.

Tenho cer­teza que con­ti­nu­a­rão pas­si­vos como gado, indi­fe­ren­tes aos pro­ble­mas que só Eu pareço enxer­gar. Me vejo pen­sando: “Meu Deus, como podem ser tão cegos?”

É pre­ciso reco­nhe­cer que optar pelo cami­nho mais fácil, acei­tar tudo sem ques­ti­o­nar e agir sem pen­sar são ape­nas refle­xos da inér­cia dis­far­ça­dos de “esco­lhas”.

Quanto mais eu sigo a “receita” para o sucesso, maior será minha expec­ta­tiva de que o mundo cum­pra suas pro­mes­sas e me recom­pense.

Assim, con­su­mido pelos meus pró­prios pro­ble­mas, deixo de enxer­gar todo o resto. E quando estou a ponto de desis­tir dos outros, por­que é mais fácil come­çar do zero já que nada vai mudar, per­cebo que é pos­sí­vel pen­sar dife­rente.

Então, faço um esforço para me lem­brar da huma­ni­dade e dos desa­fios de cada pes­soa que jul­guei e con­de­nei. Mas não pense que estou aqui para dar lição de moral ou mos­trar como viver a vida.

Nin­guém espera que você mude total­mente de uma hora pra outra, por­que é difí­cil, eu sei. Requer muita von­tade, prin­ci­pal­mente naque­les dias em que tudo dá errado. E, se você é como eu, tem dias que sim­ples­mente não vai nem que­rer ten­tar.

[optin­form]

Feliz­mente, na mai­o­ria das vezes que você esti­ver cons­ci­ente o sufi­ci­ente para esco­lher, será capaz de enxer­gar a senhora “lerda” como uma avó cari­nhosa, lutando para con­vi­ver com a dor de um corpo frá­gil que já não se movi­menta mais como antes; enxer­gar o “babaca” que furou a fila como um pai pre­o­cu­pado, apres­sado para não per­der o tra­ba­lho de merda por­que sua famí­lia depende disso; enxer­gar o “pir­ra­lho” insu­por­tá­vel como uma cri­ança carente, curi­osa e con­di­ci­o­nada a fazer birra para rece­ber aten­ção e cui­dado dos pais.

Claro, é bem pro­vá­vel que nada disso seja ver­dade, mas tudo depende da forma como você esco­lhe enxer­gar. A ten­dên­cia é acei­tar a pri­meira ver­são que vem à cabeça, pois apren­de­mos a jul­gar desde cedo, mas corre-se o risco de aca­bar como o João: soli­tá­rio, infe­liz e cer­cado de “idi­o­tas”.

Por­tanto, que tal dar uma pausa e ten­tar con­ce­ber outras alter­na­ti­vas? A ver­dade é que você é capaz de esco­lher o que quer enxer­gar ou, segundo um dos prin­cí­pios da Comu­ni­ca­ção Não-Vio­lenta, obser­var sem jul­gar.

Outra ver­dade é que você pode dar o sig­ni­fi­cado que qui­ser às coi­sas, e aqui pode­ria citar vários auto­res exis­ten­ci­a­lis­tas, mas fico com Joseph Camp­bell:

"A vida não tem sentido por si só, nós é que atribuímos significado. O sentido da vida é o que você quiser que seja." - Joseph Campbell

Isso me faz lem­brar de algo com inú­me­ros sig­ni­fi­ca­dos: “Deus”.

Não por acaso, essa pala­vri­nha mágica demons­tra per­fei­ta­mente o nosso poder de esco­lha (livre arbí­trio), pois sem­pre se adapta ao sig­ni­fi­cado que qui­ser­mos: Jesus, Alá, Oxalá, Buda, Uni­verso, Mãe Natu­reza, Des­tino, etc.

Iro­ni­ca­mente, nem os ateus esca­pam de “Deus”, visto que a única dife­rença é o “for­mato” esco­lhido: dinheiro, beleza, conhe­ci­mento, poder — a lista é enorme.

E o que antes cha­mei de “piloto auto­má­tico” ou “inér­cia” agora pode ser tra­du­zido como “ter fé” (cul­ti­var ver­da­des inques­ti­o­ná­veis) e “viver para ado­rar Deus” (ser con­su­mido por um único aspecto da vida).

Mui­tos nem per­ce­bem o quanto essa com­bi­na­ção entre piloto auto­má­tico e ado­ra­ção pode ser peri­gosa.

Se você adora o dinheiro, nunca terá o bas­tante. Se você adora a beleza, nunca estará satis­feito com a pró­pria apa­rên­cia, mesmo fazendo de tudo para se man­ter jovem. Se você adora pare­cer inte­li­gente, con­ti­nu­ará se sen­tindo igno­rante e inse­guro, alguém que não sabe nada sem a ajuda da inter­net. Se você adora o poder, nunca dei­xará de ter medo, e nenhum poder será o bas­tante para garan­tir a sua auto­ri­dade.

E não adi­anta negar, sabe­mos que tudo isso é ver­dade.

O segredo é não dei­xar que esse tipo de com­por­ta­mento, auto­má­tico e obses­sivo, se esconda nas entre­li­nhas da vida e se torne incons­ci­ente. Esse é o tipo de coisa que nos engole pouco a pouco e per­mite que um deter­mi­nado para­digma crie raí­zes.

Assim, o mundo atual se apro­veita dessa inér­cia como com­bus­tí­vel para sobre­vi­ver. Medo, des­dém, frus­tra­ção e obses­são ali­men­tam o culto ao Eu e criam demanda para as ilu­sões que nos ven­dem como liber­dade.

Quer saber dos outros tipos de liber­dade?

Há um em espe­cial que des­perta a aten­ção de pou­cos, tama­nha influên­cia de uma cul­tura que nos enfia sucesso, vitó­ria e osten­ta­ção goela abaixo. Uma liber­dade que requer aten­ção, cons­ci­ên­cia, dis­ci­plina, esforço e, acima de tudo, capa­ci­dade de amar e se sacri­fi­car pelo pró­ximo — em peque­nos ges­tos, da forma mais dis­creta e humilde pos­sí­vel.

Isso é o que con­si­dero liber­ta­dor, pois todo o resto te con­dena a uma pri­são cha­mada “Eu”, cons­truída pela incons­ci­ên­cia de pos­si­bi­li­da­des, pen­sa­men­tos auto­má­ti­cos e com­por­ta­men­tos gui­a­dos pela inér­cia.

Veja bem, nada do que falei é glo­ri­oso, pra­ze­roso ou ten­ta­dor, nem deve ser inter­pre­tado como ser­mão ou jul­ga­mento. Não se trata de moral, reli­gião, ide­o­lo­gia ou busca pela ver­dade, mas de um cons­tante esforço em se man­ter cons­ci­ente, reco­nhe­cer o que é essen­cial e assu­mir as pró­prias esco­lhas.

Em suma, a que­bra de para­dig­mas pode ser um fenô­meno ini­ci­al­mente dolo­roso, mas igual­mente liber­ta­dor.


Vem sem­pre aqui? Cola­bore com o AZ e nos ajude a pro­du­zir mais tex­tos como este. CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Para mais quebra de paradigmas, você pode querer ler também:

Acorde, tem um des­co­nhe­cido man­dando na sua vida
Pare de ten­tar ser feliz!

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

Compartilhe