Os números e a quantificação da realidade

Os números e a quantificação da realidade

Em Consciência, Sociedade por Bruno BrazComentários

Os núme­ros, assim como os subs­tan­ti­vos, são meras abs­tra­ções da rea­li­dade, a redu­ção da infi­nita vari­a­bi­li­dade da natu­reza em um con­junto de coi­sas padro­ni­za­das. Ao dizer que há cinco “qual­quer-coi­sas”, pres­su­põe-se que exista mais do que um de “qual­quer-coisa”, negando, por­tanto, a par­ti­cu­la­ri­dade de cada ser e objeto no uni­verso. Quando sua famí­lia senta à mesa pra jan­tar, você não pre­cisa contá-los pra saber que estão todos lá, não é? Numa soci­e­dade em que cada pes­soa é con­si­de­rada um indi­ví­duo, em que cada coisa é reco­nhe­cida por sua sin­gu­la­ri­dade, os núme­ros seriam um absurdo.

A nume­ra­ção é uma das for­mas mais pri­mi­ti­vas de men­su­ra­ção, que nada mais é do que a con­ver­são de qua­li­dade em quan­ti­dade, do espe­cí­fico e único em padro­ni­zado e comum. Ao nume­rar as coi­sas, rea­li­za­mos tam­bém uma abs­tra­ção, mesmo que impli­ci­ta­mente, ao trans­for­mar diver­sos obje­tos úni­cos em uma grande quan­ti­dade de coi­sas uni­for­mes.

Os núme­ros, até mais do que as pala­vras, remo­vem os obje­tos de suas rela­ções ori­gi­nais pela rup­tura com sua “ver­são real”. Pitá­go­ras e, logo depois, Pla­tão, rever­te­ram a ordem ori­gi­nal das abs­tra­ções ao con­si­derá-las como a pró­pria rea­li­dade. Ora, e que mal há nisso? O que há de errado com o conhe­ci­mento que toma a mani­pu­la­ção de abs­tra­ções como rea­li­dade? Veja­mos o que diz Aris­tó­te­les:

Todas as pro­pri­e­da­des dos núme­ros e das esca­las do céu que demons­tra­ram estar de acordo com os atri­bu­tos, as par­tes e o todo, foram cole­ta­das e ajus­ta­das para satis­fa­zer suas pró­prias teo­rias. Caso hou­vesse qual­quer falha, acrés­ci­mos eram pron­ta­mente rea­li­za­dos para mantê-las coe­ren­tes, ou seja, se o número dez fosse con­si­de­rado per­feito, diriam que os cor­pos que se movem no céu eram dez, mas se os cor­pos visí­veis fos­sem ape­nas nove, inven­ta­riam um décimo.”

Curi­oso, não? Mesmo em 600 a.C., cien­tis­tas já cole­ta­vam e omi­tiam, sele­ti­va­mente, seus dados a fim de com­pro­var suas supo­si­ções e teo­rias. Não se admira que variá­veis des­con­si­de­ra­das, resul­tado de uma sim­pli­fi­ca­ção numé­rica da “rea­li­dade con­creta”, con­ti­nuem atra­pa­lhando a ten­ta­tiva de con­tro­lar o mundo pela ampli­a­ção de sua men­su­ra­ção. Desde a época de Gali­leu, o obje­tivo e modus ope­randi da ciên­cia se resu­mem à con­ver­são de todos os fenô­me­nos em núme­ros. A men­su­ra­ção con­verte coi­sas em núme­ros; as equa­ções da ciên­cia, em seguida, con­ver­tem esses núme­ros em outros núme­ros, numa cres­cente pilha de abs­tra­ções. Assu­mi­mos que, num futuro não tão dis­tante, pode­re­mos medir todas as coi­sas, com­pre­endê-las per­fei­ta­mente e, enfim, dominá-las — igno­ra­mos o quanto já foi, e ainda há de ser, sacri­fi­cado nessa busca sem fim pelo con­trole abso­luto.

Atu­al­mente, as ciên­cias exa­tas e soci­ais nos for­ne­cem “dados”, isto é, núme­ros, com a pre­ten­são de cap­tu­rar todos os fenô­me­nos pos­sí­veis e obser­vá­veis. Ape­sar da enorme quan­ti­fi­ca­ção do mundo, o con­trole abso­luto ainda é uma ilu­são, ape­nas uma pro­messa. Pare­ce­mos ter esque­cido que a mate­má­tica e, por­tanto, toda a ciên­cia e tec­no­lo­gia que a uti­li­zam como fer­ra­menta, sem­pre dei­xa­rão de con­si­de­rar algu­mas coi­sas por sua pró­pria natu­reza enquanto abs­tra­ções. Até o momento, nossa res­posta se limi­tou a sim­ples cor­re­ções: ampliar ainda mais a men­su­ra­ção para englo­bar o que antes fora des­con­si­de­rado — ou seja, reme­diar o fra­casso com mais do mesmo. Con­cei­tu­al­mente, esse modelo entrou em colapso após o desen­vol­vi­mento da mecâ­nica quân­tica e da teo­ria do caos. Prag­ma­ti­ca­mente, falha­mos em apren­der a lição mesmo após os con­se­cu­ti­vos fra­cas­sos na cam­pa­nha para mol­dar a rea­li­dade atra­vés de sua redu­ção em núme­ros — e con­ti­nu­a­mos cla­mando por mais núme­ros, mais dados.

A mate­má­tica e a men­su­ra­ção são obje­ti­vas, no sen­tido em que cor­rom­pem a par­ti­cu­la­ri­dade con­tida na inte­ra­ção entre obser­va­dor e objeto. São pro­ve­ni­en­tes de uma men­ta­li­dade cheia de cer­te­zas, de obje­tos que exis­tem sepa­ra­da­mente “lá fora”, exter­nos à nossa sub­je­ti­vi­dade, rejei­tando um prin­cí­pio comum ao mis­ti­cismo e à física moderna: a “exis­tên­cia” é um atri­buto de mão dupla, uma inte­ra­ção. O con­ceito de obje­ti­vi­dade é a base do para­digma atual, no qual somos sepa­ra­dos, indi­ví­duos dis­tin­tos. Se qui­ser tes­tar o quanto nossa per­cep­ção é influ­en­ci­ada, vamos lá, ima­gine alguma coisa ape­nas “exis­tindo”, qual­quer coisa. (Pausa pra você ima­gi­nar). Pen­sou em algo sozi­nho, ape­nas flu­tu­ando? Não se admira o quanto nos sen­ti­mos soli­tá­rios — ser é ser sepa­rado. Não deve­ría­mos nos sen­tir assim, mas a que­bra desse para­digma requer uma revo­lu­ção, e esta, meu caro, será a mais pro­funda pos­sí­vel, pau­tada numa com­pleta subs­ti­tui­ção da atual con­cep­ção do “ser” por uma nova equa­ção: ser igual rela­ção, asso­ci­a­ção, liga­ção, união, vín­culo.

Tal como ocorre na lin­gua­gem, a abs­tra­ção de uma rea­li­dade ine­rente aos núme­ros tam­bém tem con­sequên­cias apa­vo­ran­tes. Afi­nal, é mais fácil matar um número que um indi­ví­duo, seja em tone­la­das de pei­xes, metros cúbi­cos de madeira ou gru­pos de pri­si­o­nei­ros. A lógica e os pro­ces­sos do mundo-Máquina — o tal “sis­tema” que alguns cri­ti­cam e outro ado­ram — acei­tam como inputs qual­quer coisa que possa ser quan­ti­fi­cada e medida. Tudo aquilo que é des­con­si­de­rado, pela redu­ção da rea­li­dade em núme­ros, não entra nos cál­cu­los, mesmo quando se trata da casa de alguém, do sus­tento de alguém, da vida de alguém. É difí­cil acre­di­tar que a cru­el­dade do mundo atual pudesse exis­tir sem esse dis­tan­ci­a­mento e ano­ni­mato, resul­tado da lin­gua­gem e da men­su­ra­ção. Pou­cos seriam capa­zes de fazer mal a uma cri­ança, mas é o que mui­tos líde­res fazem, em massa, dis­tan­ci­a­dos por esta­tís­ti­cas e dados da polí­tica naci­o­nal — tudo num pis­car de olhos, sem nem pen­sar duas vezes.

No caso mais extremo, núme­ros e lin­gua­gem se com­bi­nam numa expres­são defi­ni­tiva da obje­ti­fi­ca­ção e abs­tra­ção: “um”, quando se refere a alguém. O ser é gene­ra­li­zado, des­per­so­na­li­zado e trans­for­mado em algo subs­ti­tuí­vel, e o que sobra de sua indi­vi­du­a­li­dade é igno­rada. O uso fre­quente desse tipo de expres­são trans­forma todos os demais numa cole­ção de “uns” idên­ti­cos, tal como peças uni­for­mes e sobres­sa­len­tes de um vasto mundo-Máquina.

Desde o prin­cí­pio, o con­ceito de “número” impli­cou na obje­ti­fi­ca­ção do uni­verso e na sub­mis­são do mundo à mani­pu­la­ção humana. É pro­vá­vel, por­tanto, que esse con­ceito só tenha sur­gido quando outras for­ças — tec­no­lo­gia, lin­gua­gem, divi­são do tra­ba­lho, agri­cul­tura — se com­bi­na­ram para trans­for­mar o mundo num objeto de mani­pu­la­ção. Núme­ros e mer­ca­do­rias são con­cei­tos alta­mente inter­de­pen­den­tes, que con­tri­buí­ram para a subs­ti­tui­ção do com­par­ti­lhar pelo tro­car, pelo comér­cio e pelo dinheiro. “Esse boi” se torna “um boi”, e os núme­ros, abs­traí­dos de obje­tos e seres espe­cí­fi­cos. Núme­ros e mer­ca­do­rias agora se sepa­ram defi­ni­ti­va­mente e, assim, pas­sam a ser apli­ca­dos para quan­ti­fi­car qual­quer coisa. Logo, surge a pos­si­bi­li­dade de pen­sar no mundo como algo que possa — assim como grãos ou ove­lhas — ser esto­cado, con­tro­lado e redis­tri­buído.

No último século, a redu­ção do mundo em núme­ros só tem ace­le­rado, espe­ci­al­mente na era dos com­pu­ta­do­res. Faze­mos do infi­nito, finito, e do con­tí­nuo, dis­creto, na espe­rança de que a simi­la­ri­dade com a rea­li­dade seja boa o bas­tante. A digi­ta­li­za­ção se aplica à qual­quer coisa que se possa “ana­li­sar”. A ine­rente e suposta redu­ti­bi­li­dade do mundo em núme­ros, sob o pres­su­posto de que não se perde nada de “sig­ni­fi­cante”, ou ainda, que nem mesmo per­ce­be­mos quando algo se perde (desde que se tenha núme­ros o sufi­ci­ente), nos motiva à extrema sepa­ra­ção tec­no­ló­gica entre huma­nos e rea­li­dade: a “rea­li­dade vir­tual”. Se, como a ciên­cia afirma, pode­mos redu­zir o uni­verso inteiro em núme­ros, então tam­bém somos redu­tí­veis. E assim nas­ceu um dos mai­o­res sonhos da fic­ção cien­tí­fica: a imor­ta­li­dade atra­vés da trans­fe­rên­cia do nosso cons­ci­ente para um com­pu­ta­dor, onde pode­re­mos apro­vei­tar as melho­res, e mais pra­ze­ro­sas, expe­ri­ên­cias arti­fi­ci­ais, eter­na­mente. E assim segue a fan­ta­sia…

Seja pela digi­ta­li­za­ção da rea­li­dade ou pela extrema quan­ti­fi­ca­ção de tudo, pré-requi­si­tos implí­ci­tos da “rea­li­dade vir­tual”, essa ambi­ção em cons­truir uma outra rea­li­dade, quase tão boa quanto a real, deve­ria ser de uma lou­cura evi­dente. Rea­li­za­mos um enorme esforço para criar uma ver­são infe­rior de algo já dis­po­ní­vel gra­tui­ta­mente. Ten­ta­mos, da melhor forma pos­sí­vel, recriar a abun­dân­cia ori­gi­nal de uma época ante­rior ao con­ceito de “tra­ba­lho”. Inven­ta­mos cada vez mais apa­re­lhos para nos aju­dar, para nos pou­par de um tra­ba­lho que, mui­tas vezes, nem exis­tia.

Inde­pen­dente do con­junto numé­rico uti­li­zado para des­cre­ver a rea­li­dade, algo da sua infi­ni­tude ainda se perde. Aca­ba­mos nos con­ten­tando com o que é “bom o bas­tante”, com o tipo infe­rior de vida que leva­mos nessa Era da Sepa­ra­ção. Os sis­te­mas de repre­sen­ta­ção (núme­ros e lin­gua­gem), inter­pos­tos entre nós mes­mos e a rea­li­dade, serão sem­pre uma redu­ção daquilo que pre­ten­diam repre­sen­tar. A ânsia pelo con­trole abso­luto e sua com­pleta con­ver­são mate­má­tica do uni­verso são, em suma, uma outra Torre de Babel visando alcan­çar o infi­nito atra­vés do pouco que se con­se­gue quan­ti­fi­car.


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Tudo são núme­ros — a arte de repre­sen­tar o mundo real
O número “zero”

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.

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