Os números, assim como os substantivos, são meras abstrações da realidade, a redução da infinita variabilidade da natureza em um conjunto de coisas padronizadas. Ao dizer que há cinco “qualquer-coisas”, pressupõe-se que exista mais do que um de “qualquer-coisa”, negando, portanto, a particularidade de cada ser e objeto no universo. Quando sua família senta à mesa pra jantar, você não precisa contá-los pra saber que estão todos lá, não é? Numa sociedade em que cada pessoa é considerada um indivíduo, em que cada coisa é reconhecida por sua singularidade, os números seriam um absurdo.

A numeração é uma das formas mais primitivas de mensuração, que nada mais é do que a conversão de qualidade em quantidade, do específico e único em padronizado e comum. Ao numerar as coisas, realizamos também uma abstração, mesmo que implicitamente, ao transformar diversos objetos únicos em uma grande quantidade de coisas uniformes.

Os números, até mais do que as palavras, removem os objetos de suas relações originais pela ruptura com sua “versão real”. Pitágoras e, logo depois, Platão, reverteram a ordem original das abstrações ao considerá-las como a própria realidade. Ora, e que mal há nisso? O que há de errado com o conhecimento que toma a manipulação de abstrações como realidade? Vejamos o que diz Aristóteles:

“Todas as propriedades dos números e das escalas do céu que demonstraram estar de acordo com os atributos, as partes e o todo, foram coletadas e ajustadas para satisfazer suas próprias teorias. Caso houvesse qualquer falha, acréscimos eram prontamente realizados para mantê-las coerentes, ou seja, se o número dez fosse considerado perfeito, diriam que os corpos que se movem no céu eram dez, mas se os corpos visíveis fossem apenas nove, inventariam um décimo.”

Curioso, não? Mesmo em 600 a.C., cientistas já coletavam e omitiam, seletivamente, seus dados a fim de comprovar suas suposições e teorias. Não se admira que variáveis desconsideradas, resultado de uma simplificação numérica da “realidade concreta”, continuem atrapalhando a tentativa de controlar o mundo pela ampliação de sua mensuração. Desde a época de Galileu, o objetivo e modus operandi da ciência se resumem à conversão de todos os fenômenos em números. A mensuração converte coisas em números; as equações da ciência, em seguida, convertem esses números em outros números, numa crescente pilha de abstrações. Assumimos que, num futuro não tão distante, poderemos medir todas as coisas, compreendê-las perfeitamente e, enfim, dominá-las — ignoramos o quanto já foi, e ainda há de ser, sacrificado nessa busca sem fim pelo controle absoluto.

Atualmente, as ciências exatas e sociais nos fornecem “dados”, isto é, números, com a pretensão de capturar todos os fenômenos possíveis e observáveis. Apesar da enorme quantificação do mundo, o controle absoluto ainda é uma ilusão, apenas uma promessa. Parecemos ter esquecido que a matemática e, portanto, toda a ciência e tecnologia que a utilizam como ferramenta, sempre deixarão de considerar algumas coisas por sua própria natureza enquanto abstrações. Até o momento, nossa resposta se limitou a simples correções: ampliar ainda mais a mensuração para englobar o que antes fora desconsiderado — ou seja, remediar o fracasso com mais do mesmo. Conceitualmente, esse modelo entrou em colapso após o desenvolvimento da mecânica quântica e da teoria do caos. Pragmaticamente, falhamos em aprender a lição mesmo após os consecutivos fracassos na campanha para moldar a realidade através de sua redução em números — e continuamos clamando por mais números, mais dados.

A matemática e a mensuração são objetivas, no sentido em que corrompem a particularidade contida na interação entre observador e objeto. São provenientes de uma mentalidade cheia de certezas, de objetos que existem separadamente “lá fora”, externos à nossa subjetividade, rejeitando um princípio comum ao misticismo e à física moderna: a “existência” é um atributo de mão dupla, uma interação. O conceito de objetividade é a base do paradigma atual, no qual somos separados, indivíduos distintos. Se quiser testar o quanto nossa percepção é influenciada, vamos lá, imagine alguma coisa apenas “existindo”, qualquer coisa. (Pausa pra você imaginar). Pensou em algo sozinho, apenas flutuando? Não se admira o quanto nos sentimos solitários — ser é ser separado. Não deveríamos nos sentir assim, mas a quebra desse paradigma requer uma revolução, e esta, meu caro, será a mais profunda possível, pautada numa completa substituição da atual concepção do “ser” por uma nova equação: ser igual relação, associação, ligação, união, vínculo.

Tal como ocorre na linguagem, a abstração de uma realidade inerente aos números também tem consequências apavorantes. Afinal, é mais fácil matar um número que um indivíduo, seja em toneladas de peixes, metros cúbicos de madeira ou grupos de prisioneiros. A lógica e os processos do mundo-Máquina — o tal “sistema” que alguns criticam e outro adoram — aceitam como inputs qualquer coisa que possa ser quantificada e medida. Tudo aquilo que é desconsiderado, pela redução da realidade em números, não entra nos cálculos, mesmo quando se trata da casa de alguém, do sustento de alguém, da vida de alguém. É difícil acreditar que a crueldade do mundo atual pudesse existir sem esse distanciamento e anonimato, resultado da linguagem e da mensuração. Poucos seriam capazes de fazer mal a uma criança, mas é o que muitos líderes fazem, em massa, distanciados por estatísticas e dados da política nacional — tudo num piscar de olhos, sem nem pensar duas vezes.

No caso mais extremo, números e linguagem se combinam numa expressão definitiva da objetificação e abstração: “um”, quando se refere a alguém. O ser é generalizado, despersonalizado e transformado em algo substituível, e o que sobra de sua individualidade é ignorada. O uso frequente desse tipo de expressão transforma todos os demais numa coleção de “uns” idênticos, tal como peças uniformes e sobressalentes de um vasto mundo-Máquina.

Desde o princípio, o conceito de “número” implicou na objetificação do universo e na submissão do mundo à manipulação humana. É provável, portanto, que esse conceito só tenha surgido quando outras forças — tecnologia, linguagem, divisão do trabalho, agricultura — se combinaram para transformar o mundo num objeto de manipulação. Números e mercadorias são conceitos altamente interdependentes, que contribuíram para a substituição do compartilhar pelo trocar, pelo comércio e pelo dinheiro. “Esse boi” se torna “um boi”, e os números, abstraídos de objetos e seres específicos. Números e mercadorias agora se separam definitivamente e, assim, passam a ser aplicados para quantificar qualquer coisa. Logo, surge a possibilidade de pensar no mundo como algo que possa — assim como grãos ou ovelhas — ser estocado, controlado e redistribuído.

No último século, a redução do mundo em números só tem acelerado, especialmente na era dos computadores. Fazemos do infinito, finito, e do contínuo, discreto, na esperança de que a similaridade com a realidade seja boa o bastante. A digitalização se aplica à qualquer coisa que se possa “analisar”. A inerente e suposta redutibilidade do mundo em números, sob o pressuposto de que não se perde nada de “significante”, ou ainda, que nem mesmo percebemos quando algo se perde (desde que se tenha números o suficiente), nos motiva à extrema separação tecnológica entre humanos e realidade: a “realidade virtual”. Se, como a ciência afirma, podemos reduzir o universo inteiro em números, então também somos redutíveis. E assim nasceu um dos maiores sonhos da ficção científica: a imortalidade através da transferência do nosso consciente para um computador, onde poderemos aproveitar as melhores, e mais prazerosas, experiências artificiais, eternamente. E assim segue a fantasia…

Seja pela digitalização da realidade ou pela extrema quantificação de tudo, pré-requisitos implícitos da “realidade virtual”, essa ambição em construir uma outra realidade, quase tão boa quanto a real, deveria ser de uma loucura evidente. Realizamos um enorme esforço para criar uma versão inferior de algo já disponível gratuitamente. Tentamos, da melhor forma possível, recriar a abundância original de uma época anterior ao conceito de “trabalho”. Inventamos cada vez mais aparelhos para nos ajudar, para nos poupar de um trabalho que, muitas vezes, nem existia.

Independente do conjunto numérico utilizado para descrever a realidade, algo da sua infinitude ainda se perde. Acabamos nos contentando com o que é “bom o bastante”, com o tipo inferior de vida que levamos nessa Era da Separação. Os sistemas de representação (números e linguagem), interpostos entre nós mesmos e a realidade, serão sempre uma redução daquilo que pretendiam representar. A ânsia pelo controle absoluto e sua completa conversão matemática do universo são, em suma, uma outra Torre de Babel visando alcançar o infinito através do pouco que se consegue quantificar.


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escrito por:

Bruno Braz

Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.


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