Os números, assim como os substantivos, são meras abstrações da realidade, a redução da infinita variabilidade da natureza em um conjunto de coisas padronizadas. Ao dizer que há cinco “qualquer-coisas”, pressupõe-se que exista mais do que um de “qualquer-coisa”, negando, portanto, a particularidade de cada ser e objeto no universo. Quando sua família senta à mesa pra jantar, você não precisa contá-los pra saber que estão todos lá, não é? Numa sociedade em que cada pessoa é considerada um indivíduo, em que cada coisa é reconhecida por sua singularidade, os números seriam um absurdo.

A numeração é uma das formas mais primitivas de mensuração, que nada mais é do que a conversão de qualidade em quantidade, do específico e único em padronizado e comum. Ao numerar as coisas, realizamos também uma abstração, mesmo que implicitamente, ao transformar diversos objetos únicos em uma grande quantidade de coisas uniformes.

Os números, até mais do que as palavras, removem os objetos de suas relações originais pela ruptura com sua “versão real”. Pitágoras e, logo depois, Platão, reverteram a ordem original das abstrações ao considerá-las como a própria realidade. Ora, e que mal há nisso? O que há de errado com o conhecimento que toma a manipulação de abstrações como realidade? Vejamos o que diz Aristóteles:

“Todas as propriedades dos números e das escalas do céu que demonstraram estar de acordo com os atributos, as partes e o todo, foram coletadas e ajustadas para satisfazer suas próprias teorias. Caso houvesse qualquer falha, acréscimos eram prontamente realizados para mantê-las coerentes, ou seja, se o número dez fosse considerado perfeito, diriam que os corpos que se movem no céu eram dez, mas se os corpos visíveis fossem apenas nove, inventariam um décimo.”

Curioso, não? Mesmo em 600 a.C., cientistas já coletavam e omitiam, seletivamente, seus dados a fim de comprovar suas suposições e teorias. Não se admira que variáveis desconsideradas, resultado de uma simplificação numérica da “realidade concreta”, continuem atrapalhando a tentativa de controlar o mundo pela ampliação de sua mensuração. Desde a época de Galileu, o objetivo e modus operandi da ciência se resumem à conversão de todos os fenômenos em números. A mensuração converte coisas em números; as equações da ciência, em seguida, convertem esses números em outros números, numa crescente pilha de abstrações. Assumimos que, num futuro não tão distante, poderemos medir todas as coisas, compreendê-las perfeitamente e, enfim, dominá-las — ignoramos o quanto já foi, e ainda há de ser, sacrificado nessa busca sem fim pelo controle absoluto.

Atualmente, as ciências exatas e sociais nos fornecem “dados”, isto é, números, com a pretensão de capturar todos os fenômenos possíveis e observáveis. Apesar da enorme quantificação do mundo, o controle absoluto ainda é uma ilusão, apenas uma promessa. Parecemos ter esquecido que a matemática e, portanto, toda a ciência e tecnologia que a utilizam como ferramenta, sempre deixarão de considerar algumas coisas por sua própria natureza enquanto abstrações. Até o momento, nossa resposta se limitou a simples correções: ampliar ainda mais a mensuração para englobar o que antes fora desconsiderado — ou seja, remediar o fracasso com mais do mesmo. Conceitualmente, esse modelo entrou em colapso após o desenvolvimento da mecânica quântica e da teoria do caos. Pragmaticamente, falhamos em aprender a lição mesmo após os consecutivos fracassos na campanha para moldar a realidade através de sua redução em números — e continuamos clamando por mais números, mais dados.

A matemática e a mensuração são objetivas, no sentido em que corrompem a particularidade contida na interação entre observador e objeto. São provenientes de uma mentalidade cheia de certezas, de objetos que existem separadamente “lá fora”, externos à nossa subjetividade, rejeitando um princípio comum ao misticismo e à física moderna: a “existência” é um atributo de mão dupla, uma interação. O conceito de objetividade é a base do paradigma atual, no qual somos separados, indivíduos distintos. Se quiser testar o quanto nossa percepção é influenciada, vamos lá, imagine alguma coisa apenas “existindo”, qualquer coisa. (Pausa pra você imaginar). Pensou em algo sozinho, apenas flutuando? Não se admira o quanto nos sentimos solitários — ser é ser separado. Não deveríamos nos sentir assim, mas a quebra desse paradigma requer uma revolução, e esta, meu caro, será a mais profunda possível, pautada numa completa substituição da atual concepção do “ser” por uma nova equação: ser igual relação, associação, ligação, união, vínculo.

Tal como ocorre na linguagem, a abstração de uma realidade inerente aos números também tem consequências apavorantes. Afinal, é mais fácil matar um número que um indivíduo, seja em toneladas de peixes, metros cúbicos de madeira ou grupos de prisioneiros. A lógica e os processos do mundo-Máquina — o tal “sistema” que alguns criticam e outro adoram — aceitam como inputs qualquer coisa que possa ser quantificada e medida. Tudo aquilo que é desconsiderado, pela redução da realidade em números, não entra nos cálculos, mesmo quando se trata da casa de alguém, do sustento de alguém, da vida de alguém. É difícil acreditar que a crueldade do mundo atual pudesse existir sem esse distanciamento e anonimato, resultado da linguagem e da mensuração. Poucos seriam capazes de fazer mal a uma criança, mas é o que muitos líderes fazem, em massa, distanciados por estatísticas e dados da política nacional — tudo num piscar de olhos, sem nem pensar duas vezes.

No caso mais extremo, números e linguagem se combinam numa expressão definitiva da objetificação e abstração: “um”, quando se refere a alguém. O ser é generalizado, despersonalizado e transformado em algo substituível, e o que sobra de sua individualidade é ignorada. O uso frequente desse tipo de expressão transforma todos os demais numa coleção de “uns” idênticos, tal como peças uniformes e sobressalentes de um vasto mundo-Máquina.

Desde o princípio, o conceito de “número” implicou na objetificação do universo e na submissão do mundo à manipulação humana. É provável, portanto, que esse conceito só tenha surgido quando outras forças — tecnologia, linguagem, divisão do trabalho, agricultura — se combinaram para transformar o mundo num objeto de manipulação. Números e mercadorias são conceitos altamente interdependentes, que contribuíram para a substituição do compartilhar pelo trocar, pelo comércio e pelo dinheiro. “Esse boi” se torna “um boi”, e os números, abstraídos de objetos e seres específicos. Números e mercadorias agora se separam definitivamente e, assim, passam a ser aplicados para quantificar qualquer coisa. Logo, surge a possibilidade de pensar no mundo como algo que possa — assim como grãos ou ovelhas — ser estocado, controlado e redistribuído.

No último século, a redução do mundo em números só tem acelerado, especialmente na era dos computadores. Fazemos do infinito, finito, e do contínuo, discreto, na esperança de que a similaridade com a realidade seja boa o bastante. A digitalização se aplica à qualquer coisa que se possa “analisar”. A inerente e suposta redutibilidade do mundo em números, sob o pressuposto de que não se perde nada de “significante”, ou ainda, que nem mesmo percebemos quando algo se perde (desde que se tenha números o suficiente), nos motiva à extrema separação tecnológica entre humanos e realidade: a “realidade virtual”. Se, como a ciência afirma, podemos reduzir o universo inteiro em números, então também somos redutíveis. E assim nasceu um dos maiores sonhos da ficção científica: a imortalidade através da transferência do nosso consciente para um computador, onde poderemos aproveitar as melhores, e mais prazerosas, experiências artificiais, eternamente. E assim segue a fantasia…

Seja pela digitalização da realidade ou pela extrema quantificação de tudo, pré-requisitos implícitos da “realidade virtual”, essa ambição em construir uma outra realidade, quase tão boa quanto a real, deveria ser de uma loucura evidente. Realizamos um enorme esforço para criar uma versão inferior de algo já disponível gratuitamente. Tentamos, da melhor forma possível, recriar a abundância original de uma época anterior ao conceito de “trabalho”. Inventamos cada vez mais aparelhos para nos ajudar, para nos poupar de um trabalho que, muitas vezes, nem existia.

Independente do conjunto numérico utilizado para descrever a realidade, algo da sua infinitude ainda se perde. Acabamos nos contentando com o que é “bom o bastante”, com o tipo inferior de vida que levamos nessa Era da Separação. Os sistemas de representação (números e linguagem), interpostos entre nós mesmos e a realidade, serão sempre uma redução daquilo que pretendiam representar. A ânsia pelo controle absoluto e sua completa conversão matemática do universo são, em suma, uma outra Torre de Babel visando alcançar o infinito através do pouco que se consegue quantificar.


Leia também em Ano Zero:

Tudo são números – a arte de representar o mundo real
O número “zero”

Bruno Braz
Escrevo pra descobrir o que sei e aprender o que não sei; pra dar vazão e um pouco de ordem ao turbilhão de coisas que me passam pela cabeça e ficam sem ser ditas; pra dar meu empurrãozinho nessa roda da vida e, quem sabe, ainda inspirar alguém.
  • Felipe Amorim

    Discordo desse artigo em muitos quesitos, apesar de achar muito bem escrito e muito bem pensado. Penso que a quantificação da realidade em números é algo vital e real para a vida. Deixando de lado teorias quânticas, que apresenta possíveis dados aleatórios, o que pode ser mesurado tem de ser, pois é assim que entendemos um conceito e é assim que ele funciona na forma real. O universo seguiu padrões e uma lógica absurdamente matemática desde sempre (ora… dois oxigênios + hidrogênio = H20). O conceito de conjunto é uma forma de organizar esses dados em uma situação “mais humana” ou mais “só-inteligência-entende”, no caso da física, química temos tabela periódica etc. Portanto, produtos de uma consequência lógica pode ser complexa e difícil de entender ou quantificar, mas vai continuar sendo lógica (nós). Esse individualismo que temos é apenas uma mera ilusão de sistemas criados a partir da evolução (sistema lógico que rege o universo), mas que entendemos como complexo. Nós não conseguimos quantificar pensamentos “não racionais”, não porque não é possível, mas porque nos não descobrimos ainda como. Se existisse uma superinteligência no inicio do universo que poderia quantificar todos os dados, com certeza ela poderia prever o futuro, simula-lo e molda-lo. Sendo assim, a ideia de um “paraíso” dentro de um computador é totalmente válida e iremos alcança-la na chamada singularidade.
    Por enquanto eu concordo que muitas decisões politicas pensadas em apenas números prejudica milhões, por não entender o contexto inteiro. Mas não quer dizer que não seja impossível no futuro.
    Obrigado!

    • Bruno Braz

      Muito interessante o seu comentário, Felipe! Concordo que a quantificação seja útil e necessária para muito (mas muito mesmo) do que fazemos atualmente. Meu intuito com texto foi mostrar que há uma enorme diferença entre “utilizar os números como instrumentos para entender a realidade” e “acreditar que a realidade e sua versão quantificada são, ou algum dia poderão, ser a mesma coisa”.

      Como você mesmo disse, essa foi a maneira que desenvolvemos para entender o mundo (mas não é a única e tampouco superior às outras), mas não acredito que o universo funcione assim na “vida real”. No seu exemplo da água, uma molécula composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, você concorda que estes átomos não são idênticos? O modelo padrão da física de partículas diz que cada um desses átomos é composto por uma porção de partículas menores e, portanto, sendo composto por “coisas diferentes”, também é diferente. Admitimos que as coisas são iguais simplesmente porque é mais fácil entender, modelar e resolver problemas dessa forma, mas isso não quer dizer que as coisas sejam assim de fato — esse é o grande pecado da quantificação introjetada por uma cultura dominada pela ciência e tecnologia.

      • Felipe Amorim

        Bruno Braz agora consegui entender a sua menssagem por inteiro rs (a primeiro momento pensei que você estava atacando a matemática sem apresentar alternativas) e concordo que deixamos mais simples as coisas, sendo que elas são mais complexas do que imaginamos, porém ainda assim acredito que a “quantificação total” e absoluta de todos os dados de um atomo, matéria etc… podem ser possíveis pelo menos em teoria já que não temos capacidade de processamento e armazenamento de tais dados. Voltando á superintendência citada anteriormente, que acompanhou o início do universo, desde o seu primeiro “ação- reação” e suas consequências, ela poderia criar um modelo imagético onde há a previsão de cada passo do universo, cada atomo formado, mesmo com suas diferenças, e cada consequência por essa formação! A princípio é difícil entender o que quero dizer (pois não sou bom de explicar-me rs) porém imagine uma sequência de dominós que não apenas tem uma sequência, porém tem a consequência de criar novos dominos com a colisão de dois. Seria possível prever toda a consequência desse primeiro dominó. Ou seja, seria o mesmo que pegar um algoritmo (a teoria de tudo) e decifrar as ocorrências a partir do play do software. É uma questão muito louca de se pensar, e há muitas coisas que eu possa estar esquecendo que refutam essa teoria. Porém até hoje, a única coisa que encontrei foi a aleatoriedade da física quântica, que pode ser explicado com elementos que ainda não conhecemos, ou forças que agem para a formação desses números “aleatórios”. Mais uma vez obrigado por esse site maravilhoso onde posso discutir idéias incrivelmente complexas em todas as áreas do conhecimento humano.

        • Bruno Braz

          Acho que consegui te entender sim, Felipe. Essa ideia que você citou é um prato cheio para os amantes de ficção científica (me incluo nessa! rs), mas supõe um universo já totalmente determinado, concorda? Pensando aqui rapidamente, isso nos levaria a duas interpretações fundamentais da vida: 1) um senso de propósito bem particular, visto que assumiríamos um papel fundamental no desenrolar do universo, independente de sermos “engrenagens infinitesimais”. Talvez a crença em um “destino” venha daí… 2) um sentimento de impotência frente às forças do universo, uma existência sufocada e sem sentido.

          Na verdade, acho que algo assim nos levaria a um paradoxo parecido com o da máquina do tempo… enfim, é algo interessante de se pensar. Aliás, isso me lembrou de um filme: “Frequencies”
          http://www.imdb.com/title/tt2414766/?ref_=nv_sr_2

          Por fim, queria te agradecer pelos comentários. É um prazer, de verdade, trocar ideias com quem assume uma postura humilde e aberta ao diálogo. Dessa troca, crescemos juntos. Abração!

      • Hey! Desculpem me meter.

        Bruno, fiquei meio confuso aqui tentando entender o que vc quis dizer com os átomos de cada molécula de H2O serem diferentes uns dos outros. Como assim?

        • Felipe Amorim

          Tenho um vídeo para você (se souber inglês), ele explica como a física quântica pode produzir pequenos efeitos “aleatórios” que podem mudar tudo.

          • Felipe Amorim
          • Bruno Braz

            Cara, muito bom esse vídeo! Aproveitando a mensagem… tem algum link sobre aquela singularidade que vc citou no primeiro comentário? Achei interessante.

          • Felipe Amorim

            Oi! É um tema muito interessante mesmo. Você pode encontrar aqui no site o artigo traduzido sobre a AI, que basicamente resume alguns pontos dela. E também pode buscar vídeos do Machio kaku e o livro “Singularity is near” de Ray kurzweil, atual chefe da parte de IA do Google. Ela também está ligada um pouco com o transumanismo, mas sem a parte partidária da idéia.

          • Cara, vc entende de transumanismo? Queria saber por que esse movimento é tão odiado e igualmente adorado por alguns. Até onde pude ver, em alguns vídeos do TED, me parece interessante, porém flagrantemente otimista demais.

          • Felipe Amorim

            Transumanismo é um movimento extremamente odiado por: pessimistas e religiosos em sua maioria. É uma idéia que puxa bastante o otimismo de uma realidade futura baseado em tecnologias atuais. O nome transhumanismo já foi manchado faz tempo, é só dar uma pesquisada do termo no youtube e verá coisas relacionadas a satanismo, illuminati, agenda etc. Se você quer entender um pouco mais:
            Recomendo o vídeo “PostHuman: An Introduction to Transhumanism”.

        • Bruno Braz

          Fala CN! (só pra não confundir com o Amorim, rs) Não tem essa de “se meter” não, a casa é nossa. 🙂

          O que eu quis dizer com as moléculas de H2O serem diferentes foi o seguinte: substitua a molécula de H2O por uma árvore… uma laranjeira, sei lá. As duas laranjeiras têm as mesmas propriedades e se comportam da mesma forma? Sim. As duas laranjeiras são idênticas, exatamente iguais? Bom, basta olhar para responder: não.

          E mesmo que algo tivesse propriedades iguais e formas aparentemente iguais como a letra “a”. Esta letra “a” é igual a da sentença anterior? Percebe?

          Essa interpretação de que as coisas são “iguais” é apenas uma simplificação da realidade, embora seja absurdamente útil. Aliás, mais do que “útil”, acho que sem esse tipo de simplificação nem conseguiríamos dar sentido ao mundo e processar tanta informação.

          Muito do que eu escrevo não é apenas crítica à ciência ou à tecnologia, não me leve a mal, mas me entristece perceber que muita gente se contenta com a ideia de que a realidade se resume ao que conseguimos quantificar e equacionar. Uma coisa não exclui a outra.

          Escrevi um texto que tem muito a ver com isso que estamos falando aqui, dá uma lida quando puder e deixe um comentário lá dizendo o que achou, por favor:
          https://introspeccaoexposta.wordpress.com/2015/01/14/a-linguagem-cria-mas-tambem-destroi/

          • Cara, não sei não. auhsauhusa

            Porque tipo, pegando seu exemplo. Uma letra “a” ou uma laranjeira. Bom, todas as letras “a” tem certo conjunto de semelhanças essenciais que fazem a gente dizer que todas são a mesma letra. O mesmo vale pras laranjeiras. Mas elas podem ser diferentes em outros aspectos. Ok, isso vc disse e eu concordo.

            Com relação a uma molécula, eu já não sei se dá pra dizer a mesma coisa. Uma árvore e uma letra “a”, em suma, podem ser diferentes porque o arranjo de átomos que as forma se configuram de maneira diferente. Mas um átomo não é essencialmente diferente do outro, nem uma molécula. Não podem existir duas moléculas H2O diferentes, porque não existe nenhuma propriedade abaixo delas que possam trazer essa diferença. Tipo, não pode ter uma molécula de H2O mais ou menos brilhante ou uma com um arranhão e outra sem. hahaha

            Não sei se foi por aí que vc quis dizer. Posso ter viajado aqui.

            Beleza! Não vou esquecer de sua indicação de texto! Assim que der passo lá!

          • Bruno Braz

            hahahahaha molécula com arranhão foi sacanagem! 😛

            Pelo que entendi, vc enxerga átomos e moléculas como “building blocks” fundamentais do universo, é isso? Se for, como vc encara a matéria/energia escura? (pergunto mais pra entender a sua visão de mundo, não leve como “desafio” ou algo do tipo, por favor)

            Sobre o lance do H2O, vou tentar explicar de um jeito mais direto em vez de usar exemplos. Digamos que eu tenha duas moléculas de água, uma em cada mão. Por definição, elas não são iguais, porque “uma” não pode ser a “outra” se for “uma”. Entende?

            Se quiser afirmar que mesmo assim elas são iguais, teríamos que assumir que TODAS as propriedades possíveis de serem medidas são IGUAIS e, além disso, simplesmente DESCONSIDERAR toda e qualquer propriedade que não seja possível medir — seja por falta de instrumento ou por desconhecermos sua existência.

            Podemos concordar em discordar, é claro, mas espero que tenha ficado claro o que eu quis dizer. 🙂

          • Na verdade os building blocks do universo são os quarks e os elétrons, se bem me lembro. Mas também sei que a maior parte do universo não é formada por essas partículas, mas por matéria escura, que é formado ainda por partículas não muito bem estudadas. Que eu saiba, ainda não foi decifrado muito bem do que ela é formada nem como essas partículas interagem/não interagem com a matéria que nós conhecemos.

            Saquei o lance da H2O. haha Bom, levando em conta estritamente o modelo da física, acho que nem seria uma questão falar se duas moléculas dessas seriam iguais ou não. Mas entrando mais pro lado da filosofia da física, é uma reflexão bem interessante.

            Eu fico meio entalado pra dar uma resposta haha. As duas possíveis tem prós e contras.

            “simplesmente DESCONSIDERAR toda e qualquer propriedade que não seja possível medir”

            Bom, no sentido científico, é isso que é feito. Só se pode falar cientificamente sobre aquilo que se pode mensurar. Na filosofia, só se pode falar sobre o que se pode conceitualizar. E assim por diante. rs

          • Bruno Braz

            Ótimo, chegamos num ponto interessante aqui!

            Na essência, a Ciência é uma postura curiosa que utiliza um método particular para explorar a realidade.

            Talvez não seja o seu caso, mas eu vejo muita gente (especialmente quem é mais novo) acreditando que o universo e a realidade são exatamente da forma como a Ciência os descreve atualmente, como se não houvesse nenhum fenômeno, nenhuma propriedade, absolutamente NADA fora do alcance da Ciência. Pessoas assim esquecem que, apesar dos avanços, ainda conhecemos muito pouco sobre a natureza da realidade.

            E isso está totalmente relacionado com o assunto original do post. Quanto de significado se perde na busca desenfreada por converter a realidade em números? Quanto de subjetivo se sacrifica em prol da utilidade do que é objetivo? Entre os dois, prefiro o primeiro.

  • Ainda não li os outros comentários, então me desculpe se eu acabar repetindo o que outros já falaram.

    Eu discordo de alguns pontos apresentados. Bom, eu sei que, no geral, a ideia do artigo foi mostrar que existe um lado perigoso de se analisar a realidade na forma de dados, de números. E isso é um alerta especial, especialmente hoje que quase toda a ciência empírica que temos se vale em larga escala dessas quantificações. Mas elas são abstrações matemáticas, correto, mas elas funcionam. Conseguimos prever e descrever fenômenos graças a essas anáises, até em áreas como a psicologia.

    Claro, usar estatísticas e dados para prever e descrever o comportamento individual é complicado, pode não dar certo, mas quanto maior é o grupo de pessoas a ser analisado, mais “quantificável” e encaixado em modelos o comportamento pode ser. É por isso que, por exemplo, Teoria dos Jogos funciona tão bem na área de Relações Internacionais e Política Externa.

    Enfim, existe um lado MUITO bom em se encarar as coisas de forma quantitativa — apesar das limitações, o que não é realmente um problema particular, já que todo método tem seus problemas.

    Outro ponto que eu queria ressaltar:

    Existe um entendimento errado de que a física moderna não é mais objetiva e quantificável, graças a erros na interpretação de experimentos da mecânica quântica, e de como essa área enxerga a natureza. Pra não me alongar, só queria dizer que a MC encara testa e projeta modelos matemáticos sobre a natureza, modelos probabilísticos. Ou seja, não é aquela objetividade das leis de Newton, do mundo macroscópico, mas também não tem essa vibe subjetivista e não-quantificada que senti que tinha na parte do seu texto que falava disso. 😉

    • Bruno Braz

      Sim, gostei muito dos pontos que vc levantou! Acho que concordamos que grande parte da ciência atual se baseia em análises estatísticas, certo? E aí é que eu enxergo a beleza da coisa! Veja só…

      Com a ajuda de modelos estatísticos podemos concluir alguma coisa, mas isso não exclui a existência das “anomalias”, dos “pontos fora da reta”, dos “dados descartados porque não se encaixam no modelo”, etc… O mundo da estatística é um mundo de “possibilidades”, percebe?

      Sobre a subjetividade da MC, eu falava justamente da interação observador-objeto que faz com que as equações de onda “colapsem” (sei lá como isso é traduzido para o português, rs). Sem observador, não há nada determinado sobre o objeto, apenas uma gama de possibilidades. Estou com preguiça de procurar os artigos científicos que confirmam isso, mas me avise se não encontrar, por favor.

      • Saquei.

        Mas é que esse lance da MC de a onda colapsar, é uma linguagem bem…verbal, digamos assim, pra tentar explicar uma ferramenta teórica da matemática pra lidar com os cálculos de probabilidade da MC. Não é algo literal da forma como eu acho que vc transpareceu, entende? Eu empaquei mais nessa parte do seu argumento mesmo.

        • Bruno Braz

          Ahhh com certeza! hehehehe Para dar significados aos números e resultados de experimentos, precisamos de uma interpretação que, por sua vez, é pautada numa certa visão de mundo.

          É claro que tenho minhas limitações para entender MC também, afinal, não sou físico, mas me interesso bastante pelo assunto e consigo relacionar com algumas coisas que aprendi na engenharia.

          Como vc enxerga os resultados experimentais da MC? Fiquei curioso.

          • Cara, eu acho que quanto aos resultados da MC teria que me encaixar num meio termo entre o instrumentalismo e o realismo. Ou seja, não dá pra dizer que são apenas teorias fictícias cujos resultados funcionam. Seria um milagre que teorias totalmente falsas funcionassem no mundo real pra alguma coisa. Mas o realismo total também é ingênuo.

            No final das contas, eu só tento ser cauteloso com as interpretações teóricas feitas em cima de artifícios matemáticos. Tem que saber fazer a diferença, mesmo que não se entre na polêmica entre instrumentalismo e realismo ingênuo.