Nossos dias andam congestionados de “heróis” e de gente convicta, determinada.

São pessoas que não têm dúvidas nem levam desaforo para casa, que perdem amigos só para não perderem o prazer de difundir uma frase contundente, que acham que a indignação precisa ser verbalizada com palavras fortes, se possível gritadas com veemência e ardor.

Pessoas que veem inimigos e conspiradores em todo canto, que fazem da contraposição uma arma que fere e alimenta polarizações paralisantes, que pensam que “tudo é política” e que as disputas por poder são o sal da terra.

São dias povoados por gente que tem horror à reflexão crítica (e autocrítica), a pontes e mediações, que não cogita de articular os contrários para construir unidades superiores e que, convencida do valor heurístico do conceito de “luta”, pensa que a todo momento é preciso ativar atritos, combates e conflitos contra tudo e todos.

Pessoas que concorrem, como se estivessem fechadas à cooperação, e que veem os ponderados como uma espécie de raça inferior, formada por gente que capitula. Pessoas, em suma, que se entregam a estigmatizações dogmáticas, que proíbem o pensar, o duvidar e o conhecer.

Elas lutam porque querem aguçar contradições, mas usam uma dialética rígida, que não produz sínteses, ou seja, não pensa a superação. É uma dialética com dois únicos termos: a tese e a antítese, nós e eles, o bem e o mal.

É uma espécie de mal da época, que pulsa com especial vibração no Brasil de 2016, mais até do que pulsou em outros momentos, como em 2014, quando o país praticamente se separou em dois.

Hoje temos mais do que “dois países”. Eles são muitos, distintos entre si e incomunicáveis, cortados por diferenças sociais abissais mas também por desentendimentos semânticos, dissonâncias cognitivas, disputas políticas e animosidade ideológica, tudo amplificado e inflamado de forma irracional.

O país, porém, é um só, as maiorias caminham na mesma direção, ainda que achando que estão a escolher rumos particulares, individualizados.

Se olharmos para o mundo da política em sentido estrito, para o sistema, o veremos de pernas para o ar, ofegante, desorientado. Mas os prepotentes, os arrogantes, os indiferentes ao país em que vivem e aos cidadãos que deveriam representar, ainda mantém seus postos.

Alguns primam pela desfaçatez, outros se agarram quase fanaticamente aos pedaços de poder a que tiveram acesso, como se fossem eternos e não pudessem desaparecer. Há ainda quem se esmera em inserir cunhas nas estruturas de poder, para tentar desestabilizá-las ou estabilizá-las a seu favor.

Na sociedade civil, sempre vista e tratada como o eixo “positivo” do Estado, seu coração ético, o desentendimento assentou praça, a exibição de força tornou-se regra, a intolerância só faz crescer, quase não há mais ação comunicativa, ainda que todos falem o tempo todo.

Aí dorme o problema principal, pois sem um ativismo democrático que construa pontes e as empregue para viabilizar uma pressão que prepare um futuro melhor, pouco haverá de correção de rumos e recuperação do Estado, da comunidade política.

O ativismo está vivo, o que é ótima notícia. Não passa um dia sem mobilizações, protestos, ocupações. A energia cívica contida nessa movimentação não pode ser desprezada, nem desperdiçada. Ela precisa se encontrar com a política institucionalizada, abrir áreas consistentes de entendimento e busca de soluções.

O agir crítico não vive só de narrativas épicas e espetáculos. Depende de uma interação com as rotinas democráticas, sob pena de se evaporar, de se volatilizar.

Revolucionar o cotidiano não é o mesmo que ir para a rua fazer a revolução. É mais complexo. E lidar com o cotidiano para revolucioná-lo requer mais que marcação de posições, indignação e gritos revolucionários, que são basicamente performáticos.

Se a questão é transformar o cotidiano, bem mais importante é saber dialogar e persuadir, ou seja, criar novos consensos e entendimentos. Coisa que não se consegue somente a partir das ruas mas sim com as ruas.

A questão é saber como impulsionar e organizar a vontade política. A volição é inevitável em todo ser que age politicamente, e quase sempre entra em choque com a razão, não para negá-la, mas para condicioná-la: pode-se justificar racionalmente até mesmo a ação mais estapafúrdia ou reacionária, racista e homofóbica.

O equilíbrio é difícil, flutuante, depende mais de serenidade e projeto que de indignação e “desejo de agir”.

Quando o o escritor Romain Rolland cunhou a frase que ficaria famosa na pena do marxista Antonio Gramsci – “o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade” -, era à luta entre a paixão e a razão que ele se referia.

Gramsci, teórico e dirigente político, deu tratamento mais bem acabado ao tema, pondo-o no centro mesmo de sua elaboração intelectual: não basta ter vontade de agir, é preciso saber bem em nome do que agir e definir com clareza os passos que podem fazer uma ação ser produtiva, eficiente, a ponto de impulsionar a história.

A racionalidade deveria dar os braços à paixão e caminhar junto com ela, condicionando-a, potencializando-a, tornando-a produtiva. Sem isso, a vontade se converteria numa força desgovernada, movida por interesses momentâneos, indignações circunstanciais.

Poderia produzir seus heróis, mas se alimentaria de seus próprios mitos e convicções e, nessa medida, seria autorreferida: a vontade pela vontade, a ação pela ação, o movimento como valor em si, a entrega incondicional, a agitação sem rumo claro, que bastaria a si própria.

Desdobramento quase lógico: a ação volitiva que basta a si própria tende ao autoritarismo e à vitimização. Não admite ser contrariada ou ter de lidar com verdades alternativas. Os que a ela se opõem são invariavelmente tratados como inimigos, como gente que despreza as ruas.

Nenhuma outra forma de luta teria legitimidade ou mereceria reconhecimento. Cercada por “mitos fundacionais” específicos, a ação volitiva “pura” cria seus heróis, seus mitos, seu léxico e uma cultura própria. Por trás dela, as forças que operam se dedicam a contribuir para que a vontade política ali condensada transborde os territórios e seja usada partidária e eleitoralmente.

Esta liberação da vontade dos condicionamentos da razão crítica levaria a ação a caminhar em círculos, a frequentar sempre os mesmos caminhos, a não acumular e portanto a não gerar superações dialéticas. Se estaria sempre no mesmo lugar, apesar do barulho, do suor e do eventual sangue derramado.

É impressionante, mas parece que ninguém se dá conta de que a democracia está perdendo qualidade não só porque o sistema político enfartou, mas porque os cidadãos democráticos não são capazes de se articularem entre si e estão se devorando uns aos outros. Sem eles, será difícil acontecer algo novo, até porque faltam lideranças, dirigentes e quadros com particular talento político.

Estamos nos tornando uma nação de políticos ausentes e de cidadãos indignados, que não sabem dialogar, não conseguem definir quem são os “inimigos principais”, não têm qualquer plano de voo, e ninguém aparece para fazer o mínimo requerido pela democracia: mediação.

Não será somente com homens e mulheres reflexivos e dispostos ao diálogo que moveremos a roda da História. Mudar a vida e reformar os sistemas são ações que dependem muito de força, de convicção e disposição de luta.

Mas sem pessoas com paciência e disposição para ouvir, ponderar, argumentar, mediar – será bem mais difícil cogitar de um futuro melhor, mais justo, fraterno e comunicativo.


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escrito por:

Marco Aurélio Nogueira

Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).


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