Imagine que você é um viajante em uma terra estranha. Um habitante local se aproxima e começa a falar em uma linguagem desconhecida. Ele parece ser sincero e está apontando para algum lugar. Mas você não consegue decifrar as palavras, não importa o quanto tente.

Essa é praticamente a situação de uma criança pequena quando encontra uma linguagem falada pela primeira vez. Na verdade, ela parece estar em uma posição ainda mais desafiadora. Ao contrário do nosso hipotético viajante, ela nem sabe que essas pessoas estão tentando se comunicar.

E, no entanto, com a idade de quatro anos, cada criança cognitivamente normal do planeta se transformou em um gênio linguístico: antes da escolaridade formal, antes de poderem andar de bicicleta, amarrar seus próprios cadarços ou fazer adição e subtração rudimentares. Parece um milagre. Pense apenas na dificuldade que você teria para, enquanto adulto, aprender a falar mandarim ou sânscrito – uma criança nascida na China ou Índia aprende sua língua materna quase sem perceber. A tarefa de explicar este milagre tem sido, sem dúvida, a preocupação central do estudo científico da linguagem por mais de 50 anos.

Na década de 1960, o linguista e filósofo norteamericano Noam Chomsky propôs o que parecia ser uma solução. Ele argumentou que as crianças na verdade não aprendem a língua materna – ou, pelo menos, não todos os blocos de construção gramatical. O processo é muito rápido e indolor para ser considerado um “aprendizado”. Ele concluiu que as crianças devem nascer com um tipo rudimentar de conhecimento gramatical (uma “gramática universal”) escrita no DNA humano. Com esta predisposição hard-wired para a linguagem, é uma questão relativamente trivial aprender as diferenças superficiais entre, digamos, inglês e francês. O processo funciona porque os bebês têm um instinto de linguagem: um conjunto de ferramentas gramaticais que funciona em todas as línguas de todo o mundo.

De uma só vez, essa proposta elimina a dificuldade de aprender a língua materna e explica como uma criança pode dominar um idioma nativo em tão pouco tempo. É brilhante. A idéia de Chomsky foi prevalente na ciência da linguagem por quatro décadas.

E, no entanto, é um mito. Um amontoado de novas evidências surgiu nos últimos anos, demonstrando que Chomsky está errado.

Vamos voltar um pouco. Há um ponto em que todos concordam: nossa espécie exibe uma clara preparação biológica para a linguagem. Nossos cérebros estão realmente “preparados para a linguagem” no seguinte sentido limitado: o cérebro humano tem o tipo certo de memória para processar a sintaxe no nível da sentença e um córtex pré-frontal excepcionalmente grande, que nos dá a capacidade de aprendizagem associativa para o uso de símbolos.

Da mesma forma, nossos corpos também estão prontos para a linguagem: nossa laringe situa-se abaixo da posição da laringe em outras espécies de hominídeos, deixando-nos expulsar e controlar a passagem do ar. E a posição do pequeno osso hióide em nossos maxilares nos dá um controle muscular profundo sobre nossas bocas e línguas, permitindo-nos fazer centenas de sons fala distintos. Ninguém nega que essas coisas sejam completamente inatas e importantes para a linguagem.

O que está em disputa é a afirmação de que o conhecimento da própria linguagem (o software de linguagem) é algo com o qual cada criança humana nasce. A idéia de Chomsky é a seguinte: assim como desenvolvemos órgãos humanos distintivos (corações, cérebros, rins e fígados), também desenvolvemos a linguagem no cérebro, que Chomsky compara com um “órgão de linguagem”. Este órgão começa a se desenvolver no início da infância. Ele contém um modelo válido para todos os possíveis conjuntos de regras de gramática em todos os idiomas do mundo.

Hoje há pouco suporte para a teoria de Chomsky.

E por isso é brincadeira de criança assimilar qualquer linguagem humana natural nos primeiros anos de vida. Uma criança nascida em Tóquio aprende a falar japonês enquanto uma nascida em Londres assimila o inglês – e, na superfície, essas línguas parecem muito diferentes. Mas na sua base, elas são essencialmente as mesmas, funcionando em um sistema operacional gramatical comum. O cientista cognitivo canadense Steven Pinker apelidou essa capacidade de nosso “instinto linguístico”.

Existem dois argumentos básicos para a existência desse instinto linguístico. O primeiro é o problema dos professores incompetentes. Como Chomsky apontou em 1965, as crianças parecem assimilar a língua materna sem muita instrução explícita de seus pais. Quando uma criança bem pequena diz algo gramaticalmente errado como “Papai, as galinha faz ovo”, seus pais não corrigem, eles apenas sorriem e se maravilham com o quão fofo seu filho é. Além disso, tais erros aparentemente elementares escondem incríveis conquistas gramaticais. De alguma forma, a criança entende que existe uma classe lexical – substantivos – que podem ser singulares ou plurais, e que essa distinção não se aplica a outras classes léxicas.

Este tipo de conhecimento não é explicitamente ensinado. A maioria dos pais não possui nenhum treinamento explícito de gramática. E é difícil ver como as crianças podem resolver as regras apenas ouvindo atentamente: parece fundamental compreender como funciona uma linguagem. O fato de que aprendem rapidamente, por exemplo, que há substantivos que podem ser pluralizados e que são distintos dos verbos, é um ponto em que hipótese de um instinto de linguagem encontra seu apoio. As crianças não precisam descobrir tudo a partir do zero: certas distinções básicas parecem cair em seu colo.

As crianças pequenas não recebem instrução formal sobre sua língua materna, então como adquirem competência em gramática?

O segundo argumento de Chomsky muda o foco para as habilidades da criança. Pense nisso como o problema dos alunos pobres. Que recursos de aprendizagem em geral as crianças trazem para o processo de aquisição de linguagem? Quando Chomsky estava formulando suas ideias, as teorias mais influentes sobre o aprendizado (por exemplo, a abordagem comportamental do psicólogo norte-americano B. F. Skinner – o behaviorismo) pareciam inadequadas ao desafio representado pela linguagem.

A abordagem behaviorista de Skinner via todo o aprendizado como uma questão de reforço de estímulo-resposta, da mesma forma que o cão de Pavlov poderia ser treinado para salivar ao ouvir um sino anunciando o jantar. Mas, como afirmou Chomsky, em uma devastadora revisão de 1959 sobre as alegações de Skinner, o fato de as crianças não receberem instrução formal na língua materna significa que o comportamento não pode explicar como adquirem competência em gramática.

Chomsky concluiu que as crianças devem encontrar o processo de aprendizagem da linguagem já preparado de alguma forma. Se elas não são explicitamente ensinadas como a gramática funciona, e se suas habilidades de aprendizado inatas não estão prontas para a tarefa de aprender apenas por observação, então, por processo de eliminação, sua capacidade para a gramática deve estar presente desde o nascimento.

Esses são mais ou menos os argumentos que sustentaram o projeto de Chomsky desde então. Eles parecem bastante simples, não? E, no entanto, a bagagem teórica que suportam esses argumentos é extremamente significativa. Ao longo das últimas duas décadas, a hipótese instinto linguístico tem cambaleado sob o próprio peso.

Vamos começar com um ponto bastante básico. Quanto sentido faz chamar qualquer base inata para a linguagem de “instinto”? Pensando bem, não muito. Um instinto é uma disposição inata para certos tipos de comportamento adaptativo. Um aspecto importante é que esse comportamento deve surgir sem treinamento. Uma aranha jovem não precisa observar uma aranha mais velha para aprender a fazer uma intrincada rede de captura com sua teia: a aranha apenas lança sua teia e constrói a rede, não sendo necessária nenhum aprendizado.

A linguagem é diferente. A cultura popular pode celebrar personagens como Tarzan e Mowgli, seres humanos que crescem entre os animais e, em seguida, dominam a fala humana na idade adulta. Mas agora temos vários casos bem documentados de crianças chamadas “ferais”, crianças que não estão expostas à linguagem por acidente ou desígnio, como na história terrível de Genie, uma garota nos EUA, cujo pai a manteve dentro uma sala trancada até que foi descoberta em 1970, aos 13 anos de idade.

A lição geral desses indivíduos infelizes é que, sem exposição a um meio humano normal, uma criança simplesmente não vai assimilar uma linguagem. As aranhas não precisam crescer ao lado de outras aranhas mais velhas para assimilar como fazer uma teia, mas os bebês humanos precisam ouvir muita linguagem antes que possam falar. Não importa como se analise a questão, a linguagem não é um instinto da maneira que a tela da aranha definitivamente é.

Mas isso é pouco. Um problema mais importante é o seguinte: se o nosso conhecimento dos rudimentos de todas as 7.000 línguas do mundo é inato, então, em algum nível, todas essas línguas devem ser iguais. Deve haver um conjunto de regras gramaticais “universais” absolutas, comuns a todas as línguas do mundo. Mas não é isso que descobrimos. O que encontramos ao analisar as diversas línguas do mundo é uma incrível diversidade.

Os diversos idiomas do mundo do mundo variam enormemente em relação à quantidade de sons distintos que usam, de modestos 11 aos impressionantes 144 sons de algumas línguas Khoisan (as línguas africanas que empregam consoantes de “clique”). Elas também diferem em relação à ordem das palavras usadas para sujeito, verbo e objeto – havendo todo o tipo de ordem possível. O inglês usa um padrão bastante comum: sujeito, verbo, objeto (O cão mordeu o carteiro). Mas outros idiomas fazem tudo de forma bem diferente. Em Jiwarli, uma língua australiana indígena, os componentes da frase inglesa “Esta mulher beijou aquele limpador de janela careca” seriam organizados na seguinte ordem: Aquele esta careca beijou mulher limpador de janelas.

Muitas línguas usam a ordem das palavras para indicar quem está fazendo o que a quem. Outras não o usam ordem alguma: em vez disso, alguns idiomas elaboram “frases” criando palavras gigantes compostas de pequenas partes de palavras. Os lingüistas chamam essas partes de palavras de “morfemas”. Muitas vezes, você pode combinar morfemas para criar palavras, como a palavra “in-feliz-mente”. A palavra tawakiqutiqarpiit da língua inuktitut, falada no leste do Canadá, é aproximadamente equivalente a: Você tem algum tabaco à venda? A ordem das palavras importa menos quando cada palavra é uma frase completa.

Os ingredientes básicos da linguagem, pelo menos da nossa perspectiva ocidental, são partes do discurso: substantivos, verbos, adjetivos, advérbios e assim por diante. Mas muitas línguas não têm advérbios, e algumas, como o Lao (falado no Laos e partes da Tailândia), não têm adjetivos. Até foi afirmado que o Straits Salish, uma língua indígena falada na região da Columbia Britânica, dispensa substantivos e verbos.

Além disso, algumas línguas possuem categorias gramaticais que parecem positivamente estranhas para nossa perspectiva eurocêntrica. Minha favorita é o ideófono, uma categoria gramatical que algumas línguas empregam para apimentar uma narrativa. Um ideófono é um tipo de palavra de pleno direito que integra diferentes experiências sensoriais decorrentes de uma única ação: para escolher um exemplo, a palavra ribey-tibuy, da língua do norte Mundari, descreve a visão, o movimento e o som das nádegas de uma pessoa gorda enquanto ela caminha.

E é claro que não é necessário falar o idioma: as 130 línguas de sinais reconhecidas do mundo funcionam perfeitamente sem som. É um fato notável que o significado lingüístico possa ser transmitido de múltiplas formas: na fala, nos gestos, na página impressa ou na tela do computador. Não depende de um meio específico para sua expressão. É estranho imaginar que, se há algum elemento comum a toda linguagem humana, ele esteja escondido sob uma tão desconcertante profusão de diferenças.

À medida que essas descobertas surgiram ao longo dos anos, o lobby a favor do instinto de linguagem gradualmente foi reduzindo o tamanho do suposto componente universal da linguagem que haveria no cérebro humano. Em uma versão de 2002, Chomsky e colegas da Harvard propuseram que talvez a única coisa exclusiva da linguagem humana seja uma capacidade computacional de propósito geral conhecida como “recursão” ou “recursividade”.

A recursão nos permite reorganizar palavras e unidades gramaticais para formar frases de complexidade potencialmente infinitas. Por exemplo, eu posso incorporar recursivamente frases em frases relativas – frases que começam com quem ou qual – e assim criar frases sem fim: a loja, que está na quadra do posto de gasolina, que está perto da casa de João… Mas sabemos que os humanos são não únicos na sua capacidade de recursão: os estorninhos europeus também podem fazê-lo. Essa propriedade “única” da gramática humana pode não ser tão única afinal de contas.

Também não está claro se a recursão é realmente universal entre as línguas humanas. Alguns pesquisadores sugerem que, na verdade, a recursão pode ser um resultado tardio da evolução dos sistemas de gramática, uma conseqüência e não uma causa. E em 2005, o antropólogo norte-americano Daniel Everett afirmou que Pirahã (uma língua indígena da floresta amazônica) não usa recursão, e isso seria algo muito estranho de descobrir caso a gramática realmente estivesse conectada ao cérebro humano.

Mas chega de universalidades. Talvez um problema mais grave para a hipótese do instinto linguístico seja sua explicação sobre como aprendemos a falar. Pretendia-se explicar como a aquisição de linguagem é tão rápida e automática nas crianças. O problema é que a explicação faz o processo de aquisição parecer muito mais rápido e automático do que realmente é.

Infelizmente, sua proposta não resiste a descobertas no campo da psicolinguística do desenvolvimento. Pelo contrário, as crianças parecem pegar sua gramática de forma bastante fragmentada. Por exemplo, em relação aos artigos, por um longo período de tempo as crianças aplicarão um artigo específico (por exemplo, o) apenas para os substantivos que já ouviram sendo precedidos com ele. Só mais tarde as crianças expandem o que ouviram, aplicando gradualmente artigos a um conjunto mais amplo de substantivos.

Esta descoberta parece ser válida para todas as nossas categorias gramaticais. As “regras” não são aplicadas em saltos indiscriminados, como seria de esperar se houvesse realmente um modelo inato para a gramática. Parece que construímos o nosso idioma ao detectar padrões no comportamento linguístico que encontramos no ambiente em que crescemos, e não pela aplicação de regras internas. Ao longo do tempo, as crianças lentamente descobrem como aplicar as várias categorias que encontram. Assim, embora a aquisição de linguagem possa ser estranhamente rápida, é muito pouco automática: a aquisição é resultado de um processo minucioso de tentativa e erro.

E como seria um “instinto de linguagem”, caso ele existisse? Bem, se a linguagem emerge de um gene de gramática, que estabelece um órgão especial em nossos cérebros durante o desenvolvimento humano, parece natural supor que a linguagem deva constituir um módulo distinto em nossa mente. Deve haver uma região específica do cérebro que seja sua reserva exclusiva, uma área especializada apenas para linguagem. Em outras palavras, presumivelmente o processador de linguagem do cérebro deve ser encapsulado – impermeável à influência de outros aspectos do funcionamento da mente.

Mas as pesquisas de neurociências cognitivas nas últimas duas décadas começaram a levantar o véu sobre como a linguagem é processada no cérebro. A resposta curta é que está em toda parte. No passado se acreditava que uma região conhecida como “Área de Broca” era o centro de linguagem do cérebro. Agora sabemos que ela não se dedica exclusivamente à linguagem, mas que está envolvida em uma série de outros comportamentos motores e não linguísticos.

E outros aspectos do conhecimento e processamento linguístico estão implicados em quase todos os lugares do cérebro. Se por um lado o cérebro humano exibe especialização para o processamento de diferentes gêneros de informação, como a visão, por outro parece não haver um local dedicado apenas para a linguagem.

Mas talvez a singularidade da linguagem não decorre de um “onde”, mas de um “como”. Se houver um tipo de processamento neurológico exclusivo do idioma, importa onde ele é processado no cérebro? Esta é a ideia da modularidade “funcional” e não “física”. Uma maneira de demonstrá-lo seria encontrar indivíduos cujas habilidades de linguagem fossem normais mesmo enquanto seus intelectos estivessem comprometidos e vice-versa. Isso proporcionaria o que os cientistas chamam de “dupla dissociação” – uma demonstração da independência mútua das faculdades verbais e não-verbais.

Em seu livro The Language Instinct (1994), Steven Pinker examinou várias patologias linguísticas sugestivas, a fim de justificar essa dissociação. Por exemplo, algumas crianças sofrem com o que é conhecido como Deterioração da Linguagem Específica – seu intelecto geral parece normal, mas elas têm dificuldade com tarefas verbais específicas, tropeçam em certas regras de gramática e assim por diante. Isso seria uma evidência convincente, caso não tivesse sido descoberto que o SLI é só uma incapacidade de processar excelentes detalhes auditivos. É conseqüência de um déficit motor, e não de uma falha linguística específica. Histórias semelhantes poderiam ser contadas sobre cada uma das outras alegadas dissociações de Pinker: os problemas verbais sempre se revelam enraizados em algo diferente da linguagem.

Os argumentos anteriores sugerem que não nenhum órgão linguístico específico no cérebro. Uma linha de evidência alternativa implica algo ainda mais forte: que não poderia haver tal coisa. Para que uma gramática universal fosse conectada ao microcircuito do cérebro humano, ela precisaria ser transmitida através dos genes. Mas pesquisas recentes em neurobiologia sugerem que o DNA humano simplesmente não tem nada equiparado ao poder de codificação necessário para fazer isso. Nosso genoma possui uma capacidade de informação altamente restrita. Uma quantidade significativa de nosso código genético é ocupada com a construção de um sistema nervoso, mesmo antes de começar qualquer outra coisa. Escrever algo tão detalhado e específico quanto o conhecimento de uma Gramática Universal dentro do cérebro de um bebê humano usaria recursos informativos enormes – recursos que nosso DNA simplesmente não pode gastar. Assim, a premissa básica do instinto linguístico – que tal coisa poderia ser transmitida geneticamente – parece duvidosa.

Esse é um último grande problema para a idéia de uma gramática universal. Essa é a sua estranha implicação para a evolução humana. Se o idioma é geneticamente codificado, então, evidentemente, precisa ter surgido em algum ponto de nossa linhagem evolutiva. Quando Chomsky estava desenvolvendo sua teoria, a comunidade científica entendia que a linguagem era ausente em outras espécies de nosso gênero, como no caso do Homem de Neandertal. Isso restringia a janela de oportunidade na qual o gene da linguagem poderia ter surgido.

Ao mesmo tempo, a descoberta relativamente recente de uma cultura humana sofisticada há cerca de 50.000 anos atrás (fabricação de ferramentas complexas, jóias, artes em cavernas e assim por diante) parecia confirmar essa emergência tardia. Chomsky argumentou que o gene da linguagem poderia ter aparecido em cena há pouco tempo, como por exemplo há 100.000 anos, e que deve ter surgido de uma mutação genética.

Pare e pense sobre isso: é uma ideia muito estranha. Por um lado, a afirmação de Chomsky é que a linguagem surgiu através de uma macro mutação: um salto descontínuo. Mas isso está em desacordo com a síntese neodarwiniana moderna, amplamente aceita como fato, que não tem lugar para saltos tão amplos e sem precedentes. As adaptações simplesmente não aparecem totalmente formadas.

Além disso, uma conseqüência bizarra da posição de Chomsky é que a linguagem não poderia ter evoluído para o propósito da comunicação: afinal, mesmo que um gene gramatical pudesse ter surgido do nada em um indivíduo sortudo (algo já improvável), as chances de duas pessoas com a mesma mutação aleatória surgirem ao mesmo tempo é ainda menos plausível. E assim, de acordo com a teoria do instinto linguístico, o primeiro homem equipado com linguagem do mundo presumivelmente não tinha ninguém com quem falar.

Algo parece ter dado errado em algum lugar. E de fato, agora acreditamos que vários dos pressupostos evolutivos de Chomsky estavam incorretos. Reconstruções recentes do trato vocal de um Neandertal revela que eles provavelmente tinham alguma capacidade de fala, talvez de qualidade muito moderna. Também está se tornando claro que, longe dos brutos ignorantes do mito popular, os Neandertais tinham uma cultura material sofisticada (incluindo a capacidade de criar gravuras de cavernas e produzir sofisticadas ferramentas de pedra) e não tão diferentes da explosão cultural humana de 50 mil anos atrás. É difícil ver como eles poderiam ter gerenciado a complexa aprendizagem e cooperação necessária para isso se não tivessem idioma.

Além disso, a análise genética recente revela que houve cruzamento entre espécies, e a maioria dos humanos modernos tem alguns pedaços de DNA distintamente neandertal. Longe da imagem de seres humanos modernos chegando e derrotando primitivos ignorantes, parece que o Homo sapiens e Homo Neanderthalensis podem ter vivido em coabitação e acasalado. Não parece excessivo especular que também podem ter comunicado uns com os outros.

Tudo está muito bem, mas as perguntas permanecem. Por que hoje apenas os humanos têm linguagem, o mais complexo dos comportamentos dos animais? Certamente algo deve ter acontecido para nos separar de nossos parentes mais próximos. O desafio para as áreas de pesquisa que rejeitam a hipótese de um instinto da linguagem é dizer o que foi esse “algo”. E uma explicação provável vem do que podemos chamar de nossa “inteligência cooperativa” e dos eventos que a colocaram em funcionamento há mais de 2 milhões de anos.

Nossa linhagem, Homo, remonta a cerca de 2,5 milhões de anos. Antes disso, nossos antepassados ​​mais próximos eram macacos essencialmente bípedes conhecidos como australopithecines, criaturas que provavelmente eram tão inteligentes como os chimpanzés. Mas, em algum momento, algo em seu nicho ecológico deve ter mudado. Esses primeiros pré-humanos passaram de uma dieta à base de frutas (como a maioria dos grandes macacos de hoje) para a carne.

A nova dieta exigiu novos arranjos sociais e um novo tipo de estratégia cooperativa (é difícil caçar sozinho). Isso, por sua vez, parece ter implicado novas formas de pensamento cooperativo de forma mais geral: surgiram arranjos sociais para garantir aos caçadores uma parcela igual da recompensa e para garantir que as mulheres e as crianças que pudessem participar também obtivessem uma parte da caça.

De acordo com o psicólogo comparativo dos EUA, Michael Tomasello, quando o antepassado comum de Homo sapiens e Homo neanderthalensis surgiu há cerca de 300 mil anos, esse ancestral já desenvolveu um tipo sofisticado de inteligência cooperativa. Isso é evidente no registro arqueológico que demonstra a complexidade da vida social e dos arranjos interacionais entre os ancestrais dos humanos e neandertais.

Provavelmente o uso de símbolos – que prefiguram a linguagem – e a capacidade desenvolver pensamento recursivo (uma conseqüência, segundo algumas teorias, do lento surgimento de uma gramática simbólica cada vez mais sofisticada). A nova situação ecológica teria conduzido, inexoravelmente, a mudanças no comportamento humano. O uso de ferramentas e a caça cooperativa tornaram-se necessárias, bem como novos arranjos sociais – como pactos para salvaguardar os privilégios de reprodução monógamas enquanto os machos estavam ausentes na caça.

Essas novas pressões sociais teriam precipitado mudanças na organização do cérebro. Com o tempo, veríamos a capacidade de linguagem desenvolver-se. A linguagem é, afinal, o exemplo paradigmático do comportamento cooperativo: requer convenções (normas acordadas dentro de uma comunidade) e pode ser utilizada para coordenar todos os comportamentos complexos que o novo nicho no ecossistema exigia de nossos antepassados.

Nesta perspectiva, não temos que presumir um instinto linguístico especial; precisamos apenas olhar que tipo de mudanças nos tornaram quem somos, as mudanças que abriram o caminho para a fala humana. Isso nos permite imaginar o surgimento da linguagem como um processo gradual de muitas tendências sobrepostas. Poderia ter começado como um sistema gestual sofisticado, por exemplo, apenas depois avançando para suas manifestações vocais. Mas certamente o impulso mais profundo no caminho para a fala teria sido o desenvolvimento do nosso instinto de cooperação. Com isso não quero dizer que sempre chegamos a esse ponto. Mas quase sempre reconhecemos outros seres humanos como criaturas conscientes, como nós, que têm pensamentos e sentimentos que podemos tentar influenciar.

Vemos esse instinto no esforço de bebês humanos enquanto tentam adquirir sua língua materna. As crianças têm capacidades de aprendizagem muito mais sofisticadas do que Chomsky previu. Elas são capazes de implantar habilidades sofisticadas de reconhecimento de intenções desde muito cedo, talvez já com nove meses de idade, para começar a descobrir os propósitos comunicativos dos adultos ao seu redor. E este é, em última análise, um resultado de nossas mentes cooperativas.

Isso não significa menosprezar a linguagem: uma vez que surgiu, ela nos permitiu moldar o mundo para à vontade – para o melhor ou para o pior. Ela desencadeou os tremendos poderes de invenção e transformação da humanidade. Mas não saiu do nada, e não se distingue do resto da vida humana. Por fim, no século 21, estamos em condições de abandonar o mito da gramática universal e começar a ver esse aspecto único da nossa humanidade como realmente é.


Fonte: AeonThe Evidence is in There is no Language Instinct

 

  • Hugo Galvão Ribeiro Arraes

    Pq meus comentários estão sendo apagados?

    • Bom, então vou postar quebrado aqui:

      A linguagem é outro ponto que creio ser mais simples do que é geralmente discutido e imaginado.
      Para conseguir ler, é preciso entender uma imagem de uma letra:
      Para entender uma imagem, usamos muitos subsistemas (V1, V2, V3, V4, MT, PO, TEO, TE, etc) para quebrar a informação em conceitos granulares para criar uma Rede/Árvore de conceitos com essa informação, como forma, ângulos específicos, cor, padrão, etc. Utilizamos para identificar letras os elementos que temos para identificar formatos do dia à dia como uma montanha ou a ponta de um galho.
      Para a audição, do mesmo modo, é construída uma rede de sons a medida que as diferentes estruturas ciliadas dentro da cóclea são ativadas. Quase que um dicionário de sons.
      Mais uma vez, em paralelo, é construída uma rede de estimulação muscular, onde a partir de movimentos exploratórios é mapeada e criada a rede de movimentos e estimulação muscular.

      • Quando um bebê balbucia e produz uma “AAAA”, “BUUUU”, “MAAAA”, ele está construindo uma rede de novos conceitos musculares e, ao mesmo tempo, alimentando e construindo a rede de conceitos auditivos, sendo que as duas redes acabam por se conectar devido a proximidade temporal de construção e ativação.
        Estas redes podem ser construídas/formadas, inclusive, antes de estarem totalmente ligadas entre si a exemplo onde uma rede/floresta de conceitos sobre formas de uma letra pode ser construída antes mesmo que a rede muscular de conceitos dos órgãos vocais seja ligada à rede de conceito de sons específicos.
        Exemplo:
        Uma pessoa pode ser capaz de ler “Arnold Schwarzenegger” sem saber como se “pronuncia” “Arnold Schwarzenegger” mas sabendo que ele é um ator.

        • O oposto também é válido onde uma rede/floresta de conceitos de sons específicos pode ser construída e ligada a rede de conceitos de objetos em memória antes mesmo de estar ligada à rede de conceitos sobre formas de uma letra.
          Exemplo:
          Uma pessoa pode ser capaz de pronunciar “Neko” (Gato, em Japonês) sem saber que as “letras” “猫” pronunciam esse som, mas sabendo que o Neko é um felino.
          Você precisa ter em sua memória a vasta Rede/Floresta de conceitos que está associada às formas de letras, a árvore dos conceitos da junção dessas letras (palavra) e a árvore dos conceitos de significado associados a essas junção de letras.

          • Se você não tem essas redes de conceitos construídas ou ligadas às redes que formam palavras ou mesmo letras e tenta ler um livro em um idioma desconhecido, você só verá as formas que você pode associar aos conceitos que já possuir ligados a estas formas em memória.
            Em suma, a estrutura de uma linguagem não difere muito do ato de ver, ouvir, movimentar-se e livremente fazer associações dentre estes diferentes tipos de redes de conceitos.