Quadrinho de mulher com os dizeres: "OMG, tenho que ler e escrever um monte para ser uma escritora de quadrinhos?!".

10 quadrinhos para aprender a escrever

Em Arte, Tempo de Curtir por Guilherme MiorandoComentários

É pes­soal, lis­tas fazem sucesso com todo mundo, mesmo que não con­cor­dem ou não gos­tem delas, todo mundo quer saber o que elas con­têm. E nessa lista falo dos 10 comics que me ensi­na­ram a escre­ver, que por­tanto dizem res­peito os MEUS gos­tos, claro.

Per­cebi que as minhas HQs pre­fe­ri­das de todos os tem­pos até então me ensi­na­ram algo quase sem­pre rela­ci­o­nado a escre­ver. Por isso esta lista se chama assim.

As HQs que mais me toca­ram, me emo­ci­o­na­ram, me influ­en­ci­a­ram, enfim, que me pro­vo­ca­ram alguma rea­ção, terão rea­ções pau­ta­das por gifs e tere­mos vários links para rese­nhas delas que já publi­quei antes.


10 — MULHER HULK (de Dan Slott e Juan Bobillo)

Eu me senti assim:

Sempre traz um sorriso à minha face!
Sem­pre traz um sor­riso à minha face!

Por quê? Caso você não saiba, antes de escre­ver o Homem-Ara­nha e o polê­mico Homem-Ara­nha Supe­rior e tam­bém muito antes da Mulher-Hulk, Dan Slott tra­ba­lhava nas revis­tas dos Loo­ney Tunes, onde apren­deu a tra­ba­lhar seu humor afi­ado.

Nas suas his­tó­rias da Mulher-Hulk atra­ves­sa­mos o mul­ti­verso, nos encon­tra­mos com androi­des assus­ta­do­res e boa-pra­ças, acom­pa­nha­mos Jen­ni­fer Wal­ters defen­dendo super-heróis numa empresa de advo­ca­cia espe­ci­a­li­zada em direito super-humano.

E poxa, a HQ começa com Tubthum­ping, uma música que adoro na ver­são de Angus & Julia Stone, mas foi tema da esque­cí­vel Copa de 1998. Con­fere aí embaixo!


9 — A SAGA DE PROTEUS (de Chris Claremont e John Byrne)

Eu me senti assim:

Escrever é uma mutação! #soquenao
Escre­ver é uma muta­ção! #soque­nao

Por quê? Foi lendo Mar­vel Saga #03, da Edi­tora Abril, que eu repa­rei pela pri­meira vez que os argu­men­tos de Chris Cla­re­mont fun­ci­o­na­vam como uma nove­li­nha: ele plan­tava uma semen­ti­nha aqui que ia desa­bro­char em 20 núme­ros depois.

Ele tam­bém divi­dia a his­tó­ria em sub­tra­mas, que cor­riam mais deva­gar que a trama prin­ci­pal e valo­ri­za­vam per­so­na­gens secun­dá­rios como a Moira McTag­gert e Madrox, o Homem-Múl­ti­plo.

Assim eu aprendi que não deve­mos nos con­cen­trar ape­nas numa trama só e que sub­tra­mas têm um efeito inte­res­sante para o lei­tor.

Aliás até hoje não entendi por que isso nunca foi repu­bli­cado em for­mato ame­ri­cano. Se bem que né, vamos com­bi­nar que X-Men não é muito favo­re­cido no Bra­sil quando se trata de enca­der­na­dos.


8 — LJA VERSUS VINGADORES (de Kurt Busiek e Gerge Pérez)

Como eu me senti:

Nós vos amamos Busiek e Pérez!
Nós vos ama­mos Busiek e Pérez!

Por quê? Já falei antes que essa HQ, para mim, é a his­tó­ria em qua­dri­nhos de super-heróis defi­ni­tiva.

Mas nela Busiek sabe tra­ba­lhar per­so­na­li­da­des e a cro­no­lo­gia dos super-heróis tam­bém, fazendo uma bela home­na­gem às his­tó­rias do Uni­verso Mar­vel e DC.

Essa HQ me mos­trou como se faz pra agra­dar ao público num tra­ba­lho tão difí­cil como esse de encai­xar tan­tos per­so­na­gens e per­so­na­li­da­des dife­ren­tes numa his­tó­ria só sem des­toar daquilo que é tão vene­rado pelos fãs.

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7 — STARMAN (de James Robinson e Tony Harris)

Como eu me senti:

Dançando na biblioteca!
Dan­çando na bibli­o­teca!

Por quê? Está aí outra HQ injus­ti­çada no Bra­sil, que não entendo por que o pes­soal não com­pra de rodo.

Poxa, aqui o James Robin­son nos mos­tra como uti­li­zar o ambi­ente para dar todo o clima da his­tó­ria. Jack Knight tra­ba­lha num antiquá­rio e o escri­tor nos traz curi­o­si­da­des sobre arte­fa­tos do pas­sado, sem­pre fazendo um link com a his­tó­ria.

Assim, Robin­son nos ensina como a pes­quisa é impor­tante para cons­truir uma his­tó­ria, mesmo ela se pas­sando nos dias atu­ais.

Mas ele usa a metá­fora do antiquá­rio para tra­çar a rela­ção entre Jack e seu pai, Ted Knight, o Star­man da Era de Ouro, que de certa forma tam­bém é uma coisa antiga, lar­gada às tra­ças, mas muito impor­tante para quem a valo­riza.


6 — SANDMAN: ENTES QUERIDOS (de Neil Gaiman, Jill Thompson e Vários Artistas)

Como eu me senti:

Bailando com as Estrelas!
Bai­lando com as Estre­las!

Por quê? Esse é o volume mais refle­xivo de Sand­man, com mais cita­ções de ouro para serem reti­ra­das, que eu com­pi­lei aqui e aqui, da tra­du­ção do Daniel Peliz­zari para a Con­rad.

Sabe o que ele me ensi­nou? Que sim, é neces­sá­rio diva­gar na escrita, por­que são nas diva­ga­ções que sur­gem nos­sas mai­o­res péro­las.

Claro, tam­bém não pode­mos escre­ver só diva­ga­ções. Mas poxa, o que é a obra de Cla­rice Lis­pec­tor senão diva­ga­ção pura? Se você não diva­gar você sacri­fica a per­so­na­li­dade da escrita, você sacri­fica sua voz interna.

E é exa­ta­mente sobre sacri­fí­cios e sobre vozes inter­nas que se trata Entes Que­ri­dos, o que incons­ci­en­te­mente, tal­vez, Gai­man qui­sesse mos­trar.


5 — Y: O ÚLTIMO HOMEM (de Brian K. Vaughan e Pia Guerra)

Como eu me senti:

Oi, oi, oooiii!!!
Oi, oi, oooiii!!!

Por quê? Você pode saber mais sobre essa his­tó­ria em qua­dri­nhos cli­cando em três links: aqui, aqui e aqui.

Basi­ca­mente a pre­missa é: o que acon­te­ce­ria se você fosse o último repre­sen­tante do sexo mas­cu­lino na Terra?

Com essa HQ eu aprendi como cap­tu­rar a aten­ção do lei­tor página por página, como uti­li­zar os gan­chos de uma edi­ção para outra e como tra­ba­lhar diá­lo­gos sar­cás­ti­cos e irô­ni­cos.

Esse qua­dri­nho tam­bém trouxe a cena mais triste de todos os tem­pos, só não cho­rei sobre o papel por­que li em scan na época (não saía no Bra­sil).


4- FLEX MENTALLO (de Grant Morrison e Frank Quitely)

Como eu me senti:

It's a loooong waaay doooown!
It’s a loo­o­ong waaay doo­o­own!

Por quê? O gibi louco, louco, louco do Grant Mor­ri­son e do Qui­tely. É louco, mas você gosta, louco, louco, louco!

Já escrevi sobre essa HQ em mui­tas opor­tu­ni­da­des, como aqui e aqui e sigo escre­vendo, viu? Vocês não podem me parar!

Para verem como essa his­tó­ria me influ­en­ciou: Ela traz várias cama­das de lei­tura e com­para o cres­ci­mento de um garoto e suas cri­a­ções com a evo­lu­ção da indús­tria de qua­dri­nhos de super-heróis nos EUA.

Além de falar sobre cri­a­ção e meta­lin­gua­gem, assun­tos pre­fe­ri­dos de Mor­ri­son, tam­bém lida com iden­ti­dade, sexo e reli­gião.


3 — WATCHMEN (de Alan Moore e Dave Gibbons)

Como eu me senti:

Eu tenho mãos! Eu tenho mãos!
Eu tenho mãos! Eu tenho mãos!

Por quê? Por falar em cama­das, outra HQ que tem diver­sas delas é Wat­ch­men.

Mas claro, não comece por ela, vá ler depois de enten­der a mecâ­nica dos qua­dri­nhos. E tam­bém não seja pre­gui­çoso e não vá ler só os qua­dri­nhos, leia os apên­di­ces tam­bém, por­que são ESSENCIAIS para enten­der a his­tó­ria.

Eu aprendi tanto, mas tanto com Wat­ch­men, que quando li aos 14 anos ela foi tão mind­blowing que mudou minha vida e meus con­cei­tos inte­ri­o­ra­nos e pro­vin­ci­a­nos de vida.

Pas­sei a me ques­ti­o­nar mais, a dei­xar de me achar certo em tudo que fazia, pas­sei a dis­pen­sar as cer­te­zas e plan­tar dúvi­das nas cabe­ças dos outros (meu irmão que o diga!).

Mas Wat­ch­men é uma HQ com tan­tas ques­tões huma­nas, soci­ais, éti­cas e morais, que ela ensina mais que a forma (os grids, as cita­ções, as capas, os apên­di­ces).

Ela ensina que a arte, mesmo que uma mar­gi­na­li­zada como os qua­dri­nhos, não está aqui ape­nas para entre­ter, mas para tra­zer uma nova inter­pre­ta­ção e inci­tar a busca por res­pos­tas den­tro e fora da gente.

Fica ligado que em breve vai sair um Splash­pod sobre Wat­ch­men. E aqui 20 moti­vos para ler Wat­ch­men.


2 — DEMO (de Brian Wood e Becky Cloonan)

Como eu me senti:

Sou uma hipster poser!
Sou uma hips­ter poser!

Por quê? Isso que eu não entendo: por que raios essa HQ não foi publi­cada no Bra­sil AINDA? Ela é o supras­sumo da HQ indie.

Trata de his­tó­rias inde­pen­den­tes sobre adolescentes/jovens adul­tos que estão des­lo­ca­dos, mas que por alguma razão pos­suem esses pode­res extra­or­di­ná­rios e nin­guém parece notar.

Fiz uma rese­nhi­nha dela muito tempo atrás neste link. Foi essa HQ que eu li e disse: quero fazer qua­dri­nhos! E quero fazer qua­dri­nhos bem do jei­ti­nho desse aqui.

Não por acaso meu gibi Fra­tura Exposta tem muito de DEMO.


1 — BONE (de Jeff Smith)

Como eu me senti:

Leite? Leite é para os fracos!
Leite? Leite é para os fra­cos!

Por quê? Essa é a HQ per­feita. Tanto nos dese­nhos como no plot.

É linda. É amor. É tudo. E final­mente está saindo em por­tu­guês e colo­rida pela HQM Edi­tora (se você cor­rer ainda acha nas livra­rias o volume 1 de 9).

A saga de Bone nunca foi publi­cada no Bra­sil na ínte­gra, uma mal­di­ção estilo Pre­a­cher, mas a HQM pro­mete que vai tra­zer todas e mais alguma coisa pra nosso deleite.

Bone mis­tura aven­tura épica com per­so­na­gens car­tu­nes­cos, iden­ti­fi­ca­ção com humor, J. R. R. Tol­kien com Neil Gai­man, Tio Pati­nhas com Pateta e Mic­key, fei­ti­ça­ria com dra­gões, RPG com Moby Dick.

E sai algo que é DEMAIS. Esse é sim­ples­mente o qua­dri­nho que eu mais dese­ja­ria ter feito no mundo. Eu não ia per­der se fosse você.


Ou seja ami­gui­nhos: não venham com essa de eu já li muita HQ então já sei escre­ver. Não, é neces­sá­rio ler uma HQ como um escri­tor.

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Guilherme Miorando
Guilherme nasceu em Erechim em 1984. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Possui o blog sobre quadrinhos: splashpages.wordpress.com

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