Homem de costa para policiais, levantando os dois dedos do meio, de forma irônica. | 10 pontos para discutir os protestos atuais - por Marco Aurélio Nogueira

10 pontos para discutir os protestos atuais

Em Consciência, Política, Sociedade por Marco Aurélio NogueiraComentário

Basta olhar à sua volta. Para den­tro de você mesmo. Ouvir as vozes, ler os sinais. Será fácil cons­ta­tar que a nossa é uma época de recla­ma­ções, des­con­ten­ta­mento e indig­na­ção. De pro­tes­tos, indi­vi­du­ais ou cole­ti­vos, no espaço público e nos espa­ços pri­va­dos, nas ruas das gran­des cida­des e nas pra­ças das peque­nas e médias.

Pro­tes­tar con­tra tudo, recla­mar e con­tes­tar opi­niões se tor­na­ram for­mas de viver.

Bom que seja assim. Pomos para fora o que nos inco­moda, aquilo que nos desa­grada.

Cana­li­za­mos parte de nossa ener­gia vital e de nossa libido para deto­nar os podres pode­res, os erros de ges­tão, as falhas dos sis­te­mas, os gover­nos, as gran­des empre­sas, os ban­cos e os polí­ti­cos. É uma espé­cie de “impo­si­ção” do modo de vida, uma com­pul­são soci­al­mente deter­mi­nada.

Moti­vos não fal­tam. Da eco­no­mia à soci­a­bi­li­dade, da polí­tica à cul­tura, pou­cas coi­sas satis­fa­zem. A feli­ci­dade vem a conta-gotas, home­o­pa­ti­ca­mente. As injus­ti­ças escan­da­li­zam, a misé­ria agride, não tole­ra­mos os que que­rem tirar van­ta­gem, a com­pe­ti­ção, o baru­lho, a ruin­dade do fute­bol…

O capi­ta­lismo se for­ta­lece e exibe suas des­gra­ças para todos: explora mais, imprime um ritmo mais fre­né­tico à vida, exige muito das pes­soas. Infil­tra-se camu­fla­da­mente no coti­di­ano, nas redes, nos rela­ci­o­na­men­tos, nas con­ver­sas de bar.

A época é de alta refle­xi­vi­dade: tudo rever­bera em tudo, as infor­ma­ções se suce­dem e se con­tra­di­zem sem ces­sar, e somos obri­ga­dos a pro­ces­sar mais coi­sas, embe­be­dando-nos de dados, ima­gens, men­sa­gens e notí­cias.

Há muito reflexo e muita refle­xão, ainda que esta última quase nunca seja sis­te­má­tica.

Tama­nho é o nosso afã para mos­trar insa­tis­fa­ção – sem isso não vive­mos – que nem sem­pre temos tempo para dimen­si­o­nar os resul­ta­dos de tanto pro­testo.

Seriam todos eles pro­du­ti­vos? São parte de um pro­cesso de acú­mulo pro­gres­sivo que aponta para uma con­tes­ta­ção cri­a­dora ou expres­são de espas­mos cívi­cos con­ti­nu­a­dos?

Que danos cola­te­rais podem apre­sen­tar e como evitá-los? Como se arti­cu­lam, ou não, com as lutas mais gerais da soci­e­dade, a luta pela vida, pela demo­cra­cia, pela jus­tiça social e pelo bem-estar de todos?

 

Pensando os protestos dos dias de hoje

 

1 — Protestar é demonstrar voz e poder

Em soci­e­da­des demo­crá­ti­cas moder­nas e de alta refle­xi­vi­dade, como a nossa, pro­tes­tar é uma forma de res­pi­rar e demar­car ter­ri­tó­rio.

Pro­tes­tar anda junto com par­ti­ci­par, e estas são soci­e­da­des emi­nen­te­mente par­ti­ci­pa­ti­vas: todos dese­jam fazer algo, mani­fes­tar pre­fe­rên­cias, dar opi­nião, aju­dar, cir­cu­lar e apa­re­cer.

São soci­e­da­des pouco intros­pec­ti­vas. O espe­tá­culo faz parte dela, que­rendo ou não. O lado “par­ti­ci­pa­tivo” da demo­cra­cia é muito mais forte e sedu­tor do que o lado “repre­sen­ta­tivo”, para o que con­tri­buem bas­tante a má qua­li­dade dos polí­ti­cos e a crise da polí­tica.

Pro­tes­tar é um modo de demons­trar voz e poder numa época em que a polí­tica tem pouco poder e fala mal. Como obser­vou a soció­loga Célia Melhem, é uma demons­tra­ção de voz e poder con­tra todos os pode­res, dos pais, dos mais velhos, dos pro­fes­so­res, dos gover­nan­tes.

 

2 — Protestar é buscar consensos

O poder desen­car­nou, divor­ciou-se da polí­tica e a polí­tica, esva­zi­ada, não tem força para exe­cu­tar polí­ti­cas. O poder saiu da polí­tica para se alo­jar no econô­mico. A eco­no­mia comanda, a polí­tica obe­dece.

A metá­fora da guerra ajuda, mas a polí­tica tam­bém pode ser vista pelo ângulo da busca per­ma­nente de con­sen­sos e enten­di­men­tos.

Para com­pen­sar a perda de poder da polí­tica, os polí­ti­cos põem em ação ritos e arti­ma­nhas para fazer de conta que algo está sendo feito. Os gover­nos gover­nam mal e pouco, mas dizem fazer muito. Gas­tam rios de dinheiro em mar­ke­ting e comu­ni­ca­ção pre­ci­sa­mente por isso.

Gover­nar bem é difí­cil: fazer esco­lhas ade­qua­das, não exa­ge­rar na mani­pu­la­ção da “ver­dade”, dia­lo­gar com o povo, não cor­rom­per nem ser cor­rom­pido, deci­dir em prol da mai­o­ria, agir de modo equi­li­brado, conhe­cer os pró­prios limi­tes, ana­li­sar a real cor­re­la­ção de for­ças, seguir um plano refe­ren­dado pelo voto demo­crá­tico, pro­te­ger os mais fra­cos, res­pei­tar direi­tos, pro­ver segu­rança, igual­dade e jus­tiça.

Tudo isso está além do que podem fazer hoje os gover­nos real­mente exis­ten­tes. Não é só por ruin­dade que os gover­nan­tes geram insa­tis­fa­ção, frus­tra­ção e opo­si­ção.

 

3 — Protestar sempre importa

Por estar ins­ta­lado na cor­rente san­guí­nea das soci­e­da­des de alta refle­xi­vi­dade, todo pro­testo tende a reu­nir mais que “40 gatos pin­ga­dos”. Impos­sí­vel evi­tar. Nenhum deles é mini.

Só não sabe disso quem está fora do mundo ou quem deseja cau­sar, dimi­nuir a força de adver­sá­rios, indis­por a opi­nião pública, foi mor­dido pela soberba e pela arro­gân­cia.

Tam­bém por isso, ficou difí­cil dizer quando um pro­testo é repre­sen­ta­tivo e quando não é.

Eles impor­tam, claro, pelo número de pes­soas que mobi­li­zam (que lhes dão peso, espaço e visi­bi­li­dade) mas tam­bém, e cada vez mais, pelo que deles se fala. Espe­tá­cu­los de alta refle­xi­vi­dade são assim. Não se redu­zem a núme­ros, nem podem ser por eles expli­ca­dos.

 

4 — Protestar é empregar o bom senso

Pro­tes­tos de massa atraem ação poli­cial. Ela é cate­go­ri­ca­mente odi­osa, mas é ine­vi­tá­vel e pre­cisa ser incluída nos cál­cu­los de risco. A pró­pria polí­cia é parte do espe­tá­culo.

Para a demo­cra­cia bra­si­leira, por exem­plo, tão ruim quanto aplau­dir a repres­são das “for­ças da ordem” e ino­cen­tar seus inte­gran­tes é dizer que há uma “esca­lada repres­siva que ame­aça o direito de se mani­fes­tar”, desen­ca­de­ada por gover­nos per­ver­sos ou “gol­pis­tas”, coisa que de fato não existe.

Denun­ciar e se opor à even­tual covar­dia da PM é uma ati­tude indis­pen­sá­vel, mas para fazer isso não é pre­ciso que se monte um cená­rio de hor­ror sem cor­res­pon­dên­cia fac­tual.

A retó­rica bom­bás­tica presta um des­ser­viço à ação mesma de pro­tes­tar: cria ilu­sões, fan­ta­sias inti­mi­da­do­ras e pla­nos equi­vo­ca­dos, mos­trando-se tão somente como peça de estra­té­gias exte­ri­o­res à indig­na­ção dos mani­fes­tan­tes, cata­plas­mas para frus­tra­ções e res­sen­ti­men­tos.

5 — Protestar é uma virtude

Ir às ruas pro­tes­tar é uma vir­tude cívica, um valor inco­men­su­rá­vel, uma con­quista.

Sem pro­tes­tos, a demo­cra­cia não fun­ci­ona nem sequer no plano ritu­a­lís­tico. Eles inte­gram a pai­sa­gem da moder­ni­dade, dei­tam raí­zes pro­fun­das em sua his­tó­ria. Nin­guém sen­sato pode rejeitá-los ou menos­prezá-los.

Por isso mesmo, pro­tes­tos devem ter regras.

Não temos mais padrões supe­ri­o­res de orga­ni­za­ção: os pro­tes­tos são de “movi­men­tos” e pes­soas.

As mas­sas mani­fes­tan­tes de hoje não são pro­pri­a­mente desor­ga­ni­za­das, mas “desor­ga­ni­za­das”: não têm gran­des orga­ni­za­ções por trás, não seguem rotei­ros pré-defi­ni­dos, são acima de tudo per­for­má­ti­cas.

Nelas, cada pedaço faz sua core­o­gra­fia, segue seu roteiro, canta seus hinos. Ainda que fun­ci­o­nem assim, con­se­guem pro­du­zir efei­tos impor­tan­tes, sobre­tudo no plano sim­bó­lico, que conta sem­pre mais.

 

6 — Protestar é defender sua autonomia

Não há pro­tes­tos puros, ingê­nuos ou ino­cen­tes.

Por trás deles se movi­men­tam for­ças que nem sem­pre mos­tram a cara: polí­ti­cos, diri­gen­tes sin­di­cais, ati­vis­tas, artis­tas, cor­ren­tes par­ti­dá­rias, can­di­da­tos, gente que está mais inte­res­sada em apa­re­cer, dis­pu­tar o pro­ta­go­nismo, bagun­çar a agenda e des­gas­tar even­tu­ais adver­sá­rios do que em aju­dar a que se ver­ba­lize uma indig­na­ção autên­tica.

Não quer dizer que tais for­ças con­si­gam impe­dir que a massa avance com auto­no­mia, mas quer dizer que nos bas­ti­do­res sem­pre haverá quem não deseja que isso acon­teça.

O nome disso é ins­tru­men­ta­li­za­ção. Sem­pre haverá pes­soas ingê­nuas para serem mano­bra­das por gente com “segun­das inten­ções”.

A massa, porém, o con­junto dos mani­fes­tan­tes, tem seu ritmo e suas fina­li­da­des. Não é, enquanto tal, objeto pas­sivo de mani­pu­la­ções ou mano­bras. E mesmo “desor­ga­ni­zada” (ou tal­vez até mesmo por isso) tem inte­li­gên­cia polí­tica para defen­der sua auto­no­mia.

 

7 — Protestar é cuidar de si

Pro­tes­tos vigo­ro­sos e autên­ti­cos, com “boas” cau­sas e certa com­pac­ta­ção de deman­das, pre­ci­sam saber cui­dar de si.

Quer dizer, conhe­cer seus ris­cos e admi­nis­trar seus efei­tos cola­te­rais:

  • não fabri­car “nar­ra­ti­vas” maxi­ma­lis­tas;
  • não se entre­gar à poe­sia infla­mada da indig­na­ção;
  • não ofen­der poli­ci­ais;
  • não agre­dir nin­guém;
  • não pro­vo­car nem rea­gir a pro­vo­ca­ções;
  • iso­lar black-blocs e even­tu­ais mani­fes­tan­tes des­com­pen­sa­dos;
  • não que­brar bens públi­cos ou pri­va­dos;
  • saber lidar com as “for­ças da ordem” (sim, elas sem­pre esta­rão lá) e, sobre­tudo;
  • não pre­ju­di­car os cida­dãos que deles não par­ti­ci­pem.

Pro­tes­tos pre­ci­sam ter seus pró­prios esque­mas de segu­rança e sua inte­li­gên­cia.

 

8 — Protestar é seguir alguma ordem

Parar uma cidade inteira para pro­tes­tar con­tra o governo ou para impul­si­o­nar uma greve é um ato que pouco pro­duz de ade­são.

Abrir dis­pu­tas insa­nas com a polí­cia para defi­nir que tra­jeto seguir somente serve para simu­lar que o pro­testo tem líde­res e vozes de comando.

Blo­quear uma ave­nida por horas, inter­rom­per o trá­fego de veí­cu­los, impe­dir o trans­porte público, difi­cul­tar que pes­soas che­guem em casa ou cir­cu­lem como bem enten­der, é tão “anti­po­lí­tico” quanto uma greve sel­va­gem que impeça médi­cos de aten­de­rem os paci­en­tes de um hos­pi­tal, bom­bei­ros de apa­ga­rem incên­dios ou poli­ci­ais de pren­de­rem ladrões.

Mesmo para ser con­tra a ordem é pre­ciso seguir alguma ordem.

Achar que uma “esté­tica” des­truirá o sis­tema é parte da estra­té­gia de repro­du­ção do pró­prio sis­tema. Assim como fra­ses de efeito do tipo “vamos parar e atra­sar tudo o que for pos­sí­vel”. Infer­ni­zar a vida alheia é exa­ta­mente o que deseja a face per­versa do sis­tema.

 

9 — Protestar é essencial, mas com moderação

Pro­tes­tos e mani­fes­ta­ções são essen­ci­ais para a demo­cra­cia. Pre­ci­sam ser defen­di­dos, man­ti­dos, for­ta­le­ci­dos, dis­cu­ti­dos, ana­li­sa­dos, assi­mi­la­dos, res­pei­ta­dos.

Mas pro­tes­tos em excesso, sem cro­no­gra­mas mar­ca­dos pela razo­a­bi­li­dade, ten­dem a se con­ver­ter em rotina e a se buro­cra­ti­zar: tor­nam-se parte da pai­sa­gem e pro­gres­si­va­mente per­dem efeito.

Busca-se usar a cri­a­ti­vi­dade inten­siva para ver se se con­se­gue evi­tar este efeito-pai­sa­gem, que é o pior pesa­delo de quem pro­testa: uma massa gri­tando slo­gans mobi­li­za­do­res e outra massa, imen­sa­mente maior, indi­fe­rente, como se con­tem­plasse um out­door.

Pro­tes­tos em excesso tam­bém são dis­si­pa­do­res de ener­gia: con­so­mem a dis­po­si­ção cívica de pes­soas e estas pode­rão ficar tão exte­nu­a­das que não con­se­gui­rão rea­gir à frus­tra­ção que apa­re­cerá em algum ponto do cami­nho.

 

10 — Protestar não é autoritarismo disfarçado

Por fim, pro­tes­tos são tanto mais pro­du­ti­vos e con­se­quen­tes quanto mais se pau­ta­rem por uma visão crí­tica con­sis­tente da rea­li­dade.

Agi­tar a poeira das ruas para encon­trar um motivo para fazer uma mani­fes­ta­ção não leva a lugar nenhum.

Ampli­fi­car cer­tos dados ine­vi­tá­veis da vida – como, por exem­plo, o auto­ri­ta­rismo dos gover­nan­tes, a dis­si­mu­la­ção dos polí­ti­cos ou a repres­são poli­cial – pode fun­ci­o­nar para gerar a ade­são emo­tiva de muita gente.

Se levada muita longe, porém, tal ampli­fi­ca­ção se con­ver­terá em expe­di­ente que ter­mina por vetar toda e qual­quer diver­gên­cia, impe­dindo a aná­lise serena da situ­a­ção. Vira auto­ri­ta­rismo dis­far­çado.

O con­ven­ci­mento pas­si­o­nal de alguns, somado à nar­ra­tiva jus­ti­fi­ca­tó­ria de outros, tra­vam a dis­cus­são e con­ta­giam o entorno, impul­si­o­nando um efeito bola de neve de grande apelo mobi­li­za­dor.

De repente, se você não é con­tra os gover­nos ou não pro­testa, você passa a ser estig­ma­ti­zado, ter­mi­nando por se sen­tir um peixe fora d’água.


As pes­soas não estão que­rendo esper­near sem cri­té­rio. De modo algum. Elas estão con­ven­ci­das do que pen­sam e se indig­nam de ver­dade.

O pro­blema é que os fatos nem sem­pre aju­dam e mui­tas vezes só dão res­paldo à indig­na­ção quando são mani­pu­la­dos e sele­ci­o­na­dos. O que faz com que tan­tos gri­tos de pro­testo ter­mi­nem por ficar como que para­dos no ar.

Marco Aurélio Nogueira
Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).

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