Basta olhar à sua volta. Para dentro de você mesmo. Ouvir as vozes, ler os sinais. Será fácil constatar que a nossa é uma época de reclamações, descontentamento e indignação. De protestos, individuais ou coletivos, no espaço público e nos espaços privados, nas ruas das grandes cidades e nas praças das pequenas e médias.

Protestar contra tudo, reclamar e contestar opiniões se tornaram formas de viver.

Bom que seja assim. Pomos para fora o que nos incomoda, aquilo que nos desagrada.

Canalizamos parte de nossa energia vital e de nossa libido para detonar os podres poderes, os erros de gestão, as falhas dos sistemas, os governos, as grandes empresas, os bancos e os políticos. É uma espécie de “imposição” do modo de vida, uma compulsão socialmente determinada.

Motivos não faltam. Da economia à sociabilidade, da política à cultura, poucas coisas satisfazem. A felicidade vem a conta-gotas, homeopaticamente. As injustiças escandalizam, a miséria agride, não toleramos os que querem tirar vantagem, a competição, o barulho, a ruindade do futebol…

O capitalismo se fortalece e exibe suas desgraças para todos: explora mais, imprime um ritmo mais frenético à vida, exige muito das pessoas. Infiltra-se camufladamente no cotidiano, nas redes, nos relacionamentos, nas conversas de bar.

A época é de alta reflexividade: tudo reverbera em tudo, as informações se sucedem e se contradizem sem cessar, e somos obrigados a processar mais coisas, embebedando-nos de dados, imagens, mensagens e notícias.

Há muito reflexo e muita reflexão, ainda que esta última quase nunca seja sistemática.

Tamanho é o nosso afã para mostrar insatisfação – sem isso não vivemos – que nem sempre temos tempo para dimensionar os resultados de tanto protesto.

Seriam todos eles produtivos? São parte de um processo de acúmulo progressivo que aponta para uma contestação criadora ou expressão de espasmos cívicos continuados?

Que danos colaterais podem apresentar e como evitá-los? Como se articulam, ou não, com as lutas mais gerais da sociedade, a luta pela vida, pela democracia, pela justiça social e pelo bem-estar de todos?

 

Pensando os protestos dos dias de hoje

 

1 – Protestar é demonstrar voz e poder

Em sociedades democráticas modernas e de alta reflexividade, como a nossa, protestar é uma forma de respirar e demarcar território.

Protestar anda junto com participar, e estas são sociedades eminentemente participativas: todos desejam fazer algo, manifestar preferências, dar opinião, ajudar, circular e aparecer.

São sociedades pouco introspectivas. O espetáculo faz parte dela, querendo ou não. O lado “participativo” da democracia é muito mais forte e sedutor do que o lado “representativo”, para o que contribuem bastante a má qualidade dos políticos e a crise da política.

Protestar é um modo de demonstrar voz e poder numa época em que a política tem pouco poder e fala mal. Como observou a socióloga Célia Melhem, é uma demonstração de voz e poder contra todos os poderes, dos pais, dos mais velhos, dos professores, dos governantes.

 

2 – Protestar é buscar consensos

O poder desencarnou, divorciou-se da política e a política, esvaziada, não tem força para executar políticas. O poder saiu da política para se alojar no econômico. A economia comanda, a política obedece.

A metáfora da guerra ajuda, mas a política também pode ser vista pelo ângulo da busca permanente de consensos e entendimentos.

Para compensar a perda de poder da política, os políticos põem em ação ritos e artimanhas para fazer de conta que algo está sendo feito. Os governos governam mal e pouco, mas dizem fazer muito. Gastam rios de dinheiro em marketing e comunicação precisamente por isso.

Governar bem é difícil: fazer escolhas adequadas, não exagerar na manipulação da “verdade”, dialogar com o povo, não corromper nem ser corrompido, decidir em prol da maioria, agir de modo equilibrado, conhecer os próprios limites, analisar a real correlação de forças, seguir um plano referendado pelo voto democrático, proteger os mais fracos, respeitar direitos, prover segurança, igualdade e justiça.

Tudo isso está além do que podem fazer hoje os governos realmente existentes. Não é só por ruindade que os governantes geram insatisfação, frustração e oposição.

 

3 – Protestar sempre importa

Por estar instalado na corrente sanguínea das sociedades de alta reflexividade, todo protesto tende a reunir mais que “40 gatos pingados”. Impossível evitar. Nenhum deles é mini.

Só não sabe disso quem está fora do mundo ou quem deseja causar, diminuir a força de adversários, indispor a opinião pública, foi mordido pela soberba e pela arrogância.

Também por isso, ficou difícil dizer quando um protesto é representativo e quando não é.

Eles importam, claro, pelo número de pessoas que mobilizam (que lhes dão peso, espaço e visibilidade) mas também, e cada vez mais, pelo que deles se fala. Espetáculos de alta reflexividade são assim. Não se reduzem a números, nem podem ser por eles explicados.

 

4 – Protestar é empregar o bom senso

Protestos de massa atraem ação policial. Ela é categoricamente odiosa, mas é inevitável e precisa ser incluída nos cálculos de risco. A própria polícia é parte do espetáculo.

Para a democracia brasileira, por exemplo, tão ruim quanto aplaudir a repressão das “forças da ordem” e inocentar seus integrantes é dizer que há uma “escalada repressiva que ameaça o direito de se manifestar”, desencadeada por governos perversos ou “golpistas”, coisa que de fato não existe.

Denunciar e se opor à eventual covardia da PM é uma atitude indispensável, mas para fazer isso não é preciso que se monte um cenário de horror sem correspondência factual.

A retórica bombástica presta um desserviço à ação mesma de protestar: cria ilusões, fantasias intimidadoras e planos equivocados, mostrando-se tão somente como peça de estratégias exteriores à indignação dos manifestantes, cataplasmas para frustrações e ressentimentos.

5 – Protestar é uma virtude

Ir às ruas protestar é uma virtude cívica, um valor incomensurável, uma conquista.

Sem protestos, a democracia não funciona nem sequer no plano ritualístico. Eles integram a paisagem da modernidade, deitam raízes profundas em sua história. Ninguém sensato pode rejeitá-los ou menosprezá-los.

Por isso mesmo, protestos devem ter regras.

Não temos mais padrões superiores de organização: os protestos são de “movimentos” e pessoas.

As massas manifestantes de hoje não são propriamente desorganizadas, mas “desorganizadas”: não têm grandes organizações por trás, não seguem roteiros pré-definidos, são acima de tudo performáticas.

Nelas, cada pedaço faz sua coreografia, segue seu roteiro, canta seus hinos. Ainda que funcionem assim, conseguem produzir efeitos importantes, sobretudo no plano simbólico, que conta sempre mais.

 

6 – Protestar é defender sua autonomia

Não há protestos puros, ingênuos ou inocentes.

Por trás deles se movimentam forças que nem sempre mostram a cara: políticos, dirigentes sindicais, ativistas, artistas, correntes partidárias, candidatos, gente que está mais interessada em aparecer, disputar o protagonismo, bagunçar a agenda e desgastar eventuais adversários do que em ajudar a que se verbalize uma indignação autêntica.

Não quer dizer que tais forças consigam impedir que a massa avance com autonomia, mas quer dizer que nos bastidores sempre haverá quem não deseja que isso aconteça.

O nome disso é instrumentalização. Sempre haverá pessoas ingênuas para serem manobradas por gente com “segundas intenções”.

A massa, porém, o conjunto dos manifestantes, tem seu ritmo e suas finalidades. Não é, enquanto tal, objeto passivo de manipulações ou manobras. E mesmo “desorganizada” (ou talvez até mesmo por isso) tem inteligência política para defender sua autonomia.

 

7 – Protestar é cuidar de si

Protestos vigorosos e autênticos, com “boas” causas e certa compactação de demandas, precisam saber cuidar de si.

Quer dizer, conhecer seus riscos e administrar seus efeitos colaterais:

  • não fabricar “narrativas” maximalistas;
  • não se entregar à poesia inflamada da indignação;
  • não ofender policiais;
  • não agredir ninguém;
  • não provocar nem reagir a provocações;
  • isolar black-blocs e eventuais manifestantes descompensados;
  • não quebrar bens públicos ou privados;
  • saber lidar com as “forças da ordem” (sim, elas sempre estarão lá) e, sobretudo;
  • não prejudicar os cidadãos que deles não participem.

Protestos precisam ter seus próprios esquemas de segurança e sua inteligência.

 

8 – Protestar é seguir alguma ordem

Parar uma cidade inteira para protestar contra o governo ou para impulsionar uma greve é um ato que pouco produz de adesão.

Abrir disputas insanas com a polícia para definir que trajeto seguir somente serve para simular que o protesto tem líderes e vozes de comando.

Bloquear uma avenida por horas, interromper o tráfego de veículos, impedir o transporte público, dificultar que pessoas cheguem em casa ou circulem como bem entender, é tão “antipolítico” quanto uma greve selvagem que impeça médicos de atenderem os pacientes de um hospital, bombeiros de apagarem incêndios ou policiais de prenderem ladrões.

Mesmo para ser contra a ordem é preciso seguir alguma ordem.

Achar que uma “estética” destruirá o sistema é parte da estratégia de reprodução do próprio sistema. Assim como frases de efeito do tipo “vamos parar e atrasar tudo o que for possível”. Infernizar a vida alheia é exatamente o que deseja a face perversa do sistema.

 

9 – Protestar é essencial, mas com moderação

Protestos e manifestações são essenciais para a democracia. Precisam ser defendidos, mantidos, fortalecidos, discutidos, analisados, assimilados, respeitados.

Mas protestos em excesso, sem cronogramas marcados pela razoabilidade, tendem a se converter em rotina e a se burocratizar: tornam-se parte da paisagem e progressivamente perdem efeito.

Busca-se usar a criatividade intensiva para ver se se consegue evitar este efeito-paisagem, que é o pior pesadelo de quem protesta: uma massa gritando slogans mobilizadores e outra massa, imensamente maior, indiferente, como se contemplasse um outdoor.

Protestos em excesso também são dissipadores de energia: consomem a disposição cívica de pessoas e estas poderão ficar tão extenuadas que não conseguirão reagir à frustração que aparecerá em algum ponto do caminho.

 

10 – Protestar não é autoritarismo disfarçado

Por fim, protestos são tanto mais produtivos e consequentes quanto mais se pautarem por uma visão crítica consistente da realidade.

Agitar a poeira das ruas para encontrar um motivo para fazer uma manifestação não leva a lugar nenhum.

Amplificar certos dados inevitáveis da vida – como, por exemplo, o autoritarismo dos governantes, a dissimulação dos políticos ou a repressão policial – pode funcionar para gerar a adesão emotiva de muita gente.

Se levada muita longe, porém, tal amplificação se converterá em expediente que termina por vetar toda e qualquer divergência, impedindo a análise serena da situação. Vira autoritarismo disfarçado.

O convencimento passional de alguns, somado à narrativa justificatória de outros, travam a discussão e contagiam o entorno, impulsionando um efeito bola de neve de grande apelo mobilizador.

De repente, se você não é contra os governos ou não protesta, você passa a ser estigmatizado, terminando por se sentir um peixe fora d’água.


As pessoas não estão querendo espernear sem critério. De modo algum. Elas estão convencidas do que pensam e se indignam de verdade.

O problema é que os fatos nem sempre ajudam e muitas vezes só dão respaldo à indignação quando são manipulados e selecionados. O que faz com que tantos gritos de protesto terminem por ficar como que parados no ar.

escrito por:

Marco Aurélio Nogueira

Duvidar sempre. Desistir jamais. Cientista político por profissão e por paixão. A política liberta, mas também pode ser uma prisão. Democrata e gramsciano por convicção, socialista por derivação. Corintiano de raiz. Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos e Análises Internacionais-NEAI da UNESP. Seu livro mais recente é As Ruas e a Democracia. Ensaios sobre o Brasil contemporâneo (Contraponto/FAP, 2013).


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