Tradução de Rodrigo Zottis do texto original em inglês publicado em The New York Times, de Mark Lilla. Revisão de Alysson Augusto.


É verdade que os Estados Unidos tornaram-se um país diversificado. É algo bonito de assistir. Visitantes de outros países, particularmente aqueles que têm dificuldade em aceitar diferentes grupos étnicos e religiosos, ficam maravilhados com o fato de conseguirmos fazer isso. Não perfeitamente, é claro, mas certamente melhor do que qualquer nação europeia ou asiática hoje. É uma história de sucesso extraordinária.

Mas como essa diversidade deve moldar nossa política? A resposta progressista padrão, por quase uma geração, foi que devemos tomar consciência e “celebrar” nossas diferenças. Que é um princípio esplêndido por parte da pedagogia moral — mas desastroso como fundamento para a política democrática em nossa era ideológica.

Nos últimos anos, o progressismo americano entrou numa espécie de pânico moral sobre a identidade racial, de gênero e sexual, que distorceu a mensagem do progressismo e impediu que ela se tornasse uma força unificadora capaz de governar.

Uma das muitas lições da recente campanha eleitoral presidencial e seu resultado repugnante, é que a era do progressismo talvez tenha chegado ao fim.

Hillary Clinton assumiu uma ótima postura quando falou sobre os interesses americanos nos assuntos mundiais e como eles se relacionam com a nossa compreensão da democracia. Mas, logo adiante, ela mudou de tom em uma campanha presidencial que perdeu essa visão ampla e escorregou na retórica da diversidade, dirigindo seu discurso explicitamente para afro-americanos, latinos, L.G.B.Ts e seu eleitorado feminino.

Este foi um erro estratégico.

Se você for mencionar grupos nos EUA, é melhor mencionar todos eles. Se você não fizer isso, aqueles que ficaram de fora se sentirão excluídos. O que, como mostram os dados, foi exatamente o que aconteceu com a classe operária branca e com aqueles com fortes convicções religiosas. Dois terços dos eleitores brancos sem diplomas universitários votaram em Donald Trump, assim como mais de 80% dos evangélicos brancos.

A energia moral que circunda a identidade, naturalmente, teve bons efeitos. Diversas ações melhoraram a vida corporativa. A Black Lives Matter despertou a consciência de cada americano. Os esforços de Hollywood para normalizar a homossexualidade em nossa cultura popular ajudaram a normalizá-la nas famílias americanas e na vida pública.

Mas a fixação da diversidade em escolas e na imprensa produziu uma geração de esquerdistas e progressistas narcisisticamente inconscientes de condições fora de seus grupos autodefinidos, e indiferentes à tarefa de dialogar com outros americanos, mesmo quando amadurecem.

Em uma idade muito jovem, alunos estão sendo incentivados a falar sobre suas identidades individuais, mesmo antes de tê-las. Quando chegam à faculdade, muitos assumem que o discurso da diversidade esgota o discurso político, e assim têm pouco a dizer sobre questões tão perenes como a classe política, a guerra, a economia e o bem comum. Em grande parte, isso se deve aos currículos de história da escola secundária, que anacronicamente projetam a política de identidade de hoje de volta ao passado, criando uma imagem distorcida das principais forças e indivíduos que moldaram nosso país.

(As conquistas dos movimentos de direitos das mulheres, por exemplo, foram reais e importantes, mas você não pode compreendê-las se você não entender primeiro a conquista dos Founding Fathers no estabelecimento de um sistema de governo baseado na garantia de direitos).

Quando os jovens chegam à faculdade, eles são encorajados a manter o foco em si mesmos, sejam por grupos de estudantes, membros do corpo docente e também administradores cujo trabalho em tempo integral é lidar com — e aumentar o significado de — “questões de diversidade”.

A Fox News e outros meios de comunicação conservadores ganham audiência zombando da “loucura no campus” que rodeia essas questões, bem mais frequentemente do que deveriam. Isso só joga nas mãos de demagogos populistas que querem deslegitimar a aprendizagem aos olhos daqueles que nunca puseram o pé em um campus. Como explicar ao eleitor médio a suposta urgência moral de dar aos estudantes universitários o direito de escolher os pronomes de gênero designados a serem usados?

Essa consciência de diversidade de campus ao longo dos anos foi em direção à mídia progressista, e não sutilmente. A ação afirmativa para mulheres e minorias em jornais e em emissoras da América foi uma realização social extraordinária — e mudou mesmo, literalmente, a cara dos meios de comunicação de direita, porque os jornalistas como Megyn Kelly e Laura Ingraham ganharam proeminência. Mas também parece ter encorajado a suposição, especialmente entre os jornalistas e editores mais jovens, de que simplesmente, por se concentrar na identidade desses públicos, eles fizeram todo seu trabalho.

Recentemente eu fiz um pequeno experimento na França: durante um ano inteiro li apenas publicações europeias, não americanas. Meu pensamento era tentar ver o mundo como os leitores europeus fizeram. Mas foi muito mais instrutivo retornar para casa e perceber como a lente da identidade transformou o relatório americano nos últimos anos.

Quantas vezes, por exemplo, a história mais preguiçosa do jornalismo americano — sobre o “primeiro X a fazer Y” — é contada e recontada. A fascinação com o drama de identidade afetou até mesmo a reportagem estrangeira, que está em oferta angustiantemente curta. Por mais interessante que seja ler, digamos, sobre o destino dos transgêneros no Egito, não contribui nada para educar os americanos sobre as poderosas correntes políticas e religiosas que determinarão o futuro do Egito e, indiretamente, o nosso. Nenhuma grande fonte de notícias na Europa pensaria em adotar tal enfoque.

Mas é no nível da política eleitoral que o progressismo de identidade fracassou mais espetacularmente, como acabamos de ver. A política nacional em períodos saudáveis não é sobre “diferença”, trata-se de comunhão. E será dominada por quem melhor capturar a imaginação dos americanos sobre nosso destino compartilhado.

Ronald Reagan fez isso de maneira muito hábil, seja o que se pense popularmente sobre sua visão. Bill Clinton tirou uma página do livro de afazeres de Reagan. Ele retirou o Partido Democrata de sua ala de identidade, concentrou suas energias em programas domésticos que beneficiariam a todos (como o seguro de saúde nacional) e definiu o papel da América no mundo pós-1989. Ao permanecer no cargo por dois mandatos, ele foi capaz de realizar muito para diferentes grupos na coalizão Democrática. A política de identidade, em contraste, é em grande parte expressiva, não persuasiva. É por isso que nunca ganha eleições — mas pode perdê-las.

O recém-descoberto interesse da mídia, quase antropológico, no homem branco irritado revela tanto sobre o estado de nosso progressismo quanto sobre essa figura tão maligna e ignorada anteriormente.

Uma conveniente interpretação progressista da recente eleição presidencial diria que Trump ganhou em grande parte porque ele conseguiu transformar desvantagem econômica em ódio racial — a tese de “whitelash” (“reação branca”). Isto é conveniente porque sanciona uma condenação de superioridade moral e permite que os progressistas ignorem o que os eleitores disseram que eram suas preocupações primordiais.

Além disso, incentiva a fantasia de que a direita republicana está condenada à extinção demográfica no longo prazo — o que significa que os liberais só precisam esperar o país cair em seus colos. A surpreendentemente elevada percentagem de votos latinos que Donald Trump teve deve nos lembrar que, quanto mais tempo os grupos étnicos passam neste país, mais tornam-se politicamente diversos.

Finalmente, a tese de whitelash é conveniente porque absolve os progressistas de reconhecerem o quanto sua própria obsessão com a diversidade tem incentivado americanos brancos religiosos e do meio rural a pensarem em si como um grupo em desvantagem, cuja identidade está sendo ameaçada ou ignorada.

Tais pessoas não estão reagindo contra a diversidade americana (elas tendem, afinal, a viverem em áreas homogêneas do país). Mas estão reagindo contra a retórica onipresente da identidade, que é o que eles querem dizer com “politicamente correto”. Os progressistas devem ter em mente que o primeiro movimento de identidade na política americana foi a Ku Klux Klan, que ainda existe. Aqueles que jogam o jogo de identidade devem estar preparados para perdê-lo.

Precisamos de um progressismo pós-identidade, e ele deve extrair dos sucessos passados do progressismo pré-identidade. Tal progressismo se concentraria em alargar a sua base apelando para os americanos como americanos e enfatizando as questões que afetam a grande maioria deles. Ele falaria para a nação como uma nação de cidadãos que estão nisto juntos e devem ajudar uns aos outros.

Quanto a questões mais restritas que são carregadas simbolicamente e podem afastar aliados potenciais, especialmente aqueles que tocam no assunto da sexualidade e a religião, tal progressismo funcionaria calmamente, sensivelmente e com um senso apropriado de escala. (Parafraseando Bernie Sanders, “a América está cansada de ouvir sobre os malditos banheiros progressistas.”)

Os professores comprometidos com tal progressismo reorientariam a atenção para a sua principal responsabilidade política em uma democracia: formar cidadãos comprometidos conscientes de seu sistema de governo e das principais forças e eventos em nossa história.

Um progressismo pós-identidade também enfatizaria que a democracia não é apenas sobre direitos; confere também deveres a seus cidadãos, tais como deveres manter-se informado e votar.

Uma imprensa progressista pós-identidade começaria a se educar sobre partes do país que foram ignoradas, e sobre o que importa lá, especialmente a religião. E levaria a sério a responsabilidade de educar os americanos sobre as principais forças que moldam a política mundial, especialmente sua dimensão histórica.

Alguns anos atrás, fui convidado para uma convenção sindical na Flórida para palestrar sobre o famoso discurso de Franklin D. Roosevelt de 1941, acerca das “quatro liberdades”. A sala estava cheia de representantes locais — homens, mulheres, negros, brancos e latinos. Começamos cantando o hino nacional, e depois sentamos para ouvir uma gravação do discurso de Roosevelt.

Quando olhei para a multidão e vi uma variedade de diferentes rostos, fiquei impressionado com o quão concentrados eles estavam. E ouvindo a voz agitada de Roosevelt enquanto invocava a liberdade de expressão, a liberdade de culto, a liberdade da carência e a liberdade do medo — liberdades que Roosevelt demandava a “todos no mundo” — fui lembrado de quais são os verdadeiros fundamentos do progressismo americano moderno.


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