7 dias após receber a notícia de que ganhara o prêmio Nobel, Mario Vargas Llosa compareceu a uma conferência no Fronteiras do Pensamento, edição 2010, em Porto Alegre. Dentro de dois meses, deveria comparecer a cerimônia de premiação em Estolcomo, Suécia.

Ele poderia ter cancelado o compromisso na capital gaúcha, como muitos conferencistas já haviam cancelado antes, apresentando alguma justificativa plausível. Afinal, não é todo o dia que se ganha o Nobel. E, afinal, Porto Alegre é uma cidade quase provinciana, pouco atrativa para quem tinha de rapidamente preparar um discurso para a cerimônia de recebimento do maior prêmio mundial da literatura, acompanhada do depósito de 10 milhões de coroas suecas na sua conta bancária (US$ 1,4 milhão de dólares ou 1,1 milhão de euros).

Vargas Llosa no Fronteiras do Pensamento 2010
Vargas Llosa no Fronteiras do Pensamento 2010

O escritor, porém, cumpriu seu compromisso com rigor, atendendo cordialmente os fãs que, como eu, ficaram em uma longa fila para colher seu autógrafo ao final da conferência. Mario Vargas Llosa, como um bom aluno, aprendeu que devemos comparecer e dizer “presente” quando a vida faz a chamada.

E o tema de sua conferência tem muito a ver com educação, e com dois fatos que ocorreram semana passada no Brasil.

 

Os dois fatos reveladores

 

O primeiro fato: na terça 28 de abril de 2015, um grupo de alunos destruiu a escola municipal em que estudavam, na cidade de Valparaíso/Goiás. Eles queriam a destituição da diretora, considerada muito rígida por simplesmente ter proibido que os alunos saíssem mais cedo das aulas. Uma ex-professora da instituição de ensino, prestando anonimamente seu testemunho à imprensa, afirmou que há tempos os professores já tinham se tornado reféns dos alunos.

O segundo fato: no dia seguinte, quarta, professores paranaenses que protestavam em Curitiba contra alterações no seu sistema de previdência foram brutalmente agredidos por policiais militares. A PM tratou os professores com balas de borracha e cacetete, atirando  bombas de gás mesmo quando os manifestantes estavam recuando. Mais de 200 pessoas ficaram feridas, algumas gravemente.

As imagens falam por si:

002 003 005 CURITIBA, PR, 29.04.2015: PROFESSORES-PR - Professores e manifes 007 009 010

Os policiais militares não pareciam constrangidos ao agredir professores que lutavam por um sistema previdenciário que lhes assegurasse uma aposentadoria decente. Não mostraram qualquer receio em usar de violência contra os colegas daqueles mesmos professores que, na sua infância, cuidaram de sua educação.

E isso simplesmente porque tais policiais, assim como a maioria dos brasileiros, não receberam nenhuma, rigorosamente educação durante a sua infância. São o produto mais escancarado de uma sociedade primitiva, que prestigia as demonstrações vulgares de brutalidade estatal e favorece uma classe política e empresarial corruptas.

Eles não receberam educação nenhuma na infância, mas isso não é culpa de seus professores. De quem, então, é a responsabilidade?

 

A perda da auctoritas

 

Podemos atribuir esses dois fatos a vários eventos circunstanciais. Podemos, por exemplo, atribuir a responsabilidade do segundo fato ao governador do Estado do Paraná ou à truculência da PM. Podemos afirmar que a causa da depredação da escola municipal de Valparaíso é o sucateamento da educação pública.

Mas a verdade é que os professores têm levado uma surra durante todos os dias letivos há décadas, e ninguém percebeu. Foi preciso a truculência dos policiais paranaenses e o vandalismo dos alunos goianos para que o óbvio ficasse escancarado: ser professor, hoje em dia, é apanhar na cara todo o dia.

Pois apesar daqueles fatores circunstanciais, existe uma causa original, um fator principal, que explica a falência de toda a sociedade brasileira – na verdade, a causa de toda a crise de valores da sociedade ocidental. E ela foi exposta por Mario Vargas Llosa na sua conferência em Porto Alegre.

O seu tema foi a cultura contemporânea. E, como um típico conservador, Vargas Llosa apresentou um discurso que parece às vezes retrógrado (e que eu rejeitei na época, admito), mas que começa a fazer muito sentido diante dos fatos do mundo real.

Após abordar vários aspectos da cultura, ele admitiu estar particularmente preocupado com a educação, pois as escolas atuais deixaram de ser instituições que formam o caráter dos futuros cidadãos para tornarem-se pontos de concentração de delinquentes precoces. A causa da deterioração de nosso sistema educacional decorreria de uma crise fundamental que se instaurou no pensamento moderno: a partir da metade do século XX, os professores deixaram de ser vistos como autoridades, e passaram a receber a desprestigiosa posição de representantes de um poder que deveria ser contestado e destituído.

maio1968
Protestos de maio de 1968: “pra que estamos aqui mesmo?”

Para Vargas Llosa, tudo começou na França, durante os protestos de maio de 1968, quando adolescentes oriundos da burguesia francesa, envergonhados com sua própria origem enriquecida e arrogando-se a posição de salvadores dos oprimidos, protagonizaram um divertido carnaval. Os manifestantes, sem muita noção do exato motivo pelo qual protestavam, saíram as ruas entoando o lema “é proibido proibir”, manipulados por pensadores como Jacques Derrida e Michel Foucault, que conferiram legitimidade e glamour à ideia de que toda autoridade é suspeita e perniciosa, e que o mais nobre é destruí-la.

Como os manifestantes eram sua maioria universitários, sua ira destruidora voltou-se contra a primeira forma de autoridade que conheceram diretamente: os professores. A partir de então, e também devido a outros interesses, os professores foram destituídos de sua posição de autoridade no sentido da palavra romana auctoritas: uma posição de prestígio e de crédito decorrente de seu saber.

Mas a verdade é que Vargas Llosa, cordial e diplomático, foi suave em sua crítica. Podemos ir mais longe.

 

O temor reverencial aos professores

 

Embora eu goste de pensar em mim como um progressista em vários aspectos do comportamento social, um combatente da homofobia, do machismo e de todas as formas de preconceito racial ou sexual, a experiência de 40 anos e a observação dos fatos da vida revelou que alguns valores defendidos pelos conservadores e questionados pelo progressismo mais carnavalesco devem sim, ser mantidos e (quando perdidos) restaurados. Os conservadores são, em uma sociedade, tão importante quanto os progressistas – e conservador não é sinônimo de reacionário assim como progressista não é sinônimo de vale-tudo, pois esses grupos não podem ser confundidos com seus espectros mais radicais.

Dentre os valores que precisam ser recuperados, está o da imposição às crianças de um antigo conceito denominado temor reverencial pelos adultos detentores de autoridade na sua formação moral e cultural. E a contrapartida disso é que pais e professores aprendam a ter legitimidade no exercício de sua autoridade. Em outras palavras, precisamos recuperar, enquanto sociedade, não só um sistema em que as crianças tenham temor reverencial por seus pais e professores, mas também que esses pais e professores se façam respeitar pelo exemplo que dão, pelo conhecimento que possuem.

Os professores foram, por séculos, a primeira instância fora do núcleo familiar e já no âmbito público em que se estabelecia, para a criança, a vivência do medo e do respeito, da ordem e da disciplina. Eles detinham a auctoritas. Houve abusos, mas os abusos cometidos deveriam ter servido apenas para o aprimoramento desse sistema, e não para a sua desconstrução, tal como foi feito no século vinte.

Sendo os professores privados de seu status de efetiva autoridade pública, temos como resultado não apenas a deterioração de seu nível de renda, não apenas sua transformação em meros funcionários públicos ou privados mal remunerados. Temos a formação de gerações e gerações de cretinos fundamentais, com o fim prematuro de qualquer projeto de construção de uma sociedade civilizada.

Desconstruindo a autoridade, para não colocar nada no seu lugar.
Desconstruindo a autoridade, para não colocar nada no seu lugar.

Isso pode soar como uma defesa do patriarcado. Mas a verdade é que seja matriarcado ou patriarcado, uma coisa é certa: quando criança precisamos ter medo de alguém, precisamos aprender a respeitar e temer alguém. E por que? Porque apesar do conto-de-fadas colorido que alguns nos vendem (seja por ingenuidade, seja com o intuito de nos manipular), a natureza humana não é essencialmente boa, a natureza humana não se expande como uma única e preciosa estrela se deixada livre no seu desenvolvimento. Somos animais, e animais com uma propensão para a crueldade e a violência. Precisamos na infância e adolescência introjetar certos mecanismos contentores, que detenham a nossa natureza agressiva e hostil e que estimulem as nossas tímidas propensões para a ordem e o pacifismo.

Se a criança não vivencia essa instância de temor reverencial, essa experiência do medo que inspira disciplina e respeito, futuramente o próprio mundo real, de uma forma descontrolada e muito mais traumática, se incumbirá de propiciar as devidas lições ao adulto subeducado. O professor atua motivado pelo bem estar da própria criança, já o mundo real não tem dessas preocupações – no mundo real, pagamos caro pelas lições que aprendemos tardiamente.

Esse sistema que conferia efetiva autoridade ao professor e que julgava legítimo incutir nas crianças e jovens o temor reverencial pelos adultos foi desconstruído por dois principais fatores.

 

O progressismo ingênuo e a sociedade consumista

 

O primeiro partiu de um conjunto de  teorias filosóficas e psicológicas que se tornaram populares a partir da década de 60 do século XX. Em resumo, segundo essas concepções progressistas, as instituições não formam e aprimoram os indivíduos, mas sim os oprimem através de condicionamentos negativos. A autoridade, o poder institucionalizado, seriam males desnecessários, estruturas repressoras que serviriam apenas para legitimar a posição dos poderosos, daqueles beneficiados por um sistema patriarcal injusto. Dessa forma, segundo essas doutrinas progressistas, bastaria eliminar a repressão exercida pelas instituições, abolir os condicionamentos que oprimem o indivíduo para que esse manifestasse no mundo sua natureza plena e luminosa. E, claro, como os professores representam a primeira instância fora do núcleo familiar, eles são os primeiros a serem desautorizados.


Mas o problema, como já vimos, é que nenhuma teoria é capaz de dobrar os fatos e torná-los aquilo que não são. E o fato é que o ser humano é potencialmente muito mais um animal violento e cruel do que um anjo vocacionado para a paz e a concórdia. De qualquer modo, essas doutrinas foram muito populares durante as últimas cinco décadas, inclusive até entre muitos professores.

Professor de ontem: uma autoridade.
Professor de ontem: uma autoridade.

O segundo fator é a própria lógica da economia de mercado. E aqui faço a ressalva de que não se trata de questionar a economia de mercado em si mesma (não há nenhum julgamento de mérito de esquerda ou direita), mas sim em questionar até que ponto permitimos que a sua lógica influencie e determine todos os aspectos da vida humana, sacrificando nossos princípios em prol de uma lógica algorítimica. Em uma sociedade integralmente voltada para o consumo, não interessa a formação de indivíduos que aprendam a pensar, mas sim de consumidores prontos para obter renda e, em seguida, comprar.

Professor de hoje: um funcionário público ou privado.
Professor de hoje: um funcionário a serviço dos pais dos alunos ou do Estado.

O que importa, nessa lógica, é que os jovens sejam adestrados para o mercado de trabalho – daí que hoje em dia as escolas são linhas de produção que gradativamente preparam os alunos para os exames de ingresso na faculdade (vestibular, ENEM, etc.). Criou-se uma linha de produção na qual a única função do professor é repassar um conhecimento formatado que terá futuramente utilidade direta ou indireta para a formação de um profissional. Não se espera que o professor transforme aos poucos uma criança em um cidadão, não se espera que incuta nela, através do temor reverencial, a noção da disciplina, a capacidade de resistir a frustração, a habilidade de enfrentar situações de crise e até ambientes hostis (e nesse sentido algumas escolas experimentais modernas pecam pela excessiva frouxidão). Tampouco se espera que o professor desperte na criança interesse pelo mundo, curiosidade e pensamento crítico. O que se espera é que ele a prepare para ingressar em alguma faculdade.

Isso tudo caiu muito bem no Brasil. País frouxo em seus costumes, em que a cordialidade esconde a preguiça de observar os rigores e regras do comportamento civilizado, foi muito fácil privar os professores de seu status de autoridade. Aqui, esses dois fatores privaram os professores do necessário status simbólico que deveriam possuir, como símbolo primeiro da autoritas, e coloraram-nos numa posição de pouco prestígio, quase servil, em nossa sociedade. De autoridades, passaram a ser “meros” funcionários públicos mal remunerados, sujeitos a levar cacetada de policiais militares que nunca receberam qualquer educação real – ou então se transformaram em simples funcionários de instituições privadas, sujeitos ao capricho de crianças mimadas e de pais que os enxergam como reles empregados suscetíveis de demissão.

escrito por:

Victor Lisboa

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