Tudo o que você queria saber sobre procrastinação

Tudo o que você queria saber sobre procrastinação

Em Comportamento, O MELHOR DO AZ, Série Procrastinação por Mark MansonComentários

Tenho alguma coisa impor­tante para dizer a você. Uma coisa real­mente impor­tante. Quero dizer algo impor­tante a ponto de trans­for­mar-sua-vida, mudar-seus-para­dig­mas, trans­cen­der-esse-plano-de-rea­li­dade, fazer-você-se-uri­nar-e-cha­mar-sua-mãe.

Mas não estou muito a fim de escre­ver sobre isso agora. Então vamos assis­tir a um vídeo de um cara levan­tando uns hal­te­res:

Hummmm, de repente fiquei moti­vado. OK, vamos lá! É irô­nico, mas faz dois dias que estou pro­cras­ti­nando para escre­ver um post sobre pro­cras­ti­na­ção. Fiz de tudo. Fiquei dis­traído com o meu outro e menos impor­tante tra­ba­lho. Fiz uns “inter­va­los” que dura­ram cerca de três horas a mais do que deve­riam. Fiz aquela coisa de sen­tar na frente do Face­book e então fechar a janela, abrir uma nova, e ins­tin­ti­va­mente vol­tar ao Face­book de novo.

Se eu tivesse de fazer um grá­fico do pro­cesso da minha pró­pria pro­cras­ti­na­ção, fica­ria pare­cido com isso:proc-manso001A barra ver­me­lha inclui todos os sen­ti­men­tos nega­ti­vos asso­ci­a­dos com mexer minha bunda gorda e fazer alguma coisa pro­du­tiva. Coi­sas como falta de sono, fatiga men­tal, per­der o foco por causa de alguns pro­ble­mas pes­so­ais, a incer­teza per­sis­tente sobre se vou escre­ver um artigo bom ou não, a inse­gu­rança sobre se as pes­soas irão detes­tar o que escrevi, se me xin­ga­rão e farão comen­tá­rios ofen­si­vos sobre minha mãe, etc.

A barra verde inclui todos os sen­ti­men­tos posi­ti­vos asso­ci­a­dos com escre­ver este artigo. Sen­ti­men­tos como o pra­zer da cri­a­ti­vi­dade, o alí­vio de saber que foi feito, as risa­das que darei ao escre­ver pia­das ine­vi­tá­veis sobre cocô, saber que aju­da­rei as pes­soas, o sim­ples pra­zer de escre­ver e por aí vai.

Como você pode ver, a barra ver­me­lha — asso­ci­ada a sen­ti­men­tos nega­ti­vos — é mais ele­vada do que a barra verde — asso­ci­ada a sen­ti­men­tos posi­ti­vos. Por­tanto, eu não escrevo coisa nenhuma. Eu sento diante do You­tube, depois vou para o Face­book, depois tiro um cochilo, depois passo muito mais tempo do que gos­ta­ria de admi­tir ten­tando des­co­brir como fazer um grá­fico de bar­ras com smi­leys [1].

A ao invés de escre­ver aquele artigo de mudar-vidas, molhar-as-cal­ças, cha­mar-a-mamãe e ter-uma-epi­fa­nia-espi­ri­tual que pro­meti, eu sento aqui, ana­li­zando minha pró­pria pre­guiça.

Mas isso é ser humano.

O modelo acima é bem sim­ples mas essen­ci­al­mente explica por­que nós fre­quen­te­mente não faze­mos as coi­sas que deve­mos. Aquele aumento de salá­rio que você nunca pede. Aquela pes­soa atra­ente que você nunca con­vida para sair. Aquela cha­mada para sua mãe que você sem­pre esquece de fazer. O artigo que você nem se inco­moda de escre­ver. Os sen­ti­men­tos desa­gra­dá­veis supe­ram os agra­dá­veis, e então nós evi­ta­mos o desa­gra­dá­vel, mesmo se isso torna nos­sas vidas pio­res.

E de regra não é senão até as última hora, até a noite de vés­pera, até alguém gri­tar com você ou até a ame­aça da mais com­pleta e pro­funda der­rota estar arfando no seu can­gote que o jogo final­mente muda, a pres­são torna-se exces­siva e os sen­ti­men­tos posi­ti­vos asso­ci­a­dos em fazer o que pre­cisa ser feito supe­ram os sen­ti­men­tos nega­ti­vos. Torna-se então mais dolo­roso não fazer alguma coisa do que fazer, e é quando a tarefa final­mente é cum­prida.

SUAS FORMAS TÍPICAS DE SUPERAR A FRUSTRAÇÃO

Há algu­mas estra­té­gias que “enga­nam” seu cére­bro para que faça algo que ele real­mente não quer fazer [2].

Uma delas é cri­ando o que por vezes é cha­mado de “ambi­ente de ine­vi­ta­bi­li­dade”. Basi­ca­mente o que isso sig­ni­fica é que você cria um ambi­ente onde é mais difí­cil não fazer algo do que fazer.

Por exem­plo, se você quer per­der peso, você pode con­tra­tar com um per­so­nal trai­ner um total de mil e qui­nhen­tos reais de aulas e agendá-las para os pró­xi­mos meses. Pagar mil e qui­nhen­tos reais e não ir às aulas vai supe­rar a dor de se levan­tar e ir à aca­de­mia.

Eu basi­ca­mente fiz a facul­dade me for­çando a ir à bibli­o­teca todos os dias. Eu des­co­bri que quando estava lá, ine­vi­ta­vel­mente aca­ba­ria estu­dando. Se eu fosse para casa, eu iria vadiar a semana inteira.

Outra estra­té­gia comum para ven­cer a pro­cras­ti­na­ção é o que chamo de “Prin­cí­pio do Faça Alguma Coisa”. O Prin­cí­pio do Faça Alguma Coisa basi­ca­mente diz que se você quer fazer alguma coisa — qual­quer coisa — então você deve come­çar pelo com­po­nente mais sim­ples da tarefa.

Eu estava pro­cras­ti­nando para escre­ver este artigo, então sim­ples­mente disse a mim mesmo para criar um docu­mento e escre­ver a pri­meira frase. Estra­nha­mente, uma vez que você se con­vence a escre­ver a pri­meira frase, as pró­xi­mas 40 são bem mais fáceis.

O mesmo ocorre com o exem­plo da aca­de­mia. Ape­nas diga a você mesmo para colo­car as rou­pas da aca­de­mia. Isso é fácil. Então quando esti­ver ves­tido, você vai se sen­tir um idi­ota se não for trei­nar. E daí você vai trei­nar.

O Prin­cí­pio do Faça Alguma Coisa tira van­ta­gem do fato de que a ação é tanto a causa da moti­va­ção como o efeito da moti­va­ção. E uma vez que você pra­tica aquele pequeno e sim­ples ato, há algo que ocorre den­tro de você e torna todo o resto mais fácil.

Mas se por um lado essas estra­té­gias são atra­en­tes e fazem você que­rer aca­ri­ciar seus mami­los com man­teiga de cacau, por outro elas não afe­tam a raiz do pro­blema da pro­cras­ti­na­ção.

Por isso, não comece a aca­ri­ciar seus mami­los ainda, seus pro­ble­mas com a pro­cras­ti­na­ção ainda não foram resol­vi­dos.

Essas são solu­ções band-aids. Elas te levam até o dia seguinte, mas não resol­vem uma vida inteira de inér­cia.

Por­que se você é como a mai­o­ria das pes­soas, você expe­ri­men­tará a pro­cras­ti­na­ção incon­tá­veis vezes. É inter­mi­ná­vel. E isso ocorre por­que há uma ques­tão mais pro­funda no sub­ter­râ­neo de toda essa his­tó­ria.

A CAUSA ORIGINAL DA PROCRASTINAÇÃO

Então aqui está o que importa. Quando tem uma coisa boba e sim­ples como levar o lixo pra fora, todos nós sabe­mos por­que pro­cras­ti­na­mos. Lixo é uma bosta. Cheira mal. É desa­gra­dá­vel pegar o saco de lixo e levar até a cal­çada. Nós somos pre­gui­ço­sos. É assim que fun­ci­ona.

proc-manso002Em geral, só quando o lixo está cheio e espa­lha o doce fedor de carne podre por toda a casa é que final­mente nos sen­ti­mos moti­va­dos o sufi­ci­ente para fazer algo a res­peito.

proc-manso003 copyMas o que dizer das coi­sas sérias e por vezes pes­so­ais que pro­cras­ti­na­mos? Empe­nhar-se naquele novo tra­ba­lho. Ter­mi­nar com seu namo­rado. Come­çar um novo negó­cio na inter­net. Escre­ver sua tese de mes­trado. Dizer à sua namo­rada que tem her­pes.

proc-manso004Esses são even­tos pro­fun­da­mente emo­ci­o­nais e estres­san­tes. E como tais, toma­mos medi­das extre­mas para evitá-los, pro­cras­ti­nando por dias, sema­nas, até meses ou anos, ainda que sai­ba­mos que são o melhor para nós. Nós nos sen­ti­mos per­ma­nen­te­mente pre­sos.

proc-manso005Esse tipo de pro­cras­ti­na­ção — “Oh, um dia eu vou ter­mi­nar a minha gra­du­a­ção” — pros­se­gue nos tor­tu­rando, e ainda assim as bar­ras ver­me­lha e verde nunca se ree­qui­li­bram para o ponto em que somos capa­zes de fazer algo.

Isso acon­tece pelo fato de que, por baixo de nos­sos pio­res momen­tos de pro­cras­ti­na­ção, há um medo sub­ja­cente que jamais vai embora. Tal­vez seja o medo de falhar. Tal­vez seja o medo do sucesso. Tal­vez seja o medo da vul­ne­ra­bi­li­dade. Ou tal­vez seja o medo de machu­car alguém.

Mas há sem­pre um medo por trás desse tipo de pro­cras­ti­na­ção. Pro­cras­ti­na­ção, quando não está asso­ci­ado a algo muito desa­gra­dá­vel, quando é debi­li­tante e capaz de des­truir uma vida e fazer os cabe­los bran­cos che­ga­rem mais cedo, é sem­pre algo enrai­zado em algum tipo de medo.

Mas de onde vem esse medo?

A Lei de Manson 

É pos­sí­vel que você já tenha ouvido falar da Lei de Par­kin­son. Essa Lei diz que “o tra­ba­lho se expande a fim de pre­en­cher todo o tempo dis­po­ní­vel para sua rea­li­za­ção”. Desse modo, tenha você duas sema­nas ou dois dias para ter­mi­nar um tra­ba­lho, você sen­tirá como se pre­ci­sasse de todo o tempo que lhe foi dado para com­pletá-lo.

Você tam­bém sem dúvida já ouviu falar da Lei de Murphy, a imor­tal “o que quer que possa dar errado, vai dar errado”.

Bom, na pró­xima vez que você for a uma festa bacana e qui­ser impres­si­o­nar alguém, tente usar a Lei de Man­son [3]. O que? Nunca ouviu falar da Lei de Man­son? Claro que não, eu acabo de criá-la. Veja o que ela diz:

Quanto mais alguma coisa ame­a­çar a sua iden­ti­dade, mais você evi­tará fazê-la.”

Isso sig­ni­fica que quanto mais algo ame­aça mudar a forma como você enxerga a si mesmo, o jeito você acre­dita que é, mais você pro­cras­ti­nará até mesmo che­gar pró­ximo de come­çar a fazê-lo.

A coisa maluca sobre a Lei de Man­son é que ela pode ser apli­cada tanto para coi­sas boas como para coi­sas ruins. Ganhar um milhão de dóla­res pode ame­a­çar sua iden­ti­dade tanto quanto per­der todo o seu dinheiro. Tor­nar-se uma estrela de rock pode ame­a­çar sua iden­ti­dade tanto quanto per­der seu emprego. É por isso que as pes­soas geral­mente têm tanto medo do sucesso — pela mesma razão pela qual têm medo da der­rota: ela ame­aça quem elas são e o que sabem sobre si neste momento.

Você evita escre­ver aquele roteiro que sem­pre sonhou em escre­ver pois isso colo­ca­ria em che­que a sua iden­ti­dade de prag­má­tico cor­re­tor de segu­ros. Você evita falar com seu marido sobre serem mais aven­tu­rei­ros na cama por­que isso desa­fi­a­ria sua iden­ti­dade de esposa boa e decente. Você evita falar a seu amigo que não quer mais encon­trá-lo pois isso con­fli­tu­a­ria com sua iden­ti­dade de pes­soa legal e com­pre­en­siva.

Essas são deci­sões boas e impor­tan­tes que con­sis­ten­te­mente igno­ra­mos por­que elas ame­a­çam mudar a forma como nos vemos e sen­ti­mos que somos. Isso sua insano, mas é ver­dade.

Eu tinha um amigo que por muito tempo falou sobre colo­car seu tra­ba­lho artís­tico na inter­net e fazer disso o iní­cio de sua car­reira pro­fis­si­o­nal (ou pelo menos semi-pro­fis­si­o­nal). Ele falou sobre isso por anos. Ele eco­no­mi­zou grana. Ele até mesmo cons­truiu alguns web­si­tes e fez o upload de seu port­fo­lio.

Mas ele nunca levou adi­ante. Sem­pre tinha algum motivo pra isso. A reso­lu­ção do seu tra­ba­lho não estava boa o sufi­ci­ente. Ou ele havia pin­tado alguma coisa melhor. Ou ele não estava em con­di­ções de dedi­car tempo o sufi­ci­ente ainda.

Pas­sa­ram-se anos e ele jamais fez o que pla­ne­java. Por que? Por­que ape­sar de sonhar com isso, a rea­li­dade de ser um artista ame­a­çava sua iden­ti­dade de não-artista, de não-vul­ne­ra­bi­li­dade.

Eu tinha outro amigo que era bala­deiro, sem­pre cor­rendo atrás das garo­tas. Ainda assim, depois de anos “apro­vei­tando a vida”, ele estava ter­ri­vel­mente sozi­nho, depri­mido e em situ­a­ção pouco sau­dá­vel. Ele que­ria desis­tir da vida que levava. Ele falava com uma inveja feroz daque­les que esta­vam em um rela­ci­o­na­mento e mais “esta­be­le­ci­dos” do que ele. Porém, ele nunca desis­tiu daquela vida. Por anos ele pros­se­guiu, noite vazia após noite vazia, gar­rafa após gar­rafa. Sem­pre com alguma des­culpa. Sem­pre com algum motivo pelo qual ele não podia se aqui­e­tar.

Isso ame­a­çava demais a sua iden­ti­dade. O Cara Bala­deiro era tudo o que ele conhe­cia de si. Desis­tir dele era o equi­va­lente a hara­kiri psi­co­ló­gico.

Todos nós temos um con­junto de cren­ças sobre quem somos. De regra, nós pro­te­je­mos essas cren­ças. Então se você acre­dita que é um cara legal, irá evi­tar situ­a­ções que poten­ci­al­mente con­tra­di­gam essa crença. Se acre­dito que sou um ótimo cozi­nheiro, vou pro­cu­rar opor­tu­ni­da­des para pro­var isso a mim mesmo o tempo todo.

Geral­mente, a coisa mais difí­ceis de fazer­mos na vida estão cheias de resis­tên­cia emo­ci­o­nal. Seja dedi­car tempo ao estudo para tirar notas altas, ou final­mente mudar-se da sua cidade natal, ou calar-se e come­çar a escre­ver aquela ideia sobre a qual sem­pre falou para as pes­soas: nós evi­ta­mos essas coi­sas por­que de algum modo elas ame­a­çam con­tra­di­zer as cren­ças que temos sobre nós mes­mos. A menina não estuda por­que ela acre­dita que é uma rebelde soli­tá­ria. O homem não aban­dona sua cidade natal por­que ele secre­ta­mente acre­dita que não é bom o sufi­ci­ente para ter sucesso em outro lugar. A mulher nunca senta e escreve o livro que pla­neja por­que, iro­ni­ca­mente, a pos­si­bi­li­dade de falhar ame­a­ça­ria sua crença de que ela é esperta e capaz de qual­quer coisa.

A crença sobre quem somos sem­pre tem pre­ce­dên­cia. Até mudar­mos a forma como vemos a nós pró­prios, a crença sobre quem somos e quem não somos, não pode­re­mos tomar as deci­sões impor­tan­tes e ado­tar os com­por­ta­men­tos que por muito tempo esta­mos evi­tando.

O SUTIL PERIGO DO PENSAMENTO POSITIVO

Há uma coisa engra­çada que acon­tece comigo quando eu escrevo esses arti­gos. Quanto mais eu penso no quão incrí­vel será o artigo que pre­tendo escre­ver, mais pro­cras­tino e mais difí­cil é escrevê-lo.

Por outro lado, quando deixo de me pre­o­cu­par se um artigo será incrí­vel ou não, o artigo pra­ti­ca­mente se escreve sozi­nho, e em geral fica incrí­vel.

É pro­vá­vel que você tenha expe­ri­men­tado isso em alguma parte de sua vida tam­bém. Quando mais você se importa com o resul­tado, mais difí­cil é atingi-lo. Quanto menos você se importa, com mais natu­ra­li­dade o resul­tado vem até você.

Isso segue no sen­tido con­trá­rio tam­bém. Quanto mais tento me con­ven­cer de que sou um escri­tor bri­lhante e tenho algo impor­tante a dizer, mais o sim­ples ato de escre­ver um artigo ame­aça a minha iden­ti­dade, e mais eu pro­cras­tino antes de escre­ver.

Sem­pre que sim­ples­mente penso que sou só um cara qual­quer que coloca pala­vras no papel, o ato de escre­ver então não ame­aça coisa nenhuma, e a pro­cras­ti­na­ção é inter­rom­pida.

Essa é uma das manei­ras (de mui­tas) pela qual o pen­sa­mento posi­tivo pode real­mente aca­bar com a gente. A forma como a mai­o­ria das pes­soas tenta resol­ver uma pro­cras­ti­na­ção já con­so­li­dada é falar para si mesmo um bocado de fra­ses posi­ti­vas:

Vamos lá, você pode fazer isso. Você é tão inte­li­gente. Você é demais! Você pode na ver­dade fazer qual­quer coisa que queira fazer.”

Mas quanto mais você fala con­sigo mesmo dessa maneira, mais você vin­cula sua iden­ti­dade a coi­sas super­la­ti­vas como “ser inte­li­gente”, se “incrí­vel”, e mais qual­quer ati­tude tem o poten­cial de ame­a­çar essa crença.

E por­que isso ame­aça sua recém-des­co­berta crença sobre ser um cris­tal de neve único e incrí­vel, torna-se ainda mais impro­vá­vel que você real­mente faça alguma coisa.

SOLUÇÃO: MATAR A SI MESMO (FIGURATIVAMENTE, CLARO)

No budismo, há uma forte ênfase em aban­do­nar o con­ceito de que até mesmo exis­ti­mos [5]. O que isso sig­ni­fica é que, psi­co­lo­gi­ca­mente falando, sua ideia sobre “você” é cons­truída ao longo da vida atra­vés da jun­ção de um monte de coi­sas arbi­trá­rias. O budismo argu­menta que essas coi­sas são na ver­dade arma­di­lhas e que o melhor a fazer é aban­doná-las.

Isso soa estra­nho, mas há alguns bene­fí­cios psi­co­ló­gi­cos nessa pro­posta [6]. Quando nós aban­do­na­mos as his­tó­rias que con­ta­mos sobre nós mes­mos para nós mes­mos, nós nos liber­ta­mos para final­mente agir (e falhar) e cres­cer.

Quando a esposa admite para si mesma, “sabe, tal­vez eu não seja uma grande esposa e nem boa em rela­ci­o­na­men­tos”, então ela final­mente se liberta para agir e ter­mi­nar seu pés­simo casa­mento. Ela não tem uma iden­ti­dade para pro­te­ger.

Quando o estu­dante admite para si mesmo, “sabe, tal­vez eu não seja rebelde, tal­vez eu esteja ape­nas assus­tado”, então ele está livre para ser ambi­ci­oso nova­mente. Ele não tem nenhum motivo para se sen­tir ame­a­çado.

Quando o cor­re­tor de segu­ros admite para si mesmo, “sabe, tal­vez não haja nada de único e espe­cial sobre meus sonhos ou sobre meu tra­ba­lho”, então ele se liberta para dar àquele roteiro uma chance honesta e ver o que acon­tece.

Pois eu tenho uma boa e uma má notí­cia para você: você ou seus pro­ble­mas não são nada espe­ci­ais.

Minha reco­men­da­ção: rede­fina a você pró­prio de uma forma mun­dana e gené­rica. Esco­lha ver a você mesmo não como uma estrela ascen­dente ou um gênio não des­co­berto. Esco­lha ver a você mesmo não como uma pobre vítima ou um grande fra­casso. Ao invés disso, veja a si mesmo como um con­junto de coi­sas sim­ples: um estu­dante, uma esposa, um amigo, um cri­a­dor.

Isso fre­quen­te­mente sig­ni­fica desis­tir de algu­mas ideias gran­di­o­sas e lison­jei­ras sobre você pró­prio: de que você é espe­ci­al­mente inte­li­gente, ou espe­ta­cu­lar­mente talen­toso, ou inti­mi­da­do­ra­mente atra­tivo, ou espe­ci­al­mente viti­mi­zado de for­mas que as outras pes­soas sequer ima­gi­nam.

Nós gos­ta­mos de con­tar a nós mes­mos essas his­tó­rias. Elas nos fazem sen­tir bem. Mas elas tam­bém nos detêm.

Defina a si mesmo da maneira mais sim­ples e mun­dana pos­sí­vel. Pois quanto mais única e res­trita for a iden­ti­dade que você esco­lher para si, maior é a quan­ti­dade de coi­sas que podem ame­a­çar você. E com essas ame­a­ças virá o medo, a fuga e a pro­cras­ti­na­ção em fazer tudo o que real­mente importa.


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Notas:

[1] Meus grá­fi­cos que pare­cem fei­tos por um retar­dado são livre­mente ins­pi­ra­dos na aná­lise cog­ni­tiva de custo-bene­fí­cio, uma ideia cen­tral da Eco­no­mia Com­por­ta­men­tal.

[2] Eu cha­ma­ria isso de “tru­ques do cére­bro”, mas aí eu teria que me odiar.

[3] E quando eles per­gun­ta­rem “Quem é Man­son?”, asse­gure-se que eles não pen­sem que você está falando do serial kil­ler.

[4] A Lei de Man­son é basi­ca­mente uma ver­são espe­cí­fica da Teo­ria da Auto­ve­ri­fi­ca­ção que a psi­co­lo­gia social for­mu­lou. Eu não sou real­mente inte­li­gente o sufi­ci­ente para inven­tar isso. Mas foda-se, estou colo­cando o nome nela de qual­quer modo.

[5] Isso é fre­quen­te­mente refe­rido como “Não Eu” em várias fon­tes.

[6] Mor­gan, H. (2010). Self and No-Self: Con­ti­nuing the Dia­lo­gue Between Buddhism and Psy­chothe­rapy edi­ted by Mathers, D., Mil­ler, M. E. and Ando, O. Jour­nal of Analy­ti­cal Psy­cho­logy, 55(5), 726–728.

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