Tenho alguma coisa importante para dizer a você. Uma coisa realmente importante. Quero dizer algo importante a ponto de transformar-sua-vida, mudar-seus-paradigmas, transcender-esse-plano-de-realidade, fazer-você-se-urinar-e-chamar-sua-mãe.

Mas não estou muito a fim de escrever sobre isso agora. Então vamos assistir a um vídeo de um cara levantando uns halteres:

Hummmm, de repente fiquei motivado. OK, vamos lá! É irônico, mas faz dois dias que estou procrastinando para escrever um post sobre procrastinação. Fiz de tudo. Fiquei distraído com o meu outro e menos importante trabalho. Fiz uns “intervalos” que duraram cerca de três horas a mais do que deveriam. Fiz aquela coisa de sentar na frente do Facebook e então fechar a janela, abrir uma nova, e instintivamente voltar ao Facebook de novo.

Se eu tivesse de fazer um gráfico do processo da minha própria procrastinação, ficaria parecido com isso:proc-manso001A barra vermelha inclui todos os sentimentos negativos associados com mexer minha bunda gorda e fazer alguma coisa produtiva. Coisas como falta de sono, fatiga mental, perder o foco por causa de alguns problemas pessoais, a incerteza persistente sobre se vou escrever um artigo bom ou não, a insegurança sobre se as pessoas irão detestar o que escrevi, se me xingarão e farão comentários ofensivos sobre minha mãe, etc.

A barra verde inclui todos os sentimentos positivos associados com escrever este artigo. Sentimentos como o prazer da criatividade, o alívio de saber que foi feito, as risadas que darei ao escrever piadas inevitáveis sobre cocô, saber que ajudarei as pessoas, o simples prazer de escrever e por aí vai.

Como você pode ver, a barra vermelha – associada a sentimentos negativos – é mais elevada do que a barra verde – associada a sentimentos positivos. Portanto, eu não escrevo coisa nenhuma. Eu sento diante do Youtube, depois vou para o Facebook, depois tiro um cochilo, depois passo muito mais tempo do que gostaria de admitir tentando descobrir como fazer um gráfico de barras com smileys [1].

A ao invés de escrever aquele artigo de mudar-vidas, molhar-as-calças, chamar-a-mamãe e ter-uma-epifania-espiritual que prometi, eu sento aqui, analizando minha própria preguiça.

Mas isso é ser humano.

O modelo acima é bem simples mas essencialmente explica porque nós frequentemente não fazemos as coisas que devemos. Aquele aumento de salário que você nunca pede. Aquela pessoa atraente que você nunca convida para sair. Aquela chamada para sua mãe que você sempre esquece de fazer. O artigo que você nem se incomoda de escrever. Os sentimentos desagradáveis superam os agradáveis, e então nós evitamos o desagradável, mesmo se isso torna nossas vidas piores.

E de regra não é senão até as última hora, até a noite de véspera, até alguém gritar com você ou até a ameaça da mais completa e profunda derrota estar arfando no seu cangote que o jogo finalmente muda, a pressão torna-se excessiva e os sentimentos positivos associados em fazer o que precisa ser feito superam os sentimentos negativos. Torna-se então mais doloroso não fazer alguma coisa do que fazer, e é quando a tarefa finalmente é cumprida.

SUAS FORMAS TÍPICAS DE SUPERAR A FRUSTRAÇÃO

Há algumas estratégias que “enganam” seu cérebro para que faça algo que ele realmente não quer fazer [2].

Uma delas é criando o que por vezes é chamado de “ambiente de inevitabilidade”. Basicamente o que isso significa é que você cria um ambiente onde é mais difícil não fazer algo do que fazer.

Por exemplo, se você quer perder peso, você pode contratar com um personal trainer um total de mil e quinhentos reais de aulas e agendá-las para os próximos meses. Pagar mil e quinhentos reais e não ir às aulas vai superar a dor de se levantar e ir à academia.

Eu basicamente fiz a faculdade me forçando a ir à biblioteca todos os dias. Eu descobri que quando estava lá, inevitavelmente acabaria estudando. Se eu fosse para casa, eu iria vadiar a semana inteira.

Outra estratégia comum para vencer a procrastinação é o que chamo de “Princípio do Faça Alguma Coisa”. O Princípio do Faça Alguma Coisa basicamente diz que se você quer fazer alguma coisa – qualquer coisa – então você deve começar pelo componente mais simples da tarefa.

Eu estava procrastinando para escrever este artigo, então simplesmente disse a mim mesmo para criar um documento e escrever a primeira frase. Estranhamente, uma vez que você se convence a escrever a primeira frase, as próximas 40 são bem mais fáceis.

O mesmo ocorre com o exemplo da academia. Apenas diga a você mesmo para colocar as roupas da academia. Isso é fácil. Então quando estiver vestido, você vai se sentir um idiota se não for treinar. E daí você vai treinar.

O Princípio do Faça Alguma Coisa tira vantagem do fato de que a ação é tanto a causa da motivação como o efeito da motivação. E uma vez que você pratica aquele pequeno e simples ato, há algo que ocorre dentro de você e torna todo o resto mais fácil.

Mas se por um lado essas estratégias são atraentes e fazem você querer acariciar seus mamilos com manteiga de cacau, por outro elas não afetam a raiz do problema da procrastinação.

Por isso, não comece a acariciar seus mamilos ainda, seus problemas com a procrastinação ainda não foram resolvidos.

Essas são soluções band-aids. Elas te levam até o dia seguinte, mas não resolvem uma vida inteira de inércia.

Porque se você é como a maioria das pessoas, você experimentará a procrastinação incontáveis vezes. É interminável. E isso ocorre porque há uma questão mais profunda no subterrâneo de toda essa história.

A CAUSA ORIGINAL DA PROCRASTINAÇÃO

Então aqui está o que importa. Quando tem uma coisa boba e simples como levar o lixo pra fora, todos nós sabemos porque procrastinamos. Lixo é uma bosta. Cheira mal. É desagradável pegar o saco de lixo e levar até a calçada. Nós somos preguiçosos. É assim que funciona.

proc-manso002Em geral, só quando o lixo está cheio e espalha o doce fedor de carne podre por toda a casa é que finalmente nos sentimos motivados o suficiente para fazer algo a respeito.

proc-manso003 copyMas o que dizer das coisas sérias e por vezes pessoais que procrastinamos? Empenhar-se naquele novo trabalho. Terminar com seu namorado. Começar um novo negócio na internet. Escrever sua tese de mestrado. Dizer à sua namorada que tem herpes.

proc-manso004Esses são eventos profundamente emocionais e estressantes. E como tais, tomamos medidas extremas para evitá-los, procrastinando por dias, semanas, até meses ou anos, ainda que saibamos que são o melhor para nós. Nós nos sentimos permanentemente presos.

proc-manso005Esse tipo de procrastinação – “Oh, um dia eu vou terminar a minha graduação” – prossegue nos torturando, e ainda assim as barras vermelha e verde nunca se reequilibram para o ponto em que somos capazes de fazer algo.

Isso acontece pelo fato de que, por baixo de nossos piores momentos de procrastinação, há um medo subjacente que jamais vai embora. Talvez seja o medo de falhar. Talvez seja o medo do sucesso. Talvez seja o medo da vulnerabilidade. Ou talvez seja o medo de machucar alguém.

Mas há sempre um medo por trás desse tipo de procrastinação. Procrastinação, quando não está associado a algo muito desagradável, quando é debilitante e capaz de destruir uma vida e fazer os cabelos brancos chegarem mais cedo, é sempre algo enraizado em algum tipo de medo.

Mas de onde vem esse medo?

A Lei de Manson 

É possível que você já tenha ouvido falar da Lei de Parkinson. Essa Lei diz que “o trabalho se expande a fim de preencher todo o tempo disponível para sua realização”. Desse modo, tenha você duas semanas ou dois dias para terminar um trabalho, você sentirá como se precisasse de todo o tempo que lhe foi dado para completá-lo.

Você também sem dúvida já ouviu falar da Lei de Murphy, a imortal “o que quer que possa dar errado, vai dar errado”.

Bom, na próxima vez que você for a uma festa bacana e quiser impressionar alguém, tente usar a Lei de Manson [3]. O que? Nunca ouviu falar da Lei de Manson? Claro que não, eu acabo de criá-la. Veja o que ela diz:

“Quanto mais alguma coisa ameaçar a sua identidade, mais você evitará fazê-la.”

Isso significa que quanto mais algo ameaça mudar a forma como você enxerga a si mesmo, o jeito você acredita que é, mais você procrastinará até mesmo chegar próximo de começar a fazê-lo.

A coisa maluca sobre a Lei de Manson é que ela pode ser aplicada tanto para coisas boas como para coisas ruins. Ganhar um milhão de dólares pode ameaçar sua identidade tanto quanto perder todo o seu dinheiro. Tornar-se uma estrela de rock pode ameaçar sua identidade tanto quanto perder seu emprego. É por isso que as pessoas geralmente têm tanto medo do sucesso – pela mesma razão pela qual têm medo da derrota: ela ameaça quem elas são e o que sabem sobre si neste momento.

Você evita escrever aquele roteiro que sempre sonhou em escrever pois isso colocaria em cheque a sua identidade de pragmático corretor de seguros. Você evita falar com seu marido sobre serem mais aventureiros na cama porque isso desafiaria sua identidade de esposa boa e decente. Você evita falar a seu amigo que não quer mais encontrá-lo pois isso conflituaria com sua identidade de pessoa legal e compreensiva.

Essas são decisões boas e importantes que consistentemente ignoramos porque elas ameaçam mudar a forma como nos vemos e sentimos que somos. Isso sua insano, mas é verdade.

Eu tinha um amigo que por muito tempo falou sobre colocar seu trabalho artístico na internet e fazer disso o início de sua carreira profissional (ou pelo menos semi-profissional). Ele falou sobre isso por anos. Ele economizou grana. Ele até mesmo construiu alguns websites e fez o upload de seu portfolio.

Mas ele nunca levou adiante. Sempre tinha algum motivo pra isso. A resolução do seu trabalho não estava boa o suficiente. Ou ele havia pintado alguma coisa melhor. Ou ele não estava em condições de dedicar tempo o suficiente ainda.

Passaram-se anos e ele jamais fez o que planejava. Por que? Porque apesar de sonhar com isso, a realidade de ser um artista ameaçava sua identidade de não-artista, de não-vulnerabilidade.

Eu tinha outro amigo que era baladeiro, sempre correndo atrás das garotas. Ainda assim, depois de anos “aproveitando a vida”, ele estava terrivelmente sozinho, deprimido e em situação pouco saudável. Ele queria desistir da vida que levava. Ele falava com uma inveja feroz daqueles que estavam em um relacionamento e mais “estabelecidos” do que ele. Porém, ele nunca desistiu daquela vida. Por anos ele prosseguiu, noite vazia após noite vazia, garrafa após garrafa. Sempre com alguma desculpa. Sempre com algum motivo pelo qual ele não podia se aquietar.

Isso ameaçava demais a sua identidade. O Cara Baladeiro era tudo o que ele conhecia de si. Desistir dele era o equivalente a harakiri psicológico.

Todos nós temos um conjunto de crenças sobre quem somos. De regra, nós protejemos essas crenças. Então se você acredita que é um cara legal, irá evitar situações que potencialmente contradigam essa crença. Se acredito que sou um ótimo cozinheiro, vou procurar oportunidades para provar isso a mim mesmo o tempo todo.

Geralmente, a coisa mais difíceis de fazermos na vida estão cheias de resistência emocional. Seja dedicar tempo ao estudo para tirar notas altas, ou finalmente mudar-se da sua cidade natal, ou calar-se e começar a escrever aquela ideia sobre a qual sempre falou para as pessoas: nós evitamos essas coisas porque de algum modo elas ameaçam contradizer as crenças que temos sobre nós mesmos. A menina não estuda porque ela acredita que é uma rebelde solitária. O homem não abandona sua cidade natal porque ele secretamente acredita que não é bom o suficiente para ter sucesso em outro lugar. A mulher nunca senta e escreve o livro que planeja porque, ironicamente, a possibilidade de falhar ameaçaria sua crença de que ela é esperta e capaz de qualquer coisa.

A crença sobre quem somos sempre tem precedência. Até mudarmos a forma como vemos a nós próprios, a crença sobre quem somos e quem não somos, não poderemos tomar as decisões importantes e adotar os comportamentos que por muito tempo estamos evitando.

O SUTIL PERIGO DO PENSAMENTO POSITIVO

Há uma coisa engraçada que acontece comigo quando eu escrevo esses artigos. Quanto mais eu penso no quão incrível será o artigo que pretendo escrever, mais procrastino e mais difícil é escrevê-lo.

Por outro lado, quando deixo de me preocupar se um artigo será incrível ou não, o artigo praticamente se escreve sozinho, e em geral fica incrível.

É provável que você tenha experimentado isso em alguma parte de sua vida também. Quando mais você se importa com o resultado, mais difícil é atingi-lo. Quanto menos você se importa, com mais naturalidade o resultado vem até você.

Isso segue no sentido contrário também. Quanto mais tento me convencer de que sou um escritor brilhante e tenho algo importante a dizer, mais o simples ato de escrever um artigo ameaça a minha identidade, e mais eu procrastino antes de escrever.

Sempre que simplesmente penso que sou só um cara qualquer que coloca palavras no papel, o ato de escrever então não ameaça coisa nenhuma, e a procrastinação é interrompida.

Essa é uma das maneiras (de muitas) pela qual o pensamento positivo pode realmente acabar com a gente. A forma como a maioria das pessoas tenta resolver uma procrastinação já consolidada é falar para si mesmo um bocado de frases positivas:

“Vamos lá, você pode fazer isso. Você é tão inteligente. Você é demais! Você pode na verdade fazer qualquer coisa que queira fazer.”

Mas quanto mais você fala consigo mesmo dessa maneira, mais você vincula sua identidade a coisas superlativas como “ser inteligente”, se “incrível”, e mais qualquer atitude tem o potencial de ameaçar essa crença.

E porque isso ameaça sua recém-descoberta crença sobre ser um cristal de neve único e incrível, torna-se ainda mais improvável que você realmente faça alguma coisa.

SOLUÇÃO: MATAR A SI MESMO (FIGURATIVAMENTE, CLARO)

No budismo, há uma forte ênfase em abandonar o conceito de que até mesmo existimos [5]. O que isso significa é que, psicologicamente falando, sua ideia sobre “você” é construída ao longo da vida através da junção de um monte de coisas arbitrárias. O budismo argumenta que essas coisas são na verdade armadilhas e que o melhor a fazer é abandoná-las.

Isso soa estranho, mas há alguns benefícios psicológicos nessa proposta [6]. Quando nós abandonamos as histórias que contamos sobre nós mesmos para nós mesmos, nós nos libertamos para finalmente agir (e falhar) e crescer.

Quando a esposa admite para si mesma, “sabe, talvez eu não seja uma grande esposa e nem boa em relacionamentos”, então ela finalmente se liberta para agir e terminar seu péssimo casamento. Ela não tem uma identidade para proteger.

Quando o estudante admite para si mesmo, “sabe, talvez eu não seja rebelde, talvez eu esteja apenas assustado”, então ele está livre para ser ambicioso novamente. Ele não tem nenhum motivo para se sentir ameaçado.

Quando o corretor de seguros admite para si mesmo, “sabe, talvez não haja nada de único e especial sobre meus sonhos ou sobre meu trabalho”, então ele se liberta para dar àquele roteiro uma chance honesta e ver o que acontece.

Pois eu tenho uma boa e uma má notícia para você: você ou seus problemas não são nada especiais.

Minha recomendação: redefina a você próprio de uma forma mundana e genérica. Escolha ver a você mesmo não como uma estrela ascendente ou um gênio não descoberto. Escolha ver a você mesmo não como uma pobre vítima ou um grande fracasso. Ao invés disso, veja a si mesmo como um conjunto de coisas simples: um estudante, uma esposa, um amigo, um criador.

Isso frequentemente significa desistir de algumas ideias grandiosas e lisonjeiras sobre você próprio: de que você é especialmente inteligente, ou espetacularmente talentoso, ou intimidadoramente atrativo, ou especialmente vitimizado de formas que as outras pessoas sequer imaginam.

Nós gostamos de contar a nós mesmos essas histórias. Elas nos fazem sentir bem. Mas elas também nos detêm.

Defina a si mesmo da maneira mais simples e mundana possível. Pois quanto mais única e restrita for a identidade que você escolher para si, maior é a quantidade de coisas que podem ameaçar você. E com essas ameaças virá o medo, a fuga e a procrastinação em fazer tudo o que realmente importa.


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Notas:

[1] Meus gráficos que parecem feitos por um retardado são livremente inspirados na análise cognitiva de custo-benefício, uma ideia central da Economia Comportamental.

[2] Eu chamaria isso de “truques do cérebro”, mas aí eu teria que me odiar.

[3] E quando eles perguntarem “Quem é Manson?”, assegure-se que eles não pensem que você está falando do serial killer.

[4] A Lei de Manson é basicamente uma versão específica da Teoria da Autoverificação que a psicologia social formulou. Eu não sou realmente inteligente o suficiente para inventar isso. Mas foda-se, estou colocando o nome nela de qualquer modo.

[5] Isso é frequentemente referido como “Não Eu” em várias fontes.

[6] Morgan, H. (2010). Self and No-Self: Continuing the Dialogue Between Buddhism and Psychotherapy edited by Mathers, D., Miller, M. E. and Ando, O. Journal of Analytical Psychology, 55(5), 726–728.

escrito por:

Mark Manson