Não se engane, gosto de feriados e adorei ficar em casa sem ter que acordar de manhã e pegar um ônibus lotado aos 30 graus. É de fato maravilhoso. Mas este artigo serve para contestar o significado desse feriado. Feriado implica em prestar tributo ou comemorar, e a proclamação da república não merece sequer um memorial.

É que a República no Brasil nunca foi sinônimo de democracia. Não foi um evento democrático no fim do século XIX e muito menos o foi durante a maior parte do século seguinte.

A existência de um feriado para comemorar o 15 de novembro de 1889 seria o equivalente a tornar feriado todo o 1º de abril, em homenagem à 1964. A tendência militar em depor presidentes deu seus primeiros passos em 1889.

Obrigado, República Velha.

Deodoro da Fonseca em carta para seu sobrinho, em 1888.Vamos contextualizar.

No final do segundo reinado, não havia nenhum movimento republicano de importância ou com origem popular. Haviam alguns políticos republicanos no Congresso, que tentavam chamar atenção a suas pautas, sem muito sucesso. Resumindo, República era uma ideia bizarra e perigosa, que não animava muita gente.

“Como é possível fazer uma república em um país vastíssimo, desconhecido, ainda em grande parte, cheio de florestas infinitas, sem população livre, sem civilização, sem artes, sem estradas, sem relações mutuamente necessárias, com interesses opostos e com uma multidão de escravos, sem costumes, sem educação, nem civil nem religiosa, e hábitos antissociais?” – José Antonio de Miranda, jornalista.

Na época, as forças militares acumulavam tensões. Insatisfeitos com a falta de influência política, sem melhores repasses financeiros e com privilégios sucessivamente cortados após a Guerra do Paraguai, as casernas estavam agitadas.

Por fim, com a abolição da escravatura e a crise na economia devido à falta de mão-de-obra nas grandes propriedades (latifundiários detentores de escravos frequentemente eram tenentes ou tinham influência entre militares), a insatisfação nos quartéis cariocas tomou a forma de um Golpe de Estado.

Chefes prestigiosos foram chamados para organizar esse golpe, e aquele que obteve mais destaque e protagonismo foi Marechal Deodoro da Fonseca.

O movimento não teve nenhuma participação civil. E, surpreendente, nenhuma resistência do Império, pois ele também estava fragmentado e em crise devido à velhice e ausência do imperador.

Além disso, o Terceiro Reinado do Brasil imperial causava receio mesmo entre a nobreza. Afinal, possivelmente o próximo sucessor do Imperador seria a Princesa Isabel ou seu marido, o Conde D’eu: de um lado, uma mulher num governo completamente controlado por homens, e de outro, um francês sem nenhum carisma para com a população brasileira.

Aristides Lobo, jornalista e político a descreve como a proclamação se sucedeu:

“(…) Por ora, a cor do Governo é puramente militar, e deverá ser assim. O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada. Era um fenômeno digno de ver-se.”

proclamação da república - jornal antigo Correio do Povo

Em 1894, o presidente Floriano Peixoto depõe todos os governadores estaduais e indica “interventores” para administrar cada Estado.

Em poucos anos, o país, em processo de industrialização, com ferrovias e telégrafos e em plena estabilidade econômica, transitou de uma monarquia que não censurava ideias divergentes para uma República ditatorial, que alcançou uma inflação de mais de 84,32% ao mês já em 1898, repleto de revoltas populares e conturbações políticas, envolvendo desde a classe baixa até a Marinha.

Por exemplo, a Revolta da Armada, a Revolução Federalista e a “Guerra” de Canudos foram movimentos em que os insurgentes foram impiedosamente massacrados pelo Exército brasileiro.

Na imprensa, diversos jornais que divulgavam ideias contrárias ao governo republicano foram tirados de circulação. Reuniões políticas em ambientes privados foram proibidas, enquanto cidadãos descontentes eram sequestrados e torturados.

Um estreito gargalo burocrático foi estabelecido para a publicação de qualquer obra com conteúdo científico ou simplesmente midiático. Era a República da Espada.

Tudo isso resultou num atraso sem precedentes no desenvolvimento da nação. Após a proclamação da República, investimentos na educação e na industrialização foram paralisados por mais de 30 anos. Afinal, a modernização do país era uma ameaça ao sistema econômico que beneficiava as oligarquias cafeeiras de São Paulo e Minas Gerais.

Esse buraco de produtividade no Brasil se escancarou ao longo das décadas, tornando-se visível de longe quando analisamos a história do país.

Há uma variedade de obras literárias e artigos científicos inovadores, publicados no fim do Império e início da República Velha, o período “de ouro” das ciências e literatura brasileiras.

Machado de Assis, Euclides da Cunha, Oswaldo Cruz, Santos Drummond: esses escritores, cientistas e inventores foram educados na época do Império ou no início da República. Mas esse período de breve “iluminismo tupiniquim” acabou em meados de 1910, após o endurecimento do regime que derrubou a Monarquia. Já a Europa, ao contrário, estava na sua Belle Époque.

Aos poucos, os cartéis do café tomaram o protagonismo dos militares, dando início à famosa República Café com Leite – a partir de então, o domínio do país cabia às oligarquias. As eleições eram frequentemente fraudadas, e o voto servia como instrumento de legitimação aparente da alternância de militares no governo, todos eles influenciados pelos interesses das oligarquias.

A falta de atenção governamental para com as classe mais baixas e a ausência de qualquer política para integrar os ex-escravos à sociedade brasileira segregou parte da população, levou muitos brasileiros à miséria absoluta (e mesmo a morrer literalmente de fome no Rio de Janeiro) e agravou as desigualdades sociais.

“Permita-me uma franqueza, (…) a nossa triste experiência republicana foi a maior asneira de nossa história, (…) numa república o povo não escolhe nada. Em época de eleição presidencial, não é o povo quem escolhe seu Chefe-de-Estado, o povo se limita em optar entre duas ou três alternativas que os grupos de poder que dominam os partidos lhes apresentam, e muitas vezes esta opção é entre o mal maior e o mal menor. Com a proclamação da república no Brasil, (…) eu afirmo, foi-se a única república da América.” – Juan Pablo Rojas Paul. Presidente da Venezuela em 1889 para o embaixador do Brasil no país.

A implementação dos princípios republicanos, para os quais todos possuem os mesmos direitos e o Estado só administra os bens públicos (princípios esses consagrados entre franceses e norte-americanos) não acompanhou o pacote da proclamação da República no Brasil, e até hoje estamos lutando para implementá-los.

O equivocado golpe militar tinha justificativa filosófica, ou ao menos pretendia ter. Dentro do quartel militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro, as ideias do filósofo francês positivista Auguste Comte eram populares entre militares de altos cargos.

O positivismo foi interpretado de diferentes formas ao redor do mundo, tendo seu estopim como princípio iluminista, na Revolução Francesa. Resumidamente, as ideias de Comte sugeriam que só os mais aptos deveriam ser capazes de governar. Para os militares brasileiros, era óbvio que os mais preparados eram eles próprios.

Assim, inspirado no positivismo e na insatisfação popular com a inflação decorrente da crise de 1929, o Exército, que havia novamente perdido protagonismo durante a República do Café com Leite, voltou a agir.

Unindo-se à oligarquias insatisfeitas com o governo de Washigton Luiz, os militares ajudaram a formar a Aliança Liberal, movimento de oposição ao Presidente. E tudo isso culminou na Revolução dos 30.

Um golpe de estado, de novo.

Novos conflitos e perseguições, mais interventores estatais, políticas inflacionárias, fechamento do Congresso, criação de empresas estatais e repressão de movimentos como a Revolução Paulista, Intentona Comunista e Coluna Prestes – o Estado Novo foi uma versão 2.0 da República da Espada.

A diferença é que, dessa vez, o governo realizou diversos investimentos na área trabalhista e garantiu “direitos” aos trabalhadores. Afinal, numa era de desenvolvimento industrial, o país não poderia ficar para trás na questão de produtividade. Contudo, a dívida brasileira foi crescendo, junto com os juros.

No pós-Segunda Guerra e vitimado por sucessivas crises econômicas, o governo getulista ruiu.

Não tão surpreendente assim, os golpes de 1889 e de 1930 foram um manual de “como fazer sua ditadura, passo-a-passo” para o golpe militar de 1964. Era a época da tão delicada e polarizada Guerra Fria, em que os EUA exerciam pressão constante sobre seus aliados geopolíticos para que eliminassem qualquer voz socialista na sociedade.

Novamente, após o novo golpe militar, tivemos mais do mesmo: administração pública e empresas como a Telebrás e Embratel sendo controladas por setores militares e nenhum plano econômico consistente. O resultado foi nova crise astronômica, forçando a democratização na década de 1980. Sem falar nos mortos e desaparecidos, claro.

Por três vezes, a mesma receita de bolo foi usada neste país.

O país só escapou desse domínio militarista ao final do século XX, e seu legado na administração pública, na situação econômica e mesmo nos princípios morais da sociedade perduram até hoje, disso todos nós sabemos.

Os principais problemas que enfrentamos hoje têm sua raiz já nas primeiras tentativas da República Velha de copiar o modelo republicano norte-americano, que simplesmente não deu certo aqui — e nunca ia/vai dar.

Em 1891, a pagação de pau foi tanta que o Brasil mudou de nome para Estados Unidos do Brasil, e adotou a bandeira mais ridícula que esse país já conseguiu ter.

republica-lixo
Meus olhos sangram

Mas o Brasil não é os Estados Unidos, não tem e nem tinha uma base produtiva para suportar um estado de bem-estar social do tamanho do modelo preconizado pelos norte-americanos.

Com elevados índices de analfabetismo, sem serviços básicos acessíveis à população e sem parque industrial para impulsionar empreendimentos do setor privado, nosso estado de bem-estar social só criou uma industrialização estatal artificial.

Consequência disso é que, sem haver política social consistente, a população foi sempre esfolada pelos juros, transferindo-se o ônus da dívida pública, que o governo não conseguia pagar, para as gerações seguintes.

Além disso, após a proclamação da República e ao longo de todo o sistema republicano no Brasil, os nossos governantes foram incapazes de implementar o que sempre foi assegurado pelos governos norte-americanos à sua população: ampla liberdade de imprensa, investimento sistemático na educação e estímulo ao empreendedorismo.

Em resumo, investir na autonomia dos cidadãos.

Nossa República sempre resolveu as coisas de cima para baixo, tentando ser um Grande Irmão, usurpando a democracia — e suas falhas ficaram escancaradas ao longo da história.

Até hoje, estamos enfrentando as consequências dessa recusa dos governos republicanos em investir na autonomia dos cidadãos, e tentando solucioná-las.

Mas como todo país que sai de uma ditadura militar (ou praticamente de um século de intervenções militares), a recuperação será lenta e sofrida. Mas claro, tudo só depende de nós, cidadãos, e não da classe política.

Seria a república inevitável? Afinal, o império estava tombando, sua queda não foi nenhuma surpresa. Mas a instauração da república foi. De qualquer forma, entramos no mundo das suposições.


Este texto foi possível graças ao apoio de Frederico Mattos, nosso patrão. Seja você também um patrão do AZ, clique aqui.


Você pode querer ler também:

2016, o fim da história para os progressistas
O homem que salvou o mundo da destruição

escrito por:

Rodrigo Zottis

Rapaz que só faz o que faz pois espera que um dia seu legado possa ser completamente auto-explicativo.


JUNTE-SE À NOSSA NEWSLETTER
Junte-se a outros 2.000 visitantes que recebem nossa newsletter e garanta, semanalmente, artigos sobre ciência, filosofia, comportamento e sociedade diretamente em seu e-mail!
Nós odiamos spam. Seu e-mail não será vendido ou compartilhado com mais ninguém.