Moça olhando discretamente pelas frestas da janela. Artigo sobre privacidade publicado em Ano Zero.

Privacidade: você está renunciando a si mesmo

Em Comportamento, Consciência por Victor LisboaComentário

Alguns ami­gos que estão vol­ta­dos para a divul­ga­ção de seus tex­tos na inter­net recla­mam que eu publico pou­cas coi­sas sobre minha vida íntima nas redes soci­ais. E, segundo eles, isso seria uma falha, pois os lei­to­res que­rem saber coi­sas sobre a vida pri­vada de quem pro­duz con­teúdo na inter­net. Quem eu namoro, o que como, para onde viajo, essas coi­sas supos­ta­mente deve­riam ser divul­ga­das no Face­book e no Ins­ta­gram para atrair mais lei­to­res.

Isso me fez lem­brar o que Vint Cerf, dire­tor de inter­net da Goo­gle, disse em 2014. Ele afir­mou que a pri­va­ci­dade é uma ano­ma­lia, e que não have­ria motivo para tanto alarde quando nos­sos assun­tos pes­so­ais são de conhe­ci­mento público. Cerf suge­riu que a pri­va­ci­dade é um con­ceito muito novo na soci­e­dade, pois nas peque­nas comu­ni­da­des do pas­sado, em uma tribo ou uma pequena cidade, todo mundo sabia da vida de todo mundo e nin­guém mor­ria por isso.

Bom, acho que ele se esque­ceu da Idade Média, quando quei­ma­vam mulhe­res por terem hábi­tos supos­ta­mente “estra­nhos”. Mas, para ana­li­sar­mos a afir­ma­ção dele em si (se a pri­va­ci­dade é ou não uma ano­ma­lia) vamos dar um des­conto a esse deta­lhe. Até por­que há ainda dois outros des­con­tos para fazer­mos.

O pri­meiro é que em nosso ima­gi­ná­rio sem­pre pin­ta­mos os exe­cu­ti­vos do Goo­gle como pes­soas des­co­la­das, em geral jovens, usando cami­seta e jeans. Aí vemos um senhor careta, usando até uma ban­deira ou algo pare­cido na lapela, com cara de raposa matreira. Mas isso pode ser um tre­mendo pre­con­ceito da nossa parte, então vamos des­con­tar que a tese vem de alguém que não pre­en­che o este­reó­tipo do exe­cu­tivo nerd des­co­la­dão.

Vint Cerf, Ceo do Google, sobre privacidade.

Vint Cerf, esse cara e seus patrões que­rem que você abdi­que de sua pri­va­ci­dade.

O segundo des­conto é que quem fala é jus­ta­mente o repre­sen­tante de uma empresa que tem todo o inte­resse em aca­bar com a pri­va­ci­dade de todo mundo, por­que um de seus prin­ci­pais negó­cios é lucrar em cima disso (nova­mente, e em aten­ção aos lei­to­res mais rai­vo­si­nhos: não tenho nada con­tra lucro e con­tra a eco­no­mia de mer­cado, mas isso não implica que sere­mos acrí­ti­cos e acri­te­ri­o­sos em rela­ção às empre­sas). É como se o lobo fosse no meio do reba­nho defen­der que fugir do pre­da­dor é uma ano­ma­lia.

Mas pre­ci­sa­mos ana­li­sar a ideia em si mesma, então vamos des­con­tar o fato de que ela não é apre­sen­tada por alguém impar­cial, mas por um opor­tu­nista.

Se pri­va­ci­dade é uma ano­ma­lia por ser algo novo e por­que anti­ga­mente nin­guém a pos­suía sem que isso repre­sen­tasse o fim do mundo, então tam­bém pode­mos dizer o mesmo sobre várias outras coi­sas. Por exem­plo, usar a inter­net e pes­qui­sar no Goo­gle tam­bém seria uma “ano­ma­lia”. Anti­ga­mente, quando alguém pre­ci­sava saber sobre um deter­mi­nado assunto, podia ir à bibli­o­teca pública de sua cidade e con­sul­tar um punhado de livros e nem por isso era o fim do mundo. Usar um email como o Gmail tam­bém seria uma “ano­ma­lia”, pois por sécu­los as pes­soas comu­ni­ca­vam-se por meio de car­tas e nem por isso o mundo aca­bou.

Então vemos que a pro­posta não resiste a um só minuto de refle­xão. Na ver­dade, a pri­va­ci­dade parece ser uma daque­las ino­va­ções do homem moderno que serve para o indi­ví­duo garan­tir seu pró­prio bem-estar e pro­cu­rar atin­gir o seu con­ceito pes­soal de feli­ci­dade, sem que essa busca conte com a inter­fe­rên­cia exces­siva dos outros.

Vou ilus­trar com um exem­plo.

Anti­ga­mente, nas comu­ni­da­des nos­tal­gi­ca­mente lem­bra­das por Vint Cerf, nin­guém podia fazer algo que fugisse do con­ceito de “nor­ma­li­dade” sem que todo mundo sou­besse e aca­basse jul­gando as esco­lhas pes­so­ais de seu vizi­nho. Afi­nal, o ser humano, quando se comu­nica, não se limita ape­nas a trans­mi­tir uma infor­ma­ção como um com­pu­ta­dor: o ser humano, ao comu­ni­car, sem­pre acaba fazendo uma valo­ra­ção do que está trans­mi­tindo.

A pri­va­ci­dade, por­tanto, é uma fer­ra­menta moderna, de grande uti­li­dade, que per­mite ao indi­ví­duo ter certa auto­no­mia para cui­dar de sua pró­pria vida e arris­car des­vios e cami­nhos pouco con­ven­ci­o­nais na busca daquilo que con­si­dera mais impor­tante em sua hie­rar­quia de valo­res.

Mas tem mais. A pri­va­ci­dade é um dos pou­cos ins­tru­men­tos que o indi­ví­duo pos­sui quando pre­cisa se defen­der da inge­rên­cia do Estado e das auto­ri­da­des. Gra­ças à pri­va­ci­dade, o indi­ví­duo pode pro­te­ger suas con­vic­ções ínti­mas em épo­cas de per­se­gui­ção polí­tica. Gra­ças à pri­va­ci­dade, indi­ví­duos podem se reu­nir quando bem qui­se­rem para mani­fes­tar suas opi­niões e coor­de­nar seus esfor­ços sem que tenham que dar satis­fa­ções a qual­quer governo.

Tenho um amigo que afirma que a demo­cra­cia é algo frá­gil e cíclico — isso sig­ni­fica que em algum momento no futuro os sis­te­mas demo­crá­ti­cos pas­sa­rão por uma cíclica der­ro­cada, e serão subs­ti­tuí­dos, aqui e ali no mundo, por gover­nos auto­ri­tá­rios em maior ou menor medida. Essa pos­si­bi­li­dade, ao menos em rela­ção aos paí­ses da Amé­rica Latina, parece algo tan­gí­vel.

Nesse caso, seria de nos per­gun­tar­mos que faci­li­dade esta­mos dando a esses futu­ros gover­nos dita­to­ri­ais ao expor­mos de forma tão sem limi­tes a nossa pri­va­ci­dade nas redes soci­ais. Em algu­mas horas, um algo­ritmo bem ela­bo­rado pode­ria fazer um dos­siê de todos os cida­dãos de uma nação cri­ando um per­fil sócio-polí­tico que inclu­sive pode­ria esta­be­le­cer esti­ma­ti­vas sobre pro­vá­veis focos de resis­tên­cia poli­tica.

Há, além disso, outro aspecto impor­tante da pri­va­ci­dade além do social e polí­tico. Um indi­ví­duo não é algo que nasce pronto. O indi­ví­duo, a con­cep­ção de indi­vi­du­a­li­dade tam­bém é, para usar o con­ceito de Vint Cerf, uma “ano­ma­lia”. A indi­vi­du­a­li­dade é uma con­quista moderna e o resul­tado de cer­tos con­di­ci­o­nan­tes que extraem o ser humano do “espí­rito de reba­nho” ou “espí­rito de reba­nho” e con­ver­tem-no num ser único, ou num ser que aspira ao menos a ser único, alguém capaz de auto­de­ter­mi­na­ção e de ela­bo­rar a sua per­so­na­li­dade.

Isso, porém, só ocorre se hou­ver um espaço e um tempo dedi­ca­dos à refle­xi­vi­dade e à con­tem­pla­ção inti­mista. E o espaço e o tempo des­ti­na­dos a essas ati­vi­da­des é o que cha­ma­mos de pri­va­ci­dade. É na inti­mi­dade de nossa vida fora dos olha­res públi­cos que car­re­ga­mos nos­sas bate­rias e cons­truí­mos o nosso espí­rito pecu­liar.

Esse espaço, porém, está dimi­nuindo com a inter­net, e isso repre­senta uma grande perda. É que, sem pri­va­ci­dade, não temos como assi­mi­lar o que nos ocorre, e nem con­se­gui­mos evo­luir de forma cons­ci­ente. A pri­va­ci­dade, além de ser uma arma ou escudo que nos pro­tege da inge­rên­cia das auto­ri­da­des e do Estado, é tam­bém uma fer­ra­menta para o desen­vol­vi­mento íntimo de si mesmo.

Esta­mos, porém, renun­ci­ando à pri­va­ci­dade gra­tui­ta­mente e deli­be­ra­da­mente na inter­net. É como renun­ciar a um só tempo de uma arma con­tra os pode­ro­sos e de uma parte fun­da­men­tal de nosso ser.

Como a pri­va­ci­dade, para nós, não pos­sui valor de mer­cado, não per­ce­be­mos que aquilo que esta­mos fazendo nas redes soci­ais é dar a gran­des empre­sas gra­tui­ta­mente (ou a um baixo preço, o preço de poder par­ti­ci­par de uma rede social) algo que pos­sui sim muito valor econô­mico. Empre­sas como Face­book e Goo­gle ganham bilhões de dóla­res nego­ci­ando nos­sas pre­fe­rên­cias ínti­mas para empre­sas que, com essas infor­ma­ções, podem pla­ne­jar for­mas mais insi­di­o­sas e ardi­lo­sas de nos mani­pu­lar a con­su­mir suas mer­ca­do­rias.

Em que medida a pri­va­ci­dade está indo para o ralo e não esta­mos ainda ama­du­re­ci­dos o sufi­ci­ente para, enquanto soci­e­dade, ser­mos capa­zes de lidar com essa era da supe­rex­po­si­ção?


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Victor Lisboa
Editor do site Ano Zero.

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