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O que a história de uma princesa nos ensina sobre opressão

Em Consciência, História, Sociedade, Tempo de Saber por Leandro BellatoComentário

Cha­cha, Ohatsu, Ogo. Qual das três teve a vida mais feliz? Diante da impos­si­bi­li­dade de inter­rogá-las, a per­gunta não tem res­posta fácil.”

Assim ter­mina “O Cas­telo de Yodo”, de Yasushi Inoue, um romance his­tó­rico focado na prin­cesa Cha­cha, a sobri­nha mais velha de Oda Nobu­naga, mas cobrindo muito da vida de suas duas irmãs.

Cha­cha, que após mui­tas des­ven­tu­ras tor­nou-se con­cu­bina de Hideyoshi (que exter­mi­nou sua famí­lia) e mãe de seu her­deiro, come­teu sui­cí­dio (junto com seu filho) quando siti­ada pelas tro­pas de Toku­gawa Ieyasu, que pre­ci­sava “lim­par do mapa” o her­deiro de seu antigo suse­rano para garan­tir sua dinas­tia.

Ogo, a irmã caçula de Cha­cha, era esposa do her­deiro de Ieyasu e ela mesma pariu o ter­ceiro Sho­gun. Ohatsu, a irmã mais que­rida de Cha­cha, enviou seu pró­prio filho para exter­mi­nar as tro­pas do cas­telo de sua irmã, Cha­cha.

Cha­cha, a pro­ta­go­nista, foi uma prin­cesa bem edu­cada e mimada, que sem­pre comeu do bom e do melhor, era coberta de seda, ene­vo­ada em per­fu­mes e mor­reu rode­ada por cri­a­das e sem saber se ves­tir sozi­nha. Jamais lhe fal­ta­ram com res­peito e, de fato, sem­pre a tra­ta­ram de forma cor­tês e ceri­mo­ni­osa — afi­nal ela era uma prin­cesa.

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Na ima­gem, uma atriz inter­preta Cha­cha numa novela da NHK.

O pro­blema dela era, jus­ta­mente, ser uma prin­cesa. Isso sig­ni­fica que ela viveu toda sua vida como uma refém/prisioneira em apo­sen­tos luxu­o­sos, mas sem o direito de ir e vir, sem auto­no­mia, inca­paz de deci­dir seu pró­prio futuro.

Era pouco mais do que moeda de troca em mano­bras polí­ti­cas alheias. É ver­dade que ela tam­bém foi uma joga­dora, afi­nal ela era her­deira do clã Oda, mas jamais esteve em posi­ção de inter­fe­rir em seu pró­prio des­tino.

Poe­mas foram cri­a­dos e decla­ma­dos em sua home­na­gem, gra­vu­ras eter­ni­za­ram sua apa­rên­cia e pureza e Hideyoshi lhe pre­sen­teou com um cas­telo mag­ní­fico, no qual ela era a sobe­rana abso­luta: mas não podia sequer ir ao pátio sem a per­mis­são de seu tutor, o pró­prio Hideyoshi.

Pela mai­o­ria dos homens de seu tempo ela repre­sen­tava um ideal de beleza e inte­gri­dade, ina­tin­gí­vel, uma ins­pi­ra­ção cava­lei­resca a sol­da­dos de elite, poe­tas e a sol­da­dos-poe­tas.

É inte­res­sante notar que a opres­são sobre as pes­soas não pre­cisa se mani­fes­tar de forma vio­lenta ou sequer rude. Sua tez jamais expe­ri­men­tou sequer um tapa e seus ouvi­dos sem­pre foram expos­tos a elo­gios. Mas sua vida se pas­sou num ambi­ente opres­sor, no qual ela foi for­te­mente repri­mida, cas­trada.

Vale lem­brar que mesmo os varões das casas mais dis­tin­tas esta­vam longe de ser donos de seus des­ti­nos, mas ao menos podiam desa­fiar seus títe­res em com­bate, enquanto Cha­cha e suas irmãs sequer podiam regar suas flo­res, pois isso era tarefa indigna a uma prin­cesa.

Isso faz pen­sar duas ou três vezes antes de ten­tar elo­giar uma mulher cha­mando-a de “prin­cesa”…


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Leandro Bellato
Metereologista com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutua sem rumo satisfazendo sua vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.

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