“Chacha, Ohatsu, Ogo. Qual das três teve a vida mais feliz? Diante da impossibilidade de interrogá-las, a pergunta não tem resposta fácil.”

Assim termina “O Castelo de Yodo”, de Yasushi Inoue, um romance histórico focado na princesa Chacha, a sobrinha mais velha de Oda Nobunaga, mas cobrindo muito da vida de suas duas irmãs.

Chacha, que após muitas desventuras tornou-se concubina de Hideyoshi (que exterminou sua família) e mãe de seu herdeiro, cometeu suicídio (junto com seu filho) quando sitiada pelas tropas de Tokugawa Ieyasu, que precisava “limpar do mapa” o herdeiro de seu antigo suserano para garantir sua dinastia.

Ogo, a irmã caçula de Chacha, era esposa do herdeiro de Ieyasu e ela mesma pariu o terceiro Shogun. Ohatsu, a irmã mais querida de Chacha, enviou seu próprio filho para exterminar as tropas do castelo de sua irmã, Chacha.

Chacha, a protagonista, foi uma princesa bem educada e mimada, que sempre comeu do bom e do melhor, era coberta de seda, enevoada em perfumes e morreu rodeada por criadas e sem saber se vestir sozinha. Jamais lhe faltaram com respeito e, de fato, sempre a trataram de forma cortês e cerimoniosa — afinal ela era uma princesa.

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Na imagem, uma atriz interpreta Chacha numa novela da NHK.

O problema dela era, justamente, ser uma princesa. Isso significa que ela viveu toda sua vida como uma refém/prisioneira em aposentos luxuosos, mas sem o direito de ir e vir, sem autonomia, incapaz de decidir seu próprio futuro.

Era pouco mais do que moeda de troca em manobras políticas alheias. É verdade que ela também foi uma jogadora, afinal ela era herdeira do clã Oda, mas jamais esteve em posição de interferir em seu próprio destino.

Poemas foram criados e declamados em sua homenagem, gravuras eternizaram sua aparência e pureza e Hideyoshi lhe presenteou com um castelo magnífico, no qual ela era a soberana absoluta: mas não podia sequer ir ao pátio sem a permissão de seu tutor, o próprio Hideyoshi.

Pela maioria dos homens de seu tempo ela representava um ideal de beleza e integridade, inatingível, uma inspiração cavaleiresca a soldados de elite, poetas e a soldados-poetas.

É interessante notar que a opressão sobre as pessoas não precisa se manifestar de forma violenta ou sequer rude. Sua tez jamais experimentou sequer um tapa e seus ouvidos sempre foram expostos a elogios. Mas sua vida se passou num ambiente opressor, no qual ela foi fortemente reprimida, castrada.

Vale lembrar que mesmo os varões das casas mais distintas estavam longe de ser donos de seus destinos, mas ao menos podiam desafiar seus títeres em combate, enquanto Chacha e suas irmãs sequer podiam regar suas flores, pois isso era tarefa indigna a uma princesa.

Isso faz pensar duas ou três vezes antes de tentar elogiar uma mulher chamando-a de “princesa”…


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escrito por:

Leandro Bellato

Com a cabeça nas nuvens e o pé nas estrelas, flutuo sem rumo satisfazendo minha vasta curiosidade sobre os mais variados e desconexos temas, de literatura à astrofísica, de antropologia à bioquímica, de cultura pop aos pré-socráticos.


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