2016 foi um ano ruim. Terroristas mataram dezenas de pessoas, Aleppo foi devastado, Iêmen foi para o inferno, a Coréia do Norte fez mais testes nucleares, os EUA tiveram as eleições presidenciais mais constrangedoras dessa geração e o Brasil passou por uma crise econômica e política de proporções históricas. Bem, nós temos más notícias: 2017 pode ser pior.

Não, não queremos ser catastrofistas, mas apenas fazer um exercício do que pode acontecer de desastroso no mundo, tendo em vista o cenário atual e suas possibilidades de desenvolvimento.

Especular com olhar crítico é importante. Afinal, acreditar que 2017 necessariamente não nos trará o pior possível é tão supersticioso quanto crer que o melhor está certamente por vir. Provavelmente, o que ocorrerá é uma mistura agridoce desses dois cenários. Por isso, o importante é estarmos preparados para o que de pior vier (afinal o que vier de melhor receberemos de braços abertos), nem que seja para ficarmos incrédulos.

Assim, vamos a alguns possíveis eventos que poderiam ocorrer em 2017, dadas as circunstâncias atuais, e que nos fariam sentir saudade de 2016.

1. O Sistema Bancário da Itália colapsa

Banco da Itália

Em uma lista de “coisas graves com que você pode se preocupar em breve”, uma crise bancária italiana seria a número um. Mas qual a razão?

Durante anos, os credores da Itália têm emprestado dinheiro como 2008 nunca tivesse acontecido. Agora, muitos economistas receiam que o sistema financeiro italiano esteja próximo de ruir.

A Itália está entre as dez maiores economia do mundo. É, também, um país da zona do euro, e sua queda poderia derrubar toda a União Europeia (UE). A crise da dívida grega quase desmoronou o euro, e a Grécia não tem o mesmo peso da Itália na UE e mal está entre as 50 maiores economias globais. O colapso do sistema financeiro italiano será como colocar dinamite sob o Euro e acender o pavio.

Considerando todos os países do bloco, a UE tem uma economia maior do que a China. Se isso acontecer, os efeitos mundiais serão enormes para todo o mundo, e a crise econômica no Brasil iria aprofundar-se mais rápido do que você poderá dizer “a economia mundial entrou em depressão global”.

 

2. Os EUA e a China se envolvem em uma guerra comercial

EUA e China em guerra comercialO presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, não se aprofundou sobre seus planos a respeito da China. Mas durante a campanha afirmou que pretende aumentar as tarifas dos produtos chineses e enfrentar a política comercial de Pequim. É verdade que a China pode não adotar uma postura de confrontação, mas as coisas podem ir para o outro lado, e nesse caso os EUA e a China acabariam envolvidos em uma guerra comercial.

Isso seria interessante, para dizer o mínimo. A China e os EUA comercializam cerca de US$ 600 bilhões em bens. Enquanto a China importa mais dos Estados Unidos do que vice-versa, os bens que os EUA importam são mais difíceis de se obter em outros lugares.

Assim, a China enfrentaria grandes problemas imediatos, mas os consumidores americanos pagariam um enorme “imposto” sobre eletrônicos consumíveis, o que é uma preocupante perspectiva na era digital.

Depois, há o fato de que a China importa, monta e, em seguida, reexporta mercadorias em toda a Ásia. Uma guerra comercial se espalharia para o Japão, Coreia do Sul e Taiwan e bagunçaria as coisas na casa dos milhões.

 

3. Os talibãs tomam o Afeganistão (de novo)

Talibã
Crédito da foto: AFP via BBC News

Lembra-se do Talibã? Sentimos informar, mas o fanático grupo islâmico voltou com um orçamento ainda maior. E eles estão à beira de tomar todo o Afeganistão.

Cerca de 150 dos 400 distritos do Afeganistão já estão total ou parcialmente sob o controle dos talibãs. Há conflito armado em mais outros cinquenta. Esses são os números mais elevados desde 2001. Da mesma forma que o ISIS fez no Iraque e Síria em 2014, os talibãs estão recrutando participantes de grupos anteriormente rivais, e ganhando pilhas de novos equipamentos no processo.

Atualmente, os EUA têm dez mil soldados posicionados no Afeganistão, mas eles estão fazendo pouca diferença. A não ser que a maré geopolítica mude, é quase certo que 2017 será o ano em que os talibãs retomarão o Afeganistão, como se aquela coisa de Guerra ao Terror nunca tivesse acontecido.

 

4. Marine Le Pen é eleita Presidente da França 

Marine Le Pen
Crédito da foto: Reuters/Pascal Rossignol via Salon

O Partido Nacional de Marine Le Pen está atualmente liderando as pesquisas para as eleições de 2017 na França. Isso não é bom. O fundador do PN e pai da candidata, Jean-Marie Le Pen, negou repetidamente o Holocausto. E os primeiros membros do partido eram colaboradores franceses da Segunda Guerra Mundial, que costumavam publicar canções nazistas.

Quando o Marine Le Pen, em 2012, processou um político socialista que descreveu o PN como fascista em um artigo, a Justiça francesa decidiu que “fascista” era uma descrição literal da política do Partido Nacional.

Além disso, se Le Pen tornar-se presidente da França, seria como um “Brexit com esteroides”, pois a pré-candidata prometeu retirar o país da União Europeia. O resultado poderia ser um colapso total da UE, com um impacto econômico que abalaria o mundo.

 

5. A Coréia do Norte aumenta seu potencial nuclear

Coréia do Norte e explosão nuclear

A Coreia do Norte é uma nação-piada para muita gente. Enquanto as armas nucleares iranianas nos preocupam, matar o líder da Coréia do Norte é roteiro de uma comédia do cinema norteamericano. Porém, podemos estar subestimando a Coréia do Norte.

Em 2017, poderíamos ver sua capacidade nuclear passar de “um perigo distante mas assustador” para “uma ameaça aterrorizante”. Em 2016, Pyongyang realizou dois testes nucleares, levando o total de testes a cinco.

Nenhuma outra nação na história chegou a cinco testes sem aperfeiçoar um dispositivo que possa anexar uma arma nuclear a um míssil. E Kim tornou as pesquisas sobre foguetes como uma prioridade. Por mais louco que pareça, a Coréia do Norte pode estar mais próxima de um míssil nuclear funcional e pronto para uso do que imaginamos.

Estimativas conservadoras apontaram que a Coréia do Norte atingirá plena capacidade nuclear em meados de 2018, mas há uma chance de que isso possa acontecer mais cedo. Kim já tem 20 armas nucleares, uma frota de mísseis, e um ego frágil. Para o tirano, entrar cedo no clube nuclear valeria a pena, mais do que se atentar às estáticas do seu povo faminto.

 

6. Daesh (ISIS) desencadeia uma carnificina na Europa

atentados na EuropaNos 13 meses desde novembro de 2015, os terroristas inspirados pelo Daesh (ISIS) mataram mais de 260 pessoas inocentes na Europa. E esse número aumenta se incluirmos os ataques na Turquia.

Por mais horrível que seja, poderia ser apenas uma amostra do que está por vir. Com os territórios ocupados pelo Daesh no Iraque e na Síria entrando em colapso, os jihadistas ocidentais estão sendo enviados de volta para casa aos milhares, todos com um único objetivo: causar o máximo de baixas aos civis.

De acordo com a Europol, estes combatentes teriam sido orientados a realizar mais atentados em países europeus, sendo a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha os principais alvos.

Assustadoramente, é provável que estes ataques possam muito bem envolver armas químicas de destruição em massa, como o gás sarin, que causa carbúnculo. Embora muito disso seja especulação, apenas um ataque bem sucedido poderia causar mortes incalculáveis.

 

7. Um ataque cibernético devastador

ataque cibernético devastadorEm 23 de dezembro de 2015, um grupo de hackers infiltrou-se no sistema das centrais elétricas da Ucrânia Ocidental e desativou três grandes centrais, deixando 230.000 casas sem energia no meio de um inverno congelante. Foi o primeiro grande ataque cibernético em uma rede elétrica da história. E, ao contrário do que se pode imaginar, as centrais elétricas ucranianas têm uma proteção digital melhor do que a maioria das centrais dos Estados Unidos.

Tais ataques estão aumentando em número. Em meados de 2015, a TV5 da França foi quase destruída por hackers russos. No inverno de 2016, a rede elétrica da Ucrânia foi atingida novamente.

 

8. Genocídio na África e Ásia

genocídio na áfrica e ásia
Crédito da foto: Foreign and Commonwealth Office

Agora, o Iraque, o Iêmen e a Síria são vastas zonas de matança. Partes da Nigéria, Paquistão e Afeganistão estão cobertas de violência, e as pessoas ainda estão morrendo na Ucrânia, México e Somália. Para esta lista desanimadora, 2017 pode acrescentar mais dois países: Myanmar (também conhecido como Burma) e República Centro-Africana (CAR). É que especialistas em política internacional acreditam que já há sinais de que um enorme genocídio ocorrerá 2017, possivelmente nessas duas regiões.

A República Centro-Africana é um estado fracassado, dividido etnicamente, com bandos armados percorrendo o seu campo e tem entrado em ebulição durante os últimos dois anos. Os observadores estão preocupados que ela se espalhe para a violência étnica, se não o genocídio absoluto, qualquer dia.

Myanmar, por outro lado, deveria ser uma história de sucesso. Depois que o país transitou para a democracia após 60 anos de ditadura, ele deveria ter se tornado uma luz do mundo livre. Em vez disso, as forças de segurança começaram a destruir aldeias pertencentes à minoria Rohingya e a limpar etnicamente suas populações.

 

9. Ameaça de guerra de proporções mundiais

guerra na europa
Crédito da foto: Zurab Kurtsikidze/EPA via The Guardian

2016 é o novo 1913? Há sinais lá fora de que as grandes potências podem ser sugadas em colisões horríveis se as coisas não mudarem imediatamente de curso. Dependendo dos envolvidos, esta guerra poderia estar em qualquer lugar na escala entre “devastação local” e “Terceira Guerra Mundial”.

A China é uma preocupação potencial. Nas últimas semanas, a China e os EUA vêm se envolvendo em atritos tanto no Mar da China Meridional como em Taiwan.

Claro, é verdade que as autoridades chinesas seriam loucas caso escolhessem uma rota de colisão bélica frontal com os EUA. Mas nada os impede de atacar aliados menores dos EUA. Isso atrairia a participação dos EUA e da OTAN, assim como o assassinato de um homem de meia-idade em 1913 acabou enviando o mundo inteiro para a guerra.

Além disso, há a Rússia. Um antigo comandante-adjunto da OTAN previu que Moscou anexará os países bálticos em 2017, deixando os EUA e a UE no dilema de cumprir ou não os tratados internacionais que firmaram de proteger essas nações caso fossem atacadas por forças hostis.

Não estamos dizendo que essas previsões ocorrerão certamente em 2017 ou em alguma data próxima. Muito provavelmente, nada disto acontecerá, e vamos parecer extremamente tolos se esse texto for lido em 2018. Mas a verdade é que é melhor cogitarmos esses fatos agora e corrermos esse risco, do que perder no ano que vem a oportunidade de dizer “eu não avisei”?


Artigo original de Morris M., traduzido por Rodrigo Zottis.

  • Lucas Pinheiro

    Se o mundo partir pra uma eventual terceira guerra, qual a probabilidade dos países simplesmente devastarem o mundo com armas nucleares?

  • Carlos Henrique Macedo

    Sério mesmo! Fiquei com medo agora! kk