Preta. Favelada. Vagabunda. Sim, my pussy é o poder.

Preta. Favelada. Vagabunda. Sim, my pussy é o poder.

Em Consciência, Sociedade por Cecília OlliveiraComentário

1. Vida de vadia

Vadi­a­gem. De acordo com o bom e velho Auré­lio, eis seu con­ceito: “vida de vadio; malan­dra­gem. Con­tra­ven­ção penal que con­siste em uma pes­soa levar vida oci­osa, sendo válida para o tra­ba­lho e não pos­suindo renda pró­pria”.

Há muito dis­cu­tida, a ‘infra­ção’ de se levar uma vida oci­osa foi, ao longo dos anos, refor­çando seu recorte social de cri­mi­na­li­za­ção de clas­ses e de movi­men­tos cul­tu­rais e soci­ais, que pas­sa­ram então a car­re­gar uma alcu­nha cri­mi­nosa. Foi assim com a capo­eira, coisa de ardi­loso vaga­bundo, e com o samba, coisa de malan­dro pre­gui­çoso. E agora a bola da vez é o funk, coisa de fave­lado tra­fi­cante — e de vaga­bun­das.

Para além do rótulo cri­mi­na­li­zante da vadi­a­gem, há de se levar em con­si­de­ra­ção o recorte de gênero. Homem vadio é aquele que não tra­ba­lha. Mulher vadia é puta não enquanto pro­fis­si­o­nal do sexo, mas enquanto adepta de uma suposta pro­mis­cui­dade. À época do ‘samba-crime’, mulhe­res não eram admi­ti­das nas rodas, não podiam can­tar, dan­çar ou par­ti­ci­par da festa. “Não era coisa de moça direita”. As que o faziam, geral­mente com­pra­vam briga com a famí­lia e ganha­vam fama de “libe­rais”, com as quais se podia ten­tar ousar. A novela Lado a Lado, que retra­tou parte da luta his­tó­rica das mulhe­res bra­si­lei­ras por liber­dade e eman­ci­pa­ção no iní­cio do século XX, mos­trou isso bri­lhan­te­mente, atra­vés do papel da dan­ça­rina de samba, negra e fave­lada, Isa­bel, vivida por Camila Pitanga.

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Totoma! – Ima­gens do funk cari­oca”. Pro­jeto e fotos de Dani­ela Corso.

Hoje, porém, a coisa com o samba tem outro con­torno. Ser pas­sista de escola de samba é pro­fis­são de muita ‘moça direita’. Outras ‘moças direi­tas’ pagam uma for­tuna pra des­fi­lar seus cor­pos nus ou semi­nus na Sapu­caí, com direito a muito zoom de câme­ras. É uma arte que enche os olhos de todos, a cada fevereiro/março. Mui­tos daque­les que babam (e punhe­tam) ao verem pei­tos e bun­das de fora no Car­na­val  acu­sam suas pro­pri­e­tá­rias, no resto do ano, de serem as res­pon­sá­veis pela da má fama do Bra­sil lá fora (ima­gina se tivés­se­mos aqui o dia de andar de bunda de fora no metrô, como em Lon­dres e outras 60 cida­des da Europa?).

A “mulher de ver­dade” é de outro jeito. Só serve pra ser “mãe de famí­lia” se for pudica, sem “peca­dos” e direita. Mas o que é ser uma moça (“moça”, nota-se, vin­cu­lado à vir­gin­dade) direita? Não importa se ela ganhou um prê­mio Nobel de física quân­tica ou des­co­briu a cura do cân­cer. O que importa é que uma moça direita não pode falar sobre sexo. Isso é coisa de homem! E falar que gosta de sexo, e muito? Aí é coisa de pira­nha!

2. Vida de Funkeira

É inte­res­sante ver que mais de um século se pas­sou desde a cri­mi­na­li­za­ção da capo­eira, mas que o pre­con­ceito vem pas­sando de gera­ção em gera­ção, mudando ape­nas de objeto, car­re­gando sem­pre o machismo a tira­colo. Como pode tudo mudar e nada mudar ao mesmo tempo?

A exem­plo disso, no Funk temos, de um lado,MC Catra, o macho alfa pega­dor de geral e, do outro, as mulhe­res pega­das, as cachor­ras. Virando o disco, temos Valesca Popo­zuda – que canta exa­ta­mente as mes­mas músi­cas que Mc Catra, mas não é con­si­de­rada a pega­dora irre­sis­tí­vel: é, ao con­trá­rio, a vaga­bunda. Ou seja, homens e mulhe­res podem desem­pe­nhar as mes­mas fun­ções, tomar as mes­mas ati­tu­des, optar pelas mes­mas esco­lhas, can­tar as mes­mas músi­cas, mas lhes são repu­ta­dos rótu­los dife­ren­tes. E com estes rótu­los, vem as cobran­ças.

Pou­cos são os exem­plos de mulhe­res que car­re­gam o nome do Funk por onde vão, reco­nhe­ci­das de igual pra igual, de modo não depre­ci­a­tivo, como MC Mar­celly, 22 anos, casada com um pro­du­tor musi­cal. Em sua música Dona do Ouro, a MC Mar­celly inter­preta uma ver­são femi­nina do Dono do Ouro, de MC Smith.

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Ambos nas­ci­dos e cri­a­dos no Com­plexo do Ale­mão, onde o Comando Ver­me­lho impera, têm o mesmo peso quando can­tam proi­bi­dões (músi­cas sele­ti­va­mente con­si­de­ra­das “apo­lo­gia ao trá­fico”). Eis exem­plos:

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No vídeo a seguir, MC Mar­celly e MC Mai­ki­nho due­lam sobre meni­nos e meni­nas que pegam geral. MC Mar­celly pro­voca o desa­fio no iní­cio: “agora é o grito da mulhe­rada inde­pen­dente, os direi­tos são iguais: E aí Mai­ki­nho, quer come­çar?”

Então, o que muda de fato? Qual a dife­rença entre Smith e Mar­celly? Os olhos de quem vê e os ouvi­dos de quem escuta. São eles que têm o poder de ver “dife­rença” no intér­prete de uma mesma música. “Dife­rença” entre aspas mesmo, por­que né?

3. Funk: cultura e identidade

O sexo, assim como qual­quer neces­si­dade física ou afe­tiva, deve­ria ser natu­ral, como almo­çar, abra­çar e con­ver­sar, tendo valor igual tanto para o homem quanto para a mulher.

A nomi­na­ção das coi­sas é sin­gu­lar, as inter­pre­ta­ções é que são variá­veis, de acordo com o recep­tor da men­sa­gem. Como disse aquele soció­logo fran­cês, Pierre Bour­dieu, “por essa forma intei­ra­mente sin­gu­lar de nomi­na­ção que é o nome pró­prio, ins­ti­tui-se uma iden­ti­dade social cons­tante e durá­vel, que garante a iden­ti­dade do indi­ví­duo bio­ló­gico em todos os cam­pos pos­sí­veis aonde ele inter­vém como agente, isto é, em todas as suas his­tó­rias de vida pos­sí­veis”.

Fes­tas de casa­mento e for­ma­tura são um bom termô­me­tro pra notar isso, já que “tudo é per­mi­tido”. Há ainda a ver­são lim­pi­nha com o ser­ta­nejo uni­ver­si­tá­rio. Olha que “linda” a ver­são de Sou foda. Na cama eu escu­la­cho:

E a ver­são de Tá Tarada:

Há menos de um mês, fui a um show do MC Smith no Vidi­gal. O show era na qua­dra do alto do Morro. Para che­gar lá, pas­sei por lugar, uma espé­cie de casa de show, com uma fila gigante, mulhe­res de saias cur­tís­si­mas, deco­tes capri­cha­dos, sal­tos que exi­giam uma des­treza ímpar. Tudo isso coti­di­ano para uma favela, a não ser a dife­rença de que eram, em sua esma­ga­dora mai­o­ria, bran­cas, lou­ras e esta­vam pagando 50 reais para ir numa festa cult baca­ni­nhae des­cer até o chão. Do outro lado da rua, duas meni­nas gri­ta­ram: “Quero ver ir a baile de comu­ni­dade! Lá no alto!”. Pois é. Subi e, lá no “baile de ver­dade”, na qua­dra da favela, o pano­rama era menos branco. Então, “saí­ram os mora­do­res, entra­ram os turis­tas”.

4. Lei do Funk: política ou castigo?

Em setem­bro de 2009, foi apro­vada no Rio de Janeiro a Lei do Funk, que con­fere ao gênero musi­cal o sta­tus de movi­mento cul­tu­ral e musi­cal de cará­ter popu­lar.  No mesmo dia, a Assem­bleia Legis­la­tiva do Rio de Janeiro revo­gou uma lei, cri­ada pelo ex-depu­tado esta­dual Álvaro Lins em 2007, que res­trin­gia a rea­li­za­ção de bai­les funk e raves do estado.

A lei do ex-chefe da Polí­cia Civil (preso em maio de 2008, após acu­sa­ções de lava­gem de dinheiro e for­ma­ção de qua­dri­lha, entre outras) enri­je­ceu outra, de quase 10 anos atrás, pro­posta pelo então depu­tado Sér­gio Cabral Filho (Ex-gover­na­dor do Rio, que dei­xou o cargo para pos­si­vel­mente plei­tear vaga no Senado). A vota­ção foi con­si­de­rada sim­bó­lica, uma vez que os depu­ta­dos já haviam acor­dado em der­ru­bar as fron­tei­ras legais con­tra bai­les funk, com obje­tivo de dimi­nuir a dis­cri­mi­na­ção con­tra o ritmo.

Desde o iní­cio da implan­ta­ção das UPPs (Uni­dade de Polí­cia Paci­fi­ca­dora), as fave­las têm sofrido com a proi­bi­ção arbi­trá­ria e incons­ti­tu­ci­o­nal de rea­li­za­ção de even­tos. quais­quer even­tos tem que pas­sar por um longo trâ­mite para con­se­guir per­mis­são de rea­li­za­ção, desde bati­za­dos a bai­les funk.

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Em agosto de 2013, o então gover­na­dor do Estado, Sério Cabral (PMDB-RJ), revo­gou a Reso­lu­ção 013 , que dava ao coman­dante da UPP o direito de vetar even­tos sem aviso pré­vio e exi­gia o aval da Secre­ta­ria de Segu­rança Pública para a rea­li­za­ção de mani­fes­ta­ções cul­tu­rais em áreas ocu­pa­das pela Polí­cia Paci­fi­ca­dora.

Teo­ria. Com o título Baile Funk — o ritmo proi­bido, uma repor­ta­gem do jor­nal sueco SVD sobre as fes­tas no Rio de Janeiro mos­trou algo inte­res­sante. Segundo a maté­ria, ao ser abor­dado para falar sobre a proi­bi­ção das fes­tas na comu­ni­dade, um sol­dado da Força de Paci­fi­ca­ção do Com­plexo da Maré decla­rou ser “uma espé­cie de cas­tigo” para man­ter tra­fi­can­tes e com­pra­do­res de droga afas­ta­dos.

De acordo com pes­quisa da Fun­da­ção Getú­lio Var­gas, ano base 2008 (Ano da implan­ta­ção da pri­meira UPP, na favela Santa Marta), o mer­cado do Funk movi­menta men­sal­mente no estado do Rio de Janeiro, só de salá­rios pagos, R$ 1 bilhão e meio de reais, entre MCs, Camelôs, DJs e equi­pes de som. Um MC pode ganhar, por mês, R$ 5.863,68. Se os shows forem em outros esta­dos, o fatu­ra­mento ultra­passa os R$ 17 mil. Só os MCs movi­men­tam mais de R$ 5 milhões e meio por mês na eco­no­mia flu­mi­nense.

Além de crime, é coisa de vaga­bunda? Todos podem can­tar “Ai se eu te pego. Delí­cia, assim você me mata!”, mas a letra não é sobre sexo, não é ver­dade?

Pre­firo can­tar…

Tô mor­rendo de von­tade de te agar­rar
Não sei quanto tempo mais vou supor­tar
Mas pra gente se encon­trar nin­guém pode saber
Já pen­sei e sei o que devo fazer
O jeito é dar uma fugi­di­nha com você
O jeito é dar uma fugida com você
Se você quer saber o que vai acon­te­cer
Pri­meiro a gente foge, depois a gente vê.”

…só que usando fodi­di­nha ao invés de fugi­di­nha. 😉

Cecília Olliveira
Jornalista e pesquisadora, com especialização em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, é coordenadora de comunicação do Law Enforcement Against Prohibition - LEAP Brasil.

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