Presidente é vidraça, sempre – independente de partido, ideologia, raça, gênero e, last but not least, corte de cabelo. O Poder Executivo deve ser sempre o alvo primordial da crítica e da sátira, independente se ele está acertando ou errando. Porque um dos maiores perigos que uma civilização democrática corre é assistir a seu poder máximo usufruindo de blindagem, é vê-lo poupado de questionamentos, é testemunhar sua unção como figura pública preservada do escárnio. Porque este é o primeiro passo para estabelecer a mais hedionda das instituições políticas modernas: o culto à personalidade.

“Crítica” aqui não se refere à oposição parlamentar, que já o faz via protocolo constitucional. Crítica aqui é aquela formatada pelo humor, e vinda dos meios de expressão legítimos da coletividade. Aristófanes, que cinco séculos antes de Cristo já lançava os fundamentos da crítica ao poder político, dizia que qualquer humor que não seja do contra já o é a favor e, por tabela, beneficia o poder constituído. E poder constituído que não possa ser fustigado, zoado pela sociedade, é poder imposto. É arbitrário. É antidemocrático. É seita. É religião.

Portanto, bem-vindo, Michel Temer, à condição de vidraça. Seu primeiro ato ao assumir a presidência será o de revestir-se da condição de alvo de esculhambação, porque é assim que uma sociedade sadia funciona. Você, na presidência, será alvo de petardos de quem até ontem dirigia afagos à presidência. Mas também será alvo de petardos de quem muito antes de hoje já vinha disparando petardos na presidência, e era chamado de golpista. É do jogo.

Portanto, aguenta, Temer. Vamos cuidar pra que você seja bombardeado como nunca foi, em seus tempos de cátedra ou de parlamento. E se antes desses 180 dias por algum revés processual Dilma retornar, a gente prossegue com as pedradas, sem problema.

Só mudaremos o endereço do destinatário.


Seja patrono do AZ para mais artigos como este.
CLIQUE AQUI e escolha sua recompensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode querer ler também:

O “isentão” e a mania de tirar o governo da reta
O golpe midiático contra Dilma é real?

escrito por:

Nelson Moraes

Almirante de quatro costados (todos eles disponíveis para uso publicitário), é especialista em pescar pérolas e distribuí-las sem dar crédito às ostras.