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O que precisamos é de escolas!” Será?

Em Consciência, Série Educação por Danilo ŠvágeraComentário

Den­tre as temá­ti­cas que regem nosso coti­di­ano, pro­va­vel­mente a que mais tenha me sus­ci­tado refle­xões seja a edu­ca­ção, prin­ci­pal­mente seus fun­da­men­tos — ou seja, as bases e carac­te­rís­ti­cas pró­prias do edu­car. É o que na Uni­ver­si­dade cha­ma­mos de “Filo­so­fia da Edu­ca­ção”. Tal como na Filo­so­fia dita “pura”, o obje­tivo dessa busca é levan­tar­mos ques­tões fun­dan­tes (ou bási­cas, de ‘raiz’) sobre o mundo (no caso, edu­ca­tivo) e ten­tar­mos, por meio da aná­lise argu­men­ta­tiva, com­pre­en­der o fenô­meno.

Algu­mas per­gun­tas deste tipo são: O que é edu­ca­ção? Como edu­car? Para que edu­car? Como edu­car o edu­ca­dor? Como ir além do ‘aqui agora’ e tor­nar o aluno um crí­tico do espaço que o cerca? Prin­ci­pal­mente, são ques­tões que todo pro­fes­sor deve­ria se colo­car a pen­sar, vez em quando.

Bra­da­mos, quando um momento de crise nos aco­mete ou assis­ti­mos estar­re­ci­dos dis­cur­sos gover­na­men­tais sem uma pro­pí­cia base lógica, que “pre­ci­sa­mos de mais esco­las e edu­ca­ção!”. Mas será que esse grito eco­ando ‘na rua do sos­sego” é uma ver­dade? Não, lhes garanto. Mas por qual motivo?

Sim­ples. Por­que não é ampli­ando o acesso à edu­ca­ção que tere­mos uma boa edu­ca­ção. Não é maxi­mi­zando esco­las, alu­nos, pro­fes­so­res, que fare­mos qual­quer mudança sig­ni­fi­ca­tiva no âmbito peda­gó­gico. Mas, sim, ini­ci­ando uma mudança nas pró­prias bases da edu­ca­ção. E daí vol­ta­mos ao iní­cio deste texto – pois, sem uma estru­tu­ra­ção em toda forma de fazer­mos edu­ca­ção, ainda esta­re­mos a ensi­nar o mesmo para os mes­mos.

Já que o papel da filo­so­fia não é “dar” solu­ções, e sim pri­mei­ra­mente pro­ble­ma­ti­zar (oras, sem saber­mos o que mudar, de que adi­an­ta­ria come­çar­mos uma mudança?), irei expor alguns dos pon­tos neces­sá­rios para aten­tar­mos. Nes­ses qua­tro bási­cos pas­sos lan­ça­re­mos luz em outros inú­me­ros pro­ble­mas atu­ais que colo­cam as esco­las como meras deten­to­ras de huma­nos, e não de pen­sa­men­tos.

1. A escola está defasada.

Quando inú­me­ros pen­sa­do­res levam a edu­ca­ção a sério, uma das reflexões/constatações mais comuns (e mais gra­ves) é que a escola está no século XIX, o pro­fes­sor no século XX e o estu­dante… bem, no século XXI. E isso é fato.

Han­nah Arendt nos dizia, em seu pri­mo­roso ensaio “Crise na Edu­ca­ção”, que há um cho­que de gera­ções no ambi­ente esco­lar. Segundo a pen­sa­dora, pre­ci­sa­mos de con­ser­var cer­tos aspec­tos cul­tu­rais, e os agen­tes edu­ca­ci­o­nais “de outra gera­ção” (leia-se pro­fes­so­res) esta­riam lá para isso. Mas temos de con­ci­liar esses agen­tes, ela argu­menta, com os agen­tes do futuro. A tra­di­ção tem seus pon­tos for­ma­ti­vos belos, porém trans­cen­der pon­tos ultra­pas­sa­dos é uma tarefa árdua e neces­sá­ria.

2. As escolas são paredes, e educar é algo muito maior.

A edu­ca­ção tem tra­ços ine­ren­tes ao seu fazer. É um pro­cesso expo­nen­cial, pois quanto mais se educa, mais há a neces­si­dade de con­ti­nuar no ato inves­ti­ga­tivo. Dessa carac­te­rís­tica, surge a noção de edu­ca­ção como um pro­cesso con­tí­nuo e ina­ca­bado.

Nin­guém para, jamais, de apren­der: o con­tato com o mundo nos coloca em pro­cesso con­tí­nuo de edu­car-nos. A escola, por­tanto, é somente um dos espa­ços onde ocorre esse ato. Por isso mesmo ela não pode ser con­si­de­rada como único espaço for­ma­tivo. Mas qual a impor­tân­cia da escola, já que foi cons­truída his­to­ri­ca­mente e pos­sui diver­sas alte­ra­ções no seu âmago? Escola não é estri­ta­mente um local onde as aulas são leci­o­na­das. É um espaço em que ocor­rem inte­ra­ções psi­cos­so­ci­ais entre seres diver­sos, que pos­suem his­tó­rias dis­tin­tas e, por­tanto, sub­je­ti­vi­da­des dife­ren­tes.

3. O professor pode conhecer algo, mas não detêm todos os saberes.

O pro­fes­sor, que em sua raiz eti­mo­ló­gica guarda o verbo pro­fes­sar, é uma das figu­ras que deve­ria estar em cons­tante alte­ra­ção em um mundo em alte­ra­ção. Mas não está. Sim­ples­mente por­que ainda de regra o pro­fes­sor se crê o dono de uma ver­dade ina­ba­lá­vel, con­cisa, única. Bem, em um mundo em transform(ação), os conhe­ci­men­tos já estão em outra ordem e em outra velo­ci­dade (vide ponto 4).

Caso os pro­fes­so­res não ajam como ori­en­ta­do­res, ques­ti­o­na­do­res, moti­va­do­res, serão suplan­ta­dos rapi­da­mente pela gama de infor­ma­ções que o mundo atual nos reserva (cabe uma aci­dez básica, con­ve­nha­mos: quan­tos pro­fes­so­res não pro­cla­mam “ah, no meu tempo! Essa gera­ção, essa gera­ção é per­dida!” Fiquem tran­qui­los, caros estu­dan­tes… os pro­fes­so­res deles diziam o mesmo, e assim cami­nha a huma­ni­dade).

4. Os tempos são outros, os estudantes também.

Se há algo em que Herá­clito acer­tou em cheio foi quanto à muta­bi­li­dade do real. Sim, os tem­pos muda­ram e, com ele, tam­bém os estu­dan­tes e o modo de ser-estar. Por­tanto, não adi­anta que­rer­mos agir da mesma forma com nos­sos estu­dan­tes (nem dese­jar­mos que eles se tor­nem “mini-nós”). Por­que, sobre­tudo, não tere­mos êxito.

Se há algo que me fas­cina é que, pela pri­meira vez na his­tó­ria, os jovens são os donos e deten­to­res dos meios de comu­ni­ca­ção. Sim, a inter­net é algo de domí­nio jovem (para tanto, leve em con­si­de­ra­ção a idade de gran­des nomes do mundo vir­tual e verão o que estou falando). Incen­ti­var o novo, desa­fiar, trans­cen­der o óbvio… essa é a tônica do mundo atual. Fazer com que fiquem ali­nha­dos, em cadei­ras (con­for­tá­veis ou não), não trará, cer­ta­mente, uma nova forma de ver o mundo.

Lanço uma refle­xão (ou mais uma, como qui­se­res): sabe aquele estu­dante que está a olhar para o lado de fora, durante uma aula, pen­sa­tivo? Ele não está come­tendo nenhuma deso­be­di­ên­cia, nenhuma indis­ci­plina… ele está encan­tado com outro mundo – que você ainda não pôde ofe­re­cer a ele. Pense nisso.


Bem, já deu pra notar que a Edu­ca­ção traz con­sigo várias impor­tan­tes refle­xões (que terão ‘reflexo’ na nossa vida como um todo!). O pro­fes­sor que almeja se tor­nar edu­ca­dor deve se aten­tar para esse fato, trans­cen­dendo a inge­nui­dade de crer lidar com ”recep­to­res de conhe­ci­mento”. Lem­bre­mos que somente demos o start num número gigante de refle­xões pos­sí­veis… agora são vocês que irão con­ti­nuar a tra­ves­sia inves­ti­ga­tiva.

Com orgu­lho sou edu­ca­dor, agente edu­ca­tivo e for­ma­tivo. Não dete­nho ”o” saber, mas sim ”uma par­cela” de ”um” saber que pode, em con­junto com outros sabe­res, trans­for­mar rea­li­da­des! Avante.


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Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação - ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: "ser e não estar professor".

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