Dentre as temáticas que regem nosso cotidiano, provavelmente a que mais tenha me suscitado reflexões seja a educação, principalmente seus fundamentos – ou seja, as bases e características próprias do educar. É o que na Universidade chamamos de “Filosofia da Educação”. Tal como na Filosofia dita “pura”, o objetivo dessa busca é levantarmos questões fundantes (ou básicas, de ‘raiz’) sobre o mundo (no caso, educativo) e tentarmos, por meio da análise argumentativa, compreender o fenômeno.

Algumas perguntas deste tipo são: O que é educação? Como educar? Para que educar? Como educar o educador? Como ir além do ‘aqui agora’ e tornar o aluno um crítico do espaço que o cerca? Principalmente, são questões que todo professor deveria se colocar a pensar, vez em quando.

Bradamos, quando um momento de crise nos acomete ou assistimos estarrecidos discursos governamentais sem uma propícia base lógica, que “precisamos de mais escolas e educação!“. Mas será que esse grito ecoando ‘na rua do sossego” é uma verdade? Não, lhes garanto. Mas por qual motivo?

Simples. Porque não é ampliando o acesso à educação que teremos uma boa educação. Não é maximizando escolas, alunos, professores, que faremos qualquer mudança significativa no âmbito pedagógico. Mas, sim, iniciando uma mudança nas próprias bases da educação. E daí voltamos ao início deste texto – pois, sem uma estruturação em toda forma de fazermos educação, ainda estaremos a ensinar o mesmo para os mesmos.

Já que o papel da filosofia não é “dar” soluções, e sim primeiramente problematizar (oras, sem sabermos o que mudar, de que adiantaria começarmos uma mudança?), irei expor alguns dos pontos necessários para atentarmos. Nesses quatro básicos passos lançaremos luz em outros inúmeros problemas atuais que colocam as escolas como meras detentoras de humanos, e não de pensamentos.

1. A escola está defasada.

Quando inúmeros pensadores levam a educação a sério, uma das reflexões/constatações mais comuns (e mais graves) é que a escola está no século XIX, o professor no século XX e o estudante… bem, no século XXI. E isso é fato.

Hannah Arendt nos dizia, em seu primoroso ensaio “Crise na Educação”, que há um choque de gerações no ambiente escolar. Segundo a pensadora, precisamos de conservar certos aspectos culturais, e os agentes educacionais “de outra geração” (leia-se professores) estariam lá para isso. Mas temos de conciliar esses agentes, ela argumenta, com os agentes do futuro. A tradição tem seus pontos formativos belos, porém transcender pontos ultrapassados é uma tarefa árdua e necessária.

2. As escolas são paredes, e educar é algo muito maior.

A educação tem traços inerentes ao seu fazer. É um processo exponencial, pois quanto mais se educa, mais há a necessidade de continuar no ato investigativo. Dessa característica, surge a noção de educação como um processo contínuo e inacabado.

Ninguém para, jamais, de aprender: o contato com o mundo nos coloca em processo contínuo de educar-nos. A escola, portanto, é somente um dos espaços onde ocorre esse ato. Por isso mesmo ela não pode ser considerada como único espaço formativo. Mas qual a importância da escola, já que foi construída historicamente e possui diversas alterações no seu âmago? Escola não é estritamente um local onde as aulas são lecionadas. É um espaço em que ocorrem interações psicossociais entre seres diversos, que possuem histórias distintas e, portanto, subjetividades diferentes.

3. O professor pode conhecer algo, mas não detêm todos os saberes.

O professor, que em sua raiz etimológica guarda o verbo professar, é uma das figuras que deveria estar em constante alteração em um mundo em alteração. Mas não está. Simplesmente porque ainda de regra o professor se crê o dono de uma verdade inabalável, concisa, única. Bem, em um mundo em transform(ação), os conhecimentos já estão em outra ordem e em outra velocidade (vide ponto 4).

Caso os professores não ajam como orientadores, questionadores, motivadores, serão suplantados rapidamente pela gama de informações que o mundo atual nos reserva (cabe uma acidez básica, convenhamos: quantos professores não proclamam “ah, no meu tempo! Essa geração, essa geração é perdida!” Fiquem tranquilos, caros estudantes… os professores deles diziam o mesmo, e assim caminha a humanidade).

4. Os tempos são outros, os estudantes também.

Se há algo em que Heráclito acertou em cheio foi quanto à mutabilidade do real. Sim, os tempos mudaram e, com ele, também os estudantes e o modo de ser-estar. Portanto, não adianta querermos agir da mesma forma com nossos estudantes (nem desejarmos que eles se tornem “mini-nós”). Porque, sobretudo, não teremos êxito.

Se há algo que me fascina é que, pela primeira vez na história, os jovens são os donos e detentores dos meios de comunicação. Sim, a internet é algo de domínio jovem (para tanto, leve em consideração a idade de grandes nomes do mundo virtual e verão o que estou falando). Incentivar o novo, desafiar, transcender o óbvio… essa é a tônica do mundo atual. Fazer com que fiquem alinhados, em cadeiras (confortáveis ou não), não trará, certamente, uma nova forma de ver o mundo.

Lanço uma reflexão (ou mais uma, como quiseres): sabe aquele estudante que está a olhar para o lado de fora, durante uma aula, pensativo? Ele não está cometendo nenhuma desobediência, nenhuma indisciplina… ele está encantado com outro mundo – que você ainda não pôde oferecer a ele. Pense nisso.


Bem, já deu pra notar que a Educação traz consigo várias importantes reflexões (que terão ‘reflexo’ na nossa vida como um todo!). O professor que almeja se tornar educador deve se atentar para esse fato, transcendendo a ingenuidade de crer lidar com ”receptores de conhecimento”. Lembremos que somente demos o start num número gigante de reflexões possíveis… agora são vocês que irão continuar a travessia investigativa.

Com orgulho sou educador, agente educativo e formativo. Não detenho ”o” saber, mas sim ”uma parcela” de ”um” saber que pode, em conjunto com outros saberes, transformar realidades! Avante.


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escrito por:

Danilo Švágera

Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação – ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: “ser e não estar professor”.


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