Será que tudo já foi dito sobre a tragédia do Guarujá?

Gostaria de compartilhar aqui algumas reflexões que derivam do caso, e que nos conduzem talvez para além dele. Afinal, a morte brutal por linchamento, idealizada e executada por “cidadãos” comuns, nos esfrega algumas duras realidades na cara.

Ao contrário do que aparenta e do que muitos teóricos fincados no positivismo afirmam, a vida em sociedade está longe de caminhar no sentido de um progresso linear inexorável. Convivemos com a barbárie cotidianamente. No entanto, ela está enlameada nos submundos da invisibilidade social, de onde o interesse coletivo por vezes desentranha fatos para horrorizar-se de forma quase catártica, como que para se purgar de seu brutal desinteresse habitual. A base da sociedade capitalista de mercado (para ficar em nosso modelo hegemônico) é a história dos vencedores, onde os vencidos são a-históricos, varridos para debaixo do tapete.

Denúncias sem materialidade parecem não ter o peso do “real” objetivo. Ou seja, milhares de mulheres que sofrem violência todos os dias ou jovens assassinados nos quatro cantos do país significam, a grosso modo, apenas estatísticas, até ganharem corpo.

Fotojornalista assassinado em Cali, na Colômbia. 25/01/2002. Foto: Juan B. Diaz/Reuters fonte: Blog do Estadão
Fotojornalista assassinado em Cali, Colômbia. 25/01/2002. Foto: Juan B. Diaz/Reuters fonte: Blog do Estadão

Casos como esse do linchamento no Guarujá dão transparência ao sistema, expõem suas chagas e deficiências. Atualmente, na maioria das vezes, as “brechas” na programação são possíveis graças a algum meio de comunicação, seja uma câmera, um gravador de áudio ou um vazamento de dados confidenciais (como nos casos do Snowden e Wikileaks).

Parece o triunfo da sociedade do espetáculo ou do hiperespetáculo, na qual o real depende da significação midiática para existir.

Mas podemos romper com o tecnodeterminismo se questionarmos os usos destes produtos midiáticos e sociais, pois há um fator humano presente. Fator humano que diferencia um Datena de um Assange, por exemplo.

Não vou questionar a validade da sociedade da informação ou analisar se o acesso à produção e veiculação de conteúdo nos conduz à barbárie ou à evolução, quero apenas falar sobre a consciência e a responsabilidade coletiva sobre esse espaço. Será que todos somos igualmente responsáveis?

Talvez sim, mas a disputa de poder em diferentes dimensões não deixou de existir só porque inventamos a conexão 3G. Talvez ainda mais fluídos do que na estrutura burocrática anterior, os poderes estão difusos, etéreos, mas ainda podem ser mapeados. A queda de braço entre as grandes empresas de conteúdo da internet e os governos nacionais é um exemplo em que o balcão de negociação e apostas geopolíticas ganha visibilidade. Há uma discussão clara sobre essas dimensões posta sobre a mesa. Ela permeou a aprovação do marco civil da internet e permeia outros dois debates importantíssimos.

O primeiro é a regulamentação da comunicação midiática no Brasil, já prevista na constituição, mas ainda em fase de debate. Diferentes instituições são linha de frente nesse projeto, que versa sobre a possibilidade de controle social da mídia através de conselhos interdisciplinares formados por diferentes atores sociais: representantes de governos, movimentos sociais, organizações civis, empresas e grupos de interesse. Seria uma iniciativa aos moldes dos conselhos de educação, saúde, assistência social que já desempenham papéis imprescindíveis na concepção, planejamento e fiscalização das políticas públicas em diferentes níveis (municipal, estadual, federal).

A Busina foi o primeiro periódico jornalístico ilustrado da Bahia, circulou no final do século XIX
A Busina foi o primeiro periódico jornalístico ilustrado da Bahia, circulou no final do século XIX

O segundo debate trata sobre a profissionalização dos trabalhadores da comunicação. Afinal, é necessário profissionalizar pessoas para que atuem nos meios de comunicação? Que formação é essa? Como ela pode melhorar a qualidade dos serviços prestados? É claro que precisamos diferenciar, de antemão, a comunicação no contexto de uma fanpage amadora do de uma empresa jornalística, de um twitter pessoal do de uma indústria de telecomunicações. Não quero defender a necessidade de diploma para criar uma conta no Facebook, mas chamar atenção ao debate que está posto.

Após um ciclo de euforia com o acesso e participação na internet, parece que vivemos um momento de ressaca pós-traumática, em que temos que reinventar essas possibilidades de uma forma mais propositiva. Os cursos de jornalismo do Brasil passaram por uma recente reforma em relação a suas diretrizes curriculares. Embora polêmico, o novo texto tem uma dimensão de posicionar o jornalista como um profissional não só reprodutor de conhecimento, mas um ser ativo, autônomo, capaz de agir no campo comunicativo com independência. E, sobretudo, com responsabilidade.

É claro que parece uma visão romântica. Afinal, o jornalista depende das empresas que, por sua vez, dependem da viabilidade financeira – que, por seu turno, depende dos humores de governos e corporações. Mas a briga dos jornalistas ou dos comunicadores por regulamentação e profissionalização é de toda sociedade. Não podemos mais nos eximir desta disputa,  temos que cobrar. Essa não pode ser uma luta isolada de categorias profissionais ou de associações e fundações. Parece urgente ampliar esse diálogo a fim de ocupar os espaços com profissionalização, melhorando a qualidade dos profissionais, obviamente, mas criando, também, as condições necessárias in loco.

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Se a informação é uma das principais commodities da atualidade, e se ela circula gratuitamente de forma irrestrita e global, precisamos aprender a questionar seus processos, suas formas de significação, seus níveis de opacidade e de transparência. Assim como todos são um pouco médicos com a ajuda do Dr. Google, ou advogados com a leitura de jurisprudência on-line, é tempo de entendermos um pouco mais de Comunicação, de sua ciência e de sua luta por legitimidade nas áreas de pesquisa e nos diversos campos profissionais correlatos.

Talvez essa incursão ajude a nos posicionar enquanto consumidores e, principalmente, enquanto cidadãos comunicativos, ou seja, sujeitos que utilizam com autonomia e consciência seus espaços de comunicação e que valorizam como bem público o trabalho de mediação e produção responsável de informação. Sem essa diferenciação entre comunicação profissional responsável e liberdade total e irrestrita, corremos o risco de criar um universo superpovoado de dados menos transformadores e mais obscurantistas.

O caso do Guarujá é ao mesmo tempo tragédia e evento midiático. Sua exibição e reprodução pura e simples não evita novas ocorrências, é necessária uma reflexão pública aprofundada, complexa e bem arejada entre os meios de comunicação. A quem cabe viabilizar essa tarefa?

escrito por:

Felipe Gue Martini