I. Um passeio à Modernidade

Bom, para introduzir um pouco a galera sobre o que estamos falando, acho legal voltarmos um pouco na história e falarmos sobre a modernidade, momento que antecede o pós modernismo¹.

Vamos calibrar o cursor do tempo pro século XIX. O século XIX se caracteriza principalmente pela Primeira Revolução Industrial. O homem começa a mudar a forma como vê a si mesmo. A ciência passa a ser uma grande resposta para as questões do mundo, e não mais deus. Estamos rompendo com os paradigmas religiosos. A produção humana está a todo vapor: enquanto Darwin elucida a Teoria das Espécies, o mundo se torna cada vez mais urbano e menos rural. Surge o positivismo e o materialismo histórico, duas formas de pensar o mundo através da ciência e da rejeição do modelo metafísico (leia um pouco mais aqui: https://goo.gl/WrMOzF).

A população europeia mais que dobrou, porque agora podemos prevenir doenças bem melhor que antes. Construímos ferrovias e o imperialismo conquista mais territórios. A escravidão é abolida no mundo. Temos diversas revoluções, mais precisamente nas décadas de 20, 30 e 48.

As pessoas estavam sendo expulsas do campo para as cidades a fim de possibilitar a expansão das fábricas. Os laços de servidão entre senhor e escravo começam a se desfazer: agora, o indivíduo entra em uma nova relação de troca entre mercadoria e força de trabalho. O Estado também deixa de ser explicado por uma escolha divina.

Quando saímos do século XIX e entramos no século XX, temos a Primeira Guerra Mundial, em 1914. A ciência continua a todo vapor e os EUA se tornam potência industrial. A produção em massa (fordismo) e a consolidação das malhas ferroviárias fez com que todo produto chegasse a todo lugar com uma facilidade enorme. É o chamado Século Sangrento: duas guerras mundiais, Revolução Russa, greve geral no Brasil, quebra da bolsa de Nova York, Guerra Fria, entre várias outras guerras e revoltas.

Nesse século, um dos mais “longos” da história, o comunismo, por exemplo, surge como alternativa para a exploração capitalista das fábricas. Com um aumento da produção, houve um aumento do consumo e da exploração dos trabalhadores, que começaram a se organizar em sindicatos para exigir melhores condições. O trabalhador consegue enxergar os grilhões que o prende.

Estamos na “era das ideologias totalizantes”. Procuramos cada vez mais respostas em ideologias não fantasiosas, sem referenciar seres de outros mundos, mas a própria humanidade. Essas ideologias culminam em movimentos sociais revolucionários que transformaram a ordem política e social das coisas.

Os jornais se difundiram, apoiados pela diminuição da taxa de alfabetização. O vazio deixado pela destruição abrupta do estilo de vida tradicional e pelo abandono das visões religiosas de mundo foi ocupado por essas ideologias.

Nessa época, todo o avanço tecnológico e científico levou o mundo a romper com as ordens vigentes e questionar os conceitos que já existiam.

O modernismo surge como movimento de recusa, de redescoberta do mundo; quebra conceitos, crenças e paradigmas. As pessoas estão preocupadas com o que conhecem e podem conhecer. É um movimento que prega um exame crítico da razão, num mundo com uma forte tendência às mudanças (lembre-se: estamos numa era de inovações, tudo muda a todo instante).

Há uma crença muito forte de que o mundo pode ser mudado através do homem. Transformar a história é possível. Esse mundo globalizado faz com que surja centenas de pluralidades. O homem é o centro do universo, mas não só isso: ele é o ativo que modifica a natureza e a sociedade, e não mais um ser divino. Assim, a existência de pobres e ricos não se baseia mais numa escolha de deus, mas numa distribuição desigual de riquezas do ser humano; o governante não está no poder por ser escolhido por deus, mas porque os cidadãos assim decidiram.

Podemos concluir, então, que o modernismo é um movimento que enxerga o homem basicamente através de 3 lentes:

(I) O homem como sujeito autônomo, auto suficiente, transformador da própria história: o “eu” no centro;
(II) O homem como sujeito portador de uma liberdade individual;
(III) O homem como sujeito subjetivo.

II. Contexto histórico e definição

É extremamente difícil definir o que é pós modernismo², porque é um movimento inconstante e nada homogêneo.

Peço que, a partir daqui, entendam-o não apenas como um movimento de rejeição política, mas como uma forma de ver o mundo, a vida, a arte, a moral e etc.

A pós modernidade se posiciona como superação da modernidade e das grandes narrativas (como capitalismo e socialismo). É um movimento de ruptura com a própria modernidade e sua busca pelo progresso constante, onde o mundo a cada instante está “se desenvolvendo/seguindo em frente”.

O homem está desencantado com todas as ideologias totalizantes que prometem um novo mundo, e já não acredita que verá ainda em vida uma transformação dele. Quando o movimento operário passa a integrar o próprio Estado e a ser ouvido por ele, o fervor revolucionário cai e vira apenas a necessidade de uma reforma.

O ser humano passa a rejeitar qualquer posição extrema, tanto à direita quanto à esquerda. Descarta-se a ideia de uma revolução, porque esse homem está desacreditado tanto do capitalismo quanto do socialismo devido a todas as experiências socialistas que “caíram”. Fazendo uma analogia bem besta, com a queda do Muro de Berlim, cai também a perspectiva de um futuro diferente.

O capitalismo é, então, o único sistema possível, sem alternativas. E se há alguma alternativa plausível, ela será cunhada pelas 10 gerações futuras, não pela nossa.

No pós modernismo, há uma pluralidade exacerbada de novas visões de mundo e centenas de “terceiras vias” — não mais apenas socialismo e capitalismo. Surge um desencanto por verdades absolutas universais. Não há mais razão, não há mais verdade: há centenas de milhares de razões e centenas de milhares de verdades.

O individualismo e a subjetividade do ser humano é estendido, porque cada uma dessas verdades se encontram em cada ser humano.

Historicamente, estamos em uma era consumista, apoiada pela Internet e pelo alto fluxo de informações. A demanda é criada, surgem os templos de consumo (shopping centers); a publicidade vende desejo, não necessidade. Agora, não importa mais quem você é, ou o que você sabe, mas o que você tem. Paradoxalmente, no sentido contrário, a desigualdade social, o desemprego e a miséria continuam presentes.

A ciência progride consideravelmente, aumenta a média de expectativa de vida das pessoas (o homem não vive para consumir mais, mas também para trabalhar mais), ao mesmo tempo, em que novas armas de destruição em massa são desenvolvidas e nunca houve tanta informação ao alcance das pessoas. Desconfia-se de tudo, inclusive da própria ciência.

O mundo está sempre sendo problematizado.

Tudo é questionado e submetido a várias interpretações. Nenhuma perspectiva está correta, pois todas são corretas ao mesmo tempo.

No pós modernismo, abandona-se as ideias claras e distintas, as definições diretas. Cultua-se o relativismo a tudo e uma recusa a qualquer princípio ou regra socialmente aceita.

Numa sociedade onde tudo é consumo e tudo é mercado, o outro vira ameaça. Os conflitos sociais anteriores foram substituídos por guerras culturais. O multiculturalismo não encontra barreiras ou limites.

Cada um faz o que é melhor para si mesmo e se fecha em sua subjetividade. Há uma busca por autoridade própria; cada grupo tem o direito de falar por si mesmo, e de ter essa voz respeitada. Rejeita-se o pensamento autoritário e celebra-se o corpo como palco de expressão dessa subjetividade.

Com o desaparecimento das perspectivas de futuro, da utopia das ideologias totalizantes, resta ao homem viver o presente. Ele busca constantemente entender quem ele é, daí a corrida pela auto identificação. O homem vive para si mesmo, e não importa o outro e seu sofrimento.

O pessimismo e o sentimento de frustração em relação à transformação do mundo leva a humanidade à entender que apenas sua descoberta pode oferecer uma realização humana.

Sendo assim, os valores que o pós modernismo prega são:

(I) Relativismo: tudo é verdade, depende do ponto de vista;
(II) Subjetividade: tudo é verdade porque cada homem é um ser independente e sujeito de si mesmo;
(III) Prazer imediato: o agora substitui as preocupações com o amanhã;
(IV) A identidade sobre a razão;
(V) Individualismo quase narcisista:
o indivíduo é a referência.

III. Crítica: pós modernismo e movimentos sociais

Ok, mas o que isso tem a ver com as pessoas xingando umas as outras no facebook?

Tudo.

Tirando o fato de que “pós moderno” virou um xingamento, onde pessoas acusam as outras dependendo do ponto de vista, conseguimos relacionar os dois casos através de uma simples observação.

Nos atuais movimentos sociais, cultua-se o relativismo de conceitos que antes eram extremamente objetivos. Esses dias, eu estava em um debate e li uma colega comentando que “não posso afirmar o que é racismo, cada um tem sua própria definição”. Isso é completamente absurdo, racismo possui uma definição clara: tratar uma etnia como sendo inferior à outra (normalmente, índios e negros por brancos).

A completa busca por uma auto identificação e subjetividade dos conceitos se mostra de forma clara através da teoria queer: o que é ser homem e o que é ser mulher não possui mais limites, porque cada um vai saber o que é ser homem e o que é ser mulher e cada um vai buscar esses conceitos em si mesmo. Construiu-se uma aversão tão grande ao positivismo que se transformou em uma aversão à própria ciência, e também à realidade material (já vi pessoas do meio trans dizerem que odeiam a biologia, pelo simples fato de serem transexuais; confesso que fiquei estarrecido.)

A frustração perante uma transformação radical do mundo fez com que uma luta geral por transformação social disruptiva se quebrasse em “pequenas” lutas, onde cada um fala por si e ninguém fala por ninguém. Então, temos 7 bilhões de lutas diferentes e nenhuma que de fato se propõe a romper com o Capital, mas a negociar direitos com ele.

Isso ocorre porque busca-se não mais uma trajetória, mas uma realização presente, atual. O agora é que fala mais alto. Viver é o que realmente importa, porque a revolução pode ocorrer? Até pode, mas lá pros nossos filhos e netos, quem sabe…

Para concluir, gostaria que abandonássemos a rigidez conceitual e voltássemos nas 5 características do pós modernismo para fazermos uma ponte bem humorada com os exemplos e os jargões da internet.

Quando falamos de relativismo, podemos lembrar dos casos em que as pessoas fazem perguntas como “o que é ser mulher?”, “o que é ser homem?”, “o que é ser negro?”.

A subjetividade alia-se ao primeiro conceito e aparece quando lemos pessoas dizendo “o que é racismo pra você pode não ser racismo pra mim”.

O imediatismo surge quando pensamos não na destruição do machismo, por exemplo, como ação do agora, mas como perspectiva futura e bem distante, restando ao movimento apenas a possibilidade de “remendá-lo” ou “punir” parte da sociedade que participa dessa lógica. Me lembra o caso da Marcha das Vadias, onde basicamente se diz que “ok, você não vai deixar de me chamar de vadia, então eu vou assumir esse termo com orgulho”.

A identidade sobre a razão aparece nos casos como “lugar de fala”, “vivência”, “protagonismo” e “silenciamento”, que falaremos no próximo tópico.

E o individualismo, beirando o narcisismo, se demonstra muito no conceito de “empoderamento”, que se mostra basicamente numa competição de selfies e de quem ganha mais likes com essas fotos.

IV. Top 3 falácias

Gostaria de me estender às críticas diretas, mas acredito que o leitor já entendeu os principais pontos do texto. Então, tentarei ser sucinto ao me referir aos elementos mais frequentes nos movimentos sociais pós modernos:

1. Lugar de fala

Como já dito, os movimentos sociais passaram a entender que somente um indivíduo poderia falar por ele mesmo, porque “cada um é cada um”.

Lugar de fala basicamente é a concepção de que apenas os que sofrem com uma opressão podem falar sobre essa opressão. Isso até que faz sentido… só que não. A história nos prova o contrário. Muitos discursos pró negros foram feitos por não negros, assim como pró mulheres e muitos outros.

Numa lógica pós moderna, Gregório Duvivier não poderia convencer Fernando Holiday de que as cotas são boas para o Brasil porque Gregório é branco e Holiday é negro. Sendo assim, Holiday possui domínio da verdade quanto ao assunto quando debate com outros brancos, mas não necessariamente quando debate com outros negros (perceba a variância e o relativismo da própria verdade). Ele detém a verdade não pelo conhecimento que possui (razão), mas pelo o que ele simplesmente é (identidade).

Isso é falso. A verdade é a evidência dos fatos e do que é real.

Se conseguirmos provar por A + B que Fulano não foi racista, porque racismo, nesse contexto, é a crença de que brancos são melhores do que negros, então não há identidade alguma que distorça a razão.

As coisas não são porque alguém é, as coisas são porque se tornaram assim.

2. Vivência e protagonismo

Essa falácia se completa com a primeira, mas possui uma pegadinha: a princípio, todos podemos entender que uma luta de operários é feita por…operários. Uma luta de negros é composta por negros. Uma luta de mulheres é composta por mulheres. Mas não há uma relação de exclusividade.

O pós modernismo, buscando o sujeito individual, o conceito de “cada um no seu canto”, e lutando pelas migalhas que as lutas “recortadas” podem dar, afirma que “somente as mulheres podem protagonizar o movimento das mulheres” (por exemplo), mas nunca afirmam objetivamente o que significa protagonizar.

Se protagonizar remete ao fato de que os oprimidos conseguirão sua própria libertação, não solicitando gentilmente seus direitos, mas tomando-os porque são seus de fato, então está correto.

Se protagonizar significa que homens não podem lutar contra o machismo, por exemplo, então está fatalmente errado.

E só quem tem vivência pode falar sobre algo? Obviamente não. Há várias maneiras de se analisar um determinado fato, e não há nada que impeça que essa análise seja feita por qualquer pessoa.

Como exemplo, vou utilizar o caso do “Cidadão Weston”. John Weston era um operário inglês que defendia que os trabalhadores não deveriam lutar por aumento salarial. Basicamente, ele defendia o argumento de que uma queda nos salários representaria uma queda no preço geral das coisas. Marx, um não operário, proferiu em 1865 em um Congresso o que se tornaria posteriormente um texto chamado “Salário, Preço e Lucro”, que refuta as ideias do “cidadão Weston” (como ele o chamava) porque essas ideias careciam de bases científicas.

Se fosse hoje, em 2015, o cidadão Weston poderia se afirmar como possuidor da verdade por ser operário e ter vivência, além de solicitar que Marx não lhe roubasse um protagonista de luta, mesmo que suas ideias estivessem erradas.

Parece razoável pra você?

3. Silenciamento

Parafraseando uma amiga minha, Fernanda: “silenciamento pressupõe o silêncio”. Nada tão óbvio.

Normalmente essa falácia é utilizada quando os argumentos da outra pessoa são ruins. Também está relacionada à mais fiel crença pós moderna de que um oprimido tem autoridade total no que diz respeito à sua opressão, mesmo que os fatos demonstrem o contrário.

Então, se você demonstra esses fatos ou questiona, numa dialética natural, você está “silenciando” outra pessoa. Isso é mentira. Debates ocorrem e sempre ocorrerão, porque é a partir da contraposição de ideias diferentes que surgirão conclusões.

Só existe silenciamento se você, sei lá, exclui de um grupo ou corta o microfone da pessoa, por exemplo. Se alguém está de saco cheio de ouvir seus argumentos porque acredita que eles são falhos, então: a) ou você muda de alvo; b) ou você muda de argumentos.


V. Notas

¹Há um debate interessante sobre se o pós modernismo existiu ou não existiu, porque o “pós modernismo” nega a História (sendo o pós uma partícula que pressupõe um momento histórico). De qualquer forma, entenda pós modernismo como um conceito que surge para aprofundar e destruir alguns valores da modernidade.

²Pós modernismo, também conhecido como: Modernidade Tardia, Modernidade Avançada, Modernidade Líquida ou Segunda Modernidade.


VI. Referências

[1] http://www.vermelho.org.br/noticia/164223-11
[2] http://www.espacoacademico.com.br/035/35eraylima.htm
[3] http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/10103/10103_3.PDF
[4] http://tempossafados.blogspot.com.br/2013/02/historiografia-pos-moderna.html
[5] http://informecritica.blogspot.com.br/2011/05/modernidade-e-pos-modernidade.html


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escrito por:

Arthur Souza

Graduando em Engenharia de Produção pela UERJ, gonçalense, 20 anos, flamenguista fanático e apaixonado por heróis – desde HQs à vida real. Acredita numa educação horizontal e transformadora, que conecte pessoas e histórias. Apesar de tudo, tem um bom coração.