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O pós-modernismo e as falácias da internet

Em Comportamento, Consciência, História, Sociedade por Arthur SouzaComentários

I. Um passeio à Modernidade

Bom, para intro­du­zir um pouco a galera sobre o que esta­mos falando, acho legal vol­tar­mos um pouco na his­tó­ria e falar­mos sobre a moder­ni­dade, momento que ante­cede o pós moder­nis­mo¹.

Vamos cali­brar o cur­sor do tempo pro século XIX. O século XIX se carac­te­riza prin­ci­pal­mente pela Pri­meira Revo­lu­ção Indus­trial. O homem começa a mudar a forma como vê a si mesmo. A ciên­cia passa a ser uma grande res­posta para as ques­tões do mundo, e não mais deus. Esta­mos rom­pendo com os para­dig­mas reli­gi­o­sos. A pro­du­ção humana está a todo vapor: enquanto Darwin elu­cida a Teo­ria das Espé­cies, o mundo se torna cada vez mais urbano e menos rural. Surge o posi­ti­vismo e o mate­ri­a­lismo his­tó­rico, duas for­mas de pen­sar o mundo atra­vés da ciên­cia e da rejei­ção do modelo meta­fí­sico (leia um pouco mais aqui: https://goo.gl/WrMOzF).

A popu­la­ção euro­peia mais que dobrou, por­que agora pode­mos pre­ve­nir doen­ças bem melhor que antes. Cons­truí­mos fer­ro­vias e o impe­ri­a­lismo con­quista mais ter­ri­tó­rios. A escra­vi­dão é abo­lida no mundo. Temos diver­sas revo­lu­ções, mais pre­ci­sa­mente nas déca­das de 20, 30 e 48.

As pes­soas esta­vam sendo expul­sas do campo para as cida­des a fim de pos­si­bi­li­tar a expan­são das fábri­cas. Os laços de ser­vi­dão entre senhor e escravo come­çam a se des­fa­zer: agora, o indi­ví­duo entra em uma nova rela­ção de troca entre mer­ca­do­ria e força de tra­ba­lho. O Estado tam­bém deixa de ser expli­cado por uma esco­lha divina.

Quando saí­mos do século XIX e entra­mos no século XX, temos a Pri­meira Guerra Mun­dial, em 1914. A ciên­cia con­ti­nua a todo vapor e os EUA se tor­nam potên­cia indus­trial. A pro­du­ção em massa (for­dismo) e a con­so­li­da­ção das malhas fer­ro­viá­rias fez com que todo pro­duto che­gasse a todo lugar com uma faci­li­dade enorme. É o cha­mado Século San­grento: duas guer­ras mun­di­ais, Revo­lu­ção Russa, greve geral no Bra­sil, que­bra da bolsa de Nova York, Guerra Fria, entre várias outras guer­ras e revol­tas.

Nesse século, um dos mais “lon­gos” da his­tó­ria, o comu­nismo, por exem­plo, surge como alter­na­tiva para a explo­ra­ção capi­ta­lista das fábri­cas. Com um aumento da pro­du­ção, houve um aumento do con­sumo e da explo­ra­ção dos tra­ba­lha­do­res, que come­ça­ram a se orga­ni­zar em sin­di­ca­tos para exi­gir melho­res con­di­ções. O tra­ba­lha­dor con­se­gue enxer­gar os gri­lhões que o prende.

Esta­mos na “era das ide­o­lo­gias tota­li­zan­tes”. Pro­cu­ra­mos cada vez mais res­pos­tas em ide­o­lo­gias não fan­ta­si­o­sas, sem refe­ren­ciar seres de outros mun­dos, mas a pró­pria huma­ni­dade. Essas ide­o­lo­gias cul­mi­nam em movi­men­tos soci­ais revo­lu­ci­o­ná­rios que trans­for­ma­ram a ordem polí­tica e social das coi­sas.

Os jor­nais se difun­di­ram, apoi­a­dos pela dimi­nui­ção da taxa de alfa­be­ti­za­ção. O vazio dei­xado pela des­trui­ção abrupta do estilo de vida tra­di­ci­o­nal e pelo aban­dono das visões reli­gi­o­sas de mundo foi ocu­pado por essas ide­o­lo­gias.

Nessa época, todo o avanço tec­no­ló­gico e cien­tí­fico levou o mundo a rom­per com as ordens vigen­tes e ques­ti­o­nar os con­cei­tos que já exis­tiam.

O moder­nismo surge como movi­mento de recusa, de redes­co­berta do mundo; que­bra con­cei­tos, cren­ças e para­dig­mas. As pes­soas estão pre­o­cu­pa­das com o que conhe­cem e podem conhe­cer. É um movi­mento que prega um exame crí­tico da razão, num mundo com uma forte ten­dên­cia às mudan­ças (lem­bre-se: esta­mos numa era de ino­va­ções, tudo muda a todo ins­tante).

Há uma crença muito forte de que o mundo pode ser mudado atra­vés do homem. Trans­for­mar a his­tó­ria é pos­sí­vel. Esse mundo glo­ba­li­zado faz com que surja cen­te­nas de plu­ra­li­da­des. O homem é o cen­tro do uni­verso, mas não só isso: ele é o ativo que modi­fica a natu­reza e a soci­e­dade, e não mais um ser divino. Assim, a exis­tên­cia de pobres e ricos não se baseia mais numa esco­lha de deus, mas numa dis­tri­bui­ção desi­gual de rique­zas do ser humano; o gover­nante não está no poder por ser esco­lhido por deus, mas por­que os cida­dãos assim deci­di­ram.

Pode­mos con­cluir, então, que o moder­nismo é um movi­mento que enxerga o homem basi­ca­mente atra­vés de 3 len­tes:

(I) O homem como sujeito autô­nomo, auto sufi­ci­ente, trans­for­ma­dor da pró­pria his­tó­ria: o “eu” no cen­tro;
(II) O homem como sujeito por­ta­dor de uma liber­dade indi­vi­dual;
(III) O homem como sujeito sub­je­tivo.

II. Contexto histórico e definição

É extre­ma­mente difí­cil defi­nir o que é pós moder­nis­mo², por­que é um movi­mento incons­tante e nada homo­gê­neo.

Peço que, a par­tir daqui, enten­dam-o não ape­nas como um movi­mento de rejei­ção polí­tica, mas como uma forma de ver o mundo, a vida, a arte, a moral e etc.

A pós moder­ni­dade se posi­ci­ona como supe­ra­ção da moder­ni­dade e das gran­des nar­ra­ti­vas (como capi­ta­lismo e soci­a­lismo). É um movi­mento de rup­tura com a pró­pria moder­ni­dade e sua busca pelo pro­gresso cons­tante, onde o mundo a cada ins­tante está “se desenvolvendo/seguindo em frente”.

O homem está desen­can­tado com todas as ide­o­lo­gias tota­li­zan­tes que pro­me­tem um novo mundo, e já não acre­dita que verá ainda em vida uma trans­for­ma­ção dele. Quando o movi­mento ope­rá­rio passa a inte­grar o pró­prio Estado e a ser ouvido por ele, o fer­vor revo­lu­ci­o­ná­rio cai e vira ape­nas a neces­si­dade de uma reforma.

O ser humano passa a rejei­tar qual­quer posi­ção extrema, tanto à direita quanto à esquerda. Des­carta-se a ideia de uma revo­lu­ção, por­que esse homem está desa­cre­di­tado tanto do capi­ta­lismo quanto do soci­a­lismo devido a todas as expe­ri­ên­cias soci­a­lis­tas que “caí­ram”. Fazendo uma ana­lo­gia bem besta, com a queda do Muro de Ber­lim, cai tam­bém a pers­pec­tiva de um futuro dife­rente.

O capi­ta­lismo é, então, o único sis­tema pos­sí­vel, sem alter­na­ti­vas. E se há alguma alter­na­tiva plau­sí­vel, ela será cunhada pelas 10 gera­ções futu­ras, não pela nossa.

No pós moder­nismo, há uma plu­ra­li­dade exa­cer­bada de novas visões de mundo e cen­te­nas de “ter­cei­ras vias” — não mais ape­nas soci­a­lismo e capi­ta­lismo. Surge um desen­canto por ver­da­des abso­lu­tas uni­ver­sais. Não há mais razão, não há mais ver­dade: há cen­te­nas de milha­res de razões e cen­te­nas de milha­res de ver­da­des.

O indi­vi­du­a­lismo e a sub­je­ti­vi­dade do ser humano é esten­dido, por­que cada uma des­sas ver­da­des se encon­tram em cada ser humano.

His­to­ri­ca­mente, esta­mos em uma era con­su­mista, apoi­ada pela Inter­net e pelo alto fluxo de infor­ma­ções. A demanda é cri­ada, sur­gem os tem­plos de con­sumo (shop­ping cen­ters); a publi­ci­dade vende desejo, não neces­si­dade. Agora, não importa mais quem você é, ou o que você sabe, mas o que você tem. Para­do­xal­mente, no sen­tido con­trá­rio, a desi­gual­dade social, o desem­prego e a misé­ria con­ti­nuam pre­sen­tes.

A ciên­cia pro­gride con­si­de­ra­vel­mente, aumenta a média de expec­ta­tiva de vida das pes­soas (o homem não vive para con­su­mir mais, mas tam­bém para tra­ba­lhar mais), ao mesmo tempo, em que novas armas de des­trui­ção em massa são desen­vol­vi­das e nunca houve tanta infor­ma­ção ao alcance das pes­soas. Des­con­fia-se de tudo, inclu­sive da pró­pria ciên­cia.

O mundo está sem­pre sendo pro­ble­ma­ti­zado.

Tudo é ques­ti­o­nado e sub­me­tido a várias inter­pre­ta­ções. Nenhuma pers­pec­tiva está cor­reta, pois todas são cor­re­tas ao mesmo tempo.

No pós moder­nismo, aban­dona-se as ideias cla­ras e dis­tin­tas, as defi­ni­ções dire­tas. Cul­tua-se o rela­ti­vismo a tudo e uma recusa a qual­quer prin­cí­pio ou regra soci­al­mente aceita.

Numa soci­e­dade onde tudo é con­sumo e tudo é mer­cado, o outro vira ame­aça. Os con­fli­tos soci­ais ante­ri­o­res foram subs­ti­tuí­dos por guer­ras cul­tu­rais. O mul­ti­cul­tu­ra­lismo não encon­tra bar­rei­ras ou limi­tes.

Cada um faz o que é melhor para si mesmo e se fecha em sua sub­je­ti­vi­dade. Há uma busca por auto­ri­dade pró­pria; cada grupo tem o direito de falar por si mesmo, e de ter essa voz res­pei­tada. Rejeita-se o pen­sa­mento auto­ri­tá­rio e cele­bra-se o corpo como palco de expres­são dessa sub­je­ti­vi­dade.

Com o desa­pa­re­ci­mento das pers­pec­ti­vas de futuro, da uto­pia das ide­o­lo­gias tota­li­zan­tes, resta ao homem viver o pre­sente. Ele busca cons­tan­te­mente enten­der quem ele é, daí a cor­rida pela auto iden­ti­fi­ca­ção. O homem vive para si mesmo, e não importa o outro e seu sofri­mento.

O pes­si­mismo e o sen­ti­mento de frus­tra­ção em rela­ção à trans­for­ma­ção do mundo leva a huma­ni­dade à enten­der que ape­nas sua des­co­berta pode ofe­re­cer uma rea­li­za­ção humana.

Sendo assim, os valo­res que o pós moder­nismo prega são:

(I) Rela­ti­vismo: tudo é ver­dade, depende do ponto de vista;
(II) Sub­je­ti­vi­dade: tudo é ver­dade por­que cada homem é um ser inde­pen­dente e sujeito de si mesmo;
(III) Pra­zer ime­di­ato: o agora subs­ti­tui as pre­o­cu­pa­ções com o ama­nhã;
(IV) A iden­ti­dade sobre a razão;
(V) Indi­vi­du­a­lismo quase nar­ci­sista:
o indi­ví­duo é a refe­rên­cia.

III. Crítica: pós modernismo e movimentos sociais

Ok, mas o que isso tem a ver com as pes­soas xin­gando umas as outras no face­book?

Tudo.

Tirando o fato de que “pós moderno” virou um xin­ga­mento, onde pes­soas acu­sam as outras depen­dendo do ponto de vista, con­se­gui­mos rela­ci­o­nar os dois casos atra­vés de uma sim­ples obser­va­ção.

Nos atu­ais movi­men­tos soci­ais, cul­tua-se o rela­ti­vismo de con­cei­tos que antes eram extre­ma­mente obje­ti­vos. Esses dias, eu estava em um debate e li uma colega comen­tando que “não posso afir­mar o que é racismo, cada um tem sua pró­pria defi­ni­ção”. Isso é com­ple­ta­mente absurdo, racismo pos­sui uma defi­ni­ção clara: tra­tar uma etnia como sendo infe­rior à outra (nor­mal­mente, índios e negros por bran­cos).

A com­pleta busca por uma auto iden­ti­fi­ca­ção e sub­je­ti­vi­dade dos con­cei­tos se mos­tra de forma clara atra­vés da teo­ria queer: o que é ser homem e o que é ser mulher não pos­sui mais limi­tes, por­que cada um vai saber o que é ser homem e o que é ser mulher e cada um vai bus­car esses con­cei­tos em si mesmo. Cons­truiu-se uma aver­são tão grande ao posi­ti­vismo que se trans­for­mou em uma aver­são à pró­pria ciên­cia, e tam­bém à rea­li­dade mate­rial (já vi pes­soas do meio trans dize­rem que odeiam a bio­lo­gia, pelo sim­ples fato de serem tran­se­xu­ais; con­fesso que fiquei estar­re­cido.)

A frus­tra­ção perante uma trans­for­ma­ção radi­cal do mundo fez com que uma luta geral por trans­for­ma­ção social dis­rup­tiva se que­brasse em “peque­nas” lutas, onde cada um fala por si e nin­guém fala por nin­guém. Então, temos 7 bilhões de lutas dife­ren­tes e nenhuma que de fato se pro­põe a rom­per com o Capi­tal, mas a nego­ciar direi­tos com ele.

Isso ocorre por­que busca-se não mais uma tra­je­tó­ria, mas uma rea­li­za­ção pre­sente, atual. O agora é que fala mais alto. Viver é o que real­mente importa, por­que a revo­lu­ção pode ocor­rer? Até pode, mas lá pros nos­sos filhos e netos, quem sabe…

Para con­cluir, gos­ta­ria que aban­do­nás­se­mos a rigi­dez con­cei­tual e vol­tás­se­mos nas 5 carac­te­rís­ti­cas do pós moder­nismo para fazer­mos uma ponte bem humo­rada com os exem­plos e os jar­gões da inter­net.

Quando fala­mos de rela­ti­vismo, pode­mos lem­brar dos casos em que as pes­soas fazem per­gun­tas como “o que é ser mulher?”, “o que é ser homem?”, “o que é ser negro?”.

A sub­je­ti­vi­dade alia-se ao pri­meiro con­ceito e apa­rece quando lemos pes­soas dizendo “o que é racismo pra você pode não ser racismo pra mim”.

O ime­di­a­tismo surge quando pen­sa­mos não na des­trui­ção do machismo, por exem­plo, como ação do agora, mas como pers­pec­tiva futura e bem dis­tante, res­tando ao movi­mento ape­nas a pos­si­bi­li­dade de “remendá-lo” ou “punir” parte da soci­e­dade que par­ti­cipa dessa lógica. Me lem­bra o caso da Mar­cha das Vadias, onde basi­ca­mente se diz que “ok, você não vai dei­xar de me cha­mar de vadia, então eu vou assu­mir esse termo com orgu­lho”.

A iden­ti­dade sobre a razão apa­rece nos casos como “lugar de fala”, “vivên­cia”, “pro­ta­go­nismo” e “silen­ci­a­mento”, que fala­re­mos no pró­ximo tópico.

E o indi­vi­du­a­lismo, bei­rando o nar­ci­sismo, se demons­tra muito no con­ceito de “empo­de­ra­mento”, que se mos­tra basi­ca­mente numa com­pe­ti­ção de sel­fies e de quem ganha mais likes com essas fotos.

IV. Top 3 falácias

Gos­ta­ria de me esten­der às crí­ti­cas dire­tas, mas acre­dito que o lei­tor já enten­deu os prin­ci­pais pon­tos do texto. Então, ten­ta­rei ser sucinto ao me refe­rir aos ele­men­tos mais fre­quen­tes nos movi­men­tos soci­ais pós moder­nos:

1. Lugar de fala

Como já dito, os movi­men­tos soci­ais pas­sa­ram a enten­der que somente um indi­ví­duo pode­ria falar por ele mesmo, por­que “cada um é cada um”.

Lugar de fala basi­ca­mente é a con­cep­ção de que ape­nas os que sofrem com uma opres­são podem falar sobre essa opres­são. Isso até que faz sen­tido… só que não. A his­tó­ria nos prova o con­trá­rio. Mui­tos dis­cur­sos pró negros foram fei­tos por não negros, assim como pró mulhe­res e mui­tos outros.

Numa lógica pós moderna, Gre­gó­rio Duvi­vier não pode­ria con­ven­cer Fer­nando Holi­day de que as cotas são boas para o Bra­sil por­que Gre­gó­rio é branco e Holi­day é negro. Sendo assim, Holi­day pos­sui domí­nio da ver­dade quanto ao assunto quando debate com outros bran­cos, mas não neces­sa­ri­a­mente quando debate com outros negros (per­ceba a vari­ân­cia e o rela­ti­vismo da pró­pria ver­dade). Ele detém a ver­dade não pelo conhe­ci­mento que pos­sui (razão), mas pelo o que ele sim­ples­mente é (iden­ti­dade).

Isso é falso. A ver­dade é a evi­dên­cia dos fatos e do que é real.

Se con­se­guir­mos pro­var por A + B que Fulano não foi racista, por­que racismo, nesse con­texto, é a crença de que bran­cos são melho­res do que negros, então não há iden­ti­dade alguma que dis­torça a razão.

As coi­sas não são por­que alguém é, as coi­sas são por­que se tor­na­ram assim.

2. Vivência e protagonismo

Essa falá­cia se com­pleta com a pri­meira, mas pos­sui uma pega­di­nha: a prin­cí­pio, todos pode­mos enten­der que uma luta de ope­rá­rios é feita por…operários. Uma luta de negros é com­posta por negros. Uma luta de mulhe­res é com­posta por mulhe­res. Mas não há uma rela­ção de exclu­si­vi­dade.

O pós moder­nismo, bus­cando o sujeito indi­vi­dual, o con­ceito de “cada um no seu canto”, e lutando pelas miga­lhas que as lutas “recor­ta­das” podem dar, afirma que “somente as mulhe­res podem pro­ta­go­ni­zar o movi­mento das mulhe­res” (por exem­plo), mas nunca afir­mam obje­ti­va­mente o que sig­ni­fica pro­ta­go­ni­zar.

Se pro­ta­go­ni­zar remete ao fato de que os opri­mi­dos con­se­gui­rão sua pró­pria liber­ta­ção, não soli­ci­tando gen­til­mente seus direi­tos, mas tomando-os por­que são seus de fato, então está cor­reto.

Se pro­ta­go­ni­zar sig­ni­fica que homens não podem lutar con­tra o machismo, por exem­plo, então está fatal­mente errado.

E só quem tem vivên­cia pode falar sobre algo? Obvi­a­mente não. Há várias manei­ras de se ana­li­sar um deter­mi­nado fato, e não há nada que impeça que essa aná­lise seja feita por qual­quer pes­soa.

Como exem­plo, vou uti­li­zar o caso do “Cida­dão Wes­ton”. John Wes­ton era um ope­rá­rio inglês que defen­dia que os tra­ba­lha­do­res não deve­riam lutar por aumento sala­rial. Basi­ca­mente, ele defen­dia o argu­mento de que uma queda nos salá­rios repre­sen­ta­ria uma queda no preço geral das coi­sas. Marx, um não ope­rá­rio, pro­fe­riu em 1865 em um Con­gresso o que se tor­na­ria pos­te­ri­or­mente um texto cha­mado “Salá­rio, Preço e Lucro”, que refuta as ideias do “cida­dão Wes­ton” (como ele o cha­mava) por­que essas ideias care­ciam de bases cien­tí­fi­cas.

Se fosse hoje, em 2015, o cida­dão Wes­ton pode­ria se afir­mar como pos­sui­dor da ver­dade por ser ope­rá­rio e ter vivên­cia, além de soli­ci­tar que Marx não lhe rou­basse um pro­ta­go­nista de luta, mesmo que suas ideias esti­ves­sem erra­das.

Parece razoá­vel pra você?

3. Silenciamento

Para­fra­se­ando uma amiga minha, Fer­nanda: “silen­ci­a­mento pres­su­põe o silên­cio”. Nada tão óbvio.

Nor­mal­mente essa falá­cia é uti­li­zada quando os argu­men­tos da outra pes­soa são ruins. Tam­bém está rela­ci­o­nada à mais fiel crença pós moderna de que um opri­mido tem auto­ri­dade total no que diz res­peito à sua opres­são, mesmo que os fatos demons­trem o con­trá­rio.

Então, se você demons­tra esses fatos ou ques­ti­ona, numa dia­lé­tica natu­ral, você está “silen­ci­ando” outra pes­soa. Isso é men­tira. Deba­tes ocor­rem e sem­pre ocor­re­rão, por­que é a par­tir da con­tra­po­si­ção de ideias dife­ren­tes que sur­gi­rão con­clu­sões.

Só existe silen­ci­a­mento se você, sei lá, exclui de um grupo ou corta o micro­fone da pes­soa, por exem­plo. Se alguém está de saco cheio de ouvir seus argu­men­tos por­que acre­dita que eles são falhos, então: a) ou você muda de alvo; b) ou você muda de argu­men­tos.


V. Notas

¹Há um debate inte­res­sante sobre se o pós moder­nismo exis­tiu ou não exis­tiu, por­que o “pós moder­nismo” nega a His­tó­ria (sendo o pós uma par­tí­cula que pres­su­põe um momento his­tó­rico). De qual­quer forma, entenda pós moder­nismo como um con­ceito que surge para apro­fun­dar e des­truir alguns valo­res da moder­ni­dade.

²Pós moder­nismo, tam­bém conhe­cido como: Moder­ni­dade Tar­dia, Moder­ni­dade Avan­çada, Moder­ni­dade Líquida ou Segunda Moder­ni­dade.


VI. Referências

[1] http://www.vermelho.org.br/noticia/164223–11
[2] http://www.espacoacademico.com.br/035/35eraylima.htm
[3] http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/10103/10103_3.PDF
[4] http://tempossafados.blogspot.com.br/2013/02/historiografia-pos-moderna.html
[5] http://informecritica.blogspot.com.br/2011/05/modernidade-e-pos-modernidade.html


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Os valen­tões da jus­tiça social
Cala a boca, você é branco!

Arthur Souza
Graduando em Engenharia de Produção pela UERJ, gonçalense, 20 anos, flamenguista fanático e apaixonado por heróis - desde HQs à vida real. Acredita numa educação horizontal e transformadora, que conecte pessoas e histórias. Apesar de tudo, tem um bom coração.

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