I. Um passeio à Modernidade

Bom, para introduzir um pouco a galera sobre o que estamos falando, acho legal voltarmos um pouco na história e falarmos sobre a modernidade, momento que antecede o pós modernismo¹.

Vamos calibrar o cursor do tempo pro século XIX. O século XIX se caracteriza principalmente pela Primeira Revolução Industrial. O homem começa a mudar a forma como vê a si mesmo. A ciência passa a ser uma grande resposta para as questões do mundo, e não mais deus. Estamos rompendo com os paradigmas religiosos. A produção humana está a todo vapor: enquanto Darwin elucida a Teoria das Espécies, o mundo se torna cada vez mais urbano e menos rural. Surge o positivismo e o materialismo histórico, duas formas de pensar o mundo através da ciência e da rejeição do modelo metafísico (leia um pouco mais aqui: https://goo.gl/WrMOzF).

A população europeia mais que dobrou, porque agora podemos prevenir doenças bem melhor que antes. Construímos ferrovias e o imperialismo conquista mais territórios. A escravidão é abolida no mundo. Temos diversas revoluções, mais precisamente nas décadas de 20, 30 e 48.

As pessoas estavam sendo expulsas do campo para as cidades a fim de possibilitar a expansão das fábricas. Os laços de servidão entre senhor e escravo começam a se desfazer: agora, o indivíduo entra em uma nova relação de troca entre mercadoria e força de trabalho. O Estado também deixa de ser explicado por uma escolha divina.

Quando saímos do século XIX e entramos no século XX, temos a Primeira Guerra Mundial, em 1914. A ciência continua a todo vapor e os EUA se tornam potência industrial. A produção em massa (fordismo) e a consolidação das malhas ferroviárias fez com que todo produto chegasse a todo lugar com uma facilidade enorme. É o chamado Século Sangrento: duas guerras mundiais, Revolução Russa, greve geral no Brasil, quebra da bolsa de Nova York, Guerra Fria, entre várias outras guerras e revoltas.

Nesse século, um dos mais “longos” da história, o comunismo, por exemplo, surge como alternativa para a exploração capitalista das fábricas. Com um aumento da produção, houve um aumento do consumo e da exploração dos trabalhadores, que começaram a se organizar em sindicatos para exigir melhores condições. O trabalhador consegue enxergar os grilhões que o prende.

Estamos na “era das ideologias totalizantes”. Procuramos cada vez mais respostas em ideologias não fantasiosas, sem referenciar seres de outros mundos, mas a própria humanidade. Essas ideologias culminam em movimentos sociais revolucionários que transformaram a ordem política e social das coisas.

Os jornais se difundiram, apoiados pela diminuição da taxa de alfabetização. O vazio deixado pela destruição abrupta do estilo de vida tradicional e pelo abandono das visões religiosas de mundo foi ocupado por essas ideologias.

Nessa época, todo o avanço tecnológico e científico levou o mundo a romper com as ordens vigentes e questionar os conceitos que já existiam.

O modernismo surge como movimento de recusa, de redescoberta do mundo; quebra conceitos, crenças e paradigmas. As pessoas estão preocupadas com o que conhecem e podem conhecer. É um movimento que prega um exame crítico da razão, num mundo com uma forte tendência às mudanças (lembre-se: estamos numa era de inovações, tudo muda a todo instante).

Há uma crença muito forte de que o mundo pode ser mudado através do homem. Transformar a história é possível. Esse mundo globalizado faz com que surja centenas de pluralidades. O homem é o centro do universo, mas não só isso: ele é o ativo que modifica a natureza e a sociedade, e não mais um ser divino. Assim, a existência de pobres e ricos não se baseia mais numa escolha de deus, mas numa distribuição desigual de riquezas do ser humano; o governante não está no poder por ser escolhido por deus, mas porque os cidadãos assim decidiram.

Podemos concluir, então, que o modernismo é um movimento que enxerga o homem basicamente através de 3 lentes:

(I) O homem como sujeito autônomo, auto suficiente, transformador da própria história: o “eu” no centro;
(II) O homem como sujeito portador de uma liberdade individual;
(III) O homem como sujeito subjetivo.

II. Contexto histórico e definição

É extremamente difícil definir o que é pós modernismo², porque é um movimento inconstante e nada homogêneo.

Peço que, a partir daqui, entendam-o não apenas como um movimento de rejeição política, mas como uma forma de ver o mundo, a vida, a arte, a moral e etc.

A pós modernidade se posiciona como superação da modernidade e das grandes narrativas (como capitalismo e socialismo). É um movimento de ruptura com a própria modernidade e sua busca pelo progresso constante, onde o mundo a cada instante está “se desenvolvendo/seguindo em frente”.

O homem está desencantado com todas as ideologias totalizantes que prometem um novo mundo, e já não acredita que verá ainda em vida uma transformação dele. Quando o movimento operário passa a integrar o próprio Estado e a ser ouvido por ele, o fervor revolucionário cai e vira apenas a necessidade de uma reforma.

O ser humano passa a rejeitar qualquer posição extrema, tanto à direita quanto à esquerda. Descarta-se a ideia de uma revolução, porque esse homem está desacreditado tanto do capitalismo quanto do socialismo devido a todas as experiências socialistas que “caíram”. Fazendo uma analogia bem besta, com a queda do Muro de Berlim, cai também a perspectiva de um futuro diferente.

O capitalismo é, então, o único sistema possível, sem alternativas. E se há alguma alternativa plausível, ela será cunhada pelas 10 gerações futuras, não pela nossa.

No pós modernismo, há uma pluralidade exacerbada de novas visões de mundo e centenas de “terceiras vias” — não mais apenas socialismo e capitalismo. Surge um desencanto por verdades absolutas universais. Não há mais razão, não há mais verdade: há centenas de milhares de razões e centenas de milhares de verdades.

O individualismo e a subjetividade do ser humano é estendido, porque cada uma dessas verdades se encontram em cada ser humano.

Historicamente, estamos em uma era consumista, apoiada pela Internet e pelo alto fluxo de informações. A demanda é criada, surgem os templos de consumo (shopping centers); a publicidade vende desejo, não necessidade. Agora, não importa mais quem você é, ou o que você sabe, mas o que você tem. Paradoxalmente, no sentido contrário, a desigualdade social, o desemprego e a miséria continuam presentes.

A ciência progride consideravelmente, aumenta a média de expectativa de vida das pessoas (o homem não vive para consumir mais, mas também para trabalhar mais), ao mesmo tempo, em que novas armas de destruição em massa são desenvolvidas e nunca houve tanta informação ao alcance das pessoas. Desconfia-se de tudo, inclusive da própria ciência.

O mundo está sempre sendo problematizado.

Tudo é questionado e submetido a várias interpretações. Nenhuma perspectiva está correta, pois todas são corretas ao mesmo tempo.

No pós modernismo, abandona-se as ideias claras e distintas, as definições diretas. Cultua-se o relativismo a tudo e uma recusa a qualquer princípio ou regra socialmente aceita.

Numa sociedade onde tudo é consumo e tudo é mercado, o outro vira ameaça. Os conflitos sociais anteriores foram substituídos por guerras culturais. O multiculturalismo não encontra barreiras ou limites.

Cada um faz o que é melhor para si mesmo e se fecha em sua subjetividade. Há uma busca por autoridade própria; cada grupo tem o direito de falar por si mesmo, e de ter essa voz respeitada. Rejeita-se o pensamento autoritário e celebra-se o corpo como palco de expressão dessa subjetividade.

Com o desaparecimento das perspectivas de futuro, da utopia das ideologias totalizantes, resta ao homem viver o presente. Ele busca constantemente entender quem ele é, daí a corrida pela auto identificação. O homem vive para si mesmo, e não importa o outro e seu sofrimento.

O pessimismo e o sentimento de frustração em relação à transformação do mundo leva a humanidade à entender que apenas sua descoberta pode oferecer uma realização humana.

Sendo assim, os valores que o pós modernismo prega são:

(I) Relativismo: tudo é verdade, depende do ponto de vista;
(II) Subjetividade: tudo é verdade porque cada homem é um ser independente e sujeito de si mesmo;
(III) Prazer imediato: o agora substitui as preocupações com o amanhã;
(IV) A identidade sobre a razão;
(V) Individualismo quase narcisista:
o indivíduo é a referência.

III. Crítica: pós modernismo e movimentos sociais

Ok, mas o que isso tem a ver com as pessoas xingando umas as outras no facebook?

Tudo.

Tirando o fato de que “pós moderno” virou um xingamento, onde pessoas acusam as outras dependendo do ponto de vista, conseguimos relacionar os dois casos através de uma simples observação.

Nos atuais movimentos sociais, cultua-se o relativismo de conceitos que antes eram extremamente objetivos. Esses dias, eu estava em um debate e li uma colega comentando que “não posso afirmar o que é racismo, cada um tem sua própria definição”. Isso é completamente absurdo, racismo possui uma definição clara: tratar uma etnia como sendo inferior à outra (normalmente, índios e negros por brancos).

A completa busca por uma auto identificação e subjetividade dos conceitos se mostra de forma clara através da teoria queer: o que é ser homem e o que é ser mulher não possui mais limites, porque cada um vai saber o que é ser homem e o que é ser mulher e cada um vai buscar esses conceitos em si mesmo. Construiu-se uma aversão tão grande ao positivismo que se transformou em uma aversão à própria ciência, e também à realidade material (já vi pessoas do meio trans dizerem que odeiam a biologia, pelo simples fato de serem transexuais; confesso que fiquei estarrecido.)

A frustração perante uma transformação radical do mundo fez com que uma luta geral por transformação social disruptiva se quebrasse em “pequenas” lutas, onde cada um fala por si e ninguém fala por ninguém. Então, temos 7 bilhões de lutas diferentes e nenhuma que de fato se propõe a romper com o Capital, mas a negociar direitos com ele.

Isso ocorre porque busca-se não mais uma trajetória, mas uma realização presente, atual. O agora é que fala mais alto. Viver é o que realmente importa, porque a revolução pode ocorrer? Até pode, mas lá pros nossos filhos e netos, quem sabe…

Para concluir, gostaria que abandonássemos a rigidez conceitual e voltássemos nas 5 características do pós modernismo para fazermos uma ponte bem humorada com os exemplos e os jargões da internet.

Quando falamos de relativismo, podemos lembrar dos casos em que as pessoas fazem perguntas como “o que é ser mulher?”, “o que é ser homem?”, “o que é ser negro?”.

A subjetividade alia-se ao primeiro conceito e aparece quando lemos pessoas dizendo “o que é racismo pra você pode não ser racismo pra mim”.

O imediatismo surge quando pensamos não na destruição do machismo, por exemplo, como ação do agora, mas como perspectiva futura e bem distante, restando ao movimento apenas a possibilidade de “remendá-lo” ou “punir” parte da sociedade que participa dessa lógica. Me lembra o caso da Marcha das Vadias, onde basicamente se diz que “ok, você não vai deixar de me chamar de vadia, então eu vou assumir esse termo com orgulho”.

A identidade sobre a razão aparece nos casos como “lugar de fala”, “vivência”, “protagonismo” e “silenciamento”, que falaremos no próximo tópico.

E o individualismo, beirando o narcisismo, se demonstra muito no conceito de “empoderamento”, que se mostra basicamente numa competição de selfies e de quem ganha mais likes com essas fotos.

IV. Top 3 falácias

Gostaria de me estender às críticas diretas, mas acredito que o leitor já entendeu os principais pontos do texto. Então, tentarei ser sucinto ao me referir aos elementos mais frequentes nos movimentos sociais pós modernos:

1. Lugar de fala

Como já dito, os movimentos sociais passaram a entender que somente um indivíduo poderia falar por ele mesmo, porque “cada um é cada um”.

Lugar de fala basicamente é a concepção de que apenas os que sofrem com uma opressão podem falar sobre essa opressão. Isso até que faz sentido… só que não. A história nos prova o contrário. Muitos discursos pró negros foram feitos por não negros, assim como pró mulheres e muitos outros.

Numa lógica pós moderna, Gregório Duvivier não poderia convencer Fernando Holiday de que as cotas são boas para o Brasil porque Gregório é branco e Holiday é negro. Sendo assim, Holiday possui domínio da verdade quanto ao assunto quando debate com outros brancos, mas não necessariamente quando debate com outros negros (perceba a variância e o relativismo da própria verdade). Ele detém a verdade não pelo conhecimento que possui (razão), mas pelo o que ele simplesmente é (identidade).

Isso é falso. A verdade é a evidência dos fatos e do que é real.

Se conseguirmos provar por A + B que Fulano não foi racista, porque racismo, nesse contexto, é a crença de que brancos são melhores do que negros, então não há identidade alguma que distorça a razão.

As coisas não são porque alguém é, as coisas são porque se tornaram assim.

2. Vivência e protagonismo

Essa falácia se completa com a primeira, mas possui uma pegadinha: a princípio, todos podemos entender que uma luta de operários é feita por…operários. Uma luta de negros é composta por negros. Uma luta de mulheres é composta por mulheres. Mas não há uma relação de exclusividade.

O pós modernismo, buscando o sujeito individual, o conceito de “cada um no seu canto”, e lutando pelas migalhas que as lutas “recortadas” podem dar, afirma que “somente as mulheres podem protagonizar o movimento das mulheres” (por exemplo), mas nunca afirmam objetivamente o que significa protagonizar.

Se protagonizar remete ao fato de que os oprimidos conseguirão sua própria libertação, não solicitando gentilmente seus direitos, mas tomando-os porque são seus de fato, então está correto.

Se protagonizar significa que homens não podem lutar contra o machismo, por exemplo, então está fatalmente errado.

E só quem tem vivência pode falar sobre algo? Obviamente não. Há várias maneiras de se analisar um determinado fato, e não há nada que impeça que essa análise seja feita por qualquer pessoa.

Como exemplo, vou utilizar o caso do “Cidadão Weston”. John Weston era um operário inglês que defendia que os trabalhadores não deveriam lutar por aumento salarial. Basicamente, ele defendia o argumento de que uma queda nos salários representaria uma queda no preço geral das coisas. Marx, um não operário, proferiu em 1865 em um Congresso o que se tornaria posteriormente um texto chamado “Salário, Preço e Lucro”, que refuta as ideias do “cidadão Weston” (como ele o chamava) porque essas ideias careciam de bases científicas.

Se fosse hoje, em 2015, o cidadão Weston poderia se afirmar como possuidor da verdade por ser operário e ter vivência, além de solicitar que Marx não lhe roubasse um protagonista de luta, mesmo que suas ideias estivessem erradas.

Parece razoável pra você?

3. Silenciamento

Parafraseando uma amiga minha, Fernanda: “silenciamento pressupõe o silêncio”. Nada tão óbvio.

Normalmente essa falácia é utilizada quando os argumentos da outra pessoa são ruins. Também está relacionada à mais fiel crença pós moderna de que um oprimido tem autoridade total no que diz respeito à sua opressão, mesmo que os fatos demonstrem o contrário.

Então, se você demonstra esses fatos ou questiona, numa dialética natural, você está “silenciando” outra pessoa. Isso é mentira. Debates ocorrem e sempre ocorrerão, porque é a partir da contraposição de ideias diferentes que surgirão conclusões.

Só existe silenciamento se você, sei lá, exclui de um grupo ou corta o microfone da pessoa, por exemplo. Se alguém está de saco cheio de ouvir seus argumentos porque acredita que eles são falhos, então: a) ou você muda de alvo; b) ou você muda de argumentos.


V. Notas

¹Há um debate interessante sobre se o pós modernismo existiu ou não existiu, porque o “pós modernismo” nega a História (sendo o pós uma partícula que pressupõe um momento histórico). De qualquer forma, entenda pós modernismo como um conceito que surge para aprofundar e destruir alguns valores da modernidade.

²Pós modernismo, também conhecido como: Modernidade Tardia, Modernidade Avançada, Modernidade Líquida ou Segunda Modernidade.


VI. Referências

[1] http://www.vermelho.org.br/noticia/164223-11
[2] http://www.espacoacademico.com.br/035/35eraylima.htm
[3] http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/10103/10103_3.PDF
[4] http://tempossafados.blogspot.com.br/2013/02/historiografia-pos-moderna.html
[5] http://informecritica.blogspot.com.br/2011/05/modernidade-e-pos-modernidade.html


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Arthur Souza
Graduando em Engenharia de Produção pela UERJ, gonçalense, 20 anos, flamenguista fanático e apaixonado por heróis - desde HQs à vida real. Acredita numa educação horizontal e transformadora, que conecte pessoas e histórias. Apesar de tudo, tem um bom coração.
  • André Luis Karpinski

    Não vou discutir seu texto todo, ia tomar muito tempo, mas é importante salientar algumas coisas básicas. Primeiro, pós-modernismo é uma coisa, pós-modernidade é outra, assim como modernismo e modernidade, você usa como sinônimos, não são. Segundo, as diversas visões sobre a pós-modernidade em Bauman, Lyotard, Harvey ou sua expressão em Nietzsche, Deleuze, Derrida e outros não querem dizer a mesma coisa. Logo, ele não é um movimento, ou algo do tipo como você propôs, é um termo polissêmico e refere-se a diferentes concepções do que seja, por meio da análise de determinado objeto, por meio de determinada ótica, dependendo do autor que o utiliza. Ou você define qual a concepção de pós-modernidade você está usando, e de onde tirou, ou cai na mesma crítica que você faz de cada um usar um termo da maneira que lhe couber para justificar seu ponto de vista, e foi o que você fez. Você faz mal uso do conceito de pós-modernidade, assim como citou o mal uso do conceito de empoderamento. Note, porém, que o mal uso do senso-comum costuma tomar termos científicos e deturpa-los, isso é comum, assim como quando dizemos que alguém está histérico, é neurótico etc. Não seria justo eu criticar a psicanálise pelo mal uso que as pessoas fazem do termo.

    • Arthur Souza

      Oi André, tudo bom? Espero que sim!

      Primeiramente: você tem razão!

      Vamos lá, minhas maiores referências foram: “Condição pós moderna” (David Harvey), “As ilusões do pós modernismo” (Terry Eagleton) e “Modernidade Líquida” (Zygmunt Bauman).

      Logo no prefácio do livro do Eagleton, ele diz o seguinte:

      “A palavra pós-modernismo refere-se em geral a uma forma de cultura contemporânea, enquanto o termo pós-modernidade alude a um período histórico específico.

      Pós modernidade é uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a ideia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. Contrariando essas normas do iluminismo, vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, um conjunto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em relação às idiossincrasias e a coerência de identidades. Essa maneira de ver, como sustentam alguns, baseia-se em circunstâncias concretas: ela emerge da mudança histórica ocorrida no Ocidente para uma nova forma de capitalismo — para o mundo efêmero e descentralizado da tecnologia, do consumismo e da indústria cultural, no qual as indústrias de serviços, finanças e informação triunfam sobre a produção tradicional, e a política clássica de classes cede terreno a uma série difusa de “políticas de identidade”.

      Pós-modernismo é um estilo de cultura que reflete um pouco essa mudança memorável por meio de uma arte superficial, descentrada, infundada, auto-reflexiva, divertida, caudatária, eclética e pluralista, que obscurece as fronteiras entre a cultura “elitista” e a cultura “popular”, bem como entre a arte e a experiência cotidiana. O quão dominante ou disseminada se mostra essa cultura — se tem acolhimento geral ou constitui apenas um campo restrito da vida contemporânea — é objeto de controvérsia.”

      E mais a frente, ele vem a dizer o seguinte:

      “Optei por adotar o termo mais trivial “pós-modernismo” para abranger as duas coisas, dada a evidente e estreita relação entre elas. Como aqui interessam-me mais as idéias do que a cultura artística, não me detenho em obras de arte isoladas. Tampouco analiso teóricos específicos, o que pode causar estranheza a alguns. Minha preocupação reside menos nas formulações rebuscadas da filosofia pós-moderna do que na cultura, no meio ou mesmo no modo de ver e reagir do pós-modernismo.”

      Eu adotei a mesma posição do Terry Eagleton (talvez pelo vício da leitura). Como há um estreitamento entre as duas coisas, como eu pretendi partir da história até chegar na visão pós moderna, e como queria simplificar para falar com as pessoas que não estão habituadas com isso, eu usei um termo só, ou os dois como sinônimos. Mas você tem toda razão, não são a mesma coisa não.

      Entre as três obras que citei, entretanto, não há grandes cismas, pelo menos quanto as coisas que dissertei superficialmente.

      O livro do Harvey contém muitas críticas a respeito dos autores pós modernos, e, apesar de saber que vc já leu, recomendaria muito pra qualquer um que estiver lendo esse texto. Ele faz o que eu não fiz.

      Já quanto ao conceito de empoderamento…é debatível. O nome do artigo é: “pós modernismo e as falácias da internet”. Não usei o conceito de Paulo Freire ou de qualquer outro filósofo, entende? Meu objetivo era mais apontar as fragilidades dos jargões que utilizam na internet. E eu passei tão rapidamente por isso, que nem deu tempo de diferenciar o que significa o termo empoderamento no seu sentido original, de emancipação, autonomia e auto determinação, do significado que ele assume na internet, de individualismo e egocentrismo.

      Por fim, acho frágil essa coisa de dizer que algo é simplesmente “um mal uso”. Isso seria conveniente demais. Os termos existem, e as pessoas ressignificam esses termos, de acordo com suas realidades, interesses, épocas e etc. Há pontos de vistas variantes quanto a cada objeto de análise, e simplesmente dizer que o pontos de vista A está sendo mal utilizado pq não condiz com o ponto de vista original B…me parece errado, entende? O termo empoderamento, usado pelo autor X, é diferente do termo empoderamento usado pelo autor Y. Se eu critico o termo empoderamento através da ótica do autor Y eu não estou simplesmente pegando um “mal uso” e descendo a lenha nele pra fortalecer minhas visões, eu tô criticando o termo usado pelo autor Y, apenas.

      Eu acho que está bem claro que eu me refiro apenas aos movimentos de internet, e busquei explicar de um ponto de vista histórico e filosófico como esses jargões de internet não surgiram do nada, mas nasceram de algo, de uma era específica.

      Obrigado pelo seu comentário, cara. Vou buscar deixar as coisas mais claras nos textos que eu for escrever!

      • Dois comentários incrivelmente pertinentes e agregadores ao artigo como um todo. Fico feliz em ver leitores atentos por aqui e muito mais feliz em saber que temos autores atenciosos e esclarecidos. Seja bem-vindo, Arthur, e que venham novos artigos! 😀

      • André Luis Karpinski

        Entendo o que disse, minha crítica é mais simples, me refiro a mal uso não quando se faz uma ressignificação, mas quando alguém critica o original pela ressignificação. É como se eu dissesse que você falou que as abobrinhas são vermelhas, logo seu texto é equívoco. Você nunca falou que abobrinhas são vermelhas, então a crítica em cima da ressignificação não invalida o conceito original.

    • É difícil até para os autores que subscrevem à pós-modernidade definirem inequivocamente o que ela é. No entanto, por mais vertentes e discordâncias que possam existir, alguns princípios básicos se mantém, um deles é o relativismo e alguma versão do construcionismo social. Isso não tem como evitar nem negar, até onde conheço do tema.

      Estou certo?

      • André Luis Karpinski

        Não Felipe, há autores que irão dizer que a pós-modernidade nem sequer existe senão na abstração de algumas pessoas, nem sequer a modernidade chegou a se consolidar, quem dirá a pós.

        • Então a conclusão é que não podemos falar nada sobre nada? rs

          • André Luis Karpinski

            Não, basta explicitar com qual concepção de pós-modernidade você está dialogando.

    • Eu até ia colocar alguma coisa mais consistente, mas o André Luis já disse muito do que eu ia dizer, então vou apenas colocar alguns pontos que ficaram de fora.
      Existe também um problema com a chamada “agenda ideológica do pós-modernismo”. Um autor que define bem esse problema é o Stuart Hall. É um problema que surge não somente com o descrédito das grandes utopias, mas também como um fênomeno da globalização e da fragmentação dos sujeitos. Para ele, inclusive, isto ocorre também por fafores econômicos, tais como um europeu ser simpatizante da causa do Estado Islâmico, mesmo que aquilo não represente a realidade dele, mas sim sirva para preencher esse vazio deixado pelo excesso de subjetividade dentro da pós-modernidade. Tem um livro dele, chamado “A identidade cultural na pós-modernidade”, que se você não tiver lido, recomendo muito a leitura.

    • Ezequiel Lustosa

      Seu comentário é pertinente, porém é útil como aviso aos leitores, não como crítica ao texto em si.
      Assim como ele já disse, o texto fala mais dos movimentos e “filosofias” que se proliferam na internet por influência dos últimos eventos históricos, sociais e filosóficos. Se quiser chamar tais coisas de pós-modernidade, pós-modernismo, etc.. Que seja. Em nenhum momento ele criticou o pós-modernismo em si.
      É o mesmo que fazer uma crítica aos atuais movimentos feministas, sem tratar do feminismo em si. Camile Paglie faz muito isso.

      Por isso seu comentário é pertinente para evitar que alguém pegue o texto e o use para criticar a pós-modernidade (modernismo, modernismo fluído etc). Mas ele em si não cometeu o erro de criticar a filosofia ou período pelos espantalhos que criaram dela ou erros de seus seguidores.

  • Cassio Silva

    Eu não vou entrar em discussões semânticas, linguísticas, ideologicas. Não tenho competência para isto. Leio bastante, mas misturo tudo e fico com as coisas para mim e formo a minha teoria que orienta minna vida: o Cassismo. Então vamos ver o que a minha teoria me diz do seu texto: bom para caramba!!! Simples assim!! Pão é pão e queijo é queijo!! Não quero “agregar” nada ao seu texto ou discussão! Só elogiar a forma como foi escrito, bem didático, claro e simples! Esta onda pós-moderna é assustadora! Eu hoje em dia nem sei mais como posso me referir publicamente àquela que resolveu casar comigo. Antigamente eu chamava ela de minha mulher e tudo bem. Outro dia fui questionado por isto!!! Entendi que era uma representação de posse!! Ou algo assim! Na mesma hora me senti um patriarca! Mesmo sem ao menoa saber bem o que isto quer dizer! 😉

    Parabéns cara!! Gostei muito!! E desconsidere as brincadeiras tolas de um tiozinho cansado das pos-modernidades tolas!!

    • A “posse” é decorrente da ideia de que ela não está disponível para se relacionar com outra pessoa que não a que ela se comprometeu. Não há machismo nesse termo, pode ficar tranquilo. =p
      .
      Quando uma mulher fala “MEU marido” ou “MEU esposo”, há o emprego de “posse”, baseado na explicação supracitada.
      .
      Por falar nisso, marido vem do latim maritus, que significa… macho. rs

  • marco soares

    Eu observo uma contradição nos movimentos tidos por pós modernos quando estes, ao ocuparem os espaços deixados pela implosão das grandes narrativas e projetos totalizantes, mobilizam identidades particularistas e fragmentárias mas que ao mesmo tempo possuem um nítido caráter cosmopolita e sabidamente contam com financiamentos de agendas globais. Acabam tendo o mesmo destino totalizante, universalizante e diverso do conteúdo multicultural que se pretendem.

  • Eric Araujo Dias Coimbra

    Primeiramente Fora Temer! Segundamente, parabéns pelo excelente texto. Por falar em pós-modernismo, que logo remete à desconstrução, vejo que é muito importante desconstruir o “lugar de fala”, o “roubo de protagonismo” e outras falácias do tipo.
    Segundo essa concepção, muito impregnada nos movimentos sociais “pós-modernos”, Fernando Holiday tem mais propriedade para defender a luta anti-racista que um branco, seja qual for o branco? Marco Feliciano tem mais propriedade para defender a luta anti-homofóbica que qualquer hétero? Os indígenas nazistas peruanos (aqueles que foram discriminados pelos nazistas alemães) têm mais legitimidade para defender a luta indígena que, por exemplo, uma pessoa que sempre lutou pela causa indígena, embora fosse branco, como Darcy Ribeiro? Darcy ribeiro é um ladrão de protagonismo? Acho bem ridículo esse tal “lugar de fala”. O que importa é a consciência de cada pessoa, independente do grupo social ao qual ela faz parte. O preconceito internalizado é tão pernicioso quanto o que vem de fora!

  • Leonardo Luchini Fortinho

    Só tenho uns adendos sobre a pós-modernidade.

    O tal do desencanto foi com o que o mundo Moderno prometeu, uma era de prosperidade. Com as guerras houve um desilusão. Quando as pessoas começam a se agarrar à uma nova ideia moderna, como o comunismo em ascensão, ele entra em contradições no próprio seio do discurso. Quando o totalitarismo toma parte dentro deles.

    Lá pelo final da década de 1960, os ideias da pós-modernidade começam a tomar forma, principalmente nos movimentos sociais. O feminismo começa a ser amplamente discutido, os movimentos de direitos civis dos negros toma forma e assalta várias cidades nos EUA (e pelo mundo). Isso quer dizer, as grandes teorias totalizantes, aquelas que todo um coletivo acreditou, se fragmentou, porque ela não conseguia dialogar diretamente com os microuniversos que havia (e ainda há) nestas lutas.

    Porém isso levou a um problema, no qual você aponta bem, que foi cair numa pseudo-cientificidade. Aqui eles utilizaram a ideia de relatividade erroneamente, para justificar coisas que estavam mais ligadas ao poder da vontade schopenhaueriano, do que a um objetivismo cientifico.

    Sobre minha percepção do texto. Julgo que está correto o raciocínio. Só que vou mais longe, Este silenciamento vai numa direção que é que “praticamente” repetir os mesmos cacoetes do opressor. Se fossemos colocar o discurso fascista sobre o que detém a verdade suprema do poder de fala, são quase os mesmo. Uma coisa que sempre que vejo nas discussões sobre feminismo é: Você é homem, então não pode falar de feminismo. Ué! Se for por essa lógica que beira a lógica aristotélica, posso usar a mesma afirmativa dizendo: Se não posso falar de feminismo por ser homem. Logo, você não pode falar de machismo por não ser homem. Pode até soar tosca a ideia, mas se for ver bem a fundo, o real pensamento é este.

    Bom texto para refletir.

    • Arthur Souza

      Obrigado pela percepção! Concordo contigo!