Liberdade de expressão atualmente tem sido pauta das discussões mais acirradas, principalmente no meio virtual, por causa de afirmações ou conceitos como “lugar de fala” e “preconceito no vocábulo”. Como quando alguém reclama que, por causa da “Polícia do vocabulário”, o humor morreu.

É que antigamente se podia obter com sucesso risadas contando piadas de negros, gordos, mulheres e deficientes físicos sem qualquer ameaça de repreensão – no máximo, o silêncio do “gato pingado” com risadinha constrangedora diante do mar de gargalhadas, caso ele pudesse se encaixar ou não no estereótipo da piada.

Agora, porém, não existe mais possibilidade de graça. Toda as manifestações possíveis de humor morreram, não existe mais qualquer brecha para o humor, segundo os críticos, já que a liberdade de expressão pereceu.

Apesar de, sociologicamente, ver algo de positivo na repressão como forma de obter-se resultados históricos, que tendem a provocar grande avidez intelectual e criativa justamente pela falta de liberdade, politicamente sou contra o cerceamento da liberdade de expressão. E isso inclui argumentos bem fundamentados quanto a opiniões estapafúrdias e ofensivas, porque não é por não gostarmos ou considerarmos péssimo um argumento ou opinião que deixam de ser argumentos e opiniões.

Inevitavelmente, sempre haverá regras, processos seletivos para opinar em determinados temas, nos quais certas opiniões serão sensatamente descartáveis e indesejáveis – como, por exemplo, um cirurgião que tenta analisar tecnicamente o desempenho de uma ginasta. Nesse caso, o cirurgião não tem propriedade diante de outros juízes preparados por anos de estudo e experiência na área, mas nada o impede de expressar a sua opinião, por mais superficial e tosca que seja, na nossa agraciada internet – o paraíso de sábios e néscios.


Minha defesa do direito a expressar qualquer ideia, por mais imbecil que seja, não é apenas baseada na manutenção e garantia das liberdades individuais e do livre pensamento, mas também por ser uma estratégia para vencer péssimas ideias, pelas seguintes razões:

Conhecimento – É através da expressão de ideias ruins que se pode discuti-las, confrontá-las honestamente entre especialistas e o grande público para que ambos possam arbitrar, ponderar suas afirmações e argumentos.

Sofisticação da ideia – É com o debate que se pode construir ideias melhores. Uma ideia isolada não pode ser aperfeiçoada. Esse é um dos princípios da ciência: divulgar os resultados e métodos para que possam ser reproduzidos e, então, testar com os resultados anteriores (assista esse exemplo).

Autocrítica – disseminar o conhecimento, por mais ofensivo que seja o conteúdo desse conhecimento, pode ser muito saudável e necessário para o desenvolvimento de uma sociedade que se pretende democrática. Às vezes, o que as pessoas precisam ouvir não significa o que elas de fato precisam. No Brasil, é politicamente incorreto em determinados nichos desmerecer os gays, já na Arábia Saudita fazer isso é coisa dos “cidadãos de bem”. Mudanças exigem provocações.

Provar o seu ponto – Ninguém gosta de perder uma discussão mesmo que o objetivo também seja aprender e ouvir. Na maioria das vezes, temos certeza de que possuímos razão. Se quer se posicionar, convencer e fortalecer a sua ideia, ela precisa necessária e impiedosamente ser posta à prova.

Estratégia de abordagem – A divulgação de ideias serve para identificar as falhas epistêmicas através de padrões de grupos e indivíduos. Algumas ideias contraprodutivas podem ser mais predominantes entre mulheres, outras entre homens, outras ainda entre camponeses, etc. A partir disso é possível construir detalhadamente formas mais eficientes de abordá-las e assim trocar informações.

Estado da arte em movimento – Após discutir, debater com direito a réplica, tréplica, confrontar e ser confrontado, aprender sobre o opositor além de espantalhos e distorções, eis o momento de construir ideias melhores e chegar a um “estado” e não “ser” que é: mudar de ideia. E mudar de ideia implica em voltar atrás, sofisticar o pensamento, ponderar ou mesmo ser mais extremista ainda (não dogmático!). Contudo, o importante [e manter-se em movimento ao buscar o caminho mais difícil, que é o questionamento permanente.


Dado os benefícios imediatos do confronto ideológico garantido pela liberdade de expressão, há a segunda parte, que é como usufruímos da liberdade de expressão. 

Os liberais, por exemplo, são os “guardiões” da liberdade de expressão, pois estão sempre amedrontados com a possibilidade iminente de repressão, mesmo por meras discordâncias da oposição quanto a determinadas opiniões. Isso é compreensível, pois deve ser mais comum ainda lidarem com autoritários de todos os lados possíveis. No entanto, nem tudo o que podemos considerar negativo e prejudicial é crime ou DEVERIA ser crime.

Liberais se posicionam como soldados em defesa da liberdade, pensando que a crítica a qualquer piada ou ideia condiz com alguma forma de autoritarismo. Não, liberais: às vezes, é apenas uma discussão do porquê determinada ideia é ruim. É que, apesar de ser protegida com a liberdade de expressão, a sua ideia pode ser nociva.

Já eu reconheço como uma das maiores vantagens da liberdade de expressão a possibilidade que vai além do contar piadas imbecis ou chocantes: é a possibilidade de expressar-se e também de responder.

Você tem o direito de criticar, achar ruim, boicotar, responder, escrever um artigo, romance ou peça sobre o porquê de aquela ideia ser tão ridícula e mal concebida. Você tem direito a, com métodos quantitativos, buscar informações sobre a possibilidade ou não de a ideia ser contraprodutiva.

E é com isso que, ironicamente, muitos dos politicamente incorretos ainda não sabem lidar: com a responsabilidade das suas opiniões.

Sou apaixonada pela ideia do quanto o risco e a exposição podem custar caro, mesmo valendo a pena. Se você posta uma opinião no Facebook, alguém vai te responder concordando ou não. E se você decidir escrever um livro? Podem te desmoronar num parágrafo.

Russell escreveu que, “em uma democracia, é necessário que as pessoas aprendam a suportar que seus sentimentos sejam ultrajados.”

Isso significa que, diante de alguma piada imbecil e merecedora de desprezo, estou no meu direito de simplesmente abandonar o piadista sem talento. É meu direito também permanecer imóvel, calada, implacável.


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Complemente o assunto com os seguintes artigos:

Por que devemos defender o direito de ser ofensivo?
As virtudes esquecidas de um bom debate intelectual

escrito por:

Glenda Varotto

Infame e viciada debatedora autodidata treinada nos melhores coliseus desse mundo:
Fóruns, Blogs e redes sociais;
Blogueira da page Bule Voador;
Publicitária;
Vlogueira: https://www.youtube.com/c/GlendaVarotto
Poeta;
Ambiciosa e conhecida pelo famigerado vídeo no YT: Mulheres sempre tem razão?

Prometo que não viverei de sucessos passados.