Liberdade de expressão censurada.

Por que liberdade de expressão?

Em Comportamento, Consciência, Filosofia, Sociedade por Glenda VarottoComentário

Liber­dade de expres­são atu­al­mente tem sido pauta das dis­cus­sões mais acir­ra­das, prin­ci­pal­mente no meio vir­tual, por causa de afir­ma­ções ou con­cei­tos como “lugar de fala” e “pre­con­ceito no vocá­bulo”. Como quando alguém reclama que, por causa da “Polí­cia do voca­bu­lá­rio”, o humor mor­reu.

É que anti­ga­mente se podia obter com sucesso risa­das con­tando pia­das de negros, gor­dos, mulhe­res e defi­ci­en­tes físi­cos sem qual­quer ame­aça de repre­en­são — no máximo, o silên­cio do “gato pin­gado” com risa­di­nha cons­tran­ge­dora diante do mar de gar­ga­lha­das, caso ele pudesse se encai­xar ou não no este­reó­tipo da piada.

Agora, porém, não existe mais pos­si­bi­li­dade de graça. Toda as mani­fes­ta­ções pos­sí­veis de humor mor­re­ram, não existe mais qual­quer bre­cha para o humor, segundo os crí­ti­cos, já que a liber­dade de expres­são pere­ceu.

Ape­sar de, soci­o­lo­gi­ca­mente, ver algo de posi­tivo na repres­são como forma de obter-se resul­ta­dos his­tó­ri­cos, que ten­dem a pro­vo­car grande avi­dez inte­lec­tual e cri­a­tiva jus­ta­mente pela falta de liber­dade, poli­ti­ca­mente sou con­tra o cer­ce­a­mento da liber­dade de expres­são. E isso inclui argu­men­tos bem fun­da­men­ta­dos quanto a opi­niões esta­pa­fúr­dias e ofen­si­vas, por­que não é por não gos­tar­mos ou con­si­de­rar­mos pés­simo um argu­mento ou opi­nião que dei­xam de ser argu­men­tos e opi­niões.

Ine­vi­ta­vel­mente, sem­pre haverá regras, pro­ces­sos sele­ti­vos para opi­nar em deter­mi­na­dos temas, nos quais cer­tas opi­niões serão sen­sa­ta­mente des­car­tá­veis e inde­se­já­veis — como, por exem­plo, um cirur­gião que tenta ana­li­sar tec­ni­ca­mente o desem­pe­nho de uma ginasta. Nesse caso, o cirur­gião não tem pro­pri­e­dade diante de outros juí­zes pre­pa­ra­dos por anos de estudo e expe­ri­ên­cia na área, mas nada o impede de expres­sar a sua opi­nião, por mais super­fi­cial e tosca que seja, na nossa agra­ci­ada inter­net — o paraíso de sábios e nés­cios.


Minha defesa do direito a expres­sar qual­quer ideia, por mais imbe­cil que seja, não é ape­nas base­ada na manu­ten­ção e garan­tia das liber­da­des indi­vi­du­ais e do livre pen­sa­mento, mas tam­bém por ser uma estra­té­gia para ven­cer pés­si­mas ideias, pelas seguin­tes razões:

Conhe­ci­mento — É atra­vés da expres­são de ideias ruins que se pode dis­cuti-las, con­frontá-las hones­ta­mente entre espe­ci­a­lis­tas e o grande público para que ambos pos­sam arbi­trar, pon­de­rar suas afir­ma­ções e argu­men­tos.

Sofis­ti­ca­ção da ideia - É com o debate que se pode cons­truir ideias melho­res. Uma ideia iso­lada não pode ser aper­fei­ço­ada. Esse é um dos prin­cí­pios da ciên­cia: divul­gar os resul­ta­dos e méto­dos para que pos­sam ser repro­du­zi­dos e, então, tes­tar com os resul­ta­dos ante­ri­o­res (assista esse exem­plo).

Auto­crí­tica — disse­mi­nar o conhe­ci­mento, por mais ofen­sivo que seja o con­teúdo desse conhe­ci­mento, pode ser muito sau­dá­vel e neces­sá­rio para o desen­vol­vi­mento de uma soci­e­dade que se pre­tende demo­crá­tica. Às vezes, o que as pes­soas pre­ci­sam ouvir não sig­ni­fica o que elas de fato pre­ci­sam. No Bra­sil, é poli­ti­ca­mente incor­reto em deter­mi­na­dos nichos des­me­re­cer os gays, já na Ará­bia Sau­dita fazer isso é coisa dos “cida­dãos de bem”. Mudan­ças exi­gem pro­vo­ca­ções.

Pro­var o seu ponto — Nin­guém gosta de per­der uma dis­cus­são mesmo que o obje­tivo tam­bém seja apren­der e ouvir. Na mai­o­ria das vezes, temos cer­teza de que pos­suí­mos razão. Se quer se posi­ci­o­nar, con­ven­cer e for­ta­le­cer a sua ideia, ela pre­cisa neces­sá­ria e impi­e­do­sa­mente ser posta à prova.

Estra­té­gia de abor­da­gem — A divul­ga­ção de ideias serve para iden­ti­fi­car as falhas epis­tê­mi­cas atra­vés de padrões de gru­pos e indi­ví­duos. Algu­mas ideias con­tra­pro­du­ti­vas podem ser mais pre­do­mi­nan­tes entre mulhe­res, outras entre homens, outras ainda entre cam­po­ne­ses, etc. A par­tir disso é pos­sí­vel cons­truir deta­lha­da­mente for­mas mais efi­ci­en­tes de abordá-las e assim tro­car infor­ma­ções.

Estado da arte em movi­mento — Após dis­cu­tir, deba­ter com direito a réplica, tré­plica, con­fron­tar e ser con­fron­tado, apren­der sobre o opo­si­tor além de espan­ta­lhos e dis­tor­ções, eis o momento de cons­truir ideias melho­res e che­gar a um “estado” e não “ser” que é: mudar de ideia. E mudar de ideia implica em voltar atrás, sofis­ti­car o pen­sa­mento, pon­de­rar ou mesmo ser mais extre­mista ainda (não dog­má­tico!). Con­tudo, o impor­tante [e man­ter-se em movi­mento ao bus­car o cami­nho mais difí­cil, que é o ques­ti­o­na­mento per­ma­nente.


Dado os bene­fí­cios ime­di­a­tos do con­fronto ide­o­ló­gico garan­tido pela liber­dade de expres­são, há a segunda parte, que é como usu­fruí­mos da liber­dade de expres­são. 

Os libe­rais, por exem­plo, são os “guar­diões” da liber­dade de expres­são, pois estão sem­pre ame­dron­ta­dos com a pos­si­bi­li­dade imi­nente de repres­são, mesmo por meras dis­cor­dân­cias da opo­si­ção quanto a deter­mi­na­das opi­niões. Isso é com­pre­en­sí­vel, pois deve ser mais comum ainda lida­rem com auto­ri­tá­rios de todos os lados pos­sí­veis. No entanto, nem tudo o que pode­mos con­si­de­rar nega­tivo e pre­ju­di­cial é crime ou DEVERIA ser crime. 

Libe­rais se posi­ci­o­nam como sol­da­dos em defesa da liber­dade, pen­sando que a crí­tica a qual­quer piada ou ideia con­diz com alguma forma de auto­ri­ta­rismo. Não, libe­rais: às vezes, é ape­nas uma dis­cus­são do porquê deter­mi­nada ideia é ruim. É que, ape­sar de ser pro­te­gida com a liber­dade de expres­são, a sua ideia pode ser nociva.

Já eu reco­nheço como uma das mai­o­res van­ta­gens da liber­dade de expres­são a pos­si­bi­li­dade que vai além do con­tar pia­das imbe­cis ou cho­can­tes: é a pos­si­bi­li­dade de expres­sar-se e tam­bém de res­pon­der.

Você tem o direito de cri­ti­car, achar ruim, boi­co­tar, res­pon­der, escre­ver um artigo, romance ou peça sobre o porquê de aquela ideia ser tão ridí­cula e mal con­ce­bida. Você tem direito a, com méto­dos quan­ti­ta­ti­vos, bus­car infor­ma­ções sobre a pos­si­bi­li­dade ou não de a ideia ser con­tra­pro­du­tiva.

E é com isso que, iro­ni­ca­mente, mui­tos dos poli­ti­ca­mente incor­re­tos ainda não sabem lidar: com a res­pon­sa­bi­li­dade das suas opi­niões.

Sou apai­xo­nada pela ideia do quanto o risco e a expo­si­ção podem cus­tar caro, mesmo valendo a pena. Se você posta uma opi­nião no Face­book, alguém vai te res­pon­der con­cor­dando ou não. E se você deci­dir escre­ver um livro? Podem te des­mo­ro­nar num pará­grafo.

Rus­sell escre­veu que, “em uma demo­cra­cia, é neces­sá­rio que as pes­soas apren­dam a supor­tar que seus sen­ti­men­tos sejam ultra­ja­dos.”

Isso sig­ni­fica que, diante de alguma piada imbe­cil e mere­ce­dora de des­prezo, estou no meu direito de sim­ples­mente aban­do­nar o pia­dista sem talento. É meu direito tam­bém per­ma­ne­cer imó­vel, calada, impla­cá­vel.


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Glenda Varotto
Infame e viciada debatedora autodidata treinada nos melhores coliseus desse mundo:
Fóruns, Blogs e redes sociais;
Blogueira da page Bule Voador;
Publicitária;
Vlogueira: https://www.youtube.com/c/GlendaVarotto
Poeta;
Ambiciosa e conhecida pelo famigerado vídeo no YT: Mulheres sempre tem razão?

Prometo que não viverei de sucessos passados.

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