E o que é Filosofia? É a tentativa, penso, de enxergar um palmo diante do nariz – o que não é tão fácil nem tão inútil quanto muitos pensam. Afinal, o peixe é quem menos sabe da água.

GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim.11ª ed. São Paulo: FTD, 1994. p. 15


Primeiro dia letivo numa escola de nível médio.

Aulas de matemática, geografia, história… professores entram em sala, dizem o nome, passam algumas orientações acerca da conduta desejável.
Aula de filosofia. Como professor, posso garantir-lhes que essa rotina clássica (acima descrita) é interrompida, cedo ou tarde, pela pergunta desconcertante: “…mas, professor, pra que estudar essa tal Filosofia?”

Longe de ser uma questão supérflua, a pergunta pelos motivos de estudarmos Filosofia é costumeiramente evocada e mostra-se de grande importância. Etimologicamente, sabemos que a palavra tem origem grega e possui como significado “amor ao conhecimento” ou “amante da sabedoria”: embora, como podemos perceber, tal conceituação não nos leva à resposta do título do texto.

Factualmente, dizemos que a Filosofia nasceu na Grécia Antiga. No sentido primário do termo, filosofia podia ser considerada uma reflexão cujo objetivo era de ir além da experiência (ir além, portanto, dos sentidos) e descobrir a essência das coisas; ou seja, responder à pergunta: qual a constituição básica das coisas? Qual o princípio das coisas? De que tudo é feito, composto?

Essa pergunta, obviamente, teve respostas diversas. Os filósofos, ou ainda, os investigadores que debruçaram sobre essas perguntas, encontraram diversas origens. Um dizia que tudo provém da água (Tales de Mileto); outro, do fogo (Heráclito de Éfeso); outro do ar (Anaxímenes). E assim sucessivamente. Estes filósofos eram denominados “pré-socráticos”. Conseguem perceber que ali surgia uma espécie de investigação que, até hoje, encontramos nas ciências naturais?

Eis que um senhor chamado Sócrates, “grávido” de uma série de perguntas, iniciou algo que mudaria para sempre o rumo da nossa velha Filosofia: questionando pessoas, na praça de Atenas, sobre o que era o amor, o conhecimento, a justiça, etc., Sócrates buscou compreender conceitos importantes a partir da reflexão e da palavra. Embora nunca tenha escrito nada, Sócrates deixou vários discípulos.

Platão, seu mais famoso discípulo, elabora então uma “alegoria”: uma história simples que buscava explicar o que seria a Filosofia (o “mito” da caverna). Neste mito, há pessoas que estão acorrentadas numa caverna, acostumadas a verem tudo em forma de vultos e borrões… Eis que um indivíduo se liberta e vê, pela primeira vez, o mundo “real”. Espantado, contempla e depois volta para a caverna; e conta como seria a realidade, àqueles que lá permaneceram. Os prisioneiros não acreditam no que ouvem, matam o liberto (qualquer semelhança com a história de Sócrates não é mera coincidência, ok?) e tudo volta ao “normal” naquela sombria caverna. Platão então comparou o mito ao nosso conhecimento: todo este conhecimento deve passar de opiniões injustificadas, preconceituosas, mal formuladas à certeza, verdade e ao conceito. Propõe, então, pela primeira vez, o que deveria ser a Filosofia: uma saída de um mundo das aparências, sem certezas e cheio de dúvidas, para um mundo mais racional, pensado; sobretudo: a Filosofia deveria ser uma investigação empregada pela razão, pelo raciocínio, pelas palavras, rumo a conceitos e ideias verdadeiras.

E assim nasce, então, a Filosofia – desde estes tempos longínquos. Foi assim na Idade Média (séc. II – séc. XV), quando Santo Agostinho perguntava “se Deus é bom e é criador de todas as coisas, por que existe o mal?”. Foi assim na Idade Moderna (séc. XVI – séc. XIX), quando o homem desvinculou o pensamento estritamente de Deus e passou a valorizar o próprio pensamento (“Penso, logo existo” de Descartes)… e perguntou: “Qual o limite para o pensamento do homem? Ele pode conhecer tudo?”. E é assim hoje, quando nos perguntamos sobre qual o modelo político ideal; quando perguntamos se a ciência pode tudo e se, um dia, robôs substituirão os humanos na práxis.

Temos, deste modo, milhares de filósofos ou pensadores, que refletiam e refletem acerca de variados temas. E quais temas são estes? Temas que versam sobre Ética (conduta); Epistemologia (ciência); Estética (arte); dentre outros campos. “Nada do que é humano me é estranho”, exclamaria Terêncio – e nada mais humano do que pensar.

Abrem-se, então, duas perguntas: como não chegamos a respostas sobre os questionamentos filosóficos, devemos abandonar a investigação destes questionamentos? O filósofo diria: não. A filosofia é uma atividade, devendo sempre ser praticada – tanto na escola, quanto na rua, etc. Não busca, portanto, alcançar “o certo”, ou “a verdade”. Como toda atividade, ela deve ser renovada, iniciada; tenhamos sempre fôlego para encarar as dúvidas que nos são colocadas. E a segunda pergunta que se abre é, justamente, aquela do título: Por que razão, então, estudamos Filosofia? Embora creia que agora, você leitor, já tenha uma resposta mais ou menos definida, darei a minha. Coloco-me, por alguns segundos, na pele de Sócrates e o deixo responder – assim como respondeu a alguém que, certa vez, o fez a mesma pergunta:

Citação de Sócrates: “Devemos filosofar simplesmente porque uma vida não analisada não merece ser vivida."
“Devemos filosofar simplesmente porque uma vida não analisada não merece ser vivida.” – Sócrates

Espero que, agora, vocês tenham um motivo a mais para estudar minha amada e velha Filosofia!

Ps.: disseram-me, certa vez, que a coruja da filosofia alça seu voo nos momentos de crise… deixarei, tal como dizia Nietzsche, vocês ruminarem tais palavras. Em breve escreverei sobre tal tema.


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escrito por:

Danilo Švágera

Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação – ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: “ser e não estar professor”.


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