Capa do artigo "Por qual razão estudamos filosofia?", de Danilo Svagera. Ano-Zero.com

Por qual razão estudamos Filosofia?

Em Consciência, Filosofia, Série Educação por Danilo ŠvágeraComentário

E o que é Filo­so­fia? É a ten­ta­tiva, penso, de enxer­gar um palmo diante do nariz — o que não é tão fácil nem tão inú­til quanto mui­tos pen­sam. Afi­nal, o peixe é quem menos sabe da água.

GOMES, Roberto. Crí­tica da razão tupi­ni­quim.11ª ed. São Paulo: FTD, 1994. p. 15


Pri­meiro dia letivo numa escola de nível médio.

Aulas de mate­má­tica, geo­gra­fia, his­tó­ria… pro­fes­so­res entram em sala, dizem o nome, pas­sam algu­mas ori­en­ta­ções acerca da con­duta dese­já­vel.
Aula de filo­so­fia. Como pro­fes­sor, posso garan­tir-lhes que essa rotina clás­sica (acima des­crita) é inter­rom­pida, cedo ou tarde, pela per­gunta des­con­cer­tante: “…mas, pro­fes­sor, pra que estu­dar essa tal Filo­so­fia?”

Longe de ser uma ques­tão supér­flua, a per­gunta pelos moti­vos de estu­dar­mos Filo­so­fia é cos­tu­mei­ra­mente evo­cada e mos­tra-se de grande impor­tân­cia. Eti­mo­lo­gi­ca­mente, sabe­mos que a pala­vra tem ori­gem grega e pos­sui como sig­ni­fi­cado “amor ao conhe­ci­mento” ou “amante da sabe­do­ria”: embora, como pode­mos per­ce­ber, tal con­cei­tu­a­ção não nos leva à res­posta do título do texto.

Fac­tu­al­mente, dize­mos que a Filo­so­fia nas­ceu na Gré­cia Antiga. No sen­tido pri­má­rio do termo, filo­so­fia podia ser con­si­de­rada uma refle­xão cujo obje­tivo era de ir além da expe­ri­ên­cia (ir além, por­tanto, dos sen­ti­dos) e des­co­brir a essên­cia das coi­sas; ou seja, res­pon­der à per­gunta: qual a cons­ti­tui­ção básica das coi­sas? Qual o prin­cí­pio das coi­sas? De que tudo é feito, com­posto?

Essa per­gunta, obvi­a­mente, teve res­pos­tas diver­sas. Os filó­so­fos, ou ainda, os inves­ti­ga­do­res que debru­ça­ram sobre essas per­gun­tas, encon­tra­ram diver­sas ori­gens. Um dizia que tudo pro­vém da água (Tales de Mileto); outro, do fogo (Herá­clito de Éfeso); outro do ar (Ana­xí­me­nes). E assim suces­si­va­mente. Estes filó­so­fos eram deno­mi­na­dos “pré-socrá­ti­cos”. Con­se­guem per­ce­ber que ali sur­gia uma espé­cie de inves­ti­ga­ção que, até hoje, encon­tra­mos nas ciên­cias natu­rais?

Eis que um senhor cha­mado Sócra­tes, “grá­vido” de uma série de per­gun­tas, ini­ciou algo que muda­ria para sem­pre o rumo da nossa velha Filo­so­fia: ques­ti­o­nando pes­soas, na praça de Ate­nas, sobre o que era o amor, o conhe­ci­mento, a jus­tiça, etc., Sócra­tes bus­cou com­pre­en­der con­cei­tos impor­tan­tes a par­tir da refle­xão e da pala­vra. Embora nunca tenha escrito nada, Sócra­tes dei­xou vários dis­cí­pu­los.

Pla­tão, seu mais famoso dis­cí­pulo, ela­bora então uma “ale­go­ria”: uma his­tó­ria sim­ples que bus­cava expli­car o que seria a Filo­so­fia (o “mito” da caverna). Neste mito, há pes­soas que estão acor­ren­ta­das numa caverna, acos­tu­ma­das a verem tudo em forma de vul­tos e bor­rões… Eis que um indi­ví­duo se liberta e vê, pela pri­meira vez, o mundo “real”. Espan­tado, con­tem­pla e depois volta para a caverna; e conta como seria a rea­li­dade, àque­les que lá per­ma­ne­ce­ram. Os pri­si­o­nei­ros não acre­di­tam no que ouvem, matam o liberto (qual­quer seme­lhança com a his­tó­ria de Sócra­tes não é mera coin­ci­dên­cia, ok?) e tudo volta ao “nor­mal” naquela som­bria caverna. Pla­tão então com­pa­rou o mito ao nosso conhe­ci­mento: todo este conhe­ci­mento deve pas­sar de opi­niões injus­ti­fi­ca­das, pre­con­cei­tu­o­sas, mal for­mu­la­das à cer­teza, ver­dade e ao con­ceito. Pro­põe, então, pela pri­meira vez, o que deve­ria ser a Filo­so­fia: uma saída de um mundo das apa­rên­cias, sem cer­te­zas e cheio de dúvi­das, para um mundo mais raci­o­nal, pen­sado; sobre­tudo: a Filo­so­fia deve­ria ser uma inves­ti­ga­ção empre­gada pela razão, pelo raci­o­cí­nio, pelas pala­vras, rumo a con­cei­tos e ideias ver­da­dei­ras.

E assim nasce, então, a Filo­so­fia — desde estes tem­pos lon­gín­quos. Foi assim na Idade Média (séc. II – séc. XV), quando Santo Agos­ti­nho per­gun­tava “se Deus é bom e é cri­a­dor de todas as coi­sas, por que existe o mal?”. Foi assim na Idade Moderna (séc. XVI – séc. XIX), quando o homem des­vin­cu­lou o pen­sa­mento estri­ta­mente de Deus e pas­sou a valo­ri­zar o pró­prio pen­sa­mento (“Penso, logo existo” de Des­car­tes)… e per­gun­tou: “Qual o limite para o pen­sa­mento do homem? Ele pode conhe­cer tudo?”. E é assim hoje, quando nos per­gun­ta­mos sobre qual o modelo polí­tico ideal; quando per­gun­ta­mos se a ciên­cia pode tudo e se, um dia, robôs subs­ti­tui­rão os huma­nos na prá­xis.

Temos, deste modo, milha­res de filó­so­fos ou pen­sa­do­res, que refle­tiam e refle­tem acerca de vari­a­dos temas. E quais temas são estes? Temas que ver­sam sobre Ética (con­duta); Epis­te­mo­lo­gia (ciên­cia); Esté­tica (arte); den­tre outros cam­pos. “Nada do que é humano me é estra­nho”, excla­ma­ria Terên­cio – e nada mais humano do que pen­sar.

Abrem-se, então, duas per­gun­tas: como não che­ga­mos a res­pos­tas sobre os ques­ti­o­na­men­tos filo­só­fi­cos, deve­mos aban­do­nar a inves­ti­ga­ção des­tes ques­ti­o­na­men­tos? O filó­sofo diria: não. A filo­so­fia é uma ati­vi­dade, devendo sem­pre ser pra­ti­cada – tanto na escola, quanto na rua, etc. Não busca, por­tanto, alcan­çar “o certo”, ou “a ver­dade”. Como toda ati­vi­dade, ela deve ser reno­vada, ini­ci­ada; tenha­mos sem­pre fôlego para enca­rar as dúvi­das que nos são colo­ca­das. E a segunda per­gunta que se abre é, jus­ta­mente, aquela do título: Por que razão, então, estu­da­mos Filo­so­fia? Embora creia que agora, você lei­tor, já tenha uma res­posta mais ou menos defi­nida, darei a minha. Coloco-me, por alguns segun­dos, na pele de Sócra­tes e o deixo res­pon­der — assim como res­pon­deu a alguém que, certa vez, o fez a mesma per­gunta:

Citação de Sócrates: “Devemos filosofar simplesmente porque uma vida não analisada não merece ser vivida."

Deve­mos filo­so­far sim­ples­mente por­que uma vida não ana­li­sada não merece ser vivida.” — Sócra­tes

Espero que, agora, vocês tenham um motivo a mais para estu­dar minha amada e velha Filo­so­fia!

Ps.: dis­se­ram-me, certa vez, que a coruja da filo­so­fia alça seu voo nos momen­tos de crise… dei­xa­rei, tal como dizia Nietzs­che, vocês rumi­na­rem tais pala­vras. Em breve escre­ve­rei sobre tal tema.


Seja patrono do AZ, esco­lha sua recom­pensa e nos ajude a pro­du­zir mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

Filo­so­far: em busca dos mis­té­rios e do sen­tido da vida
E se Pla­tão esti­ver certo?

Danilo Švágera
Mestre em Educação, professor de Filosofia, ensaísta e palestrante. Depois de vários anos trabalhando em escolas tradicionais, resolveu que era hora de transformar a Educação - ou, ao menos, uma parte dela. Acredita firmemente nos dizeres: "ser e não estar professor".

Compartilhe