Esse texto sobre políticos começou a surgir, ironicamente, numa longa discussão no Facebook, prática da qual ando me afastando.

Ainda antes de ele começar, faço um alerta: se você clicou nesse link esperando ver pensamentos fáceis como “política não presta”, “todos os políticos são corruptos” ou ainda o clássico “vamos explodir Brasília”, pode parar por aqui. Este texto não é pra você. Se quiser continuar, fique à vontade, mas não vai ser legal.


Outras formas de engajamento político

Eu sempre fui um otimista. Não acho que isso seja ruim, é apenas uma escolha quanto a qual lente você usa para ver o mundo.

Com política não foi diferente, e isso significa que, a partir do momento que comecei a me engajar mais nesse meio e acumulei mais conhecimento a respeito, passei a usar as ferramentas que tinha para enaltecer as atitudes e ideias de políticos com os quais concordava.

Fazia isso por acreditar estar remando contra a maré da indignação rasa e, principalmente, porque esse, até então, parecia ser o caminho para politizar as pessoas, para mostrar que política pode ser bom, e que ela é necessária.

Não parei de elogiar políticos por achar que todos eles são farinha do mesmo saco. Não são. Minha decisão se deu por eu achar que não dá pra se contentar com as migalhas de melhora que o atual sistema político nos proporciona, e tampouco enaltecê-las como se significassem grande coisa.

A conclusão que eu tiro, infelizmente, é que enquanto existir Estado, a concentração de poder permanecerá. Enquanto houver “representantes” políticos, a concentração de poder permanecerá.

Mais do que ser otimista, eu gosto de refletir e causar reflexões. Sendo assim, coloco a seguinte pergunta: será que já não passou da hora de parar de esperar resultados após apertar alguns botões a cada dois anos e arregaçar as próprias mangas, e de denunciar todo esse sistema de políticos que disputa não só nosso consentimento, mas a nossa obediência?

Enquanto houver poder, haverá desigualdade. Se todos de fato o tiverem, falar em poder não fará mais qualquer sentido.

Via de regra, nós aproximamos tanto os conceitos de “política” e “Estado” que eles se tornam sinônimos.

Assumi o compromisso de não apoiar, de qualquer forma, quaisquer políticos no meu maior canal de comunicação, mas isso não quer dizer que eu deixei de gostar de política, e tampouco quer dizer que eu não vou me preocupar em incentivar a participação e o engajamento político (e até mesmo o gosto pela política) das pessoas de outras tantas maneiras que me estiverem disponíveis.

Para ilustrar, faço um paralelo disso tudo com o veganismo, ao qual estou buscando aderir: antes da gente entrar, acha que só dá pra comer alface; depois de entrar, a gente descobre tanta opção que fica pensando porque raios não virou vegano antes, e vê o quão bizarro é o papel central que se dá às carnes, queijos e derivados animais nas refeições.

Em uma busca na internet, você verá que não é só por aqui que o Estado está em descrença: movimentos políticos e libertários existem em todo lugar, dentro e fora da academia.

Só que é claro que a mídia tradicional não vai querer que você saiba disso. Quanto mais tempo você passar sentado apertando teclas e botões, melhor. No escritório ou em casa. Jogando vídeo-game (e reclamando do preço do console) ou gastando o salário no Peixe Urbano.

Homem branco e de terno abrindo sua camiseta debaixo, demonstrando, em seu peito, uma tatuagem do símbolo da empresa Apple, uma maçã.
Quer fazer parte de alternativas de melhoria social? Pra quê? Compre o novo iPhone 20S!

Não estou apenas abdicando, com essa atitude de não elogiar mais políticos, de reconhecer coisas boas na política e divulgá-las.

Com isso, creio eu estar me abrindo (mais) a N outras formas de engajamento que, quase certamente, sejam mais produtivas que as vias estatais, e não só isso: descobrindo essas novas formas, posso divulgá-las e chamar mais gente pra descobrir comigo, exatamente como eu fazia por meio do apoio às boas práticas na política estatal.

E essas novas formas não necessariamente exigem um SUPER esclarecimento e conhecimento em política, mas apenas vontade autêntica de fazer a diferença.

Seria legal conseguir engajar as pessoas ressaltando o que há de bom na política estatal. Contudo, em anos de Facebook fazendo isso, pouquíssimas são as vezes em que aparecem pessoas dispostas a um diálogo franco e respeitoso, que não resumam tudo a uma visão binária.

E daqui eu parto para uma parte fundamental: o Facebook e outras redes sociais virtuais são redes mundiais de clubinhos.

Nelas, você seleciona seus amigos, só entra em contato com quem quer e, na maioria dos casos, com quem concorda com você (quem não bloqueia ou deleta amigos em ano de eleição, que dê a primeira curtida).

Daí a raridade de algum cidadão com opiniões opostas às minhas vir até a minha linha do tempo se expor, sabendo que vai ter que gastar muito a ponta dos dedos pra apresentar seus argumentos e responder os meus (e os dos tantos outros meus amiguinhos que concordam comigo e que, às vezes, resolvem “me ajudar”).

Grosso modo, Facebook e similares só são bons, quanto à política, pra marcar atos por evento e divulgar pra muita gente em pouco tempo. De resto, é “reaça” contra “petralha”, “Orgulho de ser Hétero” contra “Feminismo sem Demagogia”, e por aí vai. Raras são as vezes em que diálogos produtivos rolam nessas bandas.

E é por essa raridade que eu vou preferir elogiar aquilo que realmente vale a pena, sem ter que passar por uma via estatal na qual eu já não acredito mais, sabendo que existem outros modos produtivos de engajamento.

Se o Estado não é um mal necessário (eu, ao menos, não compro essa), então por que incentivar a crença nele? Se eu incentivar o que tem FORA dele, quem sabe o que tem de bom lá dentro não decida sair pra, como diz o grande poeta Pedro Bial (sic), “dar uma espiadinha”?

Ademais, já há bastante caras de boa-fé tentando salvar o que tem de bom dentro do Estado. Eu, com todo respeito, estou partindo pra outra abordagem.

Desacreditar do Estado pode ser bom, dependendo daquilo que é oferecido como alternativa. E as alternativas que eu vou buscar oferecer e divulgar não serão neoliberais e tampouco os braços cruzados e o “nada presta, então vou curtir a vida!”.

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Estado: um mal necessário(?)

Passando pra um lado mais filosófico, há aqueles que acham que o Estado era bom, mas o homem o corrompeu. Pelo que eu li, estudei etc., não é bem assim que a banda toca.

O Estado moderno começou a tomar forma a partir de uma aliança entre burgueses e nobres.

Pros burgueses (em maioria comerciantes, os pioneiros do capitalismo), valia a pena ter moeda e unidades de medida únicas pra vender com mais facilidade, além de ter a proteção real garantida em acordos de cavalheiros ($$$).

Pros reis, valia a pena continuar no comando, aguentando os burgueses mas ainda regendo a orquestra econômica que, mais tarde, fugiria de seu controle e faria com que suas cabeças rolassem ao fio das guilhotinas.

Rei Luís XVI a caminho da guilhotina na Revolução Francesa. Ilustração de A. Dierkes.
Rei Luís XVI a caminho da guilhotina na Revolução Francesa. Ilustração de A. Dierkes.

Claro, nem tudo é ruim. No meio disso tiveram serviços que foram incorporados ao Estado, direitos começaram a ser exigidos, e conquistados (à custa de muito sangue derramado, vale lembrar).

No entanto, como eu pincelei aqui, o Estado surgiu como uma estrutura renovada de centralização de poder, filha do feudalismo e do mercantilismo comercial, de forma a abrigar as novas elites em formação.

Aqui um pouco de Marx cai bem (com o perdão do anacronismo): a tão falada luta de classes moldou a formação do Estado, mas essa formação não acabou com a luta de classes. E por quê? Porque não acabou com a desigualdade. Muito pelo contrário, se baseou nela. E por que se baseou nela? Porque a formação do Estado foi orquestrada por elites, e se há elite, há oprimido e há opressão.

O que hoje me soa mais como alternativas possíveis são iniciativas anárquicas. Ao contrário do que se pensa, anarquia não tem a ver (necessariamente) com desordem. Muitas correntes anarquistas, muito pelo contrário, prezam pela cooperação mútua e pela ordem, sim. Isso se entendermos “ordem” como um equivalente para harmonia, equilíbrio, e não coerção imposta pela força exclusiva de um Estado.

Sendo assim, dá pra ser anarquista e ter divisão de tarefas, indicação de responsáveis por grupos de trabalho ou por certas funções sociais, enfim.

Mas a obediência é CONSENSUAL. Não se obedece por não haver outra opção ou porque senão a polícia prende, mas porque se QUER. Se o coletivo não quiser mais tal pessoa como responsável por tal coisa, ou alterar a forma com que as tarefas são divididas, todos se reúnem e decidem um novo responsável, ou uma nova organização. Simples assim!

Parece impossível? Parece. Mas já aconteceu, e ainda acontece em muitos lugares hoje. E quem fez isso? Foi o mesmo ser humano no qual muitos não acreditam. Louco, né?

 

O cenário atual e a nossa missão

(In)Felizmente não temos (até então) quaisquer criaturas que tenham se apresentado pra cuidar da humanidade que sejam mais competentes pra isso que nós mesmos. Como diria Mano Brown, “a cena é essa”. Duas coisas:

  1. Odeio generalizações, mas vamos lá.

    Acho que o ser humano tende a querer simplificar as coisas pra não ficar num loop infinito em algumas ideias (leia-se: surtar) e então poder seguir em frente. E esse é o caso quando pensamos sobre nós mesmos (a humanidade).

    Só que não há como afirmar que “o ser humano é naturalmente [ponha um adjetivo negativo aqui]” sem cair em erro. Ao menos, nunca será algo que resista a um exame científico.

    Nesse caso isso é bom, porque se não dá pra provar que os humanos são naturalmente egoístas, mesquinhos, gananciosos etc., então não dá pra dizer que é impossível que eles possam ser, também, companheiros, solidários, generosos etc.

    Só que aí entra o ingrediente mágico: FÉ. E sobre a fé… ah, amig@, sobre a fé eu nem me arrisco a falar! Fica pra um próximo texto (ou próxima vida);

  2. Se é difícil viver em semi-liberdade, tal como vivemos agora (e quem é quase livre, ainda é preso), em liberdade total é MUITO mais complicado.

    Mas aí, entrando um pouco na minha fé também (tendo ou não a ver com religião, enfim), penso que liberdade e amor são a nossa missão por aqui.

    E penso isso por motivos de: qual outra missão seria melhor? Que outros objetivos abarcam mais problemas, solucionando-os, do que uma dose infinita dessas duas coisas?

    Numa analogia com o ciclo da vida, penso na humanidade como uma criança, sendo muito otimista um pré-adolescente, e no amor e na liberdade como a autonomia e a constituição de uma família.

    Sendo assim, estamos muito aquém da maturidade como criaturas pensantes. Mas muito MESMO. Só que não há, a meu ver, outra escolha, e liberdade e amor não se alcançam (somente) com cirandas, flores e unicórnios.

    Também rolam revoluções, Lava-Jatos e Zelotes (os hebreus e a operação da PF). Porque é na crise que encontramos as oportunidades, como já diz a vovó, o Facebook e o tio Ben Parker.

Enfim, a vida é isso aí. Estamos sempre inquietos, sempre com problemas. E quanto mais arranjamos soluções, mais problemas aparecem.

Lembro de um trecho de um documentário no qual um cientista dizia algo assim:

“O conhecimento é como uma ilha e o desconhecido é como um mar. Conforme essa ilha aumenta, maiores ficam as suas praias e maior sua fronteira com o desconhecido. Logo, quanto mais conhecemos, descobrimos mais coisas que ainda ignoramos”.

E será que isso um dia tem fim? Ou será que a ilha e o mar são, ambos, infinitos?

Pra fechar essa enorme filosofia, digo o seguinte: se um dia a gente chegar na resposta, na solução de todos os nossos problemas, então não haverá mais por que viver.

E se esse fim existe, ele está bem longe. Logo, vamos aceitar que essa busca diária é nossa missão e tomar as rédeas desse desafio, motivando-nos uns aos outros a fazer o mesmo.

Assim, ao invés de esperar dias melhores ou salvadores ou representantes políticos, geremos nós próprios a força que nos levará mais rapidamente aonde quer que esse fim seja.


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escrito por:

Bruno Souza

Um animal humano questionador, amante da liberdade, das coisas do corpo e do espírito.