imagem de capa do artigo "Por que parei de elogiar (bons) políticos nas redes sociais", de Bruno Souza, publicado no portal Ano Zero.

Por que parei de elogiar (bons) políticos

Em Consciência, Política, Sociedade por Bruno SouzaComentário

Esse texto sobre polí­ti­cos come­çou a sur­gir, iro­ni­ca­mente, numa longa dis­cus­são no Face­book, prá­tica da qual ando me afas­tando.

Ainda antes de ele come­çar, faço um alerta: se você cli­cou nesse link espe­rando ver pen­sa­men­tos fáceis como “polí­tica não presta”, “todos os polí­ti­cos são cor­rup­tos” ou ainda o clás­sico “vamos explo­dir Bra­sí­lia”, pode parar por aqui. Este texto não é pra você. Se qui­ser con­ti­nuar, fique à von­tade, mas não vai ser legal.


Outras formas de engajamento político

Eu sem­pre fui um oti­mista. Não acho que isso seja ruim, é ape­nas uma esco­lha quanto a qual lente você usa para ver o mundo.

Com polí­tica não foi dife­rente, e isso sig­ni­fica que, a par­tir do momento que come­cei a me enga­jar mais nesse meio e acu­mu­lei mais conhe­ci­mento a res­peito, pas­sei a usar as fer­ra­men­tas que tinha para enal­te­cer as ati­tu­des e ideias de polí­ti­cos com os quais con­cor­dava.

Fazia isso por acre­di­tar estar remando con­tra a maré da indig­na­ção rasa e, prin­ci­pal­mente, por­que esse, até então, pare­cia ser o cami­nho para poli­ti­zar as pes­soas, para mos­trar que polí­tica pode ser bom, e que ela é neces­sá­ria.

Não parei de elo­giar polí­ti­cos por achar que todos eles são fari­nha do mesmo saco. Não são. Minha deci­são se deu por eu achar que não dá pra se con­ten­tar com as miga­lhas de melhora que o atual sis­tema polí­tico nos pro­por­ci­ona, e tam­pouco enal­tecê-las como se sig­ni­fi­cas­sem grande coisa.

A con­clu­são que eu tiro, infe­liz­mente, é que enquanto exis­tir Estado, a con­cen­tra­ção de poder per­ma­ne­cerá. Enquanto hou­ver “repre­sen­tan­tes” polí­ti­cos, a con­cen­tra­ção de poder per­ma­ne­cerá.

Mais do que ser oti­mista, eu gosto de refle­tir e cau­sar refle­xões. Sendo assim, coloco a seguinte per­gunta: será que já não pas­sou da hora de parar de espe­rar resul­ta­dos após aper­tar alguns botões a cada dois anos e arre­ga­çar as pró­prias man­gas, e de denun­ciar todo esse sis­tema de polí­ti­cos que dis­puta não só nosso con­sen­ti­mento, mas a nossa obe­di­ên­cia?

Enquanto hou­ver poder, haverá desi­gual­dade. Se todos de fato o tive­rem, falar em poder não fará mais qual­quer sen­tido.

Via de regra, nós apro­xi­ma­mos tanto os con­cei­tos de “polí­tica” e “Estado” que eles se tor­nam sinô­ni­mos.

Assumi o com­pro­misso de não apoiar, de qual­quer forma, quais­quer polí­ti­cos no meu maior canal de comu­ni­ca­ção, mas isso não quer dizer que eu dei­xei de gos­tar de polí­tica, e tam­pouco quer dizer que eu não vou me pre­o­cu­par em incen­ti­var a par­ti­ci­pa­ção e o enga­ja­mento polí­tico (e até mesmo o gosto pela polí­tica) das pes­soas de outras tan­tas manei­ras que me esti­ve­rem dis­po­ní­veis.

Para ilus­trar, faço um para­lelo disso tudo com o vega­nismo, ao qual estou bus­cando ade­rir: antes da gente entrar, acha que só dá pra comer alface; depois de entrar, a gente des­co­bre tanta opção que fica pen­sando por­que raios não virou vegano antes, e vê o quão bizarro é o papel cen­tral que se dá às car­nes, quei­jos e deri­va­dos ani­mais nas refei­ções.

Em uma busca na inter­net, você verá que não é só por aqui que o Estado está em des­crença: movi­men­tos polí­ti­cos e liber­tá­rios exis­tem em todo lugar, den­tro e fora da aca­de­mia.

Só que é claro que a mídia tra­di­ci­o­nal não vai que­rer que você saiba disso. Quanto mais tempo você pas­sar sen­tado aper­tando teclas e botões, melhor. No escri­tó­rio ou em casa. Jogando vídeo-game (e recla­mando do preço do con­sole) ou gas­tando o salá­rio no Peixe Urbano.

Homem branco e de terno abrindo sua camiseta debaixo, demonstrando, em seu peito, uma tatuagem do símbolo da empresa Apple, uma maçã.

Quer fazer parte de alter­na­ti­vas de melho­ria social? Pra quê? Com­pre o novo iPhone 20S!

Não estou ape­nas abdi­cando, com essa ati­tude de não elo­giar mais polí­ti­cos, de reco­nhe­cer coi­sas boas na polí­tica e divulgá-las.

Com isso, creio eu estar me abrindo (mais) a N outras for­mas de enga­ja­mento que, quase cer­ta­mente, sejam mais pro­du­ti­vas que as vias esta­tais, e não só isso: des­co­brindo essas novas for­mas, posso divulgá-las e cha­mar mais gente pra des­co­brir comigo, exa­ta­mente como eu fazia por meio do apoio às boas prá­ti­cas na polí­tica esta­tal.

E essas novas for­mas não neces­sa­ri­a­mente exi­gem um SUPER escla­re­ci­mento e conhe­ci­mento em polí­tica, mas ape­nas von­tade autên­tica de fazer a dife­rença.

Seria legal con­se­guir enga­jar as pes­soas res­sal­tando o que há de bom na polí­tica esta­tal. Con­tudo, em anos de Face­book fazendo isso, pouquís­si­mas são as vezes em que apa­re­cem pes­soas dis­pos­tas a um diá­logo franco e res­pei­toso, que não resu­mam tudo a uma visão biná­ria.

E daqui eu parto para uma parte fun­da­men­tal: o Face­book e outras redes soci­ais vir­tu­ais são redes mun­di­ais de clu­bi­nhos.

Nelas, você sele­ci­ona seus ami­gos, só entra em con­tato com quem quer e, na mai­o­ria dos casos, com quem con­corda com você (quem não blo­queia ou deleta ami­gos em ano de elei­ção, que dê a pri­meira cur­tida).

Daí a rari­dade de algum cida­dão com opi­niões opos­tas às minhas vir até a minha linha do tempo se expor, sabendo que vai ter que gas­tar muito a ponta dos dedos pra apre­sen­tar seus argu­men­tos e res­pon­der os meus (e os dos tan­tos outros meus ami­gui­nhos que con­cor­dam comigo e que, às vezes, resol­vem “me aju­dar”).

Grosso modo, Face­book e simi­la­res só são bons, quanto à polí­tica, pra mar­car atos por evento e divul­gar pra muita gente em pouco tempo. De resto, é “reaça” con­tra “petra­lha”, “Orgu­lho de ser Hétero” con­tra “Femi­nismo sem Dema­go­gia”, e por aí vai. Raras são as vezes em que diá­lo­gos pro­du­ti­vos rolam nes­sas ban­das.

E é por essa rari­dade que eu vou pre­fe­rir elo­giar aquilo que real­mente vale a pena, sem ter que pas­sar por uma via esta­tal na qual eu já não acre­dito mais, sabendo que exis­tem outros modos pro­du­ti­vos de enga­ja­mento.

Se o Estado não é um mal neces­sá­rio (eu, ao menos, não com­pro essa), então por que incen­ti­var a crença nele? Se eu incen­ti­var o que tem FORA dele, quem sabe o que tem de bom lá den­tro não decida sair pra, como diz o grande poeta Pedro Bial (sic), “dar uma espi­a­di­nha”?

Ade­mais, já há bas­tante caras de boa-fé ten­tando sal­var o que tem de bom den­tro do Estado. Eu, com todo res­peito, estou par­tindo pra outra abor­da­gem.

Desa­cre­di­tar do Estado pode ser bom, depen­dendo daquilo que é ofe­re­cido como alter­na­tiva. E as alter­na­ti­vas que eu vou bus­car ofe­re­cer e divul­gar não serão neo­li­be­rais e tam­pouco os bra­ços cru­za­dos e o “nada presta, então vou cur­tir a vida!”.

[optin­form]

Estado: um mal necessário(?)

Pas­sando pra um lado mais filo­só­fico, há aque­les que acham que o Estado era bom, mas o homem o cor­rom­peu. Pelo que eu li, estu­dei etc., não é bem assim que a banda toca.

O Estado moderno come­çou a tomar forma a par­tir de uma ali­ança entre bur­gue­ses e nobres.

Pros bur­gue­ses (em mai­o­ria comer­ci­an­tes, os pio­nei­ros do capi­ta­lismo), valia a pena ter moeda e uni­da­des de medida úni­cas pra ven­der com mais faci­li­dade, além de ter a pro­te­ção real garan­tida em acor­dos de cava­lhei­ros ($$$).

Pros reis, valia a pena con­ti­nuar no comando, aguen­tando os bur­gue­ses mas ainda regendo a orques­tra econô­mica que, mais tarde, fugi­ria de seu con­trole e faria com que suas cabe­ças rolas­sem ao fio das gui­lho­ti­nas.

Rei Luís XVI a caminho da guilhotina na Revolução Francesa. Ilustração de A. Dierkes.

Rei Luís XVI a cami­nho da gui­lho­tina na Revo­lu­ção Fran­cesa. Ilus­tra­ção de A. Dier­kes.

Claro, nem tudo é ruim. No meio disso tive­ram ser­vi­ços que foram incor­po­ra­dos ao Estado, direi­tos come­ça­ram a ser exi­gi­dos, e con­quis­ta­dos (à custa de muito san­gue der­ra­mado, vale lem­brar).

No entanto, como eu pin­ce­lei aqui, o Estado sur­giu como uma estru­tura reno­vada de cen­tra­li­za­ção de poder, filha do feu­da­lismo e do mer­can­ti­lismo comer­cial, de forma a abri­gar as novas eli­tes em for­ma­ção.

Aqui um pouco de Marx cai bem (com o per­dão do ana­cro­nismo): a tão falada luta de clas­ses mol­dou a for­ma­ção do Estado, mas essa for­ma­ção não aca­bou com a luta de clas­ses. E por quê? Por­que não aca­bou com a desi­gual­dade. Muito pelo con­trá­rio, se baseou nela. E por que se baseou nela? Por­que a for­ma­ção do Estado foi orques­trada por eli­tes, e se há elite, há opri­mido e há opres­são.

O que hoje me soa mais como alter­na­ti­vas pos­sí­veis são ini­ci­a­ti­vas anár­qui­cas. Ao con­trá­rio do que se pensa, anar­quia não tem a ver (neces­sa­ri­a­mente) com desor­dem. Mui­tas cor­ren­tes anar­quis­tas, muito pelo con­trá­rio, pre­zam pela coo­pe­ra­ção mútua e pela ordem, sim. Isso se enten­der­mos “ordem” como um equi­va­lente para har­mo­nia, equi­lí­brio, e não coer­ção imposta pela força exclu­siva de um Estado.

Sendo assim, dá pra ser anar­quista e ter divi­são de tare­fas, indi­ca­ção de res­pon­sá­veis por gru­pos de tra­ba­lho ou por cer­tas fun­ções soci­ais, enfim.

Mas a obe­di­ên­cia é CONSENSUAL. Não se obe­dece por não haver outra opção ou por­que senão a polí­cia prende, mas por­que se QUER. Se o cole­tivo não qui­ser mais tal pes­soa como res­pon­sá­vel por tal coisa, ou alte­rar a forma com que as tare­fas são divi­di­das, todos se reú­nem e deci­dem um novo res­pon­sá­vel, ou uma nova orga­ni­za­ção. Sim­ples assim!

Parece impos­sí­vel? Parece. Mas já acon­te­ceu, e ainda acon­tece em mui­tos luga­res hoje. E quem fez isso? Foi o mesmo ser humano no qual mui­tos não acre­di­tam. Louco, né?

 

O cenário atual e a nossa missão

(In)Felizmente não temos (até então) quais­quer cri­a­tu­ras que tenham se apre­sen­tado pra cui­dar da huma­ni­dade que sejam mais com­pe­ten­tes pra isso que nós mes­mos. Como diria Mano Brown, “a cena é essa”. Duas coi­sas:

  1. Odeio gene­ra­li­za­ções, mas vamos lá.

    Acho que o ser humano tende a que­rer sim­pli­fi­car as coi­sas pra não ficar num loop infi­nito em algu­mas ideias (leia-se: sur­tar) e então poder seguir em frente. E esse é o caso quando pen­sa­mos sobre nós mes­mos (a huma­ni­dade).

    Só que não há como afir­mar que “o ser humano é natu­ral­mente [ponha um adje­tivo nega­tivo aqui]” sem cair em erro. Ao menos, nunca será algo que resista a um exame cien­tí­fico.

    Nesse caso isso é bom, por­que se não dá pra pro­var que os huma­nos são natu­ral­mente egoís­tas, mes­qui­nhos, ganan­ci­o­sos etc., então não dá pra dizer que é impos­sí­vel que eles pos­sam ser, tam­bém, com­pa­nhei­ros, soli­dá­rios, gene­ro­sos etc.

    Só que aí entra o ingre­di­ente mágico: . E sobre a fé… ah, amig@, sobre a fé eu nem me arrisco a falar! Fica pra um pró­ximo texto (ou pró­xima vida);

  2. Se é difí­cil viver em semi-liber­dade, tal como vive­mos agora (e quem é quase livre, ainda é preso), em liber­dade total é MUITO mais com­pli­cado.

    Mas aí, entrando um pouco na minha fé tam­bém (tendo ou não a ver com reli­gião, enfim), penso que liber­dade e amor são a nossa mis­são por aqui.

    E penso isso por moti­vos de: qual outra mis­são seria melhor? Que outros obje­ti­vos abar­cam mais pro­ble­mas, solu­ci­o­nando-os, do que uma dose infi­nita des­sas duas coi­sas?

    Numa ana­lo­gia com o ciclo da vida, penso na huma­ni­dade como uma cri­ança, sendo muito oti­mista um pré-ado­les­cente, e no amor e na liber­dade como a auto­no­mia e a cons­ti­tui­ção de uma famí­lia.

    Sendo assim, esta­mos muito aquém da matu­ri­dade como cri­a­tu­ras pen­san­tes. Mas muito MESMO. Só que não há, a meu ver, outra esco­lha, e liber­dade e amor não se alcan­çam (somente) com ciran­das, flo­res e uni­cór­nios.

    Tam­bém rolam revo­lu­ções, Lava-Jatos e Zelo­tes (os hebreus e a ope­ra­ção da PF). Por­que é na crise que encon­tra­mos as opor­tu­ni­da­des, como já diz a vovó, o Face­book e o tio Ben Par­ker.

Enfim, a vida é isso aí. Esta­mos sem­pre inqui­e­tos, sem­pre com pro­ble­mas. E quanto mais arran­ja­mos solu­ções, mais pro­ble­mas apa­re­cem.

Lem­bro de um tre­cho de um docu­men­tá­rio no qual um cien­tista dizia algo assim:

O conhe­ci­mento é como uma ilha e o des­co­nhe­cido é como um mar. Con­forme essa ilha aumenta, mai­o­res ficam as suas praias e maior sua fron­teira com o des­co­nhe­cido. Logo, quanto mais conhe­ce­mos, des­co­bri­mos mais coi­sas que ainda igno­ra­mos”.

E será que isso um dia tem fim? Ou será que a ilha e o mar são, ambos, infi­ni­tos?

Pra fechar essa enorme filo­so­fia, digo o seguinte: se um dia a gente che­gar na res­posta, na solu­ção de todos os nos­sos pro­ble­mas, então não haverá mais por que viver.

E se esse fim existe, ele está bem longe. Logo, vamos acei­tar que essa busca diá­ria é nossa mis­são e tomar as rédeas desse desa­fio, moti­vando-nos uns aos outros a fazer o mesmo.

Assim, ao invés de espe­rar dias melho­res ou sal­va­do­res ou repre­sen­tan­tes polí­ti­cos, gere­mos nós pró­prios a força que nos levará mais rapi­da­mente aonde quer que esse fim seja.


Vem sem­pre aqui? Cola­bore com o AZ e nos ajude a pro­du­zir mais tex­tos como este. CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Mais artigos com temas políticos? Leia também:

Como se cons­trói uma uto­pia pos­sí­vel?
Pági­nas no Face­book para ficar crâ­nio em polí­tica

Bruno Souza
Um animal humano questionador, amante da liberdade, das coisas do corpo e do espírito.

Compartilhe