[Foto de capa: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo/AE]

Na última quinta-feira, dia 18 de setembro de 2014, o vendedor ambulante Carlos Augusto Muniz, 30 anos, foi morto por um policial militar durante a Operação Delegada, no bairro da Lapa, São Paulo. O vídeo a seguir (que é forte, já aviso) mostra toda a situação em detalhes, do início ao trágico fim.

Tenho algumas considerações sobre esse vídeo, e todas elas partem de um princípio que aprendi com outros bem mais sábios, um princípio que levo para toda a vida: nada é tão simples. Bem e mal, certo e errado, opressor e oprimido, algoz e vítima – nada é tão simples assim.

Dito isso, em primeiro lugar, fica evidente o total despreparo do policial, colocando-se desde o início com a arma posicionada de uma forma que poderia resultar a qualquer momento num desastre. Não havia “criminosos” ali, no sentido de delinquentes que ameaçavam a incolumidade física de outras pessoas. Tratava-se de uma operação destinada a apreender mercadorias comercializadas ilegalmente. Havia, obviamente, dois valores humanos de diferentes pesos: o comércio regular, desafiado pela venda clandestina de mercadorias, de um lado, e a vida humana, colocada em risco por uma arma, de outro. Qualquer policial minimamente treinado saberia que puxar a arma ali, apenas para intimidar aqueles que tentavam resgatar o sujeito que estava sendo detido, ultrapassava uma linha inadmissível. A polícia não é só reconhecidamente truculenta, mas despreparada, e adestrada para usar de ameaça e brutalidade como resposta para tudo. Os policiais pensam em si mesmos como martelos, e nós, a sociedade, somos os pregos. Alguns pregos, porém, estão mais para fora da parede do que outros – os menos ajustados, os que por inúmeras contingências precisam, por exemplo, trabalhar no comércio clandestino, recebem marteladas com mais frequência, enquanto aqueles pregos que estão perfeitamente ajustados à parede não são perturbados. Aliás, o incidente nos EUA, em Ferguson, mostra que isso não é privilégio do Brasil nem dos países em desenvolvimento.

Em segundo lugar, há uma tendência nas redes sociais de vilanizar completamente o policial. Bem, é claro que há muitos abusos da Polícia pelo país afora, e principalmente em SP. Porém, nesse caso específico, o policial evidentemente foi atacado por aquele que acabou assassinando. Então, o disparo não foi algo gratuito, desferido contra uma vítima que estava ali apenas protestando verbalmente – a vítima nitidamente tentou agarrar o braço do policial, decidiu atacá-lo no exato momento em que ele virou a cabeça e olhou para outro lado. E isso numa situação em que os policiais eram minoria e estavam cercados por homens que falavam abertamente em livrar o detido da iminente prisão, iniciativa que só poderia ser bem sucedida, claro, por meio da violência contra os policiais. Há em direito penal a ponderação da participação da vítima no cometimento do crime, e nesse caso parece claro que o ato do policial não foi completamente sem propósito, ou seja, sem motivação alguma senão a deliberada vontade de matar um inocente. Nada é simples como se imagina.

Mas há pessoas que decidem trilhar o caminho do pensamento simples, unilateral, monotemático. Então rapidamente em torno desse fato agregam-se dois exércitos. De um lado, aqueles que vilanizam o policial e tornam a vítima um absoluto inocente que nada teve a ver com sua própria morte. De outro lado, alinham-se aqueles que debocham dos direitos humanos e defendem o policial por ver na vítima apenas um criminoso – e criminoso não pode ser tratado com buquê de rosas, alegam, afinal criminoso bom é o criminoso morto. Embora eu simpatize muito menos com o segundo exército (representante da estupidez nacional) do que com o primeiro, em ambos temos a mesma miopia diante dos fatos, polarizando a discussão. A verdade, porém, é bem mais complexa.

Em terceiro lugar, observem o final do vídeo. Embora várias pessoas tenham dito reiteradamente que a vítima “está morrendo”, aquele que filmava a cena em nenhum momento pensou em interromper essa atividade a fim de ligar para uma emergência. Era um tumulto, e não havia como ter certeza de que alguém mais ligaria pedindo socorro médico. Logo, o razoável seria supor que qualquer um que possuísse um celular disponível fizesse essa chamada, ainda que possivelmente outras pessoas estivessem efetuando essa mesma ligação no momento, e ainda que as chances da vítima sobreviver fossem muito reduzidas – ninguém ali era médico para fazer esse julgamento com precisão. Mas o sujeito ficou lá, filmando a morte de alguém de vários ângulos, registrando o sangue vazar de seu corpo agonizante até formar uma poça, sem cogitar de fazer qualquer outra coisa.

Um quarto e último ponto. Embora várias pessoas dissessem, apavoradas, que “ele está morrendo”, a ninguém ocorreu o óbvio: que é terrível morrer sozinho, sem amparo, e que a segunda coisa a se fazer, após providenciar socorro emergencial, seria ajoelhar-se e pelo menos segurar a mão daquele estranho que estava prestes a morrer, transmitindo-lhe algum calor humano, algum consolo, por mais ínfimo que fosse, alguma empatia enfim. Já sofri um acidente e pensei que ia morrer no asfalto, e naquele momento a mão de uma pessoa estranha que segurou a minha fez toda a diferença. Morrer sozinho, abandonado por seus camaradas humanos, de surpresa, deve ser uma experiência apavorante.

Esta é nossa humanidade: policiais truculentos, cidadãos irresponsáveis, observadores vicários e testemunhas omissas.

Mas nada é tão simples.

escrito por:

Victor Lisboa

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