Pode uma máquina sentir?

Em Ciência, Consciência por Felipe NovaesComentário

Sem­pre fui fã de fic­ção cien­tí­fica. A ideia de des­co­brir o que está além da rea­li­dade ime­di­ata do coti­di­ano e a trans­cen­dên­cia dos limi­tes de nosso saber mais espe­ci­a­li­zado sem­pre me dei­xou fas­ci­nado, com a pulga atrás da ore­lha.

Este ano foi para as telo­nas Trans­cen­dence, um fil­mão sobre inte­li­gên­cia arti­fi­cial.

Na trama, dois pes­qui­sa­do­res con­se­guem, final­mente, criar a tão espe­rada cons­ci­ên­cia (tanto no sen­tido de cons­ci­ous­ness quanto no de awa­re­ness) em um orga­nismo ciber­né­tico. Isso ocorre gra­ças à bem suce­dida trans­fe­rên­cia, via upload, da mente de um dos cien­tis­tas (Johnny Depp) para a máquina, que, antes disso, ainda não tinha um fun­ci­o­na­mento com­pa­rá­vel ao da mente humana. Gra­ças a um empur­rão­zi­nho da tec­no­lo­gia de com­pu­ta­ção quân­tica e uma boa con­cep­ção fun­ci­o­na­lista da mente, o apre­en­di­mento é alcan­çado.

O pro­blema surge quando o orga­nismo ciber­né­tico [ou a mente do cien­tista, ou o cien­tista, ou tudo isso ao mesmo tempo?] tem sua capa­ci­dade de raci­o­cí­nio ampli­ada expo­nen­ci­al­mente, sur­gindo pla­nos auda­ci­o­sos para a huma­ni­dade. Ele vis­lum­bra nada mais que a solu­ção para a desi­gual­dade, guer­ras, fome e des­trui­ção do ecos­sis­tema ter­res­tre.

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Esse é um daque­les fil­mes que dão pou­cas res­pos­tas pron­tas para as ques­tões mais deta­lhis­tas que vão sur­gindo e, de que­bra, garante uma boa refle­xão para quem curte o tema.

Para aque­les que apre­ciam inda­ga­ções tanto quanto res­pos­tas, Trans­cen­dence tem que ser visto. Eu sou um des­ses, e ao longo dos dias, após des­fru­tar a his­tó­ria, resolvi ano­tar algu­mas das ques­tões mais ins­ti­gan­tes que esse assunto sus­cita. Apre­cie sem mode­ra­ção e, quem sabe, arris­que algu­mas res­pos­tas nos comen­tá­rios.

1- A Grande Ques­tão. Máqui­nas um dia podem se tor­nar cons­ci­en­tes?

Refiro-me não à pos­si­bi­li­dade prá­tica, tópico pró­prio para os enge­nhei­ros, mas à teó­rica, objeto de con­tenda entre filó­so­fos. Algo só pode se tor­nar um apre­en­di­mento prá­tico na medida em que é coe­rente teo­ri­ca­mente. Se não temos sequer um modelo inequí­voco do fun­ci­o­na­mento men­tal que inclua ele­men­tos obs­cu­ros como a cons­ci­ên­cia, como pode­mos pular para a via­bi­li­dade prá­tica?

2- A mente é o fun­ci­o­na­mento do cére­bro?

Essa é uma per­gunta con­tro­versa, pois envolve diver­sas diver­gên­cias filo­só­fi­cas e reli­gi­o­sas. Aque­les que acre­di­tam na exis­tên­cia de uma alma, uma espé­cie de ele­mento que seja sepa­rado de nosso subs­trato orgâ­nico, abo­mi­na­rão essa ideia. Para esses, por mais que pos­sa­mos simu­lar o fun­ci­o­na­mento do cére­bro de alguém, sem­pre ficará de fora algo que é pri­mor­dial na defi­ni­ção do que é humano. A filo­so­fia tem sua pró­pria ver­são atual  dessa ideia (a ver­são mais antiga é cre­di­tada à René Des­car­tes): o dua­lismo de pro­pri­e­da­des, defen­dido com unhas e den­tes pelo filó­sofo David Chal­mers. A dife­rença é que, ao con­trá­rio de filósofos/religiosos como Des­car­tes, Chal­mers batiza essa coisa ine­fá­vel como “cons­ci­ên­cia [cons­ci­ous­ness]” ou “cons­ci­ên­cia expe­ri­en­cial”, ou, mais tec­ni­ca­mente, qua­lia. Sob esse ponto de vista, máqui­nas cons­ci­en­tes são uma impos­si­bi­li­dade lógica.

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Já para fun­ci­o­na­lis­tas como Daniel Den­nett, não. Ele separa a ques­tão da mente e a da cons­ci­ous­ness. Mente e os ele­men­tos que com­põem-na (pen­sa­men­tos, sen­ti­men­tos, emo­ções, inten­ções, von­ta­des, dese­jos etc) seriam fic­ções úteis cri­a­das por nós para faci­li­tar a inter­pre­ta­ção do com­por­ta­mento dos outros e o nosso pró­prio. Não exis­ti­ria, por­tanto, uma equi­va­lên­cia entre esses esta­dos qua­li­ta­ti­vos e a ati­va­ção de tre­chos espe­cí­fi­cos do cére­bro. A mente e seus atri­bu­tos seriam ilu­sões cri­a­das pelo fun­ci­o­na­mento glo­bal do orga­nismo humano no mundo. E o pro­blema da cons­ci­ên­cia, enten­dida por Chal­mers como pro­pri­e­da­des ine­fá­veis e irre­du­tí­veis à esta­dos físi­cos, seria uma mera con­fu­são con­cei­tual, não exis­tindo sepa­ra­da­mente.

Nesse sen­tido, se uma máquina simula esse sis­tema, temos uma mente, com cons­ci­ên­cia e tudo.

Ok, eu sei que você está que­rendo per­gun­tar: “Então, o Robo­cop pode­ria exis­tir?”. Teo­ri­ca­mente, sim! Aliás, não sei se você repa­rou, mas na mais recente ver­são cine­ma­to­grá­fica, o cien­tista cri­a­dor do pro­jeto tem como sobre­nome jus­ta­mente “Den­nett”.

3-  Se cons­truí­rem uma máquina cons­ci­ente, esta­re­mos expli­cando a mente e a cons­ci­ên­cia?

Segundo os fun­ci­o­na­lis­tas, desde o mate­má­tico Alan Turing, sim: “Simu­lar é expli­car”, era seu lema. Do mesmo jeito, expli­ca­re­mos o uni­verso se um dia simu­lar­mos um igual­zi­nho o nosso por um pro­grama de com­pu­ta­dor. Fui longe demais, mas a lógica é essa.

4- Trans­cen­dence, assim como Inva­so­res, traz uma inte­res­sante ques­tão que nos ator­menta durante toda a exi­bi­ção: se o preço para o fim de todas as infe­li­ci­da­des huma­nas fosse nos jun­tar a uma espé­cie de supe­ror­ga­nismo (seja ele ali­e­ní­gena ou robó­tico) que vivesse har­mo­ni­o­sa­mente e para o bem de todos, acei­ta­ría­mos?

Só o que posso con­cluir é que o nosso ego é forte demais para que dei­xe­mos nossa indi­vi­du­a­li­dade mus­cu­losa se enfra­que­cer, mesmo que esse seja o melhor para todo mundo. Aliás, a mera pos­si­bi­li­dade de ver alguém com poder sufi­ci­ente para nos sub­ju­gar, já seria motivo para uma guerra homé­rica.

A última é para tirar o sono. E é com ela que me des­peço e deixo você com seus pró­prios pen­sa­men­tos e ten­ta­ti­vas de res­posta.

5- Qual o futuro da crença no sobre­na­tu­ral, em Deus, num futuro pos­sí­vel em que máqui­nas espi­ri­tu­ais (para usar um termo de Ray Kurzweil) tives­sem virado uma rea­li­dade? Seria esse o último prego no cai­xão onde jaz a crença numa alma ima­te­rial?

Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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