Sempre fui fã de ficção científica. A ideia de descobrir o que está além da realidade imediata do cotidiano e a transcendência dos limites de nosso saber mais especializado sempre me deixou fascinado, com a pulga atrás da orelha.

Este ano foi para as telonas Transcendence, um filmão sobre inteligência artificial.

Na trama, dois pesquisadores conseguem, finalmente, criar a tão esperada consciência (tanto no sentido de consciousness quanto no de awareness) em um organismo cibernético. Isso ocorre graças à bem sucedida transferência, via upload, da mente de um dos cientistas (Johnny Depp) para a máquina, que, antes disso, ainda não tinha um funcionamento comparável ao da mente humana. Graças a um empurrãozinho da tecnologia de computação quântica e uma boa concepção funcionalista da mente, o apreendimento é alcançado.

O problema surge quando o organismo cibernético [ou a mente do cientista, ou o cientista, ou tudo isso ao mesmo tempo?] tem sua capacidade de raciocínio ampliada exponencialmente, surgindo planos audaciosos para a humanidade. Ele vislumbra nada mais que a solução para a desigualdade, guerras, fome e destruição do ecossistema terrestre.

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Esse é um daqueles filmes que dão poucas respostas prontas para as questões mais detalhistas que vão surgindo e, de quebra, garante uma boa reflexão para quem curte o tema.

Para aqueles que apreciam indagações tanto quanto respostas, Transcendence tem que ser visto. Eu sou um desses, e ao longo dos dias, após desfrutar a história, resolvi anotar algumas das questões mais instigantes que esse assunto suscita. Aprecie sem moderação e, quem sabe, arrisque algumas respostas nos comentários.

1- A Grande Questão. Máquinas um dia podem se tornar conscientes?

Refiro-me não à possibilidade prática, tópico próprio para os engenheiros, mas à teórica, objeto de contenda entre filósofos. Algo só pode se tornar um apreendimento prático na medida em que é coerente teoricamente. Se não temos sequer um modelo inequívoco do funcionamento mental que inclua elementos obscuros como a consciência, como podemos pular para a viabilidade prática?

2- A mente é o funcionamento do cérebro?

Essa é uma pergunta controversa, pois envolve diversas divergências filosóficas e religiosas. Aqueles que acreditam na existência de uma alma, uma espécie de elemento que seja separado de nosso substrato orgânico, abominarão essa ideia. Para esses, por mais que possamos simular o funcionamento do cérebro de alguém, sempre ficará de fora algo que é primordial na definição do que é humano. A filosofia tem sua própria versão atual  dessa ideia (a versão mais antiga é creditada à René Descartes): o dualismo de propriedades, defendido com unhas e dentes pelo filósofo David Chalmers. A diferença é que, ao contrário de filósofos/religiosos como Descartes, Chalmers batiza essa coisa inefável como “consciência [consciousness]” ou “consciência experiencial”, ou, mais tecnicamente, qualia. Sob esse ponto de vista, máquinas conscientes são uma impossibilidade lógica.

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Já para funcionalistas como Daniel Dennett, não. Ele separa a questão da mente e a da consciousness. Mente e os elementos que compõem-na (pensamentos, sentimentos, emoções, intenções, vontades, desejos etc) seriam ficções úteis criadas por nós para facilitar a interpretação do comportamento dos outros e o nosso próprio. Não existiria, portanto, uma equivalência entre esses estados qualitativos e a ativação de trechos específicos do cérebro. A mente e seus atributos seriam ilusões criadas pelo funcionamento global do organismo humano no mundo. E o problema da consciência, entendida por Chalmers como propriedades inefáveis e irredutíveis à estados físicos, seria uma mera confusão conceitual, não existindo separadamente.

Nesse sentido, se uma máquina simula esse sistema, temos uma mente, com consciência e tudo.

Ok, eu sei que você está querendo perguntar: “Então, o Robocop poderia existir?”. Teoricamente, sim! Aliás, não sei se você reparou, mas na mais recente versão cinematográfica, o cientista criador do projeto tem como sobrenome justamente “Dennett”.

3-  Se construírem uma máquina consciente, estaremos explicando a mente e a consciência?

Segundo os funcionalistas, desde o matemático Alan Turing, sim: “Simular é explicar”, era seu lema. Do mesmo jeito, explicaremos o universo se um dia simularmos um igualzinho o nosso por um programa de computador. Fui longe demais, mas a lógica é essa.

4- Transcendence, assim como Invasores, traz uma interessante questão que nos atormenta durante toda a exibição: se o preço para o fim de todas as infelicidades humanas fosse nos juntar a uma espécie de superorganismo (seja ele alienígena ou robótico) que vivesse harmoniosamente e para o bem de todos, aceitaríamos?

Só o que posso concluir é que o nosso ego é forte demais para que deixemos nossa individualidade musculosa se enfraquecer, mesmo que esse seja o melhor para todo mundo. Aliás, a mera possibilidade de ver alguém com poder suficiente para nos subjugar, já seria motivo para uma guerra homérica.

A última é para tirar o sono. E é com ela que me despeço e deixo você com seus próprios pensamentos e tentativas de resposta.

5- Qual o futuro da crença no sobrenatural, em Deus, num futuro possível em que máquinas espirituais (para usar um termo de Ray Kurzweil) tivessem virado uma realidade? Seria esse o último prego no caixão onde jaz a crença numa alma imaterial?

escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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