“O desejo é um tempo parado,
É quando se trocam as datas dos bichos e das flores,
É quando aumenta a rachadura da velha parede,
É quando se vira a folha, a folha da história,
É quando se pinta um fio branco na cabeleira preta,
É quando se endurece o rastro de sorriso
No canto dos olhos.”

Otto – Meu mundo

.

Há uma passagem no livro Admirável Mundo Novo em que o Administrador do Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central, local aonde “fabricam” os sujeitos desse novo mundo está a falar sobre como descobriu um meio de exterminar com os impulsos presentes na natureza humana, os quais seriam deveras incômodos para a construção de uma sociedade estável.

            “Reprimido o impulso transborda, e a inundação é o sentimento;[…] o curso de água não contido flui tranquilamente pelos canais que lhe foram destinados, rumo a uma calma euforia. […] O bebê decantado berra; imediatamente uma enfermeira chega com uma mamadeira de secreção externa. O sentimento está a espreita nesse intervalo de tempo entre o desejo e a sua satisfação.”

fetoscolorido

Tal passagem permite que possamos compreender bastante a respeito dessa nova civilização, na qual não se abre espaços para que o sujeito saiba acerca de suas vontades. Afinal de contas se há sempre um “seio” a se ofertar a boca do bebê antes mesmo que ele comece a que gemer de fome, como poderá ele saber que nem só de leite vive o homem?

De repente, dois mundos começam a se embaralhar na minha frente e meio zonza me descubro caminhando por um corredor escuro cheio de placas onde estão desenhadas setas em vermelho neon. Mais pessoas caminham junto comigo e seguem essas setas. Completamente perdida decido seguir o fluxo. Vejo que todos param diante de uma porta dourada em formato de círculo e assim que um guarda verifica se o seu nome consta na lista a porta se abre, e uma a uma daquelas pessoas sucessivamente vão entrando. Ainda meio confusa primeiramente sinto receio em ir até o guarda, mas decido brincar com o acaso e entro na fila para a conferência dos nomes. Há apenas duas pessoas na minha frente. Um homem de meia idade e uma adolescente. Ambos entram pela porta. Chega a minha vez.

– Nome por favor? – Logo diz o guarda.

Tento parecer familiarizada com o ritual e sem titubear respondo: – Bruna Abrahão.

– Oh sim, a senhorita pode entrar.

A curiosidade tomando conta dos olhos e o estômago bulindo e se remexendo diante da inevitável ansiedade quando não sabemos o que esperar. Mais dois passos para frente e a porta se abriu para mim. Mais dois passos. E ela se fecha para os que ficaram lá fora.

Estou dentro de um grande salão onde mais placas indicam com suas setas outras salas, mas agora antes de cada seta há uma palavra assinalando para onde cada um daqueles caminhos pode te levar. Antes de me decidir resolvo dar um passeio para avaliar minhas possibilidades, e tomada pelo estranhamento causado por esta situação opto por seguir o caminho que cogitei que me levaria para casa, pois na placa se lia Home. Ao chegar ao fim do percurso, notei que não tinha chegado em casa. Uma cortina preta se fechava a minha frente. Puxei-a para o lado.

De repente notei que estava em um leilão. A cada 3 minutos um novo leiloeiro subia no palco e anunciava um móvel, um eletrodoméstico e até mesmo uma casa toda mobiliada esperando pelo lance mais gordo. Mas antes que as ofertas começassem, o leiloeiro apresentava o seu produto falando sobre as maravilhas que somente aquela batedeira podia fazer, ou sobre como era fundamental que você comprasse aquela poltrona azul turquesa do mais renomado design contemporâneo pela bagatela de 10 mil dólares como lance inicial. Muitas pessoas gritaram desesperadas por essa poltrona. Os que a perderam pareciam desolados, havia em sua face um ar de derrota, como se não pudessem seguir adiante sem aquele objeto.

3dglasses

Senti uma mão me cutucando o ombro.

– Bruna! Ei Bruna!

Me descobri parada em frente a vitrine de uma loja num shopping.

– Linda essa poltrona azul turquesa não é?! Passei outro dia por aqui e também fiquei encantado com ela, parecida com a que vi num filme.

De volta ao texto leitor. Perdoe-me caso tenha me prolongado no devaneio do conto, todavia prometo justificar meu apólogo nos próximos parágrafos.

Delírios de consumo, meu caro. Foi isso. E sinto dizer que não sofro sozinha desse mal. Ou vai você me negar que nunca teve sonhos ao contemplar alguma vitrine? E que ao ter que voltar pra casa não se sentiu miserável e talvez incompleto por saber que o seu salário não seria capaz de pagar por aquele objeto que mexeu com o seu desejo?

Mas eu pergunto leitor, que substância contém o objeto capaz de fazer com que eu me sinta completo? E quanto ao desejo, nossa eterna sede inominável, poderia ele ser satisfeito na aquisição desse objeto material?

Já faz algum tempo que algumas teorias associam o desejo à noção de falta e, fazem dele uma busca interminável e inalcançável, a saga sem fim que revela ao ser humano sua condição desgraçada – a insatisfação crônica.

Os deuses da publicidade (os leiloeiros do meu breve devaneio), souberam muito bem como se utilizar dessa concepção e logo se transformaram no braço direito das empresas produtoras de objetos que prometem suprir nosso vazio, se apoderando do nosso imaginário a partir do momento em que se utilizam da fantasia para agregar um valor simbólico aos produtos de consumo, os transformando em objetos de fetiche. Como quando associa o corpo da mulher à garrafa de uma cerveja, um carro veloz à potência sexual masculina, um salto alto à um falso empoderamento feminino ou o cheiro de um desodorante à uma substância mágica capaz de capturar milhares de fêmeas.

audrey

A brincadeira não tem mudado muito com o passar dos anos. A diferença é agora podemos ver isso em cores com qualidade HD. Contudo, permanecemos reféns dos mesmo joguinhos sexuais da publicidade, que esquarteja o nosso desejo o reduzindo à mera pornografia.

No livro O Anti-Édipo, Deleuze e Guattari, apresentam uma nova percepção acerca do desejo, a qual vêm a questionar sua ligação com o conceito de falta – a falta é arrumada, organizada na produção social. É contraproduzida pela instância de antiprodução que se assenta sobre as forças produtivas e se apropria delas. Ela nunca é primeira: a produção nunca é organizada em função de uma falta anterior; a falta é que vem alojar-se, vacuolizar-se, propagar-se de acordo com a organização de uma produção prévia.

Através dessa corajosa afirmativa, os autores denunciam um sistema que toma para si concepções científicas e as utiliza para preservar um sistema de oferta e procura, que a partir da implementação da consciência de falta, nos transforma em ávidos consumidores.

E eles dizem mais: É arte de uma classe dominante essa prática do vazio como economia de mercado: organizar a falta na abundância de produção, descarregar todo o desejo no grande medo de se ter falta, fazê-lo depender do objeto de uma produção real que se supõe exterior ao desejo.

Com base em tal alegação, só posso chegar a uma conclusão, ainda não sabemos o que é o desejo, talvez, nem sequer o tenhamos experimentado e nem iremos enquanto o delegarmos a manufaturação das grandes empresas. Deleuze e Guattari nos incitam a entender o desejo de outro modo, não mais como falta, mas como produção, uma força que nos é inerente e nos impele a criar sobre/com ela.

Precisamos sair do limbo pornográfico para adentrar no campo do erotismo, nossa fantasia pode ir além de uma dialética tão simplista, mesmo que se encontre prazer no consumo do objeto, continuaremos nos sentindo vazios enquanto não formos capazes de elaborar enredos mais complexos. O desejo não é algo que se devora, mas sobre o qual se compõe e se inventa. Ele jamais será algo pronto, embalado e disposto na prateleira de um supermercado, mas antes uma tela em branco assentada em um ateliê esperando pelo artista que irá pincelar sobre ela as suas tintas.

pollock

escrito por:

Bruna Regina

Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.