A plenitude do desejo foi inoculada pela falta

Em Comportamento, Consciência por Bruna ReginaComentário

O desejo é um tempo parado,
É quando se tro­cam as datas dos bichos e das flo­res,
É quando aumenta a racha­dura da velha parede,
É quando se vira a folha, a folha da his­tó­ria,
É quando se pinta um fio branco na cabe­leira preta,
É quando se endu­rece o ras­tro de sor­riso
No canto dos olhos.”

Otto — Meu mundo

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Há uma pas­sa­gem no livro Admi­rá­vel Mundo Novo em que o Admi­nis­tra­dor do Cen­tro de Incu­ba­ção e Con­di­ci­o­na­mento de Lon­dres Cen­tral, local aonde “fabri­cam” os sujei­tos desse novo mundo está a falar sobre como des­co­briu um meio de exter­mi­nar com os impul­sos pre­sen­tes na natu­reza humana, os quais seriam deve­ras incô­mo­dos para a cons­tru­ção de uma soci­e­dade está­vel.

            “Repri­mido o impulso trans­borda, e a inun­da­ção é o sen­ti­mento;[…] o curso de água não con­tido flui tran­qui­la­mente pelos canais que lhe foram des­ti­na­dos, rumo a uma calma eufo­ria. […] O bebê decan­tado berra; ime­di­a­ta­mente uma enfer­meira chega com uma mama­deira de secre­ção externa. O sen­ti­mento está a espreita nesse inter­valo de tempo entre o desejo e a sua satis­fa­ção.”

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Tal pas­sa­gem per­mite que pos­sa­mos com­pre­en­der bas­tante a res­peito dessa nova civi­li­za­ção, na qual não se abre espa­ços para que o sujeito saiba acerca de suas von­ta­des. Afi­nal de con­tas se há sem­pre um “seio” a se ofer­tar a boca do bebê antes mesmo que ele comece a que gemer de fome, como poderá ele saber que nem só de leite vive o homem?

De repente, dois mun­dos come­çam a se emba­ra­lhar na minha frente e meio zonza me des­cu­bro cami­nhando por um cor­re­dor escuro cheio de pla­cas onde estão dese­nha­das setas em ver­me­lho neon. Mais pes­soas cami­nham junto comigo e seguem essas setas. Com­ple­ta­mente per­dida decido seguir o fluxo. Vejo que todos param diante de uma porta dou­rada em for­mato de cír­culo e assim que um guarda veri­fica se o seu nome consta na lista a porta se abre, e uma a uma daque­las pes­soas suces­si­va­mente vão entrando. Ainda meio con­fusa pri­mei­ra­mente sinto receio em ir até o guarda, mas decido brin­car com o acaso e entro na fila para a con­fe­rên­cia dos nomes. Há ape­nas duas pes­soas na minha frente. Um homem de meia idade e uma ado­les­cente. Ambos entram pela porta. Chega a minha vez.

- Nome por favor? – Logo diz o guarda.

Tento pare­cer fami­li­a­ri­zada com o ritual e sem titu­bear res­pondo: – Bruna Abrahão.

- Oh sim, a senho­rita pode entrar.

A curi­o­si­dade tomando conta dos olhos e o estô­mago bulindo e se reme­xendo diante da ine­vi­tá­vel ansi­e­dade quando não sabe­mos o que espe­rar. Mais dois pas­sos para frente e a porta se abriu para mim. Mais dois pas­sos. E ela se fecha para os que fica­ram lá fora.

Estou den­tro de um grande salão onde mais pla­cas indi­cam com suas setas outras salas, mas agora antes de cada seta há uma pala­vra assi­na­lando para onde cada um daque­les cami­nhos pode te levar. Antes de me deci­dir resolvo dar um pas­seio para ava­liar minhas pos­si­bi­li­da­des, e tomada pelo estra­nha­mento cau­sado por esta situ­a­ção opto por seguir o cami­nho que cogi­tei que me leva­ria para casa, pois na placa se lia Home. Ao che­gar ao fim do per­curso, notei que não tinha che­gado em casa. Uma cor­tina preta se fechava a minha frente. Puxei-a para o lado.

De repente notei que estava em um lei­lão. A cada 3 minu­tos um novo lei­lo­eiro subia no palco e anun­ci­ava um móvel, um ele­tro­do­més­tico e até mesmo uma casa toda mobi­li­ada espe­rando pelo lance mais gordo. Mas antes que as ofer­tas come­ças­sem, o lei­lo­eiro apre­sen­tava o seu pro­duto falando sobre as mara­vi­lhas que somente aquela bate­deira podia fazer, ou sobre como era fun­da­men­tal que você com­prasse aquela pol­trona azul tur­quesa do mais reno­mado design con­tem­po­râ­neo pela baga­tela de 10 mil dóla­res como lance ini­cial. Mui­tas pes­soas gri­ta­ram deses­pe­ra­das por essa pol­trona. Os que a per­de­ram pare­ciam deso­la­dos, havia em sua face um ar de der­rota, como se não pudes­sem seguir adi­ante sem aquele objeto.

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Senti uma mão me cutu­cando o ombro.

- Bruna! Ei Bruna!

Me des­co­bri parada em frente a vitrine de uma loja num shop­ping.

- Linda essa pol­trona azul tur­quesa não é?! Pas­sei outro dia por aqui e tam­bém fiquei encan­tado com ela, pare­cida com a que vi num filme.

De volta ao texto lei­tor. Per­doe-me caso tenha me pro­lon­gado no deva­neio do conto, toda­via pro­meto jus­ti­fi­car meu apó­logo nos pró­xi­mos pará­gra­fos.

Delí­rios de con­sumo, meu caro. Foi isso. E sinto dizer que não sofro sozi­nha desse mal. Ou vai você me negar que nunca teve sonhos ao con­tem­plar alguma vitrine? E que ao ter que vol­tar pra casa não se sen­tiu mise­rá­vel e tal­vez incom­pleto por saber que o seu salá­rio não seria capaz de pagar por aquele objeto que mexeu com o seu desejo?

Mas eu per­gunto lei­tor, que subs­tân­cia con­tém o objeto capaz de fazer com que eu me sinta com­pleto? E quanto ao desejo, nossa eterna sede ino­mi­ná­vel, pode­ria ele ser satis­feito na aqui­si­ção desse objeto mate­rial?

Já faz algum tempo que algu­mas teo­rias asso­ciam o desejo à noção de falta e, fazem dele uma busca inter­mi­ná­vel e inal­can­çá­vel, a saga sem fim que revela ao ser humano sua con­di­ção des­gra­çada – a insa­tis­fa­ção crô­nica.

Os deu­ses da publi­ci­dade (os lei­lo­ei­ros do meu breve deva­neio), sou­be­ram muito bem como se uti­li­zar dessa con­cep­ção e logo se trans­for­ma­ram no braço direito das empre­sas pro­du­to­ras de obje­tos que pro­me­tem suprir nosso vazio, se apo­de­rando do nosso ima­gi­ná­rio a par­tir do momento em que se uti­li­zam da fan­ta­sia para agre­gar um valor sim­bó­lico aos pro­du­tos de con­sumo, os trans­for­mando em obje­tos de feti­che. Como quando asso­cia o corpo da mulher à gar­rafa de uma cer­veja, um carro veloz à potên­cia sexual mas­cu­lina, um salto alto à um falso empo­de­ra­mento femi­nino ou o cheiro de um deso­do­rante à uma subs­tân­cia mágica capaz de cap­tu­rar milha­res de fêmeas.

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A brin­ca­deira não tem mudado muito com o pas­sar dos anos. A dife­rença é agora pode­mos ver isso em cores com qua­li­dade HD. Con­tudo, per­ma­ne­ce­mos reféns dos mesmo jogui­nhos sexu­ais da publi­ci­dade, que esquar­teja o nosso desejo o redu­zindo à mera por­no­gra­fia.

No livro O Anti-Édipo, Deleuze e Guat­tari, apre­sen­tam uma nova per­cep­ção acerca do desejo, a qual vêm a ques­ti­o­nar sua liga­ção com o con­ceito de falta – a falta é arru­mada, orga­ni­zada na pro­du­ção social. É con­tra­pro­du­zida pela ins­tân­cia de anti­pro­du­ção que se assenta sobre as for­ças pro­du­ti­vas e se apro­pria delas. Ela nunca é pri­meira: a pro­du­ção nunca é orga­ni­zada em fun­ção de uma falta ante­rior; a falta é que vem alo­jar-se, vacu­o­li­zar-se, pro­pa­gar-se de acordo com a orga­ni­za­ção de uma pro­du­ção pré­via.

Atra­vés dessa cora­josa afir­ma­tiva, os auto­res denun­ciam um sis­tema que toma para si con­cep­ções cien­tí­fi­cas e as uti­liza para pre­ser­var um sis­tema de oferta e pro­cura, que a par­tir da imple­men­ta­ção da cons­ci­ên­cia de falta, nos trans­forma em ávi­dos con­su­mi­do­res.

E eles dizem mais: É arte de uma classe domi­nante essa prá­tica do vazio como eco­no­mia de mer­cado: orga­ni­zar a falta na abun­dân­cia de pro­du­ção, des­car­re­gar todo o desejo no grande medo de se ter falta, fazê-lo depen­der do objeto de uma pro­du­ção real que se supõe exte­rior ao desejo.

Com base em tal ale­ga­ção, só posso che­gar a uma con­clu­são, ainda não sabe­mos o que é o desejo, tal­vez, nem sequer o tenha­mos expe­ri­men­tado e nem ire­mos enquanto o dele­gar­mos a manu­fa­tu­ra­ção das gran­des empre­sas. Deleuze e Guat­tari nos inci­tam a enten­der o desejo de outro modo, não mais como falta, mas como pro­du­ção, uma força que nos é ine­rente e nos impele a criar sobre/com ela.

Pre­ci­sa­mos sair do limbo por­no­grá­fico para aden­trar no campo do ero­tismo, nossa fan­ta­sia pode ir além de uma dia­lé­tica tão sim­plista, mesmo que se encon­tre pra­zer no con­sumo do objeto, con­ti­nu­a­re­mos nos sen­tindo vazios enquanto não for­mos capa­zes de ela­bo­rar enre­dos mais com­ple­xos. O desejo não é algo que se devora, mas sobre o qual se com­põe e se inventa. Ele jamais será algo pronto, emba­lado e dis­posto na pra­te­leira de um super­mer­cado, mas antes uma tela em branco assen­tada em um ate­liê espe­rando pelo artista que irá pin­ce­lar sobre ela as suas tin­tas.

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Bruna Regina
Usa batom vermelho. É formada em psicologia. Gosta de dias nublados. Tem um filho chamado Pedro e um gato chamado Fidalgo. Sua banda favorita é Velvet Underground.

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