capa-brasil-ironico

A pior direita e esquerda ameaçam o melhor do Brasil

Em Política por Fernando de GonçalvesComentário

Às vezes, é impor­tante ser con­ser­va­dor – na boa acep­ção – pois boas coi­sas são fáceis de des­truir, mas muito difí­ceis de cons­truir. Recen­te­mente, me dei conta de que carac­te­rís­ti­cas que a cul­tura bra­si­leira desen­vol­veu (carac­te­rís­ti­cas das quais deve­mos nos orgu­lhar, além de lutar para pre­servá-las) estão sendo ame­a­ça­das pela impor­ta­ção de duas ide­o­lo­gias exó­ge­nas, de ori­gem ame­ri­cana, sendo que uma delas nos ataca pela direita e a outra pela esquerda.

Essa carac­te­rís­tica é a nossa tole­rân­cia, uma tole­rân­cia de raí­zes pro­fun­das, embora não sem con­tra­di­ções – dado, por exem­plo, que fomos o último país oci­den­tal a abo­lir a escra­vi­dão. Ainda assim, pou­cos paí­ses tive­ram a sorte de se desen­vol­ver sobre ins­ti­tui­ções e cul­tura tão pro­pí­cias a um sadio libe­ra­lismo polí­tico e social quanto nós. Pouca gente sabe que:

1) O Bra­sil um dos pri­mei­ros paí­ses do mundo a des­cri­mi­na­li­zar rela­ções sexu­ais entre pes­soas do mesmo sexo. O pri­meiro país a fazer isso foi a França, na esteira da revo­lu­ção ilu­mi­nista fran­cesa. Alguns paí­ses euro­peus, con­quis­ta­dos por Napo­leão, tam­bém o fize­ram ao ado­tar seu Código Civil, no iní­cio do século XIX. O Bra­sil o fez em 1828, quando as anti­gas Orde­na­ções Manu­e­li­nas foram subs­ti­tuí­das pelo pri­meiro código cri­mi­nal do Impé­rio. Para ter uma ideia, paí­ses vis­tos como a Meca das liber­da­des indi­vi­du­ais só foram fazer o mesmo no final dos anos 60 (pou­cos anos antes, a Ingla­terra levou ao sui­cí­dio um dos seus mai­o­res heróis de guerra, Alan Turing, o inven­tor do com­pu­ta­dor, devido à cas­tra­ção quí­mica a que foi sub­me­tido por ser homos­se­xual). Nos EUA, vários esta­dos ainda man­ti­nham essas leis em 2003, quando foram defi­ni­ti­va­mente revo­ga­das pela Suprema Corte.

Pou­cos paí­ses tive­ram a sorte de desen­vol­ver ins­ti­tui­ções e cul­tura tão pro­pí­cias a um sadio libe­ra­lismo polí­tico e social quanto nós.Fer­nando de Gon­çal­ves

2) No século XIX, o Bra­sil era um dos paí­ses com o sis­tema elei­to­ral mais demo­crá­tico do mundo, em ter­mos de por­cen­ta­gem da popu­la­ção com direito ao voto. Ape­sar de o voto ser cen­si­tá­rio (só pode­riam votar homens com uma renda esti­pu­lada), o limite era tão baixo que qual­quer homem empre­gado pode­ria votar, mesmo anal­fa­be­tos (que tive­ram esse direito tolhido pouco antes da pro­cla­ma­ção da Repú­blica). Outro dos pio­nei­ros da demo­cra­cia, o Reino Unido, só libe­ra­li­zou um pouco o direito de vota­ção em 1868, e ainda assim, o man­teve res­trito a ope­rá­rios qua­li­fi­ca­dos. Os EUA, até Mar­tin Luther King, nos anos 60, ainda impe­diam negros de votar.

3) Mesmo que o Bra­sil tenha uma das meno­res par­ti­ci­pa­ções de mulhe­res elei­tas no mundo, ele foi um dos pri­mei­ros paí­ses do mundo a ado­tar o sufrá­gio femi­nino, bem como a pos­si­bi­li­dade de elei­ção de mulhe­res, o que acon­te­ceu já em 1932, bem antes do que paí­ses de reco­nhe­cida tra­di­ção libe­ral, como França ou Holanda.

4) Ape­sar de, como men­ci­o­nado, ter­mos sido o último país oci­den­tal a abo­lir a escra­vi­dão (alguns paí­ses não-oci­den­tais, como a Mau­ri­tâ­nia, só o fize­ram em 1981), o Bra­sil é uma das úni­cas soci­e­da­des mul­tir­ra­ci­ais do mundo, senão a única, a nunca ter tido segre­ga­ção ins­ti­tu­ci­o­na­li­zada. Logo após a entrada no país das duas ins­ti­tui­ções fun­da­men­tais da Moder­ni­dade, ainda no Impé­rio, o Estado Raci­o­nal-Legal e o Mer­cado Capi­ta­lista, mui­tos negros livres ascen­de­ram soci­al­mente muito depressa, tor­nando-se alguns dos mai­o­res expo­en­tes naci­o­nais da polí­tica (José do Patro­cí­nio, por exem­plo), da indús­tria (como André Rebou­ças) ou das artes (incluindo um dos mai­o­res escri­to­res de todos os tem­pos, Machado de Assis). Já na Repú­blica Velha, tive­mos pre­si­den­tes negros, como Nilo Peça­nha. Na Segunda Guerra Mun­dial, o Bra­sil foi o ÚNICO país envol­vido em com­bate cujas tro­pas não eram segre­ga­das raci­al­mente.

De onde veio esse nosso pen­dor libe­ral? Eu apos­ta­ria em cer­tas carac­te­rís­ti­cas cul­tu­rais do povo por­tu­guês, como a ausên­cia de orgu­lho racial, tão dis­cu­tida por Buar­que de Holanda, além de uma herança de ins­ti­tui­ções ilu­mi­nis­tas pom­ba­li­nas que atra­ves­sa­ram o oce­ano com a Famí­lia Real em 1808, mas isso é assunto para outro momento.

Bem, e quais seriam as ame­a­ças exó­ge­nas a essa nossa tra­di­ção de tole­rân­cia demo­crá­tica?

a) O pen­te­cos­ta­lismo e neo­pen­te­cos­ta­lismo pela direita, que ame­a­çam tanto a tole­rân­cia com a popu­la­ção LGBT quanto a liber­dade femi­nina. Não é pre­ciso relem­brar os fani­qui­tos do Mala­faia (algo impen­sá­vel mesmo entre os mais faná­ti­cos mem­bros da cató­lica TFP) ou as reco­men­da­ções de pas­to­res influ­en­tes (em pleno 08 de Março!) de que mulhe­res ape­nas deve­riam tra­ba­lhar fora “com per­mis­são do marido”.

b) Pela esquerda, temos o raci­a­lismo iden­ti­tá­rio que tenta nos divi­dir em uma popu­la­ção bico­lor, o que não tem o mínimo sen­tido aqui, mas pode fazer nos EUA. É uma impor­ta­ção, sem nenhuma ten­ta­tiva de adap­ta­ção, de clas­si­fi­ca­ções exó­ti­cas a nós. Pro­va­vel­mente, menos de 20% da popu­la­ção bra­si­leira pode ser clas­si­fi­cada, sem ambi­gui­dade nenhuma, como negra ou branca. E os 80% res­tan­tes? Vão ser for­ça­dos a se adap­tar a mode­los ges­ta­dos pelos red­necks ame­ri­ca­nos, só que agora com aura pro­gres­sista? A polê­mica do tur­bante lem­bra o “teste do papel pardo”, que exis­tia nos EUA até mea­dos do século XX, segundo o qual, uma pes­soa só pode­ria entrar em dados even­tos soci­ais se tivesse a pele mais clara do que o tal saco de papel pardo. Os tes­tes lom­bro­si­a­nos que estão sendo apli­ca­dos para deci­dir quem merece a vaga em alguns con­cur­sos fede­rais são uma adver­tên­cia sobre o perigo de ins­ti­tu­ci­o­na­li­zar a segre­ga­ção em um país que nunca o fez. 

Fernando de Gonçalves
Fernando de Gonçalves é sociólogo e doutorando pela UFRGS. Acredita em um mundo baseado em fatos e, como Carl Sagan, que a Ciência é uma vela no escuro.

Compartilhe