capa do artigo essa pica também é minha!

Essa pica também é minha!

Em Comportamento, Consciência, Sociedade por Eden WiedemannComentário

O caso é verí­dico, eu estava pre­sente e posso con­fir­mar. Em uma reu­nião entre os ges­to­res de uma deter­mi­nada empresa, um dos sócios colo­cou na mesa uma suges­tão:

- Vamos com­prar uma enorme piroca de pelú­cia.

Os demais não leva­ram muito a sério, afi­nal aquele que apre­sen­tou a ideia tinha o hábito de fazer suges­tões diver­ti­das, geral­mente como uma forma bem humo­rada de crí­tica.

- Sério, vamos com­prar uma pica de pelú­cia. Uma enorme, assim, quase do tama­nho de uma pes­soa.
— Sério mesmo?
— Sim, e todo fun­ci­o­ná­rio ao che­gar vai bater uma foto abra­çada com ela.
— E pra quê?
— Por­que essa será nossa polí­tica: essa pica tam­bém é minha.

E faz sen­tido.

Um dos gran­des pro­ble­mas de se gerir uma ope­ra­ção é jus­ta­mente a cul­tura do “a minha parte eu fiz” ou do “ah, mas isso aí não é comigo”. Nada explica melhor essa cul­tura do que uma his­to­ri­nha que cos­tu­mam con­tar no meio empre­sa­rial de São Paulo para “ajus­tar” os mais ide­a­lis­tas.

Sabe quando tem um monte de pica voando? De todo tipo e tama­nho? Umas cabe­çu­das e veiu­das, umas tor­tas, umas gros­sas como um braço, outras de cha­pe­leta enorme e tudo mais? Pois é, quando se tem muita pica pela frente você corre, pega a menor e senta em cima. Por­que se você não esco­lher logo a sua pica vai ter­mi­nar ficando com a que dei­xa­ram pra você… e pode ser a maior de todas.

Tem um quê de sabe­do­ria cor­po­ra­tiva, não nego. Eu mesmo lidei com situ­a­ções assim em São Paulo. Che­gando em um novo emprego tive o des­pra­zer de par­ti­ci­par de uma reu­nião com umas 12 pes­soas que pas­sa­ram cerca de 2h dis­cu­tindo de quem era a culpa por uma falha em uma cam­pa­nha. Can­sado levan­tei a mão e lar­guei “opa, a culpa é minha, pode­mos vol­tar a tra­ba­lhar?”. Levei um belo esporro por ter “assu­mido” uma culpa que não podia ser minha afi­nal eu havia aca­bado de che­gar. Oras, isso me pare­cia óbvio, claro que a culpa não era minha, eu que­ria mesmo era aca­bar com a dis­cus­são e mos­trar o quanto aquele bate boca estava sendo impro­du­tivo. E caro. Que­ria pro­var um ponto ape­nas. O inte­res­sante é que a maior parte das pes­soas na reu­nião achou minha ação satis­fa­tó­ria, fin­gindo não ter per­ce­bido a alfi­ne­tada, ficando feliz por ter se livrado daquela “pica” mesmo.

Essa polí­tica pre­cisa mudar. Todos pre­ci­sam ser res­pon­sá­veis pelo resul­tado final, todos pre­ci­sam se pre­o­cu­par em resol­ver, em entre­gar. Recen­te­mente li Cri­a­ti­vi­dade S/A, livro escrito por Edwin Cat­mull, um dos fun­da­do­res da Pixar. No livro ele fala de como as coi­sas melho­ra­ram na empresa quando ele con­se­guiu implan­tar uma cul­tura onde todos eram res­pon­sá­veis pelo con­trole de qua­li­dade, onde qual­quer um, inde­pen­dente da posi­ção hie­rár­quica, pode­ria apon­tar falhas ou fazer suges­tões. Uma cul­tura pela qua­li­dade, pela solu­ção, pela res­pon­sa­bi­li­dade com o todo. Deta­lhe, isso antes da Dis­ney. E, falando em Dis­ney, essa é uma cul­tura que eles pre­zam muito lá, vejam esse caso que tive conhe­ci­mento nessa semana, nar­rado por Clau­dio Nasa­jon.

Certa vez eu estava com meus filhos visi­tando a Dis­neyworld, em Orlando, quando per­ce­be­mos que meu filho mais velho, na época com sete anos, havia per­dido um boné recém-com­prado. Per­gun­ta­mos a um jar­di­neiro que estava pró­ximo se ele sabia onde era a ses­são de “acha­dos e per­di­dos”. O homem parou de lim­par o jar­dim e nos levou a uma das lojas pró­xi­mas que ven­diam bonés. Che­gando lá pediu para meu filho mos­trar o modelo de boné que havia per­dido. Meu filho mos­trou. O fun­ci­o­ná­rio puxou um blo­qui­nho de cupons da Dis­ney do bolso tra­seiro e com­prou um boné novo para o meu filho. “Um pre­sente do Mic­key. Vocês estão aqui para pas­sar bons momen­tos, então, façam isso”, disse-nos com um sor­riso.

No jar­gão téc­nico, isso se chama “empower­ment”, que numa tra­du­ção hor­rí­vel sig­ni­fica “empo­de­ra­mento” da linha-de-frente. Quan­tos geren­tes (não jar­di­nei­ros, geren­tes) você conhece que têm essa auto­no­mia? Agora faz a conta: um boné custa $2, $3 e eles ven­dem por $9,99. Com­pensa? Sem dúvida!

Já con­tei essa his­tó­ria para pelo menos 100.000 pes­soas em pales­tras, arti­gos e semi­ná­rios nos últi­mos 15 anos (meu filho hoje tem 22). A ques­tão é: como con­tra­tar esse tipo de fun­ci­o­ná­rio? Como treiná-lo? Como garan­tir que ele não vá ven­der os cupons para algum cam­bista e aca­bar com o esto­que de bonés? Bom, a Dis­ney tem alguns pro­ces­sos inte­res­san­tes para isso.

Recen­te­mente, uma pes­soa, amiga de um conhe­cido meu, se can­di­da­tou para com­por a equipe da Dis­ney no Bra­sil e foi cha­mada para uma entre­vista. Alguns dias depois rece­beu uma carta muito gen­til que, em resumo, dizia o seguinte: você demos­trou mui­tas habi­li­da­des impor­tan­tes para esse cargo e o seu desem­pe­nho na ava­li­a­ção téc­nica foi acima da média, o que cer­ta­mente lhe garan­tirá boas chan­ces de colo­ca­ção pro­fis­si­o­nal, mas não na Dis­ney. Você não cum­pri­men­tou a mai­o­ria das pes­soas que pas­sa­ram por você, incluindo faxi­nei­ros, men­sa­gei­ros e outros can­di­da­tos que cru­za­ram com você no salão de espera, e isso é algo que nós damos mais impor­tân­cia do que as habi­li­da­des téc­ni­cas. Boa sorte!

E você, “esco­lhe a menor e senta em cima” ou acre­dita que “essa pica tam­bém é sua”?


Texto ori­gi­nal­mente publi­cado no Medium do autor.


Seja patrono do AZ para mais arti­gos como este.
CLIQUE AQUI e esco­lha sua recom­pensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode que­rer ler tam­bém:

Sobre o fenô­meno dos tra­ba­lhos de merda
5 coi­sas que deve­ría­mos apren­der na escola

Compartilhe