O caso é verídico, eu estava presente e posso confirmar. Em uma reunião entre os gestores de uma determinada empresa, um dos sócios colocou na mesa uma sugestão:

– Vamos comprar uma enorme piroca de pelúcia.

Os demais não levaram muito a sério, afinal aquele que apresentou a ideia tinha o hábito de fazer sugestões divertidas, geralmente como uma forma bem humorada de crítica.

– Sério, vamos comprar uma pica de pelúcia. Uma enorme, assim, quase do tamanho de uma pessoa.
– Sério mesmo?
– Sim, e todo funcionário ao chegar vai bater uma foto abraçada com ela.
– E pra quê?
– Porque essa será nossa política: essa pica também é minha.

E faz sentido.

Um dos grandes problemas de se gerir uma operação é justamente a cultura do “a minha parte eu fiz” ou do “ah, mas isso aí não é comigo”. Nada explica melhor essa cultura do que uma historinha que costumam contar no meio empresarial de São Paulo para “ajustar” os mais idealistas.

Sabe quando tem um monte de pica voando? De todo tipo e tamanho? Umas cabeçudas e veiudas, umas tortas, umas grossas como um braço, outras de chapeleta enorme e tudo mais? Pois é, quando se tem muita pica pela frente você corre, pega a menor e senta em cima. Porque se você não escolher logo a sua pica vai terminar ficando com a que deixaram pra você… e pode ser a maior de todas.

Tem um quê de sabedoria corporativa, não nego. Eu mesmo lidei com situações assim em São Paulo. Chegando em um novo emprego tive o desprazer de participar de uma reunião com umas 12 pessoas que passaram cerca de 2h discutindo de quem era a culpa por uma falha em uma campanha. Cansado levantei a mão e larguei “opa, a culpa é minha, podemos voltar a trabalhar?”. Levei um belo esporro por ter “assumido” uma culpa que não podia ser minha afinal eu havia acabado de chegar. Oras, isso me parecia óbvio, claro que a culpa não era minha, eu queria mesmo era acabar com a discussão e mostrar o quanto aquele bate boca estava sendo improdutivo. E caro. Queria provar um ponto apenas. O interessante é que a maior parte das pessoas na reunião achou minha ação satisfatória, fingindo não ter percebido a alfinetada, ficando feliz por ter se livrado daquela “pica” mesmo.

Essa política precisa mudar. Todos precisam ser responsáveis pelo resultado final, todos precisam se preocupar em resolver, em entregar. Recentemente li Criatividade S/A, livro escrito por Edwin Catmull, um dos fundadores da Pixar. No livro ele fala de como as coisas melhoraram na empresa quando ele conseguiu implantar uma cultura onde todos eram responsáveis pelo controle de qualidade, onde qualquer um, independente da posição hierárquica, poderia apontar falhas ou fazer sugestões. Uma cultura pela qualidade, pela solução, pela responsabilidade com o todo. Detalhe, isso antes da Disney. E, falando em Disney, essa é uma cultura que eles prezam muito lá, vejam esse caso que tive conhecimento nessa semana, narrado por Claudio Nasajon.

Certa vez eu estava com meus filhos visitando a Disneyworld, em Orlando, quando percebemos que meu filho mais velho, na época com sete anos, havia perdido um boné recém-comprado. Perguntamos a um jardineiro que estava próximo se ele sabia onde era a sessão de “achados e perdidos”. O homem parou de limpar o jardim e nos levou a uma das lojas próximas que vendiam bonés. Chegando lá pediu para meu filho mostrar o modelo de boné que havia perdido. Meu filho mostrou. O funcionário puxou um bloquinho de cupons da Disney do bolso traseiro e comprou um boné novo para o meu filho. “Um presente do Mickey. Vocês estão aqui para passar bons momentos, então, façam isso”, disse-nos com um sorriso.

No jargão técnico, isso se chama “empowerment”, que numa tradução horrível significa “empoderamento” da linha-de-frente. Quantos gerentes (não jardineiros, gerentes) você conhece que têm essa autonomia? Agora faz a conta: um boné custa $2, $3 e eles vendem por $9,99. Compensa? Sem dúvida!

Já contei essa história para pelo menos 100.000 pessoas em palestras, artigos e seminários nos últimos 15 anos (meu filho hoje tem 22). A questão é: como contratar esse tipo de funcionário? Como treiná-lo? Como garantir que ele não vá vender os cupons para algum cambista e acabar com o estoque de bonés? Bom, a Disney tem alguns processos interessantes para isso.

Recentemente, uma pessoa, amiga de um conhecido meu, se candidatou para compor a equipe da Disney no Brasil e foi chamada para uma entrevista. Alguns dias depois recebeu uma carta muito gentil que, em resumo, dizia o seguinte: você demostrou muitas habilidades importantes para esse cargo e o seu desempenho na avaliação técnica foi acima da média, o que certamente lhe garantirá boas chances de colocação profissional, mas não na Disney. Você não cumprimentou a maioria das pessoas que passaram por você, incluindo faxineiros, mensageiros e outros candidatos que cruzaram com você no salão de espera, e isso é algo que nós damos mais importância do que as habilidades técnicas. Boa sorte!

E você, “escolhe a menor e senta em cima” ou acredita que “essa pica também é sua”?


Texto originalmente publicado no Medium do autor.


Seja patrono do AZ para mais artigos como este.
CLIQUE AQUI e escolha sua recompensa.


Newsletter AZ | sabedoria budista


Você pode querer ler também:

Sobre o fenômeno dos trabalhos de merda
5 coisas que deveríamos aprender na escola

escrito por:

Eden Wiedemann