Direitos dos animais, aborto, infanticídio e eutanásia: bandeiras levantadas por Peter Singer em sua ética utilitarista, apresentada nesta tocante carta à filha de Gabriel Andrade.


Querida Vitória,

Obrigado por me convidar para a tourada. Mas, acho que, nesta ocasião, devo recusar seu convite. Eu fui a muitas touradas em minha vida, e não vou negar que elas me agradam. É emocionante estar em público. E, no meu caso, me entusiasma muito o pasodoble, o colorido, a majestosidade, a aclamação, os vestidos, os toureiros diante do touro bravo, e assim por diante.

Mas há algo que eu não posso simplesmente ignorar: nesses shows, matam-se animais, e muito impiedosamente. Na Espanha, existe muito debate sobre se as touradas devem ser proibidas ou não. Ouvi alguns filósofos defendê-las, dizendo que são parte do patrimônio nacional, e que vêm de antigas tradições. Bobagem. Uma festa ser parte do patrimônio nacional, ou ser muito velha, não é razão suficiente para defender a matança de animais. Se fosse por isso, os italianos deveriam continuar os jogos de gladiadores no Coliseu de Roma.

Na história da filosofia, tem havido pouco interesse em se preocupar com o sofrimento dos animais. Mas há um filósofo australiano de nossos dias, que dedicou muita atenção a esta questão. Chama-se Peter Singer. Singer vem de uma família de judeus austríacos, que fugiu do nazismo e refugiou-se na Austrália. Singer tornou-se Professor Universitário e é talvez o mais famoso filósofo contemporâneo.

Em um famoso livro que defende os direitos dos animais, Libertação Animal, Singer diz que aqueles que não se importam com os maus-tratos de animais são muito semelhantes aos racistas e machistas.

Como você se sentiria, Victoria, se seus professores decidissem suspendê-la na escola, pelo simples fato de você ser mulher? Acho que, com razão, diria que esses professores são sexistas e os reprovaria. E o que diria se um dos seus amigos negros fosse suspenso pelo simples fato de ser negro? Novamente, acho que diria que os professores são racistas e os reprovaria. Em ambos os casos, se estaria discriminando uma pessoa, pelo simples fato de não pertencer a um grupo em específico.

Pois bem, por que não estender esse raciocínio aos animais? Por que nos opomos a dois gladiadores se matando em um show, mas não consideramos errado matar um touro em um show semelhante?

Você pode dizer que o sofrimento humano em si é importante, mas o sofrimento dos animais não. Porém, se você sustenta isso, diz Singer, está discriminando o touro pelo mero fato de não pertencer à sua espécie, da mesma forma que muita gente discrimina os outros, por simplesmente não fazerem parte de seu sexo ou raça. Nesse caso, você não seria machista ou racista, mas especista: discriminaria injustamente os membros de outras espécies.

Não importa se os animais têm racionalidade ou não. O importante é se são capazes de sentir ou não. E, francamente, todos os animais dão sinais de sofrimento. Posso te assegurar que, em touradas, os touros sofrem muito. Seus gemidos de dor às vezes são de arrepiar. Não há razão, crê Singer, para que não devamos procurar evitar a dor dos animais. Eles merecem tanta dignidade quanto nós.

É fácil aplicar o raciocínio de Singer às touradas; Afinal, que a tourada se acabe não gerará qualquer dano. Mas e quanto àquelas situações em que um animal sofre, e a partir disso obtemos vantagens humanas? Nós devemos ser vegetarianos? Devemos deixar de fazer experiências com animais?

Singer acredita que sim. Existem formas de nos alimentarmos bem sem necessidade de matarmos animais, e mesmo Singer oferece receitas vegetarianas. Mas, em todo caso, mesmo que não estejamos dispostos a renunciar à carne, pelo menos deveríamos tentar criar e matar animais de um modo mais digno, porque francamente, as condições dos currais e matadouros são terríveis.

Devemos também renunciar aos experimentos com animais, porque, para isso, devemos pesar o quanto se sofre. Singer tem muita simpatia por Bentham (lembra? Foi o filósofo que propôs obtermos uma maior quantidade de felicidade para o maior número de pessoas), e como este filósofo ele acha que devemos calcular quanta dor e quanto prazer algo gera, para depois decidirmos se é bom ou ruim.

No caso de experimentos com animais, alguma vantagem pode haver para os humanos, mas isso de forma nenhuma compensa o enorme sofrimento causado aos animais nos laboratórios. Se experimentos com animais são feitos, em que as vantagens são maiores que as desvantagens, então são bem-vindos. Mas Singer insiste que, na hora de calcular as vantagens e desvantagens, é necessário ter os animais em conta também, e não só os humanos.

Este cálculo de vantagens e desvantagens levou Singer, algumas vezes, a dizer coisas que magoam a sensibilidade de muitos. Por exemplo, ele sempre defendeu o aborto. Singer diz que se uma mãe não tem meios suficientes para criar seu filho corretamente ainda no útero, se justificaria abortar. Novamente, ele propõe medir vantagens e desvantagens da situação. Lembra dos utilitaristas? Foram os filósofos que diziam que a moralidade das ações é medida pela utilidade de suas consequências. Singer é um utilitarista, e ele acredita que, em muitos casos, o aborto pode ser útil.

O feto, diz Singer, não tem ainda a capacidade de sentir dor, e portanto seu interesse não deve ser posto em conta no momento de comparar vantagens e desvantagens da ação. Com o aborto, ninguém sofre.

Mas Singer vai mais adiante, e isso irrita muitos. Ele diz que, mesmo fora da barriga durante os primeiros meses de vida, uma criança ainda não tem capacidade de deliberação. E, nesse sentido, embora possa sofrer, seus interesses não devem ser tão relevantes, caso decidam matá-la para alcançar outras vantagens de maior proporção. Por isso, Singer acredita que o infanticídio, em alguns casos, pode ser justificado.

Ele também opina sobre a eutanásia. O bem-estar de uma pessoa não-consciente não deve contar com o mesmo peso, no momento de tomar uma decisão. Se, para manter viva uma pessoa em estado vegetativo, teremos que usar recursos que poderiam ser usados para atender pessoas conscientes, então teremos que decidir por terminar com a vida dessa pessoa.

Contra Singer são ditas muitas coisas feias. Em várias ocasiões, como em conferências, tem havido manifestações o acusando de nazista. Nazistas, como se sabe, matavam deficientes, dizendo que eram vidas indignas de serem vividas. Mas, francamente, o que Singer propõe é muito diferente. Ele simplesmente diz que, se uma pessoa não tem capacidade de deliberação, não devemos contar tanto quanto contamos com outros que têm capacidade de deliberar, para dar prioridade aos recursos.

Na verdade, Singer também fez fama exigindo que os outros sejam altruístas. Ele sempre foi um forte defensor da obrigação de pessoas de países ricos ajudarem pessoas de países pobres. Singer ilustra suas ideias com um exemplo muito peculiar.

Imagine, Victoria, que você acabou de comprar um par de sapatos, você está andando na rua e, de repente, você vê uma criança se afogando num poço de água. Você saltaria para resgatar a criança? Você deve fazer isso? Se você fizer, você estragará os sapatos. Mas, francamente, a vida desta criança vale mais do que seus sapatos. Portanto, você seria obrigada a sacrificar seus sapatos, para salvar a vida de outra pessoa.

Bem, algo semelhante acontece com as pessoas pobres. Não importa se elas estão em outros países — são seres humanos, assim como você. E, como você tem a obrigação de fazer um pequeno sacrifício para salvar a vida da criança no poço, você pode alocar algum dinheiro para ajudar as pessoas pobres.

Você deve ter cuidado, é claro. Não servirá de nada se você der a uma agência corrupta (como, de fato, muitas vezes são as instituições responsáveis pela distribuição de auxílio). Nem deve chegar às pessoas as fazendo crer que durante toda a vida receberão o dinheiro, porque com isso você criará o vício da dependência. Mas no mundo há muita necessidade, e a ajuda que você puder oferecer servirá para resgatar da morte e do desespero muita gente.

Singer, como você pode ver, diz coisas muito fortes. Para mim, estou convencido de poucas coisas de sua filosofia. Não vejo nenhum crime em favorecer nossa espécie acima das outras. Se quiser chamar isso de especismo, bem-vindo seja.

O especismo não é tão ruim quanto o racismo ou o machismo, por uma razão simples: enquanto não existem suficientes diferenças substanciais entre as raças e gêneros humanos para justificar discriminação, me parece que existem enormes diferenças entre humanos e animais, sendo suficientes para justificar a discriminação.

Não ganhamos grandes coisas indo às touradas e, nesse sentido, não faz mal que elas desapareçam (embora eu gostaria de saber se seria possível uma tourada não-sangrenta, como em Portugal, mas isso já é outra pergunta).

Contudo, eu diria que as experiências com animais, por mais que gerem muito sofrimento, estão muito justificadas, e muitas vezes têm servido para curar doenças que nos afligem. Ao decidir se uma atividade é boa ou ruim, eu acredito que o bem-estar humano requer muito mais relevância que o bem-estar dos animais.

As ideias de Singer sobre o aborto também são fortes. Podemos discutir se o aborto é bom ou é errado. Eu estou inclinado a pensar que não há problema moral em abortar. Mas, se levássemos Singer a sério, em algumas circunstâncias o infanticídio seria justificado, praticamente pelas mesmas razões que justificam o aborto. Para muitos, é uma bebida muito grossa e para mim também. Confesso, Victoria, que não sei especificar qual é a diferença relevante entre um feto ainda na barriga e uma criança recém nascida: nenhum desses dois tem capacidade de deliberação. Porém insisto que minha intuição diz que o aborto não é imoral, mas o infanticídio é em si.

Singer sempre comentou que a intuição não dá garantia alguma de que algo seja moral ou imoral. Não sei se ele tem razão nisso. Mas sei que ele é um cara que, mesmo com posições que podem ser chocantes, nos obriga a pensar. E isso, me parece, é muito importante, pois é pensando que encontramos soluções para esses problemas.

Não pretendo que, ao conhecer Singer, você seja a favor do aborto, do infanticídio ou da eutanásia. Sequer te peço que deixe de ir à tourada. Mas, sim, eu gostaria de lhe pedir que, quando você ver o touro morrer, você se pergunte se isso proporcionou qualquer vantagem que justifique tal tormento. Eu não vejo justificação, e é por isso que deixei de ir às touradas.

Se despede, o seu amigo Gabriel.


Tradução, revisão e edição: Alysson Augusto


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escrito por:

Gabriel Andrade

Gabriel Andrade vive em Maracaibo, Venezuela. Ele leva a vida na Universidade de Zulia, e é anfitrião do programa “Ágora” na Rádio Luz 102,9 FM.


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