(Tradução autorizada por Tim Urban, autor do texto original em inglês, publicado no site Wait But Why)


Para uma pessoa solteira e frustrada, a vida pode às vezes se parecer com isso:

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E à primeira vista, as pesquisas parecem confirmar esse cenário, sugerindo que pessoas casadas são em média mais felizes que pessoas solteiras e muito mais felizes ainda do que pessoas separadas [1]. Mas uma análise mais detida revela que se você dividir as pessoas casadas em dois grupos baseados na qualidade do casamento, “as pessoas que consideram seus casamentos pouco gratificantes são deprimidas e muito menos felizes do que pessoas solteiras, e as pessoas que consideram seus casamentos gratificantes são até mesmo mais felizes do que os relatórios científicos sugerem” [2]. Em outras palavras, isto é o que está acontecendo na realidade:

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Pessoas solteiras e insatisfeitas deveriam na verdade enxergar a si mesmas em uma posição neutra e aceitável, se comparada com o que sua situação poderia ser. Uma pessoa solteira que gostaria de encontrar um relacionamento gratificante está a um passo de conseguir isso, de acordo com esta lista de tarefas: “1) Encontrar um relacionamento gratificante”. Pessoas que estão em relações infelizes, por outro lado, estão a três passos de conseguir a mesma coisa, de acordo com a lista de tarefas: “1) Suportar uma separação dolorosa; 2) Recuperar-se emocionalmente; 3) Encontrar um relacionamento gratificante”. Não é tão ruim assim quando você olha dessa maneira, certo?

Todas as pesquisas sobre como a felicidade varia tanto entre casamentos felizes e infelizes faz total sentido. Afinal, é a pessoa da sua vida.

Pensar no quanto é incrivelmente importante escolher a pessoa da sua vida é o mesmo que pensar no quão vasto o universo realmente é ou no quanto a morte é mesmo assustadora – internalizar a realidade por trás dessas ideias é algo pesado demais, então nós não pensamos tanto assim a respeito e permanecemos numa leve negação da gravidade da situação.

Mas diferente da morte e do tamanho do universo, escolher uma companhia para toda a sua vida está completamente no seu controle, então é fundamental deixar perfeitamente claro para você mesmo o quanto essa decisão é realmente importante e analisar com atenção os fatores mais determinantes que levam a tal escolha.

Então, o quanto ela é realmente importante?

Bom, vamos começar subtraindo sua idade de 90. Se você tiver uma vida longa, o resultado dessa subtração é mais ou menos o número de anos em que você vai passar ao lado da pessoa que escolher.

Tenho certeza de que ninguém com mais de 80 lê meus textos, então não importa quem você é, isso é um bocado de tempo – e praticamente a totalidade do resto da sua existência.

(Claro, as pessoas se separam, mas você acha que não vai acontecer com você. Um estudo recente mostrou que 86% das pessoas mais jovem pressupõem que seu atual ou futuro casamento vai durar para sempre, e duvido que pessoas mais velhas pensem de modo diferente. Então vamos prosseguir com essa pressuposição).

E quando você escolhe a pessoa de sua vida, você está escolhendo um monte de coisas, incluindo seu parceiro na criação de filhos e alguém que influenciará profundamente suas crianças, o seu acompanhante para cerca de 20 mil refeições, a sua companhia de viagem para cerca de 100 férias, seu principal amigo para os períodos de lazer e para aposentadoria, o conselheiro da sua carreira e alguém que você vai ouvir contar como foi o dia mais ou menos umas 18 mil vezes.

Barra pesada.

Então considerando que essa é, de longe, a coisa mais importante da vida que precisamos fazer do jeito certo, como é possível que tantas pessoas boas, inteligentes e em tudo o mais lógicas acabem escolhendo alguém que as deixa insatisfeitas e infelizes?

Bom acontece que há um monte de fatores contra nós:

As pessoas tendem a ser incompetentes em saber o que querem de um relacionamento

Pesquisas mostraram que as pessoas em geral são ruins, quando solteiras, em predizer o que mais tarde serão suas reais preferências num relacionamento. Um estudo revelou que pessoas que procuram parceiros em sites especializados, quando questionadas sobre suas preferências a respeito de um relacionamento, em geral contradizem a si mesmas minutos depois quando mostram na prática o que realmente preferem [4].

Isso não deveria ser surpresa – na vida, você usualmente não fica competente em algo até ter feito esse algo um montão de vezes. Infelizmente, poucas pessoas têm a oportunidade de vivenciar mais do que uns poucos, e olhe lá, relacionamentos sérios antes de tomarem a grande decisão. Simplesmente não há tempo suficiente para tornar-se competente. E considerando que as necessidades e a personalidade de uma pessoa são um pouco diferentes quando ela está solteira e quando está em um relacionamento, é difícil, quando solteiro, realmente saber o que você quer ou precisa de uma relação.

A sociedade não entende de relacionamentos e nos dá péssimos conselhos

A sociedade nos encoraja a permanecer despreparados e deixar que o romantismo guie nossos passos.

Se você começa um empreendimento, a sabedoria convencional afirma que que você será um empreendedor muito mais eficiente se você estudar algumas disciplinas de administração de empresas na faculdade, criar um plano de empreendimento consistente e analisar a performance do seu negócio diligentemente. Isso é lógico, porque essa é a maneira como  você se comporta quando quer fazer alguma coisa bem feito e deseja minimizar os equívocos.

Mas se alguém vai para a faculdade para aprender como conseguir um parceiro para toda a vida e como ser parte de um relacionamento saudável, esquematizando um detalhado plano de ação para encontrar essa pessoa e mantendo numa planilha um organizado e rigoroso controle sobre seu progresso, a sociedade dirá que esse alguém é A) um robô excessivamente racional; B) obcecado demais com isso; e C) bastante esquisitão.

Não, quando se trata de namorar, a sociedade desaprova que você pense demais nisso, ao invés de fazer outras coisas como confiar no destino, guiar-se por sua intuição e torcer pelo melhor. Se uma empresária utilizar na sua empresa os conselhos que a sociedade dá para um namoro, ela provavelmente vai falir, mas se for bem sucedida, em parte será devido apenas à sorte – e é assim que a sociedade quer que você lide com os namoros.

A sociedade estigmatiza quem expande inteligente sua busca por parceiros em potencial.

Em uma pesquisa sobre o que é mais determinante para paquerarmos alguém, se nossas preferências ou as oportunidades que se apresentam, as oportunidades ganham de lavada – nossa escolha por uma paquera é “98% uma resposta às condições de mercado e somente 2% uma expressão de desejos imutáveis. Nossa decisão por ficar com alguém alto, baixo, gordo, magro, ousado ou educado é governada em mais de 90 por cento pelo que aquela específica noite tem a oferecer” [5]

Em outras palavras, as pessoas acabam escolhendo alguém da lista de opções que tem diante de si, não importa quão poucas afinidades possam ter com aqueles candidatos. A conclusão óbvia é que, à exceção de pessoas muito assediadas e procuradas, todas as demais que procuram por um parceiro deveriam estar marcando encontros pela internet, entrando em sites de relacionamentos e recorrendo a outros sistemas criados para ampliar a lista de candidatos de uma forma inteligente.

Mas a boa e velha sociedade desaprova que façamos isso, e as pessoas em geral são receosas demais de dizer que encontraram o seu marido ou esposa em um site de encontros. A forma socialmente respeitável de encontrar um parceiro para toda a vida é a pura sorte, atirando-se aleatoriamente na busca ou apresentando-se aos candidatos de uma pequena lista de opções. Felizmente, esse estigma está diminuindo com o tempo, mas no final ele é um exemplo do quão ilógico é o livro de regras sobre encontros amorosos escrito pela sociedade.

A sociedade nos apressa.

Em nosso mundo, a principal regra é casar-se antes que seja tarde – e “ser tarde” varia dos 25 aos 35 anos, dependendo de onde você vive. A regra deveria ser: “faça o que fizer, não case com a pessoa errada”. Mas a sociedade desaprova muito mais se você for uma pessoa solteira com 37 anos do que se você for uma pessoa casada com 37 anos mas em um relacionamento infeliz e com dois filhos. Isso não faz sentido nenhum – na primeira situação, você está a um passo de um casamento feliz, enquanto na segunda situação ou você se conforma à infelicidade permanente ou suporta o inferno de uma separação apenas para chegar aonde já está a pessoa solteira.

Nossa biologia não nos ajuda em nada

A biologia humana se desenvolveu faz muito tempo e não compreende o conceito de ter uma conexão profunda com uma mesma pessoa por 50 anos.

Quando começamos a sair com alguém e sentimos a mais tênue pontada de excitação, nossa biologia diz “ok, vamos fazer sexo” e nos bombardeia com substâncias químicas destinadas a nos fazer acasalar (luxúria), apaixonar-se (a fase da Lua de Mel) e então assumir um compromisso a longo prazo (apego). Nosso cérebro pode resistir a esse processo se não estivermos muito a fim de uma pessoa, mas de regra em todos aqueles casos típicos em que a coisa certa a fazer seria não parar e continuar na procura de alguém melhor, nós frequentemente sucumbimos à montanha-russa química e terminamos num noivado.

O relógio biológico é um filha-da-puta.

Para uma mulher que deseja ter filhos biológicos com seu marido, há uma genuína limitação em jogo, que é a necessidade de encontrar o parceiro certo até os quarenta anos mais ou menos. Esse é um fato de merda, que torna um processo já muito difícil algo ainda mais estressante. De qualquer modo, se fosse comigo, eu preferiria adotar crianças com o parceiro certo do que ter filhos biológicos com o parceiro errado.

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Então quando você pega pessoas que não são muito boas em saber o que realmente querem de um relacionamento, coloca-as em uma sociedade que lhes diz que precisam encontrar um parceiro para toda a vida mas não devem pensar muito nisso, nem fazer muitas explorações, e ainda por cima precisam se apressar, e coloca no meio disso tudo uma biologia que nos deixa drogados enquanto tentamos entender o que está acontecendo e que promete parar de produzir filhos se demorarmos demais, o que você tem?

Você tem um festival de grandes decisões feitas por péssimos motivos e um montão de pessoas fazendo uma confusão danada na hora de tomar a decisão mais importante de suas vidas. Vamos dar uma olhada em alguns dos tipos mais comuns de pessoas que se tornam vítimas de tudo isso e acabam em relacionamentos infelizes:

O Roberto Super Romântico

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O problema do Roberto Super Romântico é acreditar que o amor é razão suficiente para que case com alguém. O romance pode ser parte significativa de um relacionamento, e o amor é um ingrediente chave para um casamento feliz, mas sem um monte de outras coisas importantes, essas duas simplesmente não são suficientes.

A pessoa excessivamente romântica repetidamente ignora aquela voz interior que tenta falar quando ele e sua namorada estão constantemente brigando ou quando ele se sente muito pior em um relacionamento do que se sentia solteiro. A pessoa cala essa voz interior com pensamentos como “Tudo acontece por uma razão e o jeito que nos conhecemos não pode ser só coincidência” e “Estou completamente apaixonado por ela, e isso é tudo o que importa”. Quando uma pessoa excessivamente romântica acredita ter encontrado sua alma-gêmea, ela para de questionar as coisas, e vai se agarrar a essa crença o tempo todo durante os seus 50 anos de casamento infeliz.

Frida Temerosa

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O medo é um dos piores fatores numa tomada de decisão que envolve escolher um parceiro para toda a vida. Infelizmente, da forma como a sociedade funciona, o medo começa a infectar qualquer pessoa racional lá pelos seus vinte anos. Os tipos de medo que a sociedade (e familiares, e amigos) nos impõe (medo de ser o último amigo solteiro, medo de ser um pai mais velho, às vezes só o medo de ser julgado ou ser objeto de comentários) são os tipos de medo que nos levam a escolher alguém não-muito-legal como parceiro. A ironia é que o único medo racional que deveríamos ter é o medo de passar o resto de nossas vidas infelizes ao lado da pessoa errada – o exato destino que as pessoas movidas pelo medo correm o risco de ter por estarem buscando não correr riscos.

Eduardo Influenciável

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O Eduardo Influenciável deixa que os outros tenham uma participação preponderante demais na sua escolha de um parceiro. A escolha de uma parceiro para toda a vida é profundamente pessoal, enormemente complicada, diferente para cada um e quase impossível de um observador externo compreender, não importa o quão bem você conheça uma pessoa. Assim, a opinião dos outros e suas preferências realmente não tem nenhum lugar para ocupar nessa história, salvo casos extremos que envolvem maus-tratos ou outras formas de abuso.

O exemplo mais triste disso é alguém que termina um relacionamento com alguém que seria o parceiro certo para viver ao seu lado por toda a vida apenas por causa da reprovação de terceiros ou por algum fator com o qual a pessoa realmente não se importa (religião é um fator comum) mas que se sente compelida a considerar devido à pressão ou expectativas familiares.

Isso pode acontecer no sentido inverso, quando todos na vida de alguém estão empolgados com seu atual relacionamento porque ele parece ótimo do lado de fora, e apesar de não ser assim tão bom do lado de dentro, o Eduardo Influenciável escuta os outros, ignora seus instintos e entra em um casamento.

Susana Superficial

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A Suzana Superficial está mais preocupada com a descrição exterior de seu parceiro do que com a real personalidade que está por trás disso. Há uma lista de itens que ela precisa checar – coisas como o peso dele, o prestígio do seu trabalho, sua riqueza, suas conquistas ou talvez um item inusitado como ser estrangeiro ou ter um talento específico.

Todo mundo tem certos itens que gostaria de checar, mas uma pessoa fortemente guiada por seu ego priorizará as aparências e o curriculum vitae até mesmo mais do que a qualidade da conexão com o seu potencial parceiro, quando pesar todas as coisas.

Se você quiser um termo novo e divertido, significativo para descrever aqueles que você suspeita que foram escolhidos por alguém mais por causa dos quadradinhos que preenchem do que por sua real personalidade, o nome seria: “namorado-bingo” ou “namorada-bingo”, pois eles preenchem corretamente todos os números do cartão. Eu tenho uma boa milhagem com esse tipo de coisa.

Gustavo Egoísta

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Há três tipos de egoístas, com algumas variações e combinações entre eles:

1) O tipo “ou é do meu jeito ou cai fora”

Esse tipo de pessoa não aceita sacrifício ou compromisso. Ela acredita que suas necessidades, desejos e opiniões são simplesmente mais importantes que as de seu parceiro, e ela precisa se impor em praticamente todas as principais decisões. No final, ela não quer uma relação verdadeira, pois quer manter sua vida de solteira e ter alguém ao lado para fazer companhia.

Esse tipo de pessoa inevitavelmente termina, na melhor das hipóteses, com alguém super tolerante, e na pior, com alguém manipulável e com problemas de autoestima, e sacrifica sua chance de ser parte de um time de iguais, quase certamente limitando a qualidade potencial de seu casamento.

2) O Protagonista

O problema trágico do Protagonista é ser imensamente auto-absorvido. Ele quer um parceiro que sirva tanto como terapeuta quanto como grande fã, mas está bem pouco interessado em retribuir o favor. A cada noite, ele e seu parceiro falam de seus dias, mas 90% da conversa gira em torno do seu dia – afinal, ele é o protagonista da relação. A questão dele é que ao ser incapaz de distanciar-se um pouco de seu universo pessoal, ele acaba com um coadjuvante como parceiro, o que faz seus próximos 50 anos extremamente aborrecidos.

3) O Necessitado

Todo mundo tem necessidades, e todo mundo gosta de ter essas necessidades satisfeitas, mas o problema surge quando a convergência de necessidades (ela cozinha para mim, ele seria um grande pai, ela seria uma grande esposa, ele é rico, ela me ajuda a me organizar, ela é ótima na cama) tornam-se o fator principal para escolher um parceiro. Essas coisas listadas são ótimas vantagens, mas elas são só isso – vantagens. E depois de um ano de casamento, quando a pessoa orientada por suas necessidades está já totalmente acostumada a ter suas necessidades atendidas e isso não já é mais excitante, é melhor que existam muitas outras coisas positivas em seu relacionamento, senão ela terá perdido seu tempo.

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A principal razão para a maioria dos tipos acima acabarem em um relacionamento infeliz é que elas estão dominadas por uma motivação que não considera a realidade do que é uma parceira para toda a vida e o que faz dessa parceria algo feliz.

Então o que faz uma feliz parceria para toda a vida?

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Frequentemente, a chave para ter sucesso em lidar com algo muito grande é quebrar esse algo em suas menores partes e focar em como ser bem sucedido em lidar com um só pedaço.

Acho que a mesma ideia se aplica ao casamento.

Visto a distância, um grande casamento é uma história de amor arrebatadora, como um casamento em um livro ou filme. E isso é uma forma legal e poética de olhar um casamento em sua totalidade.

Mas a felicidade humana não está em grandes pinceladas arrebatadoras, pois não vivemos em grandes obras de arte – estamos presos nos pequenos e pouco glamourosos meandros do tecido da vida, e é ali que nossa felicidade é determinada.

Então se queremos encontrar um casamento feliz, nós precisamos atentar para os pequenos detalhes – precisamos olhar um casamento e ampliá-lo para ver que ele não é feito de momentos poéticos, mas de vinte mil quartas-feiras mundanas.

Casamento não é a Lua-de-Mel na Tailândia – é o quarto dia da 56ª férias em que viajam juntos. Casamento não é celebrar a conclusão da compra do primeiro apartamento  – é ter que jantar naquele apartamento pela 4.386ª noite. E com certeza casamento não é o Dia dos Namorados.

Casamento é viver a quarta-feira esquecível. Juntos.

Então vou deixar as borboletas e os beijos na chuva e o sexo duas vezes por dia com você (você vai se encarregar dessa parte, tenho certeza) e usar o resto deste texto para tentar descobrir a melhor forma de tornar a quarta-feira esquecível tão feliz quanto possível.

Para suportar vinte mil dias com outro ser humano e fazer isso com felicidade, há três ingredientes necessários:

1) Uma amizade épica

Eu gosto de passar meu tempo com a maioria dos meus amigos – é isso que faz deles meus amigos. Mas com certos amigos, o tempo com eles tem uma qualidade tão elevada, é tão interessante e divertido que eles passam no Teste do Engarrafamento.

Alguém passa no Teste do Engarrafamento quando eu termino um encontro com a pessoa e um de nós está dando carona ao outro de volta para casa, e eu me descubro ansiando por um engarrafamento. Isso é o quanto eu aprecio o tempo que passo com eles.

Passar no Teste do Engarrafamento diz muitas coisas. Isso significa que mergulhei naquele envolvimento, sinto-me revigorado com ele e estou no extremo oposto de alguém que está aborrecido.

Para mim, quase nada é tão crítico na busca por um parceiro para toda vida do que passar no Teste do Engarrafamento. Quando há pessoas na sua vida que passaram no Teste do Engarrafamento, é vergonhoso gastar 95% do resto de sua vida ao lado de alguém que foi reprovado.

Uma amizade que passou no Teste do Engarrafamento implica em:

 

  • Um grande senso de humor. Pois ninguém quer passar décadas fingindo rir.
  • Diversão. E a capacidade de extrair diversão de situações que não são divertidas – atrasos no aeroporto, longas horas no trânsito, filas… Não é surpresa que pesquisas sugerem que o montante de diversão que um casal tem é um fator determinante no seu futuro [5].
  • Um respeito pela mente do outro e por sua forma de pensar. Um bom parceiro de vida também desempenha o papel de terapeuta da carreira e da vida, e se você não respeita o modo como a outra pessoa pensa, você não vai querer que ela lhe diga sua opinião sobre cada dia seu, ou sobre qualquer outra coisa interessante que surja na sua cabeça, pois você realmente não se importa muito com o que ela tem a dizer a respeito.
  • Um número decente de interesses, atividades e preferências em comum. Caso contrário, muito daquilo que faz você ser quem você é acabará inevitavelmente se tornando uma parte muito pequena da sua vida, e você e seu parceiro de vida irão se esforçar muito para encontrar formas prazerosas de passar um sábado juntos.

Uma amizade que passa no Teste do Engarrafamento melhora cada vez mais com o tempo, e tem um espaço infinito para se aprofundar e se enriquecer cada vez mais.

2) Um sentimento de estar em casa

Se alguém lhe dissesse que precisa sentar em uma cadeira por 12 horas sem se mexer, além de se perguntar porque infernos estão fazendo você passar por isso, seu primeiro pensamento seria “é melhor eu sentar na posição mais confortável possível” – porque você sabe que mesmo o mínimo desconforto inicial irá aumentar até se tornar dor e, em algum momento, uma tortura. Quando você tem que fazer alguma coisa por muito, muito tempo, é melhor que isso seja supremamente confortável.

Quando se trata de casamento, um “desconforto” permanente entre você e seu parceiro pode se tornar uma fonte permanente de infelicidade, principalmente por que isso aumenta com o tempo, tal como a torturante situação da cadeira. Sentir-se “em casa” significa sentir-se seguro, aconchegado, espontâneo e essencialmente você mesmo, e para ter essa sensação com um parceiro, algumas coisas precisam estar presentes: 

  • Confiança e segurança. Segredos são o veneno de um relacionamento, pois eles formam um muro invisível dentro de um relacionamento, deixando ambas as pessoas de alguma forma solitárias em seu mundo – além disso, quem quer passar 50 anos mentindo ou se preocupando em esconder algo? E do outro lado dos segredos haverá quase sempre a suspeita, um conceito que colide diretamente com o conceito de lar. É por isso que ter um caso durante um bom casamento é uma das coisas mais autodestrutivas e míopes que uma pessoa pode fazer.
  • Química natural. Interagir deve ser natural e fácil, os níveis de energia devem estar em patamares próximos, e você deve sentir-se na mesma sintonia em geral. Quando estou com alguém que está em uma sintonia muito diferente da minha, não demora muito para que a interação se torne exaustiva.
  • Aceitação das falhas humanas. Você é imperfeito. Tipo, imperfeito mesmo. E seu parceiro atual ou futuro também. Ser imperfeito é parte da definição de ser um humano. E um dos piores destinos seria passar a maior parte de sua vida sendo criticado por suas imperfeições e repreendido por continuar a tê-las. Isso não significa que as pessoas não devam buscar o auto-aprimoramento, mas quando se trata da parceria de sua vida, a atitude mais saudável é: “Cada pessoa vem com um conjunto de imperfeições, essas são as do meu parceiro, e elas são parte do pacote que voluntariamente escolhi para passar a minha vida toda ao lado”.
  • Uma vibração positiva. Lembre-se, essa é a vibração da qual você faz parte agora, e para sempre. Não é realmente aceitável que essa vibração seja negativa, nem isso é sustentável. O pesquisador de relacionamentos John Gottman descobriu que “casais com uma razão inferior a cinco interações positivas por cada interação negativa estão destinados a se separarem” [7]

3) A determinação de ser bom no casamento

Relacionamentos são difíceis. Esperar ter uma excelente relação sem tratá-la como um rigoroso trabalho diário é como esperar ter uma excelente carreira sem colocar nisso qualquer esforço. Em uma era em que os seres humanos na maior parte do mundo podem usufruir da liberdade e abrir seus próprios caminhos sozinhos, em geral não é muito confortável tornar-se de repente metade de algo e se comprometer com um monte de coisas sobre as quais você cresceu sendo egoísta.

Então que habilidades alguém precisa para aprender a ser bom num casamento?

  • Comunicação. Colocar comunicação nesta lista é tão idiota quanto colocar “oxigênio” em uma lista de itens que você precisa ter para ser saudável. E ainda assim, a falta de comunicação é a causa do fim de um grande números de casais – de fato, em um estudo sobre pessoas separadas, a qualidade da comunicação era a principal coisa que dizia ter mudado em sua próxima relação [8]. É difícil comunicar-se bem e de forma consistente – casais bem sucedidos frequentemente precisam criar sistemas pré-planejados ou mesmo participar de terapia para assegurar que a comunicação ocorra.
  • Preservar a igualdade. Os relacionamentos podem degenerar para uma dinâmica de poder desigual muito rapidamente. Quando o humor de uma pessoa sempre dita o humor na sala, quando as necessidades ou opiniões de uma pessoa sempre prevalecem sobre as da outra, quando uma pessoa trata a outra de uma forma que ela jamais admitiria ser tratada – você tem um problema.
  • Brigar bem. Brigar é inevitável. Mas há formas ruins e formas boas de brigar. Quando um casal é bom em brigar, eles dissipam a tensão, abordam as coisas com humor e genuinamente escutam o outro lado, enquanto evitam jogar sujo, apelar ou ficar na defensiva. Eles também brigam menos do que um casal infeliz. De acordo com John Gottman, 69% das brigas típicas de um casal são perpétuas, fundadas em diferenças essenciais, e não podem ser solucionadas – e um casal habilidoso compreende isso e evita se envolver nessas brigas reiteradamente.[9]

Na busca pelo parceiro da sua vida ou na avaliação de sua atual parceria, é importante lembrar que toda relação é imperfeita e você provavelmente não vai terminar em um relacionamento que tire nota 10 em cada um dos itens acima – mas você deve esperar sair-se bem na maioria deles, já que cada um deles determina uma grande parte da felicidade de sua vida.

E como esta é uma enorme lista para se alcançar em um relacionamento para toda a vida, você provavelmente não vai querer tornar as coisas mais difíceis do que precisam ser, insistindo excessivamente em muitos outros itens – a maioria dos quais não terá muita influência na sua felicidade durante o 4.386ª jantar do seu casamento. Seria legal se ele tocasse violão, mas tire isso da lista de itens obrigatórios.

Espero que o Dia dos Namorados tenha sido bom para você neste ano, seja o que for que tenha feito. Apenas se lembre que a Quarta-feira Esquecível é um dia muito mais importante.


 

Fontes

Os fatos e opiniões deste artigo são baseados em uma combinação de dúzias de horas de pesquisa, tanto de estudos científicos quanto de opiniões de especialistas, com a minha experiência pessoal e observação, assim como de alguns amigos e familiares (muitos dos quais entrevistei na última semana). Faço um agradecimento especial a Eric Barker for seu excelente blog, Barking Up the Wrong Tree, do qual colhi várias das fontes deste post.

  1. http://www.telegraph.co.uk/news/politics/10090130/Marriage-makes-people-happier-than-six-figure-salaries-and-religion.html
  2. “Marital Status is Misunderstood in Happiness Models” from Deakin University, Faculty of Business and Law, School of Accounting, Economics and Finance; Economics Series Paper # 2010_03.
  3. http://www.rawstory.com/rs/2012/08/08/most-young-adults-expect-marriage-for-life-study/
  4. “Sex differences in mate preferences revisited: Do people know what they initially desire in a romantic partner?” from Journal of Personality and Social Psychology by Eastwick, Paul W.; Finkel, Eli J.
  5. “Can Anyone Be “The” One? Evidence on Mate Selection from Speed Dating” from IZA Discussion Papers, number 2377.
  6. http://www.bakadesuyo.com/2013/10/recipe-for-a-happy-marriage-2/
  7. http://www.bakadesuyo.com/2011/12/is-5-to-1-the-golden-ratio-for-both-work-and/
  8. Terri Orbuch, Finding Love Again: 6 Simple Steps to a New and Happy Relationship
  9. John Gottman, The Marriage Clinic: A Scientifically Based Marital Therapy
  10. Dan Wile, After the Honeymoon: How Conflict Can Improve Your Relationship
  11. Dolan, P., Peasgood, T., & White, M. (2008). Do we really know what makes us happy? A review of the economic literature on the factors associated with subjective well-being. Journal of Economic Psychology, 29, 94–122.

 


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escrito por:

Tim Urban

Formado em Ciências Políticas pela Harvard University, é autor do site Wait But Why e fundador da ArborBridge.