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Sobre a personalidade de humanos e peixes

Em Ciência por Felipe NovaesComentários

A razão da exis­tên­cia deste artigo é dupla. Em pri­meiro lugar, a per­so­na­li­dade é um dos temas mais impor­tan­tes da psi­co­lo­gia, pois trata de carac­te­rís­ti­cas indi­vi­du­ais bási­cas que influ­en­ciam todas as outras variá­veis psi­co­ló­gi­cas ima­gi­ná­veis.

A segunda razão é a popu­la­ri­dade do tema. É bas­tante recor­rente a quan­ti­dade de vezes em que conto para conhe­ci­dos que estudo psi­co­lo­gia e, em seguida, eles falam algo sobre per­so­na­li­dade ou geral­mente pedem alguma aná­lise estilo The Men­ta­list. Por algum motivo, psi­co­lo­gia é a área da ciên­cia que as pes­soas mais acham que são experts mesmo antes de estu­dar.

Em geral, os lei­gos enten­dem que a per­so­na­li­dade é quase qual­quer carac­te­rís­tica que se refira aos indi­ví­duos. Bom, é quase isso mesmo. A dife­rença é que, tec­ni­ca­mente, o que fala­mos sobre o assunto é gui­ado pela cha­mada teo­ria da per­so­na­li­dade, e é essa parte da his­tó­ria que o público não conhece.

Aden­trando nesse mundo des­co­nhe­cido, exis­tem fatos ainda mais impres­si­o­nan­tes.

Para além de sim­ples­mente mapear em que espec­tro das gran­des carac­te­rís­ti­cas da per­so­na­li­dade cada indi­ví­duo ou grupo se encaixa, é pos­sí­vel tra­çar as variá­veis que fazem as pes­soas pon­tu­a­rem mais em um fator e mais em outro, por exem­plo.

A per­so­na­li­dade de uma pes­soa é por si só um pre­di­tor bas­tante rele­vante do con­sumo de álcool na vida adulta, pro­ba­bi­li­dade de se envol­ver em cri­mes, con­sumo de dro­gas, de ter sucesso aca­dê­mico e pro­fis­si­o­nal, etc.

Mais sur­pre­en­dente ainda é que essas influên­cias par­tem de áreas que a gente nunca espe­ra­ria: índice de peri­cu­lo­si­dade e de ali­men­tos numa região, pre­sença ou his­tó­ria de doen­ças infec­ci­o­sas e tes­tos­te­rona, para citar alguns exem­plos, se qui­ser­mos seguir o ponto de vista dos estu­dos da eco­lo­gia com­por­ta­men­tal e outras abor­da­gens evo­lu­ti­vas.

Mais impres­si­o­nante ainda é que a per­so­na­li­dade parece ter a ver com a pró­pria his­tó­ria evo­lu­tiva dos ani­mais de uma maneira geral. Isso sig­ni­fica que pode­mos usar a teo­ria da sele­ção natu­ral (logo, a psi­co­lo­gia evo­lu­ci­o­nista) para expli­car não só o que se repete na espé­cie humana, mas tam­bém para elu­ci­dar o porquê somos dife­ren­tes, por mais que tam­bém seja­mos iguais.

 

O que é personalidade?

Uma defi­ni­ção mais sim­ples pos­sí­vel deve par­tir do prin­cí­pio de que a per­so­na­li­dade é o termo dado para carac­te­rís­ti­cas indi­vi­du­ais. Vários indi­ví­duos podem pos­suir as mes­mas carac­te­rís­ti­cas, mas elas podem variar bas­tante entre as pes­soas.

Ima­gine o seguinte: pedi­mos a um deter­mi­nado grupo, for­mado por umas 100 pes­soas, que cite carac­te­rís­ti­cas pró­prias e outras que pense que per­ten­çam às pes­soas pró­xi­mas. Pode­mos tam­bém pegar o pró­prio idi­oma em ques­tão e veri­fi­car as pala­vras exis­ten­tes que se refi­ram a tra­ços de per­so­na­li­dade.

Cer­ta­mente apa­re­ce­riam pala­vras como “ansi­oso”, “per­fec­ci­o­nista”, “bon­doso”, “impa­ci­ente”, “ciu­mento”, “desa­pe­gado”, “des­con­fi­ado” e etc. Se levar­mos em conta o inglês, sur­gi­riam em torno de 5000 pala­vras desse tipo, segundo o manual da Bate­ria Fato­rial de Per­so­na­li­dade, um dos tes­tes mais usa­dos no Bra­sil.

É bas­tante com­pli­cado usar todas essas milha­res de pala­vras para des­cre­ver as pes­soas, ainda mais para criar uma teo­ria sobre a per­so­na­li­dade. Esse é o típico caso em que menos é mais. Por isso, por muito tempo, a psi­co­lo­gia care­ceu de uma teo­ria boa e efi­ci­ente sobre a per­so­na­li­dade.

Ines­pe­ra­da­mente, a solu­ção veio junto com o avanço da infor­má­tica e de téc­ni­cas de aná­lise esta­tís­tica. Uti­li­zando tes­tes esta­tís­ti­cos sofis­ti­ca­dos, des­co­briu-se que todos esses ter­mos que as pes­soas cos­tu­ma­vam usar em seus idi­o­mas se agru­pa­vam em 5 gran­des gru­pos: neu­ro­ti­cismo, extro­ver­são, soci­a­bi­li­dade, cons­ci­en­ci­o­si­dade e aber­tura à expe­ri­ên­cia.

Esses gran­des gru­pos de tra­ços de per­so­na­li­dade, tam­bém cha­ma­dos fato­res, for­mam a cha­mada Teo­ria dos Cinco Gran­des Fato­res da Per­so­na­li­dade ou sim­ples­mente Big-Five. Essa teo­ria embasa diver­sos tes­tes de vali­dade ao redor do mundo, e é cor­ro­bo­rada por diver­sos estu­dos trans­cul­tu­rais.

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O barulho das diferenças individuais

Estu­dar a per­so­na­li­dade é estu­dar as dife­ren­ças indi­vi­du­ais. Por defi­ni­ção, é comum que se pense que é impos­sí­vel atri­buir cau­sas evo­lu­ti­vas a esses fenô­me­nos, pois his­to­ri­ca­mente a bio­lo­gia evo­lu­tiva, tanto quanto a psi­co­lo­gia evo­lu­ci­o­nista, sem­pre estu­da­ram os padrões huma­nos, aquilo que é comum entre todos os indi­ví­duos da espé­cie.

Por exem­plo, os estu­dos sobre altruísmo recí­proco, veri­fi­ca­dos pela bio­lo­gia e pela antro­po­lo­gia, mos­tram que essa é uma estra­té­gia muito comum em espé­cies soci­ais, e que, entre os huma­nos, existe inde­pen­den­te­mente da cul­tura. O mesmo vale para o modo como a sele­ção sexual molda machos e fêmeas, homens e mulhe­res.

Um estudo rea­li­zado em 37 cul­tu­ras encon­trou dife­ren­ças fun­da­men­tais nos padrões de cri­té­rios de atra­ção de homens e mulhe­res pelo sexo oposto.

As mulhe­res ten­dem a con­si­de­rar mais impor­tan­tes indí­cios de que o homem pos­sui recur­sos quando inte­res­sa­das em rela­ci­o­na­men­tos de longo prazo, mas quando que­rem algo mais casual e des­com­pro­mis­sado, a beleza é o que mais importa. Com rela­ção aos homens, a pre­fe­rên­cia para aque­les inte­res­sa­dos em rela­ci­o­na­men­tos sérios gira em torno da beleza física femi­nina, o que se repete naque­les inte­res­sa­dos em fler­tes.

Esses padrões são expli­ca­dos em ter­mos de cál­cu­los evo­lu­ti­vos: o inves­ti­mento paren­tal femi­nino é sem­pre maior, o que torna o envol­vi­mento afe­tivo mais cus­toso para a mulher — que em tem­pos ances­trais cer­ta­mente era sinô­nimo de engra­vi­dar. Sua ges­ta­ção é longa e ainda tem o período de lac­ta­ção.

Para os homens, em ter­mos bio­ló­gi­cos o custo é menor, pois só con­tri­buem com os esper­ma­to­zoi­des, mas em com­pen­sa­ção há o inves­ti­mento mate­rial.

Nesse sen­tido, para a mulher, em ter­mos bio­ló­gi­cos — o que não sig­ni­fica que alguém tenha essas estra­té­gias em mente —, é melhor que ela tenha cer­teza de que o homem irá inves­tir na cria com seus recur­sos (ali­mento, segu­rança e apoio afe­tivo).

Para o homem, é impor­tante que haja cer­teza da fer­ti­li­dade femi­nina, para que seu inves­ti­mento seja jus­ti­fi­cado.

Em ter­mos de rela­ção de curta dura­ção, a mulher pri­o­riza mais a beleza, o que está ligado à fer­ti­li­dade e saúde mas­cu­lina, atri­bu­tos pas­sa­dos here­di­ta­ri­a­mente.

Isso mos­tra que, desde o iní­cio, a evo­lu­ção foi pen­sada como a expli­ca­ção para as seme­lhan­ças huma­nas. Em outras pala­vras, a crença comum é que as dife­ren­ças indi­vi­du­ais seriam como um baru­lho a ser eli­mi­nado.

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Diferenças individuais nos homens e nos animais

O pro­blema é que essa é uma visão bas­tante arti­fi­cial, pois o fenô­meno das dife­ren­ças indi­vi­du­ais tem sido docu­men­tado desde Aris­tó­te­les, dife­ren­ças essas que valem para ani­mais não-huma­nos, inclu­sive.

Quem já pes­cou alguma vez na vida conhece bem de perto as dife­ren­ças indi­vi­du­ais entre pei­xes, assim como quem já mer­gu­lhou. Ao se depa­rar com um estí­mulo novo, alguns pei­xes ten­dem a se afas­tar, enquanto outros des­te­mi­da­mente se apro­xi­mam, explo­ram, obser­vam.

Uma modesta revi­são, rea­li­zada pelo bió­logo David Sloan Wil­son, mos­tra que mesmo den­tro de uma mesma espé­cie, e den­tro de um mesmo grupo geo­grá­fico, pei­xes mos­tram uma rica vari­a­ção com­por­ta­men­tal, de acordo com as con­di­ções con­tex­tu­ais. Essa faci­li­dade com que um peixe explora ambi­en­tes novos e se apro­xima de estí­mu­los des­co­nhe­ci­dos é aná­loga à explo­ra­ção, um dos tra­ços de per­so­na­li­dade den­tro do grande grupo da extro­ver­são.

Um dos estu­dos cita­dos mos­tra um expe­ri­mento que men­sura esse grau de extro­ver­são do ani­mal: após uma tarefa expe­ri­men­tal, os pei­xes eram sacri­fi­ca­dos e dis­se­ca­dos. Alguns pei­xes se expu­nham mais for­te­mente ao perigo na busca por ali­men­tos que se encon­tra­vam em locais mais peri­go­sos, outros eram mais res­sa­bi­a­dos e tinham maior resis­tên­cia a aden­trar por novos cami­nhos, se expondo a peri­gos. Isso era medido veri­fi­cando o sis­tema diges­tó­rio dos ani­mais. Alguns tinham o sis­tema vazio, outros cheio.

Tal­vez ainda não tenha ficado claro por que esta­mos falando de evo­lu­ção para expli­car per­so­na­li­dade e dife­ren­ças indi­vi­du­ais.

Como já dito, por muito tempo falar de evo­lu­ção e com­por­ta­mento foi sinô­nimo de falar sobre ten­dên­cias uni­ver­sais, mas mesmo den­tro des­sas ten­dên­cias uni­ver­sais existe um con­tí­nuo de res­pos­tas ao ambi­ente que são difí­ceis de enqua­drar de forma dicotô­mica.

A forma como cada pes­soa vive sua sexu­a­li­dade é um exem­plo. A cha­mada soci­os­se­xu­a­li­dade pode variar ao longo de um gra­di­ente de res­tri­ção e irres­tri­ção sexual, ou seja, o quanto a pes­soa pri­o­riza estra­té­gias que a levam a ter mui­tos ou pou­cos par­cei­ros ao longo de um período (ou mesmo da vida).

Pelo menos no caso do ser humano, não pode­mos afir­mar que a espé­cie é mono­gâ­mica ou poli­gâ­mica. Evo­lu­ti­va­mente, tanto a res­tri­ção quanto a irres­tri­ção sexu­ais foram adap­ta­ti­vas, por­tanto nossa espé­cie é capaz de mani­fes­tar essa plu­ra­li­dade de rea­ções amo­ro­sas, a depen­der dos inputs eco­ló­gi­cos que vão sus­ci­tar uma ou outra estra­té­gia.

Isso é o que em bio­lo­gia evo­lu­tiva se chama trade-off. Quando se tem uma carac­te­rís­tica esca­lar, todo o seu con­tí­nuo pro­duz bene­fí­cios (fit­ness), mas tam­bém é acom­pa­nhado por alguns cus­tos.

No caso da soci­os­se­xu­a­li­dade, mais ou menos irres­tri­ção vai pro­du­zir bene­fí­cios e cus­tos, assim como mais ou menos res­tri­ção. O que vai defi­nir a estra­té­gia ado­tada por certa popu­la­ção vai ser o ambi­ente.

sociossexualidade e personalidade

Por exem­plo, uma série de estu­dos mos­tra que a soci­os­se­xu­a­li­dade, no caso dos huma­nos, varia de acordo com a per­cep­ção de perigo e dis­po­ni­bi­li­dade de ali­mento.

Pes­soas que vivem em ambi­en­tes per­ce­bi­dos como peri­go­sos e com escas­sez de ali­mento ten­dem a ter uma estra­té­gia de vida mais rápida. Elas têm o pri­meiro filho mais cedo, têm mui­tos par­cei­ros ao longo da vida e difi­cil­mente têm rela­ções está­veis. Aque­las que nas­cem num con­texto mais per­ce­bido como seguro, com pouca res­tri­ção caló­rica, têm o pri­meiro filho mais tarde e ten­dem a ser mais mono­gâ­mi­cas com mais frequên­cia.

Existe até mesmo um efeito sobre o tipo de apa­rên­cia con­si­de­rada mais atra­ente no sexo oposto. Em con­tex­tos con­si­de­ra­dos mais peri­go­sos e mais res­tri­tos ali­men­tar­mente, as mulhe­res ten­dem a pre­fe­rir homens com tra­ços más­cu­los mais pro­nun­ci­a­dos: rela­ção ombro-cin­tura maior, man­dí­bula pro­nun­ci­ada e ati­tude domi­na­dora. Todos esses são tra­ços rela­ci­o­na­dos à ação dimór­fica da tes­tos­te­rona sobre as carac­te­rís­ti­cas sexu­ais secun­dá­rias.

Por outro lado, homens em eco­lo­gias desse tipo pre­fe­rem mulhe­res com carac­te­rís­ti­cas sexu­ais secun­dá­rias mais pro­nun­ci­a­das, carac­te­rís­ti­cas essas impor­tan­te­mente cor­re­la­ci­o­na­das com fer­ti­li­dade e menor pro­ba­bi­li­dade de com­pli­ca­ções no parto (no caso de soci­e­dade de caça­do­res-cole­to­res).

Em outras pala­vras, essas pre­fe­rên­cias indi­cam a melhor estra­té­gia (em ter­mos evo­lu­ti­vos, de maxi­mi­za­ção da sobre­vi­vên­cia e repro­du­ção), maxi­mi­zando os bene­fí­cios e mini­mi­zando os cus­tos.

Em eco­lo­gias carac­te­ri­za­das pela escas­sez e pelo risco, não é muito com­pen­sa­dor seguir estra­té­gias de adi­a­mento repro­du­tivo, pois existe gran­des ris­cos de morte antes da opor­tu­ni­dade de repro­du­ção. Por­tanto, as pes­soas ten­dem a ter filhos mais cedo, a se enga­jar mais em com­por­ta­men­tos de risco e por aí vai.

Em ambi­en­tes de con­fi­gu­ra­ção con­trá­ria, isto é, far­tos e segu­ros, é mais com­pen­sa­dor seguir estra­té­gias mais len­tas, já que existe mais tempo para inves­tir em recur­sos bio­ló­gi­cos e mate­ri­ais.

Como a repro­du­ção sem­pre gera um custo bio­ló­gico, é mais lucra­tivo, do ponto de vista da evo­lu­ção, que pri­meiro haja inves­ti­mento no capi­tal bio­ló­gico (no pró­prio corpo) e na obten­ção de recur­sos, do que de pri­meira arcar com os cus­tos repro­du­ti­vos e pas­sar o resto da pro­vá­vel longa vida sem levar van­ta­gem no mer­cado amo­roso — afi­nal, se existe uma cor­rida com­pe­ti­tiva entre os machos para impres­si­o­nar as fêmeas, o macho que sim­ples­mente abdica dessa cor­rida pode ficar em des­van­ta­gem em rela­ção aos outros.

Todo esse tre­cho falando sobre esse plu­ra­lismo de estra­té­gias sexu­ais ser­viu para mos­trar como mui­tas carac­te­rís­ti­cas evo­luem não em dire­ções úni­cas — como as zebras que se tor­nam cada vez mais rápi­das para esca­par de pre­da­do­res geral­mente mais velo­zes que elas —, mas em um ver­da­deiro tronco em que cada um de seus galhos tam­bém não está cres­cendo em uma dire­ção clara, mas que na ver­dade são espec­tros repre­sen­tando todo um gra­di­ente de estra­té­gias igual­mente bem adap­ta­das.

 

Personalidades igualmente adaptativas

É nesse sen­tido que as dife­ren­ças indi­vi­du­ais podem real­mente ser com­pre­en­di­das em ter­mos de fit­ness evo­lu­tivo. A per­so­na­li­dade é mais um des­ses ramos espec­trais, em que cada posi­ção nele repre­senta um con­junto espe­cí­fico de cus­tos e bene­fí­cios em eco­lo­gias vari­a­das.

Assim como a soci­os­se­xu­a­li­dade, e outras variá­veis psi­co­ló­gi­cas como a inte­li­gên­cia, a per­so­na­li­dade tam­bém pode ser orga­ni­zada ope­ra­ci­o­nal­mente em ter­mos de espec­tros. Mas não é só isso que a torna um objeto do estudo evo­lu­tivo. Pode­mos tes­tar os pos­sí­veis trade-offs envol­vi­dos na evo­lu­ção de uma variá­vel psi­co­ló­gica atra­vés do sucesso repro­du­tivo rela­ci­o­nado.

Exem­pli­fi­cando em ter­mos de psi­co­pa­to­lo­gias conhe­ci­das, sabe-se que a esqui­zo­fre­nia está nega­ti­va­mente cor­re­la­ci­o­nada com sucesso repro­du­tivo e expec­ta­tiva de vida, mas com a inte­li­gên­cia já há essa cor­re­la­ção posi­tiva. Nesse sen­tido, carac­te­rís­ti­cas de per­so­na­li­dade pos­suem sig­ni­fi­ca­ti­vas cor­re­la­ções com sucesso repro­du­tivo e expec­ta­tiva de vida.

Essas rela­ções não são mero acaso, mas sinal de que essas variá­veis psi­co­ló­gi­cas podem ter sido impor­tan­tes em ter­mos de sele­ção natu­ral e sexual, isto é, pode­mos dizer que os tra­ços de per­so­na­li­dade inter­fe­rem no quanto um indi­ví­duo con­se­gue se repro­du­zir e pas­sar essas carac­te­rís­ti­cas adi­ante.

Extroversão

Este tal­vez seja o fator da per­so­na­li­dade em que mais facil­mente encon­tra­mos trade-offs evo­lu­ti­vos. Em suma, esse fator agrupa tra­ços rela­ci­o­na­dos a emo­ções posi­ti­vas e dis­po­si­ção à explo­ra­ção. Mais estru­tu­ral­mente, a extro­ver­são tem rela­ção com o fun­ci­o­na­mento dos cir­cui­tos dopa­mi­nér­gi­cos no cére­bro, rela­ci­o­na­dos à recom­pensa.

extroversão e personalidade

Esse fator está posi­ti­va­mente cor­re­la­ci­o­nado com o número de par­cei­ros sexu­ais. Isso sig­ni­fica que quanto mais extro­ver­tida, mais par­cei­ros sexu­ais uma pes­soa tem. Quanto mais extro­ver­tido, maior o número de par­cei­ros extra­con­ju­gais e mais rápido as rela­ções amo­ro­sas ter­mi­nam. Levando em conta cál­cu­los evo­lu­ti­vos, esse con­junto de cus­tos e bene­fí­cios rela­ci­o­na­dos à extro­ver­são são espe­ci­al­mente van­ta­jo­sos para os homens.

Seguindo a teo­ria do inves­ti­mento paren­tal, os homens inves­tem bio­lo­gi­ca­mente muito menos que as mulhe­res na cria. Isso sig­ni­fica que, em ter­mos mera­mente evo­lu­ti­vos, a prin­cí­pio seria lucra­tivo se rela­ci­o­nar com várias par­cei­ras num curto inter­valo de tempo. Daí o número ele­vado de rela­ções extra e o troca-troca de rela­ci­o­na­men­tos.

Em ter­mos estri­ta­mente soci­ais, tam­bém exis­tem van­ta­gens na extro­ver­são. Esses indi­ví­duos cos­tu­mam rece­ber mais apoio social, além de ini­ciar mais con­ta­tos soci­ais. Extro­ver­ti­dos tam­bém explo­ram mais o ambi­ente em que estão, e bus­cam novos ambi­en­tes, novas expe­ri­ên­cias.

Con­tudo, como todo trade-off, em deter­mi­nado grau essas carac­te­rís­ti­cas aca­bam gerando pro­ble­mas — ao menos na mai­o­ria dos con­tex­tos atu­ais. A maior parte dos aci­den­tes de carro acon­te­cem por impru­dên­cia de moto­ris­tas com ele­va­dos níveis de extro­ver­são.

A busca por expe­ri­ên­cias for­tes tam­bém faz essas pes­soas serem fãs de espor­tes radi­cais, o que pode expli­car a sig­ni­fi­ca­tiva pro­por­ção de extro­ver­ti­dos entre alpi­nis­tas — inclu­sive os mor­tos. A cons­tante busca por mais par­cei­ros e expe­ri­ên­cias sexu­ais tam­bém pode aumen­tar o risco de con­tra­ção de doen­ças sexu­al­mente trans­mis­sí­veis (doen­ças em geral tam­bém).

Um pro­blema que atinge espe­ci­al­mente indi­ví­duos com altos níveis de extro­ver­são que vivem em tri­bos de caça­do­res-cole­to­res é a o aban­dono da cria. Nes­ses con­tex­tos que remon­tam nosso pas­sado mais remoto, o cui­dado bipa­ren­tal está rela­ci­o­nado a mai­o­res chan­ces de sobre­vi­vên­cia dos filhos e a mai­o­res índi­ces de bem-estar no futuro.

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Neuroticismo

Este é o único fator que engloba os tra­ços de per­so­na­li­dade nega­ti­vos. Está for­te­mente asso­ci­ado à tris­teza, ansi­e­dade, medo e culpa. Além disso, esses indi­ví­duos têm gran­des chan­ces de desen­vol­ve­rem trans­tor­nos men­tais, além de apre­sen­ta­rem pro­ble­mas de rela­ci­o­na­mento e soci­ais em geral.

neuroticismo e personalidade

Mui­tos tra­ços de per­so­na­li­dade rela­ci­o­na­dos ao neu­ro­ti­cismo geram muito sofri­mento, então é difí­cil encon­trar algum bene­fí­cio neles. No entanto, em ter­mos evo­lu­ti­vos, é pos­sí­vel que haja.

Levando em con­si­de­ra­ção que em con­tex­tos mais comuns no pas­sado evo­lu­tivo do Homo sapi­ens exis­tia muito mais perigo que hoje, ser um tanto des­con­fi­ado e pes­si­mista tal­vez ser­visse para ficar mais atento a pos­sí­veis peri­gos que deviam ser recor­ren­tes, como virar jan­tar de um grande felino, ser picado por uma ser­pente ou, ainda mais pro­va­vel­mente, ser sur­pre­en­dido pelo ata­que de um grupo rival.

Em outras pala­vras, o neu­ro­ti­cismo é bas­tante adap­ta­tivo em ambi­en­tes hos­tis, mas em geral hoje em dia, como não vive­mos em cená­rios com essas carac­te­rís­ti­cas, pes­soas com neu­ro­ti­cismo alto aca­bam desen­vol­vendo trans­tor­nos de ansi­e­dade, se pre­o­cu­pando mais que o neces­sá­rio e catas­tro­fi­zando o que acon­tece e o que ainda vai acon­te­cer.

 

Abertura à experiência

As rela­ções que fazem a aber­tura à expe­ri­ên­cia apre­sen­tar des­fe­chos posi­ti­vos ou nega­ti­vos em cada caso ainda não são bem com­pre­en­di­das.

O que se sabe é que pes­soas mais aber­tas a novas expe­ri­ên­cias cos­tu­mam ter talen­tos artís­ti­cos e cri­a­ti­vi­dade. Elas tam­bém pos­suem algo que popu­lar­mente cha­ma­mos de “cul­tura”. Elas tanto gos­tam de conhe­cer novas cul­tu­ras quanto apre­ciam assun­tos novos.

abertura à experiência e personalidade

Ser aberto traz van­ta­gens repro­du­ti­vas.

Estu­dos mos­tram que a cri­a­ti­vi­dade é um traço de per­so­na­li­dade apre­ci­ado pelas mulhe­res como cri­té­rio de atra­ção, espe­ci­al­mente se elas esti­ve­rem na fase fér­til. Outro dado que cor­ro­bora esse sucesso é a fama galan­te­a­dora dos poe­tas e artis­tas visu­ais, que pos­suem um número gene­roso de par­cei­ros sexu­ais. Aliás, penso que pes­qui­sas desse tipo deve­riam ser rea­li­za­das com físi­cos e gru­pos con­trole (não-físi­cos). Sus­peito que físi­cos não devam ser tão aber­tos, mas Richard Feyn­man é um exem­plo atí­pico, que era um gênio à moda Tony Stark.

O pro­blema desse fator é que ele tam­bém está ligado de alguma forma a tra­ços não muito posi­ti­vos. Depres­são, risco de sur­tos psi­có­ti­cos, per­so­na­li­dade esqui­zo­tí­pica e delí­rios são alguns qua­dros asso­ci­a­dos a altos níveis desse fator.

Já foi mos­trado, inclu­sive, que pes­soas com altos níveis de aber­tura a expe­ri­ên­cia têm expe­ri­ên­cias sub­je­ti­vas tão inco­muns quanto esqui­zo­frê­ni­cos, mas, ao con­trá­rios des­ses últi­mos, os pri­mei­ros não apre­sen­tam ane­do­nia e difi­cul­da­des soci­ais extre­mas, como no caso de quem tem esse trans­torno.

Como qual­quer um que conheça um artista ou um poeta pode ates­tar, essas pes­soas tipi­ca­mente bas­tante aber­tas têm uma faci­li­dade bem grande para acre­di­tar no sobre­na­tu­ral e para­nor­ma­li­dade. Tal­vez a aber­tura exces­siva a coi­sas novas dimi­nua um atri­buto essen­cial em visões mais con­cre­tas da rea­li­dade, a sis­te­ma­ti­za­ção.

 

Conscienciosidade

Esse fator é alto em homens como Ned Stark, per­so­na­gem de Game of Thro­nes. Pes­soas cons­ci­en­ci­o­sas geral­mente são dis­ci­pli­na­das, con­tro­la­das, res­pon­sá­veis e boas em cum­prir metas. É um fator nega­ti­va­mente rela­ci­o­nado à delinquên­cia e aos com­por­ta­men­tos antis­so­ci­ais.

conscienciosidade e personalidade

Nesse cená­rio favo­rá­vel, é com­pli­cado pen­sar em cená­rios pre­ju­di­ci­ais envol­vendo indi­ví­duos cons­ci­en­ci­o­sos. Num sen­tido mais onto­ge­né­tico, a cons­ci­en­ci­o­si­dade é rela­ci­o­nada a uma série de tra­ços salu­ta­res, como o adi­a­mento de recom­pen­sas de curto prazo em favor das de longo.

Esses indi­ví­duos têm hábi­tos mais sau­dá­veis e maior expec­ta­tiva de vida. No entanto, quando ele­vado a níveis muito altos, a cons­ci­en­ci­o­si­dade pos­sui tra­ços com­par­ti­lha­dos por trans­tor­nos men­tais, como o de per­so­na­li­dade obses­sivo-com­pul­siva e trans­tor­nos ali­men­ta­res.

Agora, levando em conta a filo­gê­nese, a cons­ci­en­ci­o­si­dade pode nem sem­pre ser tão van­ta­josa.

Con­si­dere o qua­dro do adi­a­mento de recom­pen­sas, por exem­plo. Caça­do­res-cole­to­res fre­quen­te­mente vivem em locais mais peri­go­sos que o mundo moderno. A oferta de ali­mento tam­bém nem sem­pre é cons­tante. Não apro­vei­tar as opor­tu­ni­da­des de ter bene­fí­cios de longo prazo pode ser um pro­blema, tendo em vista que não se sabe quando opor­tu­ni­dade igual sur­girá de novo. Às vezes, nes­ses con­tex­tos, é mais adap­ta­tivo ter uma estra­té­gia de vida curta, apro­vei­tando os recur­sos dis­po­ní­veis enquanto eles estão ali.

O mesmo serve para os rela­ci­o­na­men­tos amo­ro­sos. Pes­soas cons­ci­en­ci­o­sas têm mais rela­ci­o­na­men­tos lon­gos, mas depen­dendo da eco­lo­gia em ques­tão, essa pode ser uma estra­té­gia des­van­ta­josa.

Por exem­plo, em gru­pos com maior quan­ti­dade de mulhe­res em rela­ção a homens, é comum que as rela­ções durem menos e que tenha altos índi­ces de rela­ci­o­na­men­tos extra­con­ju­gais. Por isso, um indi­ví­duo cons­ci­en­ci­oso pode se repro­du­zir menos do que os menos cons­ci­en­ci­o­sos, e ainda podem ser traí­dos.

 

Sociabilidade

A soci­a­bi­li­dade é o fator mais cor­re­la­ci­o­nado com a soci­a­li­za­ção. Engloba tra­ços de per­so­na­li­dade liga­dos à empa­tia e às habi­li­da­des soci­ais.

Não só espera-se como tam­bém é um resul­tado encon­trado nas pes­qui­sas, que indi­ví­duos que sofrem de trans­torno de per­so­na­li­dade antis­so­cial pos­suem bai­xís­sima pon­tu­a­ção nesse fator, jus­ta­mente por­que o que é pre­ju­di­cado neles é a capa­ci­dade de se colo­car no lugar do outro, a cha­mada teo­ria da mente.

sociabilidade e personalidade

Quando em altos níveis, porém, esse fator pode gerar pro­ble­mas do ponto de vista evo­lu­tivo.

Isto pode ser uma ver­dade muito incon­ve­ni­ente, mas o sucesso na sele­ção natu­ral está quase sem­pre asso­ci­ado a algum nível rele­vante de vio­lên­cia — que nesse sen­tido é a capa­ci­dade de reta­liar tra­pa­cei­ros para que pro­ble­mas como rou­bos, fur­tos e ata­ques à inte­gri­dade física não vol­tem a ocor­rer — e egoísmo — que aqui sig­ni­fica ape­nas alguma ênfase no cui­dado pes­soal, ape­sar de poder haver o cui­dado com o pró­ximo, coo­pe­ra­ção etc.

O pro­blema é que, do ponto de vista evo­lu­tivo, indi­ví­duos total­mente pací­fi­cos e altruís­tas aca­bam sendo pas­sa­dos para trás. Deve exis­tir certo equi­lí­brio entre com­por­ta­men­tos antis­so­ci­ais e auto­cen­tra­dos e os mais vol­ta­dos à coo­pe­ra­ção, cujo nível ótimo vai ser deter­mi­nado pelas con­di­ções do con­texto (a eco­lo­gia local).

É claro que, pen­sando em ter­mos de soci­e­dade moderna, ter altos níveis de soci­e­dade não é algo tão pro­ble­má­tico quanto seria se esti­vés­se­mos falando de uma soci­e­dade pré-his­tó­rica, ou alguma tribo que tem que dis­pu­tar ter­ri­tó­rios e ali­mento com uma infi­ni­dade de outras.

É mais ou menos como na dinâ­mica de The Wal­king Dead. Nessa série, per­cebe-se que na ausên­cia de um Estado ao qual recor­rer para resol­ver nos­sas pen­den­gas, temos de usar nos­sos pró­prios recur­sos pes­so­ais para resol­ver con­fli­tos e para espa­lhar deter­mi­nada fama que vai atrair mais opo­si­to­res ou que vai afastá-los pelo risco de per­der na dis­puta. Se algum grupo for total­mente altruísta, por exem­plo, vai aca­bar sofrendo em algum momento ata­que de algum grupo anor­mal­mente hos­til.

Essa dinâ­mica entre eco­lo­gia e com­por­ta­mento é até uma das expli­ca­ções filo­ge­né­ti­cas para a exis­tên­cia de psi­co­pa­tas, que por defi­ni­ção, nesse sen­tido, são quase para­si­tas que se infil­tram e se apro­vei­tam de todos os recur­sos da vítima.

Ser esse tipo de para­sita extre­ma­mente peri­goso num ambi­ente onde exis­tem pou­cos des­ses tra­pa­cei­ros, pode ser extre­ma­mente adap­ta­tivo, mas na medida em que esses indi­ví­duos aumen­tam de número, a efi­ci­ên­cia dessa estra­té­gia com­por­ta­men­tal pode ser pre­ju­di­cada — por isso pro­va­vel­mente nunca vere­mos os psi­co­pa­tas domi­nando o mundo nume­ri­ca­mente, pois é pro­vá­vel que genes rela­ci­o­na­dos à psi­co­pa­tia não sejam mais sele­ci­o­na­dos, ou por­que se forem, a soci­e­dade humana implo­dirá, mais ou menos como acon­tece num governo cor­rupto onde todos rou­bam os recur­sos do Estado.

 

Sobre variações ambientais, biologia e personalidade

Neste artigo eu tive alguns obje­ti­vos bem defi­ni­dos. O pri­meiro deles foi mais geral, mos­trar que o pro­cesso de evo­lu­ção, que ocorre por meio da sele­ção natu­ral e da sele­ção sexual, não neces­sa­ri­a­mente uni­for­miza a espé­cie. Depen­dendo de um intrin­cado jogo entre a carac­te­rís­tica em ques­tão e as pres­sões sele­ti­vas do ambi­ente, todo um gra­di­ente de dife­ren­tes inten­si­da­des da mesma carac­te­rís­tica será adap­ta­tivo e estará no reper­tó­rio daquela popu­la­ção de indi­ví­duos que fazem parte de uma espé­cie.

Outro ponto fun­da­men­tal é o da per­so­na­li­dade. Apa­ren­te­mente, é uma carac­te­rís­tica total­mente influ­en­ci­ada ape­nas pelo ambi­ente. Mas vimos que o Homo sapi­ens no geral com­par­ti­lha dife­ren­tes inten­si­da­des de tra­ços de per­so­na­li­dade — que são agru­pa­dos em 5 prin­ci­pais gru­pos ou fato­res — que geram cus­tos e bene­fí­cios bio­ló­gi­cos, que fazem o indi­ví­duo levar van­ta­gem ou não, se repro­du­zindo mais ou menos. A inten­si­dade mais adap­ta­tiva do traço vai ser deter­mi­nada pelas carac­te­rís­ti­cas do ambi­ente (a eco­lo­gia).

Ou seja, esqueça todo o pala­vró­rio espa­lhado sobre a evo­lu­ção não expli­car as dife­ren­ças, mas só as seme­lhan­ças. Quando usado de maneira cor­reta, temos um potente ins­tru­mento em mãos para enten­der o com­por­ta­mento humano.


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Felipe Novaes
Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.

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