A razão da existência deste artigo é dupla. Em primeiro lugar, a personalidade é um dos temas mais importantes da psicologia, pois trata de características individuais básicas que influenciam todas as outras variáveis psicológicas imagináveis.

A segunda razão é a popularidade do tema. É bastante recorrente a quantidade de vezes em que conto para conhecidos que estudo psicologia e, em seguida, eles falam algo sobre personalidade ou geralmente pedem alguma análise estilo The Mentalist. Por algum motivo, psicologia é a área da ciência que as pessoas mais acham que são experts mesmo antes de estudar.

Em geral, os leigos entendem que a personalidade é quase qualquer característica que se refira aos indivíduos. Bom, é quase isso mesmo. A diferença é que, tecnicamente, o que falamos sobre o assunto é guiado pela chamada teoria da personalidade, e é essa parte da história que o público não conhece.

Adentrando nesse mundo desconhecido, existem fatos ainda mais impressionantes.

Para além de simplesmente mapear em que espectro das grandes características da personalidade cada indivíduo ou grupo se encaixa, é possível traçar as variáveis que fazem as pessoas pontuarem mais em um fator e mais em outro, por exemplo.

A personalidade de uma pessoa é por si só um preditor bastante relevante do consumo de álcool na vida adulta, probabilidade de se envolver em crimes, consumo de drogas, de ter sucesso acadêmico e profissional, etc.

Mais surpreendente ainda é que essas influências partem de áreas que a gente nunca esperaria: índice de periculosidade e de alimentos numa região, presença ou história de doenças infecciosas e testosterona, para citar alguns exemplos, se quisermos seguir o ponto de vista dos estudos da ecologia comportamental e outras abordagens evolutivas.

Mais impressionante ainda é que a personalidade parece ter a ver com a própria história evolutiva dos animais de uma maneira geral. Isso significa que podemos usar a teoria da seleção natural (logo, a psicologia evolucionista) para explicar não só o que se repete na espécie humana, mas também para elucidar o porquê somos diferentes, por mais que também sejamos iguais.

 

O que é personalidade?

Uma definição mais simples possível deve partir do princípio de que a personalidade é o termo dado para características individuais. Vários indivíduos podem possuir as mesmas características, mas elas podem variar bastante entre as pessoas.

Imagine o seguinte: pedimos a um determinado grupo, formado por umas 100 pessoas, que cite características próprias e outras que pense que pertençam às pessoas próximas. Podemos também pegar o próprio idioma em questão e verificar as palavras existentes que se refiram a traços de personalidade.

Certamente apareceriam palavras como “ansioso”, “perfeccionista”, “bondoso”, “impaciente”, “ciumento”, “desapegado”, “desconfiado” e etc. Se levarmos em conta o inglês, surgiriam em torno de 5000 palavras desse tipo, segundo o manual da Bateria Fatorial de Personalidade, um dos testes mais usados no Brasil.

É bastante complicado usar todas essas milhares de palavras para descrever as pessoas, ainda mais para criar uma teoria sobre a personalidade. Esse é o típico caso em que menos é mais. Por isso, por muito tempo, a psicologia careceu de uma teoria boa e eficiente sobre a personalidade.

Inesperadamente, a solução veio junto com o avanço da informática e de técnicas de análise estatística. Utilizando testes estatísticos sofisticados, descobriu-se que todos esses termos que as pessoas costumavam usar em seus idiomas se agrupavam em 5 grandes grupos: neuroticismo, extroversão, sociabilidade, conscienciosidade e abertura à experiência.

Esses grandes grupos de traços de personalidade, também chamados fatores, formam a chamada Teoria dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade ou simplesmente Big-Five. Essa teoria embasa diversos testes de validade ao redor do mundo, e é corroborada por diversos estudos transculturais.

cinco-fatores-de-personalidade-big-five

 

O barulho das diferenças individuais

Estudar a personalidade é estudar as diferenças individuais. Por definição, é comum que se pense que é impossível atribuir causas evolutivas a esses fenômenos, pois historicamente a biologia evolutiva, tanto quanto a psicologia evolucionista, sempre estudaram os padrões humanos, aquilo que é comum entre todos os indivíduos da espécie.

Por exemplo, os estudos sobre altruísmo recíproco, verificados pela biologia e pela antropologia, mostram que essa é uma estratégia muito comum em espécies sociais, e que, entre os humanos, existe independentemente da cultura. O mesmo vale para o modo como a seleção sexual molda machos e fêmeas, homens e mulheres.

Um estudo realizado em 37 culturas encontrou diferenças fundamentais nos padrões de critérios de atração de homens e mulheres pelo sexo oposto.

As mulheres tendem a considerar mais importantes indícios de que o homem possui recursos quando interessadas em relacionamentos de longo prazo, mas quando querem algo mais casual e descompromissado, a beleza é o que mais importa. Com relação aos homens, a preferência para aqueles interessados em relacionamentos sérios gira em torno da beleza física feminina, o que se repete naqueles interessados em flertes.

Esses padrões são explicados em termos de cálculos evolutivos: o investimento parental feminino é sempre maior, o que torna o envolvimento afetivo mais custoso para a mulher — que em tempos ancestrais certamente era sinônimo de engravidar. Sua gestação é longa e ainda tem o período de lactação.

Para os homens, em termos biológicos o custo é menor, pois só contribuem com os espermatozoides, mas em compensação há o investimento material.

Nesse sentido, para a mulher, em termos biológicos — o que não significa que alguém tenha essas estratégias em mente —, é melhor que ela tenha certeza de que o homem irá investir na cria com seus recursos (alimento, segurança e apoio afetivo).

Para o homem, é importante que haja certeza da fertilidade feminina, para que seu investimento seja justificado.

Em termos de relação de curta duração, a mulher prioriza mais a beleza, o que está ligado à fertilidade e saúde masculina, atributos passados hereditariamente.

Isso mostra que, desde o início, a evolução foi pensada como a explicação para as semelhanças humanas. Em outras palavras, a crença comum é que as diferenças individuais seriam como um barulho a ser eliminado.

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Diferenças individuais nos homens e nos animais

O problema é que essa é uma visão bastante artificial, pois o fenômeno das diferenças individuais tem sido documentado desde Aristóteles, diferenças essas que valem para animais não-humanos, inclusive.

Quem já pescou alguma vez na vida conhece bem de perto as diferenças individuais entre peixes, assim como quem já mergulhou. Ao se deparar com um estímulo novo, alguns peixes tendem a se afastar, enquanto outros destemidamente se aproximam, exploram, observam.

Uma modesta revisão, realizada pelo biólogo David Sloan Wilson, mostra que mesmo dentro de uma mesma espécie, e dentro de um mesmo grupo geográfico, peixes mostram uma rica variação comportamental, de acordo com as condições contextuais. Essa facilidade com que um peixe explora ambientes novos e se aproxima de estímulos desconhecidos é análoga à exploração, um dos traços de personalidade dentro do grande grupo da extroversão.

Um dos estudos citados mostra um experimento que mensura esse grau de extroversão do animal: após uma tarefa experimental, os peixes eram sacrificados e dissecados. Alguns peixes se expunham mais fortemente ao perigo na busca por alimentos que se encontravam em locais mais perigosos, outros eram mais ressabiados e tinham maior resistência a adentrar por novos caminhos, se expondo a perigos. Isso era medido verificando o sistema digestório dos animais. Alguns tinham o sistema vazio, outros cheio.

Talvez ainda não tenha ficado claro por que estamos falando de evolução para explicar personalidade e diferenças individuais.

Como já dito, por muito tempo falar de evolução e comportamento foi sinônimo de falar sobre tendências universais, mas mesmo dentro dessas tendências universais existe um contínuo de respostas ao ambiente que são difíceis de enquadrar de forma dicotômica.

A forma como cada pessoa vive sua sexualidade é um exemplo. A chamada sociossexualidade pode variar ao longo de um gradiente de restrição e irrestrição sexual, ou seja, o quanto a pessoa prioriza estratégias que a levam a ter muitos ou poucos parceiros ao longo de um período (ou mesmo da vida).

Pelo menos no caso do ser humano, não podemos afirmar que a espécie é monogâmica ou poligâmica. Evolutivamente, tanto a restrição quanto a irrestrição sexuais foram adaptativas, portanto nossa espécie é capaz de manifestar essa pluralidade de reações amorosas, a depender dos inputs ecológicos que vão suscitar uma ou outra estratégia.

Isso é o que em biologia evolutiva se chama trade-off. Quando se tem uma característica escalar, todo o seu contínuo produz benefícios (fitness), mas também é acompanhado por alguns custos.

No caso da sociossexualidade, mais ou menos irrestrição vai produzir benefícios e custos, assim como mais ou menos restrição. O que vai definir a estratégia adotada por certa população vai ser o ambiente.

sociossexualidade e personalidade

Por exemplo, uma série de estudos mostra que a sociossexualidade, no caso dos humanos, varia de acordo com a percepção de perigo e disponibilidade de alimento.

Pessoas que vivem em ambientes percebidos como perigosos e com escassez de alimento tendem a ter uma estratégia de vida mais rápida. Elas têm o primeiro filho mais cedo, têm muitos parceiros ao longo da vida e dificilmente têm relações estáveis. Aquelas que nascem num contexto mais percebido como seguro, com pouca restrição calórica, têm o primeiro filho mais tarde e tendem a ser mais monogâmicas com mais frequência.

Existe até mesmo um efeito sobre o tipo de aparência considerada mais atraente no sexo oposto. Em contextos considerados mais perigosos e mais restritos alimentarmente, as mulheres tendem a preferir homens com traços másculos mais pronunciados: relação ombro-cintura maior, mandíbula pronunciada e atitude dominadora. Todos esses são traços relacionados à ação dimórfica da testosterona sobre as características sexuais secundárias.

Por outro lado, homens em ecologias desse tipo preferem mulheres com características sexuais secundárias mais pronunciadas, características essas importantemente correlacionadas com fertilidade e menor probabilidade de complicações no parto (no caso de sociedade de caçadores-coletores).

Em outras palavras, essas preferências indicam a melhor estratégia (em termos evolutivos, de maximização da sobrevivência e reprodução), maximizando os benefícios e minimizando os custos.

Em ecologias caracterizadas pela escassez e pelo risco, não é muito compensador seguir estratégias de adiamento reprodutivo, pois existe grandes riscos de morte antes da oportunidade de reprodução. Portanto, as pessoas tendem a ter filhos mais cedo, a se engajar mais em comportamentos de risco e por aí vai.

Em ambientes de configuração contrária, isto é, fartos e seguros, é mais compensador seguir estratégias mais lentas, já que existe mais tempo para investir em recursos biológicos e materiais.

Como a reprodução sempre gera um custo biológico, é mais lucrativo, do ponto de vista da evolução, que primeiro haja investimento no capital biológico (no próprio corpo) e na obtenção de recursos, do que de primeira arcar com os custos reprodutivos e passar o resto da provável longa vida sem levar vantagem no mercado amoroso — afinal, se existe uma corrida competitiva entre os machos para impressionar as fêmeas, o macho que simplesmente abdica dessa corrida pode ficar em desvantagem em relação aos outros.

Todo esse trecho falando sobre esse pluralismo de estratégias sexuais serviu para mostrar como muitas características evoluem não em direções únicas — como as zebras que se tornam cada vez mais rápidas para escapar de predadores geralmente mais velozes que elas —, mas em um verdadeiro tronco em que cada um de seus galhos também não está crescendo em uma direção clara, mas que na verdade são espectros representando todo um gradiente de estratégias igualmente bem adaptadas.

 

Personalidades igualmente adaptativas

É nesse sentido que as diferenças individuais podem realmente ser compreendidas em termos de fitness evolutivo. A personalidade é mais um desses ramos espectrais, em que cada posição nele representa um conjunto específico de custos e benefícios em ecologias variadas.

Assim como a sociossexualidade, e outras variáveis psicológicas como a inteligência, a personalidade também pode ser organizada operacionalmente em termos de espectros. Mas não é só isso que a torna um objeto do estudo evolutivo. Podemos testar os possíveis trade-offs envolvidos na evolução de uma variável psicológica através do sucesso reprodutivo relacionado.

Exemplificando em termos de psicopatologias conhecidas, sabe-se que a esquizofrenia está negativamente correlacionada com sucesso reprodutivo e expectativa de vida, mas com a inteligência já há essa correlação positiva. Nesse sentido, características de personalidade possuem significativas correlações com sucesso reprodutivo e expectativa de vida.

Essas relações não são mero acaso, mas sinal de que essas variáveis psicológicas podem ter sido importantes em termos de seleção natural e sexual, isto é, podemos dizer que os traços de personalidade interferem no quanto um indivíduo consegue se reproduzir e passar essas características adiante.

Extroversão

Este talvez seja o fator da personalidade em que mais facilmente encontramos trade-offs evolutivos. Em suma, esse fator agrupa traços relacionados a emoções positivas e disposição à exploração. Mais estruturalmente, a extroversão tem relação com o funcionamento dos circuitos dopaminérgicos no cérebro, relacionados à recompensa.

extroversão e personalidade

Esse fator está positivamente correlacionado com o número de parceiros sexuais. Isso significa que quanto mais extrovertida, mais parceiros sexuais uma pessoa tem. Quanto mais extrovertido, maior o número de parceiros extraconjugais e mais rápido as relações amorosas terminam. Levando em conta cálculos evolutivos, esse conjunto de custos e benefícios relacionados à extroversão são especialmente vantajosos para os homens.

Seguindo a teoria do investimento parental, os homens investem biologicamente muito menos que as mulheres na cria. Isso significa que, em termos meramente evolutivos, a princípio seria lucrativo se relacionar com várias parceiras num curto intervalo de tempo. Daí o número elevado de relações extra e o troca-troca de relacionamentos.

Em termos estritamente sociais, também existem vantagens na extroversão. Esses indivíduos costumam receber mais apoio social, além de iniciar mais contatos sociais. Extrovertidos também exploram mais o ambiente em que estão, e buscam novos ambientes, novas experiências.

Contudo, como todo trade-off, em determinado grau essas características acabam gerando problemas — ao menos na maioria dos contextos atuais. A maior parte dos acidentes de carro acontecem por imprudência de motoristas com elevados níveis de extroversão.

A busca por experiências fortes também faz essas pessoas serem fãs de esportes radicais, o que pode explicar a significativa proporção de extrovertidos entre alpinistas — inclusive os mortos. A constante busca por mais parceiros e experiências sexuais também pode aumentar o risco de contração de doenças sexualmente transmissíveis (doenças em geral também).

Um problema que atinge especialmente indivíduos com altos níveis de extroversão que vivem em tribos de caçadores-coletores é a o abandono da cria. Nesses contextos que remontam nosso passado mais remoto, o cuidado biparental está relacionado a maiores chances de sobrevivência dos filhos e a maiores índices de bem-estar no futuro.

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Neuroticismo

Este é o único fator que engloba os traços de personalidade negativos. Está fortemente associado à tristeza, ansiedade, medo e culpa. Além disso, esses indivíduos têm grandes chances de desenvolverem transtornos mentais, além de apresentarem problemas de relacionamento e sociais em geral.

neuroticismo e personalidade

Muitos traços de personalidade relacionados ao neuroticismo geram muito sofrimento, então é difícil encontrar algum benefício neles. No entanto, em termos evolutivos, é possível que haja.

Levando em consideração que em contextos mais comuns no passado evolutivo do Homo sapiens existia muito mais perigo que hoje, ser um tanto desconfiado e pessimista talvez servisse para ficar mais atento a possíveis perigos que deviam ser recorrentes, como virar jantar de um grande felino, ser picado por uma serpente ou, ainda mais provavelmente, ser surpreendido pelo ataque de um grupo rival.

Em outras palavras, o neuroticismo é bastante adaptativo em ambientes hostis, mas em geral hoje em dia, como não vivemos em cenários com essas características, pessoas com neuroticismo alto acabam desenvolvendo transtornos de ansiedade, se preocupando mais que o necessário e catastrofizando o que acontece e o que ainda vai acontecer.

 

Abertura à experiência

As relações que fazem a abertura à experiência apresentar desfechos positivos ou negativos em cada caso ainda não são bem compreendidas.

O que se sabe é que pessoas mais abertas a novas experiências costumam ter talentos artísticos e criatividade. Elas também possuem algo que popularmente chamamos de “cultura”. Elas tanto gostam de conhecer novas culturas quanto apreciam assuntos novos.

abertura à experiência e personalidade

Ser aberto traz vantagens reprodutivas.

Estudos mostram que a criatividade é um traço de personalidade apreciado pelas mulheres como critério de atração, especialmente se elas estiverem na fase fértil. Outro dado que corrobora esse sucesso é a fama galanteadora dos poetas e artistas visuais, que possuem um número generoso de parceiros sexuais. Aliás, penso que pesquisas desse tipo deveriam ser realizadas com físicos e grupos controle (não-físicos). Suspeito que físicos não devam ser tão abertos, mas Richard Feynman é um exemplo atípico, que era um gênio à moda Tony Stark.

O problema desse fator é que ele também está ligado de alguma forma a traços não muito positivos. Depressão, risco de surtos psicóticos, personalidade esquizotípica e delírios são alguns quadros associados a altos níveis desse fator.

Já foi mostrado, inclusive, que pessoas com altos níveis de abertura a experiência têm experiências subjetivas tão incomuns quanto esquizofrênicos, mas, ao contrários desses últimos, os primeiros não apresentam anedonia e dificuldades sociais extremas, como no caso de quem tem esse transtorno.

Como qualquer um que conheça um artista ou um poeta pode atestar, essas pessoas tipicamente bastante abertas têm uma facilidade bem grande para acreditar no sobrenatural e paranormalidade. Talvez a abertura excessiva a coisas novas diminua um atributo essencial em visões mais concretas da realidade, a sistematização.

 

Conscienciosidade

Esse fator é alto em homens como Ned Stark, personagem de Game of Thrones. Pessoas conscienciosas geralmente são disciplinadas, controladas, responsáveis e boas em cumprir metas. É um fator negativamente relacionado à delinquência e aos comportamentos antissociais.

conscienciosidade e personalidade

Nesse cenário favorável, é complicado pensar em cenários prejudiciais envolvendo indivíduos conscienciosos. Num sentido mais ontogenético, a conscienciosidade é relacionada a uma série de traços salutares, como o adiamento de recompensas de curto prazo em favor das de longo.

Esses indivíduos têm hábitos mais saudáveis e maior expectativa de vida. No entanto, quando elevado a níveis muito altos, a conscienciosidade possui traços compartilhados por transtornos mentais, como o de personalidade obsessivo-compulsiva e transtornos alimentares.

Agora, levando em conta a filogênese, a conscienciosidade pode nem sempre ser tão vantajosa.

Considere o quadro do adiamento de recompensas, por exemplo. Caçadores-coletores frequentemente vivem em locais mais perigosos que o mundo moderno. A oferta de alimento também nem sempre é constante. Não aproveitar as oportunidades de ter benefícios de longo prazo pode ser um problema, tendo em vista que não se sabe quando oportunidade igual surgirá de novo. Às vezes, nesses contextos, é mais adaptativo ter uma estratégia de vida curta, aproveitando os recursos disponíveis enquanto eles estão ali.

O mesmo serve para os relacionamentos amorosos. Pessoas conscienciosas têm mais relacionamentos longos, mas dependendo da ecologia em questão, essa pode ser uma estratégia desvantajosa.

Por exemplo, em grupos com maior quantidade de mulheres em relação a homens, é comum que as relações durem menos e que tenha altos índices de relacionamentos extraconjugais. Por isso, um indivíduo consciencioso pode se reproduzir menos do que os menos conscienciosos, e ainda podem ser traídos.

 

Sociabilidade

A sociabilidade é o fator mais correlacionado com a socialização. Engloba traços de personalidade ligados à empatia e às habilidades sociais.

Não só espera-se como também é um resultado encontrado nas pesquisas, que indivíduos que sofrem de transtorno de personalidade antissocial possuem baixíssima pontuação nesse fator, justamente porque o que é prejudicado neles é a capacidade de se colocar no lugar do outro, a chamada teoria da mente.

sociabilidade e personalidade

Quando em altos níveis, porém, esse fator pode gerar problemas do ponto de vista evolutivo.

Isto pode ser uma verdade muito inconveniente, mas o sucesso na seleção natural está quase sempre associado a algum nível relevante de violência — que nesse sentido é a capacidade de retaliar trapaceiros para que problemas como roubos, furtos e ataques à integridade física não voltem a ocorrer — e egoísmo — que aqui significa apenas alguma ênfase no cuidado pessoal, apesar de poder haver o cuidado com o próximo, cooperação etc.

O problema é que, do ponto de vista evolutivo, indivíduos totalmente pacíficos e altruístas acabam sendo passados para trás. Deve existir certo equilíbrio entre comportamentos antissociais e autocentrados e os mais voltados à cooperação, cujo nível ótimo vai ser determinado pelas condições do contexto (a ecologia local).

É claro que, pensando em termos de sociedade moderna, ter altos níveis de sociedade não é algo tão problemático quanto seria se estivéssemos falando de uma sociedade pré-histórica, ou alguma tribo que tem que disputar territórios e alimento com uma infinidade de outras.

É mais ou menos como na dinâmica de The Walking Dead. Nessa série, percebe-se que na ausência de um Estado ao qual recorrer para resolver nossas pendengas, temos de usar nossos próprios recursos pessoais para resolver conflitos e para espalhar determinada fama que vai atrair mais opositores ou que vai afastá-los pelo risco de perder na disputa. Se algum grupo for totalmente altruísta, por exemplo, vai acabar sofrendo em algum momento ataque de algum grupo anormalmente hostil.

Essa dinâmica entre ecologia e comportamento é até uma das explicações filogenéticas para a existência de psicopatas, que por definição, nesse sentido, são quase parasitas que se infiltram e se aproveitam de todos os recursos da vítima.

Ser esse tipo de parasita extremamente perigoso num ambiente onde existem poucos desses trapaceiros, pode ser extremamente adaptativo, mas na medida em que esses indivíduos aumentam de número, a eficiência dessa estratégia comportamental pode ser prejudicada — por isso provavelmente nunca veremos os psicopatas dominando o mundo numericamente, pois é provável que genes relacionados à psicopatia não sejam mais selecionados, ou porque se forem, a sociedade humana implodirá, mais ou menos como acontece num governo corrupto onde todos roubam os recursos do Estado.

 

Sobre variações ambientais, biologia e personalidade

Neste artigo eu tive alguns objetivos bem definidos. O primeiro deles foi mais geral, mostrar que o processo de evolução, que ocorre por meio da seleção natural e da seleção sexual, não necessariamente uniformiza a espécie. Dependendo de um intrincado jogo entre a característica em questão e as pressões seletivas do ambiente, todo um gradiente de diferentes intensidades da mesma característica será adaptativo e estará no repertório daquela população de indivíduos que fazem parte de uma espécie.

Outro ponto fundamental é o da personalidade. Aparentemente, é uma característica totalmente influenciada apenas pelo ambiente. Mas vimos que o Homo sapiens no geral compartilha diferentes intensidades de traços de personalidade — que são agrupados em 5 principais grupos ou fatores — que geram custos e benefícios biológicos, que fazem o indivíduo levar vantagem ou não, se reproduzindo mais ou menos. A intensidade mais adaptativa do traço vai ser determinada pelas características do ambiente (a ecologia).

Ou seja, esqueça todo o palavrório espalhado sobre a evolução não explicar as diferenças, mas só as semelhanças. Quando usado de maneira correta, temos um potente instrumento em mãos para entender o comportamento humano.


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escrito por:

Felipe Novaes

Já quis ser paleontólogo, biólogo, astrônomo, filósofo e neurocientista, mas parece ter se encontrado na psicologia evolucionista. Nas horas vagas lê compulsivamente, escreve textos sobre a vida, o universo e tudo mais, e arruma um tempinho para o Positrônico Podcast. Contudo, durante todo o tempo procura se aprimorar na sabedoria e nas artes jedis do aikido.


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